sexta-feira, 21 de junho de 2019

Moradores de prédio histórico no centro de SP veem danos após retrofit, FSP

Falhas elétricas e hidráulicas no edifício Germaine Burchard opõem incorporadora e condôminos

Guilherme SetoThiago Amâncio
SÃO PAULO
A sinuosa fachada do edifício Marian, adornada por sacadas na cor roxa, costuma atrair olhares no malcuidado centro de São Paulo. Também conhecido como Germaine Burchard, o prédio desponta na avenida Cásper Líbero há 80 anos, quando foi pioneiro ao oferecer flats para fazendeiros do interior a poucas quadras da Estação da Luz.
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Atualmente, seus moradores estão em pé de guerra com a empresa Arcofit, do incorporador imobiliário Arnold Pierre Mermelstein, que foi responsável pelo retrofit do edifício em 2010.
Retrofit é como o mercado da construção civil chama o processo de modernização e readequação das instalações de edifícios antigos. Em vez de se derrubar um prédio e construir outro no local, por exemplo, a técnica aproveita a estrutura e o estilo de construções velhas.
Essa foi a proposta apresentada para o Marian pela Arcofit. Mas hoje os moradores se queixam de que a revitalização foi malfeita —o que a empresa nega—, deixando-os expostos a riscos graves.
Os questionamentos começaram em 2017, quando o advogado Daniel Passos se tornou síndico. Ele iniciou um pente fino e viu os problemas se acumularem. 
“O prédio parecia bonito, com uma aparência elegante, mas escondia muitos problemas”, diz Passos. 
Em maio de 2018, a poucas quadras do Marian, o edifício Wilton Paes de Almeida pegou fogo e desabou, deixando sete mortos e 291 famílias desabrigadas. A preocupação aumentou consideravelmente, e moradores passaram a se assustar com qualquer barulho e a desenvolver problemas de sono.
Em abril de 2019, a empresa AJF Engenharia, contratada pelos moradores do Marian para vistoriar a estrutura, entregou laudo em que aponta problemas elétricos e hidráulicos, entre outras irregularidades mais pontuais, como deterioração do revestimento da fachada e falha na sinalização de emergência.
Em um fosso antigamente utilizado para descarga de lixo, por exemplo, passam juntos tubulações da caixa d’água e também cabos elétricos, ambos sem fixação, aumentando o risco de incêndio caso a água entre em contato com a energia.
Um dos laudos do reservatório de água apresentou tubulações precárias e falta de limpeza na caixa. Além disso, mostra canos de PVC expostos a intempéries e tubulação “num local bastante inadequado” e “bastante confusa”.
Devido à possibilidade de um acidente grave, como incêndio ou contaminação da água, o laudo indica a urgência máxima na resolução desses problemas, com “risco de ferimento aos usuários, avaria não recuperável na edificação e contaminação localizada”.
A Arcofit é dona de alguns apartamentos e tem sua própria sede no Marian.
À Folha, a empresa diz que o Habite-se (aval para que seja ocupado) é de 2010, ou seja, as reformas estão completando quase dez anos. “Temos conhecimento do laudo elaborado pela AJF, mas muitos dos problemas apresentados não são de responsabilidade da construtora, passado o período de garantia da obra.”
Sobre os riscos apontados, afirma que um bombeiro visitou o prédio, a pedido do próprio síndico, “e seu laudo não coincide com a gravidade apontada pela AJF.”
Daniel Passos, o síndico, relata de forma diferente as últimas visitas dos bombeiros. 
De acordo com ele, em duas vistorias dos bombeiros no local, uma delas a pedido do Ministério Público, as reações foram de espanto. “Eles disseram que não sabiam como o edifício havia conseguido os Autos de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCBs) anteriormente, diante de tantos problemas que encontraram.”
A respeito da tubulação com fios elétricos e canos com água, a Arcofit afirma que se comprometeu “a refazer qualquer fixação que possa ter sofrido dano, mesmo após quase dez anos de reforma.”
Ao tratar do reservatório de água, a empresa afirma que teria sido entregue “em perfeitas condições”, e a manutenção e a limpeza deveriam ser feitas a cargo da administração atual, “como ocorre em qualquer empreendimento”. 
Sobre os tubos de PVC, diz que não há contraindicação de que fiquem expostos e que a avaliação de que a tubulação é “confusa” é subjetiva.
Por fim, sobre a sinalização de emergência, a Arcofit afirma que ela é a mesma desde 2010 e já recebeu duas vezes o auto de vistoria dos bombeiros. Qualquer nova exigência para obtenção do AVCB, de acordo com a empresa, deveria ser feita pela administração atual do edifício.
Diante da preocupação crescente, os condôminos decidiram começar obras pontuais que consideram mais urgentes. Alessandra Maestro, moradora do Marian, afirma que não havia alarme de incêndio no local, e que então eles resolveram instalar, por exemplo.
Ela afirma que foram apenas obras paliativas, e que agora vão esperar um engenheiro indicado pela Arcofit apresentar um plano de obras para que seja realizado. 
“Não está definido ainda como vai ser ou quanto vai custar.” Tampouco está decidido entre as partes quem pagará pelas mudanças necessárias.
“O prédio estava muito abandonado mesmo. As coisas que foram feitas no prédio eram meio de fachada. A piscina estava linda, mas a estrutura…”, completa Maestro.
retrofit é tido por engenheiros e arquitetos como uma solução sustentáveleconômica e ambientalmente para o crescimento das cidades: não faz sentido demolir e construir um edifício do zero se você pode reformar e readequar um prédio já existente.
Mas o processo exige cuidados, afirmam especialistas. 
“Quando aqueles edifícios foram concebidos, foram dimensionados para a norma daquele instante temporal. Mas com o avanço do tempo, a engenharia evolui e você precisa adequá-lo às novas normas”, explica Rafael Castelo, professor de engenharia civil da PUC-SP.
A estrutura elétrica é um dos pontos de maior atenção, diz ele, lembrando que a demanda por eletricidade doméstica era completamente diferente nos anos 1940 em relação a hoje. “O edifício tem que se readequar e dá trabalho, não é trivial.”
Colaborou Joelmir Tavares 

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