segunda-feira, 4 de maio de 2026

Reforma do Judiciário e código de ética são desejáveis, mas não agora, diz ex-secretário, FSP

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São Paulo

Para o advogado Sérgio Renault, que esteve à frente da última reforma do Judiciário, em 2004, uma nova iniciativa do tipo é prioridade, mas deve-se esperar para evitar contaminação pelo momento político-eleitoral e pela polarização.

Segundo ele, o mesmo vale para um código de ética do STF (Supremo Tribunal Federal), que não pode ser visto como uma panaceia para os problemas da Justiça. "O Supremo, e mesmo o sistema de Justiça no Brasil, não pode se pautar pela discussão política-eleitoral."

Foram esse cenário e a polarização que levaram o Senado a protagonizar um momento lamentável, na opinião de Renault, com a rejeição de Jorge Messias para a corte constitucional.

"Ninguém avaliou que ele não tem condições de ser ministro do Supremo, que não tem reputação ou currículo. Não foi essa a razão da recusa do nome dele."

Secretário da reforma do Judiciário do Ministério da Justiça de 2003 a 2005, no primeiro governo Lula, Renault foi também subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil da Presidência da República de 2005 a 2006.

Homem com expressão séria olha para a câmera. Ele usa terno e tem as mãos unidas em frente ao corpo
Sérgio Renault em entrevista à Folha sobre uma nova reforma do Judiciário - Eduardo Knapp/Folhapress

É necessária uma nova reforma do Judiciário?
Sim, porque a última reforma aconteceu há 22 anos, em 2004. Muita coisa se modificou. É sempre necessário pensar no aperfeiçoamento dos sistemas de Justiça no Brasil, porque o volume de processos é muito grande, e a demanda, crescente. É sempre bom uma reforma que possa melhorar o sistema.

O que seria fundamental em uma nova reforma?
O maior problema do Judiciário continua sendo a lentidão da Justiça e um excessivo número de processos. Esses assuntos já eram os mais importantes antes da reforma de 2004. Muitas medidas já foram tomadas naquela época, mas novas medidas são necessárias.

Alterações processuais, incorporações de novas tecnologias, combate à utilização predatória do Judiciário e medidas que façam com que se ataque o principal problema do Judiciário, que é a lentidão da Justiça.

Qual foi o saldo da reforma de 2004?
Se não tivesse sido feita, teríamos tido um problema grande em relação ao número de processos e congestionamento da Justiça. O resultado é positivo, mas se demonstrou insuficiente, ou porque na época realmente não foi aprovado tudo aquilo que se pensava ou porque passou o tempo, e a sociedade ficou mais complexa.

Tudo o que foi feito funcionou, mas algumas coisas não atingiram os objetivos pretendidos. A grande inovação daquela época foi a criação do Conselho Nacional de Justiça [CNJ] e do Conselho Nacional do Ministério Público, que eram instrumentos importantes de planejamento e de atividade correcional do sistema de Justiça. A verdade é que eles atingiram alguns objetivos, não todos. Havia uma expectativa maior em relação ao funcionamento desses órgãos.

Deveria haver alguma modificação no funcionamento do CNJ?
Havia a expectativa de que ele tivesse uma composição diferente daquela que foi aprovada. Falava-se na criação de um órgão de controle externo do Judiciário, mas o órgão criado tem uma participação muito pequena da sociedade, com um conselheiro indicado pelo Senado e outro pela Câmara dos Deputados.

Os fatos demonstram que é importante haver uma composição mais diversa, com mais participação da sociedade. O CNJ acabou tendo uma atuação mais limitada do que se pretendia.

Faria sentido o conselho abranger e ter capacidade punitiva sobre os ministros do STF?
O CNJ poderia ter uma participação em relação aos ministros do Supremo. Sobre as punições, não sou contra, é uma possibilidade. Mas, para isso, é necessário se pensar numa recomposição dele. É uma coisa que se discutiu na época, mas não foi possível porque não havia condição política ser aprovada.

Uma das coisas que eu sempre fui contra e mudei de ideia —e que agora se discute novamente— é sobre a aposentadoria compulsória. Isso acabou se mostrando um desvirtuamento. Em vez de ser uma punição, é quase uma premiação. Não pode haver nenhuma punição que represente uma espécie de absolvição a quem cometeu uma falta grave.

