quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Bolsonaro e a dessalinização da água, por André Trigueiro, G1

A primeira missão dada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro para seu ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, foi buscar em Israel soluções para a seca do Nordeste, como por exemplo, usinas de dessalinização que pudessem tratar a água salobra da região. Busca-se fora do país uma solução que, na verdade, já vem sendo aplicada desde 2004 - com tecnologia nacional chancelada pela Embrapa - e que já resultou na instalação de 244 sistemas de dessalinização no Ceará, 44 na Paraíba, 29 no Sergipe, 10 no Piauí, 68 no Rio Grande do Norte, 45 em Alagoas, e 145 na Bahia.
O Programa Água Doce (PAD), desenvolvido pelo Ministério do Meio Ambiente, vai na direção das soluções eficientes e de baixo custo, como vinha sendo também a instalação de cisternas para a coleta de água de chuva nas comunidades que mais se ressentem dos efeitos da estiagem. Resta ainda a finalização das obras de transposição das águas do rio São Francisco e, principalmente, a definição de quem pagará pela manutenção do sistema. Os custos de instalação foram totalmente assumidos pelo governo federal, e os governadores dos Estados beneficiados pela obra deveriam arcar com as demais despesas, mas nada indica que isso vá acontecer. Quem está pagando a conta é a “viúva”, ou seja, todos nós. Caberá ao presidente eleito resolver esse embroglio político que sangra os cofres da União.
Usinas de dessalinização - especialmente as de grande porte como as desenvolvidas em Israel - demandam um consumo elevadíssimo de energia elétrica e um plano de manejo adequado para as toneladas de impurezas removidas no processo. Israel já é parceiro estratégico do Brasil há décadas no compartilhamento de tecnologias inteligentes na área da irrigação, principalmente o gotejamento, que reduziu drasticamente o consumo de água na fruticultura de exportação.
Investir em usinas de dessalinização de grande porte por aqui poderia até ser uma opção se o Brasil esgotasse primeiro outras alternativas, principalmente, a exploração da água de reuso. Transformar a água tratada de esgoto em insumo agrícola, industrial ou até mesmo em água potável é uma alternativa mais barata e absolutamente viável. Hoje o esgoto coletado e tratado é lançado nos corpos hídricos sem qualquer utilidade ou serventia. Dentre as raras exceções, destaca-se o Projeto Aquapolo - maior empreendimento para produção de água de reuso industrial na América do Sul - que transforma esgoto doméstico de São Paulo em água usada por 12 grandes indústrias. O projeto desenvolvido pela Sabesp em parceria com a BRK Ambiental fornece 650 litros de água de reuso por segundo - o suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes - a um preço até 50% mais baixo que o da água potável. Bom para as indústrias, melhor ainda para a Grande São Paulo, que reforça seu estoque de água nos mananciais que abastecem a população.
A Embrapa também desenvolve experiências bem sucedidas de aproveitamento da água de reuso na irrigação de lavouras no Nordeste. O projeto prioriza as culturas que não absorvem os elementos patogênicos presentes no esgoto humano após o tratamento primário, quando se dá apenas a remoção dos sólidos. As plantas que se beneficiam dos nutrientes do esgoto (nitrogênio, fósforo, potássio, etc.) podem ser ingeridas sem riscos para a saúde, e o agricultor ainda economiza na compra de fertilizantes, uma vez que o esgoto cumpre a função de adubar o solo. Apesar do conhecimento construído em torno dessa tecnologia - já empregada em outros países - ela não teria ainda deslanchado por aqui por pressão do setor químico, que comercializa fertilizantes.
Importante dizer que a água de reuso também poderia ser potabilizada e servida sem riscos para a população. Se isso não aconteceu ainda no Brasil - como se vê em Cingapura, Namíbia e nos estados do Texas e da Califórnia, nos Estados Unidos - não é por falta de tecnologia, mas preconceito. Considerando a péssima qualidade dos mananciais que abastecem algumas das principais regiões metropolitanas do Brasil, pode-se dizer que, tecnicamente, já bebemos água de reuso. Mas ainda não há regulamentação que permita a potabilização da água de reuso para consumo humano.
Esta seria uma excelente contribuição do presidente eleito para a gestão dos recursos hídricos no Brasil. Abrir caminho para a água de reuso, manter os programas que levam cisternas e mini usinas de dessalinização no Nordeste, concluir as obras de transposição do São Francisco (definindo as regras que garantirão a resiliência econômica do sistema), e estimular o consumo consciente de água.
Faltou dizer que o maior consumidor de água (no Brasil e no mundo) é a agricultura. É também o setor que mais desperdiça esse precioso recurso. Mas abordaremos isso em uma outra oportunidade.
André Trigueiro — Foto: Arte/G1André Trigueiro — Foto: Arte/G1

João de Deus e a energia nuclear, FSP


Ainda há quem veja interesse nacional em Angra 3



O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, em março de 2017 - Keiny Andrade - 29.mar.17/Folhapress
Rogério Cezar de Cerqueira Leite
Não é preciso ser um cientista, um intelectual ou mesmo apenas um cidadão de bom senso para duvidar de que alguém, seja lá quem for, que realize as curas e "cirurgias espirituais" do sr. João de Deus. Entretanto muitos recorrem a este senhor e outros charlatões congêneres em busca de milagres. Talvez porque afinal não somos, nós humanos, seres assim coerentes. Talvez porque no íntimo ainda somos aquele homo erectus, aterrorizado com o cair da noite e com os monstros que habitavam as cavernas.

