domingo, 24 de abril de 2022

Ruy Castro - Mitos difíceis de matar, Ruy Castro - FSP

 Certos mitos são mais difíceis de matar do que Rasputin. Você os questiona, contesta, pede as provas, desmistifica e pensa que os enterrou. Mas eles voltam, trazidos pela tendência do ser humano a repetir histórias que ouviu desde que nasceu e nunca se preocupou em checar.


O mito do "profeta" Gentileza (1917-96) é um caso. Era um tipo folclórico que, nos anos 70, vivia entre Rio e Niterói e cujas mensagens de paz e amor, escritas por ele nas pilastras do viaduto do Caju, estão agora em adesivos e camisetas —a mais famosa é "Gentileza gera gentileza". A frase é boa, mas, na vida real, Gentileza era só doido: um desvairado de camisolão que ofendia, ameaçava e dava corridas nas moças de batom, calça comprida ou minissaia que passavam pela região das barcas.

Outra história, comum em livros sobre Vinicius de Moraes, é a de que o poeta, cônsul do Brasil em Los Angeles de 1946 a 50, "estudou cinema com Orson Welles em Hollywood". Mas nenhuma das muitas biografias de Orson fala que um dia ele deu um curso de cinema. A não ser que Vinicius tivesse sido convidado à filmagem de algumas cenas de "A Dama de Shangai" (1947). Mas isso seria "estudar cinema" com Orson?

E o pessoal não se cansa de repetir que Virginia Lane foi amante de Getulio Vargas. Virginia começou a contar essa história nos anos 80, e ela pegou. No fim, já estava dizendo que, na madrugada de 24 de agosto de 1954, ela "estava na cama com Getulio no Catete quando os homens do Lacerda invadiram o quarto, mataram Getulio e a jogaram nua pela janela do Palácio". Incrível, ninguém no Catete naquela noite teve a sorte de ver nada disso.

E outra lenda é a de que Oswald de Andrade foi membro do Partido Comunista nos anos 30. Ninguém consegue dizer quando se filiou, quem era o responsável por ele, em qual célula operava e por que nunca foi preso. Da brava Pagu no PCB, sim, sabe-se tudo. Mas Oswald foi só um torcedor e ainda malvisto pelo time.

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