O ministro Flávio Dino defende o fim da aposentadoria compulsória punitiva, penas mais duras para juízes envolvidos em corrupção e o combate aos penduricalhos. Como avalia as propostas?
As punições devem ser mais pesadas. E, com relação aos penduricalhos, também concordo com o ministro Flávio Dino. É necessário fazer uma discussão sobre isso. A reforma em 2004 decorreu de uma ampla discussão, com o envolvimento de todas as categorias que compõem o sistema de Justiça.

Qualquer alteração que seja feita tem que contar de novo com a participação de todos esses players. É uma questão importante para o país, mas precisa contar com a participação de todos.

Alguma dentre as 15 propostas de Dino chama a atenção?
Aquelas que dizem respeito a minorar a lentidão da Justiça e o ataque à utilização predatória do Judiciário. Isto eu dizia desde aquela época e continua a existir: o Judiciário serve a empresas, corporações e entidades que, na verdade, se utilizam da sua lentidão e ineficiência para obter algum benefício.

Isso é perceptível nas grandes operadoras de plano de saúde e de telefonia. Isso traz um prejuízo grande para o país, porque elas se utilizam enormemente do sistema de Justiça e, muitas vezes, esse benefício não vem em proveito da sociedade.

O que é possível fazer para melhorar a lentidão no Judiciário?
O Judiciário não atende às demandas da sociedade na velocidade que deveria. Para melhorar, precisa estar mais bem equipado, com mais tecnologia. Ele sempre implementa novas tecnologias, mas a impressão que se tem é que está sempre correndo atrás do prejuízo.

É necessária a implementação de avanços tecnológicos e medidas de alteração da legislação processual. A própria reforma é um processo sem fim, ela não se iniciou em 1988 com a Constituição e não terminou em 2004 com a criação do CNJ, é um processo permanente.

Uma nova reforma do Judiciário é prioridade?
É, mas precisamos saber que reforma é essa. O que eu tenho visto na imprensa é uma discussão como se fosse necessária uma reforma do Supremo. Não é essa a questão.

O problema do Judiciário não é o Supremo, é a quantidade enorme de processos, a lentidão da Justiça e a utilização predatória do Judiciário. Colocar a responsabilidade no Supremo é uma constatação equivocada. O país deve reconhecer a relevância do Supremo e o papel que ele cumpriu nos últimos anos. Eu tenho uma avaliação positiva sobre isso.

O que funciona e o que não tem funcionado no Supremo?
O Supremo funciona. Como democrata, é sempre importante reconhecer o papel e a relevância que o Supremo tem, porque ele é uma instituição fundamental na nossa democracia.

Todos aqueles que defendem a democracia devem respeitá-lo e defendê-lo enquanto instituição. Mas algumas discussões podem ser feitas, como a de mandato para os ministros, a quantidade de atribuições excessivas do presidente e o maior privilégio para decisões colegiadas.

A corte deveria ter um código de ética, pauta do ministro Fachin?
Ninguém vai ser contra o código de ética, mas eu sou contra ele ser feito no ambiente atual de discussão político-eleitoral. O ministro Edson Fachin, quando apresenta a proposta de criação do código de ética, está cumprindo adequadamente seu papel como presidente do Supremo. É positivo ele levantar a discussão.

Mas não sou de acordo que essa discussão seja levada a efeito como se tivesse que ser concluída agora, porque ela está muito contaminada pelo ambiente político eleitoral. O Supremo, e mesmo o sistema de Justiça no Brasil, não podem se pautar pela discussão política eleitoral.

Uma ala do STF é mais avessa ao código, e o ministro Alexandre de Moraes falou não ver necessidade da norma.
Quando ele diz isso, está querendo dizer, e com razão, que instrumentos de controle e de verificação de atitudes e posturas de ministros já existem. A impressão que eu tenho é que, atualmente, a discussão sobre o código é muito mais para se dar uma resposta a uma expectativa da sociedade do que para atender à realidade.

É preciso tomar cuidado, porque a proposta também não pode ser uma panaceia. Fica parecendo que o problema do Supremo é esse [a falta de código] e que isso vai resolver todos os problemas da Justiça do Brasil, o que não vai. Nada isoladamente resolve o problema.