Será que é esta mesma síndrome a responsável pela insistência recalcitrante na recuperação de Angra 3?

Tudo começou com o correto general Geisel, que, não obstante, deu uma de seguidor de João de Deus com o contrato nuclear Brasil-Alemanha. Se Maquiavel não disse, deve ter pensado: "Para derrotar um bom projeto a melhor arma é um mau projeto com a mesma finalidade". Muito provavelmente a principal razão para o desenvolvimento pífio da ciência e tecnologia nuclear no Brasil nesses últimos 30 ou 40 anos foi o acordo Brasil-Alemanha.

Não faz muito tempo, o jovem e inteligente ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, tomou o avião da FAB e veio a Campinas. Lula queria finalizar o reator Angra 3, empacado havia 20 anos. "Temos potencial hidroelétrico para pelo menos 30 ou 40 anos, e em algumas décadas a energia fotovoltaica, a eólica, a bioeletricidade serão muito mais baratas", argumentei. Duas semanas depois, Angra 3 era reativado. Todavia, até hoje continua tão empacado quanto estava há 15 anos.

É uma tecnologia de mais de 40 anos, portanto obsoleta. O custo de investimentos para acabá-lo é absurdamente elevado. A confiabilidade em equipamentos que ficaram armazenados por mais de 30 anos é reduzida. Os técnicos alemães que projetaram e construíram grande parte dos equipamentos já devem estar embalsamados. E ainda há quem acredita que seja de interesse nacional acabar Angra 3 e fazê-la operar regularmente.

Pois é, também há quem acredite nos milagres de João de Deus. Não é preciso lembrar os custos de descomissionamento de reatores nucleares e os incalculáveis gastos com as muitas centenas de anos de armazenamento do lixo atômico. Não há pesquisador honesto que não concorde que o Brasil precisa de tecnologia nuclear. Entretanto tampouco há quem duvide que o caminho para alcançar alguma competência no setor é por meio do trabalho árduo da pesquisa científica e aplicada. 
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Houve um momento em que a Marinha do Brasil percebeu isso e teve um imenso sucesso com o desenvolvimento das ultracentrífugas para enriquecimento do urânio. Infelizmente ficou por aí...
Há pouco menos de uma década, o Ministério de Ciência e Tecnologia propôs a construção de um "reator multipropósito". Como não havia competência nacional para elaborar o projeto, contrataram uma firma argentina, decisão acertada para manter a incompetência nacional no pé em que estava.

A principal justificativa para o equipamento era a produção de radiofármacos. Hoje essa aplicação é realizada com aceleradores, o que reduz custos de produção por um fator de 3 a 4. Novamente a síndrome João de Deus, pois os mesmos atores insistem em contratar os argentinos para produzir o equipamento obsoleto. Como se vê, a síndrome João de Deus é muito mais generalizada do que se pensa.
Rogério Cezar de Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Unicamp, membro do Conselho Editorial da Folha e presidente do Conselho de Administração do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais)


Valor representaria 40% de todo o investimento, mas ideia é atrair recursos privados

Taís Hirata
SÃO PAULO
​A Eletrobras reservou 40% de todos seus investimentos nos próximos cinco anos para finalizar a usina nuclear de Angra 3, um dos projetos considerados prioritários à equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).
A estatal planeja destinar R$ 12 bilhões ao empreendimento entre 2019 e 2023, segundo o Plano Diretor de Negócios e Gestão da companhia, que prevê um investimento total de R$ 30,2 bilhões nesse período.
O valor necessário para concluir a obra deverá ser ainda maior, já que a construção deve se estender até 2026.
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No entanto, parte desses recursos poderão vir do setor privado. Hoje, a ideia do governo é realizar uma concorrência internacional para atrair um parceiro ao projeto. 
Obras de Angra 3, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro
Obras de Angra 3, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro - Folhapress
As obras de Angra 3 estão paralisadas desde 2015, com cerca de 60% de sua execução. 
À época, a construção do empreendimento foi alvo de investigação pela Operação Lava Jato por suspeitas de irregularidades nos contratos, o que levou até à prisão do então presidente da Eletronuclear.
Desde então, governo federal e Eletrobras têm buscado meios para finalizar o empreendimento, no qual já foram investidos bilhões.
Para facilitar a atração de um parceiro privado disposto a alocar recursos no projeto, foi aprovado em outubro um controverso aumento na tarifa da usina, que passou a R$ 480 por MWh (megawatt-hora), o dobro do previsto inicialmente.
A medida atraiu críticas por parte de especialistas do setor elétrico, que avaliam que o novo preço resolve o problema da Eletrobras, mas torna o empreendimento oneroso ao consumidor. 
Conforme mostrou a Folha em novembro, um estudo da PSR, uma das consultorias mais respeitadas no setor elétrico, concluiu que seria mais econômico abandonar a obra de Angra 3 e, no lugar, construir usinas de outras fontes. 
O levantamento comparou Angra 3 a empreendimentos de geração solar e concluiu que a usina nuclear seria R$ 6,6 bilhões mais cara aos consumidores. No caso de outras fontes mais baratas, como a eólica, a diferença poderia seria ainda maior.
​A equipe do novo governo de Jair Bolsonaro (PSL) já manifestou a intenção de concluir a usina. O futuro ministro de Minas e Energia, o almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, tem relação próxima com o setor nuclear e já tocou projetos nessa área dentro da Marinha. 
Em entrevista à Folha, em dezembro, ele afirmou que valeria muito a pena concluir a usina e admitiu a possibilidade de atrair um parceiro privado ao empreendimento.

