sexta-feira, 15 de abril de 2022

Ruy Castro O ninho das serpentes, FSP

 Deu no jornal. Um ninho de ovos de titanossauros, ramo gigante de dinossauros, foi encontrado há pouco numa mina desativada de calcário perto de Uberaba (MG). Não são os primeiros descobertos ali. A área é rica nesse fóssil e, desde 1951, os paleontólogos já colheram vários ovos isolados. A diferença é que esta é a primeira ninhada completa, e pode não ser a única. Pelo bom estado dos ovos e por medirem apenas 12 cm de diâmetro, devem ter sido enterrados e postos para chocar assim que desovados pela amorosa Titanossaura. Mas, como os exames de tomografia computadorizada não acusaram vestígios de embriões, supõe-se que sua produção não contou com a participação do míster.

Os titanossauros viveram há 80 milhões de anos, época terrivelmente primitiva, sem satélites ou internet. Por isso não puderam prever a chegada de um bólido que, ao colidir com a Terra, despejou uma chuva de corpos celestes contra ela. Como eles eram godzilas de 15 metros de comprimento por cinco de altura e pesavam 13 toneladas, não tinham muitas tocas onde se enfiar, donde morreram todos. Em compensação, uma contemporânea dos titanossauros, mais ágil e esperta, sobreviveu ao extermínio, atravessou os milhares de milênios e está até hoje entre nós: a serpente.

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E é disso que, em matéria de ovos, deveríamos estar cuidando: da busca aos ninhos das serpentes. Eles estão nos subterrâneos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário —infestando os palácios e os ministérios, a Câmara e o Senado, os tribunais, procuradorias, corregedorias, agências de controle, órgãos de investigação e delegacias. Imiscuíram-se também nos porões dos quartéis, das corporações, dos mais inocentes condomínios, e de tudo estão fazendo milícia.

As serpentes aprendem desde o ninho a esperar pela hora exata de dar o bote —o golpe.

Está na cara que vão dá-lo. Não têm escolha. Precisamos saber quando.

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