No artigo de defesa da reforma, Dino falou da necessidade de ir além de "mudanças superficiais", manifestação lida por alguns como contraposição à ala que defende o código de ética. O que acha?
Acho que ele tem razão, a discussão tem que ser mais profunda. O ministro Flávio Dino tem uma contribuição muito relevante para o Judiciário. Quando faz afirmações desse tipo, quer contribuir com o debate.

Ele não está desqualificando a ideia de um código de ética, o que está dizendo é que não é suficiente, com o que eu concordo. A discussão é mais ampla, e o problema do Judiciário não é esse. A discussão não pode estar pautada pelas exigências político-eleitorais do país. O Judiciário não pode cair nessa discussão. Isso não pode ser tratado como se fosse uma questão eleitoral, porque não é.

Como foi a movimentação política em torno da reforma de 2004?
Havia uma situação política que permitiu que ocorresse a reforma. Primeiro, porque foi um projeto de início de governo, que assumiu aquilo como uma bandeira.

É uma reforma feita no Judiciário, mas o governo, que é Poder Executivo, acabou abraçando aquela bandeira como algo relevante para o país. Havia uma situação política muito específica e favorável. Agora nós estamos no final do governo. Ficar falando disso agora mistura as coisas, acho que não deve.

Esse momento de polarização influencia a possibilidade de uma nova reforma?
Há interessados em fazer essa mistura, mas isso é ruim. Não deve haver essa mistura, porque são coisas completamente diferentes. O Judiciário é uma instituição importante para a democracia. Todos os democratas devem defender o Judiciário e o Supremo enquanto instituição. Essa discussão polarizada não tem nada a ver com o Judiciário. Ele não deve, inclusive, permitir com que seja empurrado para essa discussão.

Eventuais novas descobertas sobre as relações de ministros do STF com caso Master também poderiam influenciar o debate?
Eu sempre tenho dito que o que importa é a instituição. Os ministros são pessoas que podem cometer erros. Isso faz parte de qualquer organização humana. Desse ponto de vista, sim. Mas não quero fazer nenhum comentário a respeito do comportamento dos juízes, eu não tenho esse papel.

Essa discussão, da forma como está sendo feita, não contribui para o aperfeiçoamento do sistema de Justiça. Esse não é o problema do Judiciário. Pode ser uma questão particular, que envolve uma ou outra pessoa, mas o problema do sistema de Justiça não é esse. O Supremo faz parte da solução, não do problema.

Qual seria o caminho para uma reforma do Judiciário dar certo hoje?
Pela questão eleitoral, esse não é o momento adequado. A discussão pode ser iniciada, mas ela está hoje contaminada pela questão eleitoral. Eu sou a favor da reforma, mas acho que o momento eleitoral pode contaminá-la e fazer com que o resultado não seja positivo. Pode-se iniciar a discussão, mas é melhor que ela seja levada adiante depois do próximo governo, no início do mandato.

Seria o mesmo trâmite de 2004?
Em 2004 acabou-se fazendo uma reforma constitucional. Agora, muito do que é necessário não demanda uma reforma constitucional, seriam reformas das leis processuais, de procedimentos e de mecanismos e regimentos internos.

Seria necessário uma reforma constitucional só no caso de mexer na composição do CNJ ou, por exemplo, no mandato dos ministros do Supremo. A reforma constitucional tem uma implicação política maior, mais grave, e faz com que a polarização se acirre.

Como avalia a reprovação de Jorge Messias para o STF?
A decisão do Senado, apesar de soberana, é lamentável, porque foi motivada por razões que não deveriam justificar a avaliação de uma indicação de presidente da República a ministro do Supremo.

Constituição diz que a indicação deve ser feita pelo presidente e aprovada pelo Senado, mas o Senado deveria avaliar as condições reais da pessoa indicada pelo presidente para assumir o cargo de ministro do Supremo.

Messias foi vítima dessa polarização. Ninguém avaliou que ele não tem condições de ser ministro do Supremo, que não tem reputação ou currículo. Não foi essa a razão da recusa do nome dele. Mas é uma decisão soberana, não há o que discutir. O presidente agora vai ter que indicar outra pessoa.