INVESTIMENTO

Ao todo, a Eletrobras planeja investir R$ 30,2 bilhões até 2023, em projetos de geração de energia (que incluem Angra 3), linhas de transmissão, entre outros.
O valor representa um aumento significativo em relação ao último plano de investimentos da companhia, divulgado no fim de 2017 —nesse relatório, a estatal projetou R$ 19,76 bilhões para os cinco anos seguintes.

    Onde Jair vai atar o burro, Luciana Coelho, FSP


    Não seria ruim se, apesar do cortejo a Trump e Bibi, Bolsonaro não tivesse comprado briga



    Jair Bolsonaro, quando subir a rampa do Planalto na próxima terça-feira (1º) ungido por 58 milhões de votos, estará mirando o Norte como vértice de sua política externa em contraponto ao Sul-Sul dos anos Lula. À sua volta, contudo, não se sabe se haverá algum líder de peso do hemisfério mais rico.

    O presidente americano Donald Trump e o presidente eleito Jair Bolsonaro
    O presidente americano Donald Trump e o presidente eleito Jair Bolsonaro - Mandel Ngan e Nelson Almeida/AFP
    O contraste merece atenção.
    Desde que sua candidatura ganhou impulso, o novo presidente encheu de mesuras Donald Trump e Binyamin Netanyahu. Foi correspondido com acenos gentis do americano, que enviou ao país seu conselheiro John Bolton, e calorosos do israelense, que nesta sexta (28) deve chegar ao Rio para se reunir com o novo aliado.
    Nesse ínterim, o Brasil fez duas inflexões importantes ao elogiar a política comercial americana quando esta era alvo de críticas na OMC e votar a favor de Israel na ONU em uma condenação ao extremista Hamas. As medidas, embora vindas da gestão atual, se inspiram mais na pretensão futura do que na posição histórica do país.
    Tanta boa vontade, porém, pode ser atropelada pela mais comezinha das razões: a preocupação de Trump e de Netanyahu em salvar a própria pele.
    No caso do premiê israelense, o risco ficou evidente com a hesitação diante da duração de sua viagem para o Brasil e a eventual ausência na posse.
    Citando a crise em sua coalizão que o levou a antecipar as eleições gerais nas quais é favorito, Netanyahu estudava, na véspera, ficar apenas o necessário para selar a parceria.
    Trump, por sua vez, nem cogitou vir. A data é inglória para compromissos, mas o americano poderia ter designado o vice, Mike Pence, para representá-lo, como fez Barack Obama em 2015 ao mandar Joe Biden à posse de Dilma Rousseff.
    Em seu lugar virá o secretário de Estado, Mike Pompeo, em sinal de que o Brasil, por carecer de posição estratégica para a geopolítica americana, não está nem nunca esteve no primeiro escalão de aliados.
    Com eleições em 2020, uma nova legislatura dominada pela oposição e uma investigação de conluio com russos na campanha de 2016 que pode levar a um processo de impeachment, o republicano terá pouco tempo para se dedicar ao mundo.
    Não seria ruim se, no cortejo a Trump e Bibi —cuja sobrevida política pode ser menor do que se previa—, Bolsonaro não tivesse se distanciado dos europeus a ponto de trocar farpas com o governo do francês Emmanuel Macron, esquecido-se dos vizinhos (a exceção é o chileno Sebastián Piñera) e comprado briga com os árabes.
    Em quatro anos, as oportunidades de melhorar o status do Brasil no mundo serão muitas. Essa, entretanto, não é a forma mais pragmática de inaugurar uma política externa que se promete desideologizada.
    Luciana Coelho
    Editora de Mundo, foi correspondente em Nova York, Genebra e Washington.