terça-feira, 22 de junho de 2021

Após pouco mais de um ano, dólar volta a fechar abaixo de R$ 5, FSP

 


SÃO PAULO

Depois de pouco mais de um ano, o dólar voltou a encerrar o pregão abaixo de R$ 5 nesta terça-feira (22). A moeda americana terminou as negociações cotada a R$ 4,9660, queda de 1,11%, segundo dados da CMA.

A última vez em que o dólar esteve abaixo de R$ 5 foi em 10 de junho de 2020, quando estava a R$ 4,935.

A desvalorização da divisa dos Estados Unidos é fruto de juros mais altos no Brasil. Em meio à escalada persistente da inflação, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central considerou elevar ainda mais a taxa básica de juros na reunião da última quarta (16), mas decidiu manter o ritmo e anunciou alta de 0,75 ponto percentual.

Na ocasião, a Selic foi a 4,25% ao ano, conforme sinalizado em maio. Segundo a pesquisa Focus do BC, o mercado espera que a taxa termine 2021 a 6,50%, mesmo patamar da Selic antes do governo de Jair Bolsonaro.

Dentre emergentes, o real foi a terceira moeda que mais se valorizou nesta sessão, atrás apenas da lira turca e do florim húngaro.

O dólar turismo está a R$ 5,113.

cédula de dólar
Com juros mais altos no Brasil, dólar volta a ficar abaixo de R$ 5 - Gabriel Cabral/Folhapress

Juros mais altos no Brasil tendem a beneficiar o real por estratégias de carry trade. Elas consistem na tomada de empréstimos em moeda de país de juro baixo (como o dólar) e compra de contratos futuros da divisa de juro maior (como o real). O investidor, assim, ganha com a diferença de taxas.

"A ata divulgada deixou ainda mais claro o compromisso do Copom em frear a inflação e elevou a expectativa por um ritmo mais acelerado de aumento da Selic, com as instituições financeiras revisando as expectativas para final de 2021 para 6,5% ao ano, lembrando que essa projeção estava para 2022", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Com o tom do texto do Copom, o Credit Suisse elevou a 1 ponto percentual a expectativa de alta dos juros em agosto, ante 0,75 ponto do cenário anterior. O banco agora vê Selic de 7,25% ao fim de 2021 e de 2022.

O Bank of America também elevou a estimativa para 7%, de 6,50%, e o Banco Fibra aumentou de 6% para 6,5%, mas vislumbrando risco de o BC conduzir a Selic a patamar contracionista ainda neste ano.

O Banco Fibra ainda fala em uma "janela de oportunidade" para o real entre junho e agosto, após a qual o dólar ficaria em R$ 5,30 ao fim do ano.

O Société Générale também parece pouco convicto de que a queda do dólar continuará. Estrategistas do banco francês entraram com posição comprada em dólar quando a moeda tocou R$ 5,06 e miram os R$ 5,70.

Nesta terça, a sessão foi de fraqueza para o dólar como um todo no exterior após declarações do presidente do Fed (banco central dos Estados Unidos), Jerome Powell, de que a inflação nos EUA seria transitória.

Com isso, Powell amenizou temores de que o Fed possa em breve reduzir estímulos e acalmou investidores ainda sob impacto da sinalização de alta de juros em 2023, um ano antes do previsto até então.

A fala da autoridade impulsionou as ações em Nova York. O índice de tecnologia Nasdaq subiu 0,79% e renovou sua pontuação recorde. O S&P 500 teve alta de 0,55% e o Dow Jones, de 0,20%.

A Amazon foi uma das ações que impulsionou os ganhos em Wall Street, com alta de 1,5%. A empresa teve mais de US$ 5,6 bilhões em vendas online nos EUA no primeiro dia de seu evento promocional Prime Day, de acordo com o Adobe Digital Economy Index.

No Brasil, o Ibovespa não conseguiu acompanhar o viés positivo, pressionado pela queda de ações de bancos. O índice cedeu 0,38%, a 128.767,45 pontos.

A porposta de reforma do Imposto de Renda do governo, que deve ser enviada ao Congresso nesta semana e prevê a extinção do JCP (Juros sobre Capital Próprio) e a tributação de dividendos, levou ações de bancos a caírem nesta terça. Um dos principais atrativos destes papéis é justamente a remuneração aos acionistas via JCP e dividendos.

O Itaú recuou 1,29% e o Banco do Brasil, 2,11%. Santander caiu 0,13%.
As ações preferenciais (mais negociadas) do Bradesco caíram 1,84% e as ordinárias, 1,19%.

Hoje, dividendos são isentos de IR e, segundo os planos do governo, passaria a serem taxados em 20%.

Além da reforma do IR, o mercado de ações brasileiro foram impactadas pela perspectiva de uma Selic mais alta, o que tende a reduzir o consumo, aumentando o custo do crédito.

A maior queda do Ibovespa na sessão foi a Tim (3,96%), em meio a receios sobre a decisão do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) acerca da aquisição pelas empresas em conjunto com a Claro das operações de redes móveis da Oi. Vivo (Telefônica Brasil) perdeu 2,75%.

​(Com Reuters)

500 mil mortos, editorial do Estadão

 Há algo de profundamente perturbador quando parte da sociedade, estimulada pela desumanidade do governo de Jair Bolsonaro, considera natural a morte de meio milhão de conterrâneos na pandemia de covid-19. O choque é ainda maior quando se constata que muitos desses brasileiros mortos poderiam ter sobrevivido, não fosse a inépcia criminosa do governo, resultado direto do comportamento irresponsável do presidente.

Bolsonaro não se sentiu obrigado a dirigir nenhuma palavra de conforto e pesar quando a terrível marca de 500 mil mortos foi atingida. É como se essas vítimas não fossem dignas de luto.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, foi didático ao explicar por que não se deveria lamentar a morte de 500 mil brasileiros. No Twitter, escreveu: “Em breve vocês verão políticos, artistas e jornalistas ‘lamentando’ o número de 500 mil mortos. Nunca os verão comemorar os 86 milhões de doses aplicadas ou os 18 milhões de curados, porque o tom é sempre o do ‘quanto pior, melhor’. Infelizmente, eles torcem pelo vírus”.

Na lógica bolsonarista, portanto, comover-se ou revoltar-se com a morte de meio milhão de brasileiros equivale a “torcer pelo vírus” contra o Brasil. O importante, segundo o sequaz do presidente, é “comemorar” vacinas que Bolsonaro sabotou (e continua a sabotar, duvidando de sua eficácia) e os milhões de curados de uma doença cuja letalidade média é de 1% no mundo, mas que no Brasil superou 4% em março, segundo a Fundação Oswaldo Cruz. Ou seja, o Brasil do ministro Fábio Faria poderia ter mais vacinas e menos óbitos, mas escolheu deliberadamente ter menos imunizantes e incitar seus cidadãos a se exporem a uma doença fatal.

Ao menosprezar os que morreram, o governo os trata como fracos que faleceriam de qualquer maneira, seja pela idade, seja por terem “comorbidades”. Em março passado, quando mais uma vez estimulou os brasileiros a ignorarem medidas de isolamento social, Bolsonaro disse que “temos que enfrentar os problemas, respeitar obviamente os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades”. A respeito dos mortos, declarou na mesma ocasião: “Chega de frescura, de mimimi! Vão ficar chorando até quando?”.

Depreende-se que, para Bolsonaro e sua grei, a covid deve servir para realizar uma espécie de “seleção natural”: os que sobrevivem à pandemia se provam fortes o bastante para integrar a comunidade nacional idealizada pelo bolsonarismo; já os que morrerem não passaram no teste.

A isso se dá o nome de darwinismo social, ideologia que parece nortear Bolsonaro desde sua posse, influenciando ministros como Fábio Faria e Paulo Guedes – aquele para quem há brasileiros que passam fome porque a classe média desperdiça comida, e não em razão do desemprego que o governo nada faz para mitigar.

Ou seja, os delitos do governo Bolsonaro na pandemia não são somente de ordem jurídica ou administrativa, mas sobretudo moral. É como se o presidente não reconhecesse os milhares de mortos como cidadãos do país que ele julga governar.

Nessa nação delirante, ganha cidadania plena somente quem devota fé absoluta em Bolsonaro – a ponto de tomar remédios sem eficácia só porque foram propagandeados pelo presidente e de deixar de tomar vacinas eficazes só porque foram desacreditadas por Bolsonaro.

Para os “fortes” do país de Bolsonaro, o uso de máscara e as restrições de movimento, essenciais para conter a disseminação do coronavírus, são atentados às “liberdades” de que se julgam titulares e que estão acima do direito à saúde e à vida dos demais brasileiros. São, ademais, sinais de covardia, incompatíveis com a imagem viril que pretendem imprimir ao país que inventaram.

As manifestações de opositores do presidente no sábado passado em cerca de 200 cidades do País mostram, contudo, que cada vez menos cidadãos estão dispostos a viver no país do bolsonarismo ou a participar do experimento social-darwinista liderado pelo presidente da República. Exige-se nas ruas que o presidente pelo menos se envergonhe da marca de meio milhão de mortos, como faria qualquer chefe de Estado decente. Para sentir vergonha, no entanto, é preciso tê-la.

Vem aí o telejornal do governo: só boas notícias, FSP

 Numa crônica, Rubem Braga relata a impaciência de um amigo com a leitura do jornal: “Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será que o mundo é assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças?”.

Ele não deixa o cronista responder. Continua sua peroração: “Veja aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. Você sabia que durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz?”.

Atendendo ao amigo do Braga, a TV Brasil, canal público ligado ao Ministério das Comunicações, planeja exibir um telejornal só com boas notícias. Meio milhão de mortos, negação às vacinas, desmatamento da Amazônia, aumento dos preços de alimentos e combustíveis, fuga de cérebros, desemprego, pobreza, fome —nada disso entrará na pauta do “Bom de Ver”, nome escolhido para o programa. Apenas temas leves sobre esporte, comportamento, entretenimento.

O presidente Jair Bolsonaro, durante entrevista ao apresentador Sikêra Júnior
O presidente Jair Bolsonaro, durante entrevista ao apresentador Sikêra Júnior - Alan Santos/PR
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Coitado do repórter encarregado de achar boas notícias. Espero que, para realizar tarefa tão difícil, o salário dele fique na faixa dos R$ 120 mil que o governo repassou ao apresentador Sikêra Jr., da Rede TV. Comparsa da família Bolsonaro, ele recebeu a grana para fazer propaganda do kit cloroquina e de outros medicamentos ineficazes contra o coronavírus. “Eu vendo caixão, terreno, carro, sorvete, remédio, qualquer coisa”, justificou-se.

O “Bom de Ver” terá de escolher entre fazer propaganda ou jornalismo. Deixo uma sugestão de graça: encontrar uma família de classe média que concorde em dividir os restos do seu prato com uma família de mendigos. O ministro Paulo Guedes poderá ser o anfitrião do feliz encontro televisionado ao vivo para todos os lares do Brasil.