RAIO-X | Sérgio Rabello Tamm Renault, 67

Sócio da Tojal Renault Advogados e diretor-presidente do Prêmio Innovare. Foi secretário da reforma do Judiciário do Ministério da Justiça (2003 a 2005) e subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil da Presidência da República (2005 a 2006).

domingo, 3 de maio de 2026

Há ironia histórica no câncer fatal de um artilheiro da genômica, Marcelo Leite, FSp

 A morte do geneticista Craig Venter abriu ligação direta na memória até junho de 2000, um túnel do tempo que nos teletransportou à cerimônia em que ele, Francis Collins, Bill Clinton e Tony Blair anunciaram a decifração do genoma humano. Venter era o menos à vontade ali, embora fosse o vencedor da corrida maluca.

Passado um quarto de século, convém dar algum contexto. Clinton era presidente dos EUA e sobrevivera a um julgamento de impeachment após escândalo sexual com a estagiária Monica Lewinsky. Já na fase final do processo, ele e Blair lançaram ataques contra o Iraque sob pretexto de destruir armas de destruição em massa.

Soa familiar? Mas a operação Raposa do Deserto foi fichinha perto do que Donald Trump está aprontando no Irã com a sua Fúria Épica. Não por acaso se trata de guerra contra outra potência petroleira em meio ao escândalo sexual de Jeffrey Epstein. Clinton, diante de Trump, passa por estadista.

Dois homens de terno posam em frente a tela com texto "Decoding the Book of Life: A Milestone for Humanity". Ambiente interno com parede clara ao fundo.
Craig Venter (à esq.), com o ex-presidente americano Bill Clinton, desenvolveu o método de sequenciamento de DNA mais rápido, apelidado 'shotgun' (cartucheira), para identificar genes - Joyce Naltchayan - 26.jun.00/AFP

Blair era premiê do Reino Unido e compareceu ao evento em 2000 por vídeo. Um coadjuvante, ainda que seu país tenha participado do sequenciamento oficial do acervo de DNA da espécie. Mas o grosso da verba de US$ 3 bilhões do Projeto Genoma Humano saiu da máquina estatal de pesquisa dos EUA, ali representada por Collins, do Centro Nacional de Pesquisa do Genoma Humano.

A cerimônia na Casa Branca foi solução de compromisso para declarar vencedoras duas iniciativas concorrentes, o programa oficial bilionário e a da empresa Celera Genomics de Venter, que ia vencer a corrida da soletração de 3 bilhões de letras de DNA na ordem correta para identificar genes. Ele havia desenvolvido um método de sequenciamento mais rápido, apelidado "shotgun" (cartucheira).

Solene na justificativa da despesa, Clinton profetizou: "Os filhos de nossos filhos só conhecerão o câncer como uma constelação de estrelas". Quase 26 anos depois, Venter morreu por complicações no tratamento de um tumor, aos 79. Não se sabe se seu filho, Christopher Emrys Rae Venter, tem filhos, mas, com 49 anos, poderia até contar com netos.

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O tempo não para, assim como tumores seguem seu caminho se não forem impedidos. Não tem cabimento, contudo, depreciar a importância científica da genômica, assim como seria fútil diminuir a contribuição tecnológica de Venter com a escopeta da Celera, fundada em 1992.

Naquele ano teve início outra corrida que, em 34 anos, produziu mais retórica e frustração. Assinou-se no Rio de Janeiro, na Eco-92, a Convenção da ONU sobre Mudança do Clima, que prescrevia remédio óbvio para deter a mais grave ameaça contra a saúde do planeta e de todas as espécies: interromper a emissão de CO2 pela queima de combustíveis fósseis.

Deu em nada, ou muito pouco, como evidenciou a COP30 em Belém. Dezenas de cúpulas do clima se mostraram incapazes até mesmo de traçar um itinerário para a transição energética, verdadeira bicicleta ergométrica em que não se sai do lugar.

Agora 57 países se reuniram em Santa Marta, na Colômbia, para pedalar uma alternativa. Os maiores poluidores, EUA, China, Rússia e Índia, sequer foram convidados ao "evento histórico", como estão dizendo. É a luz no fim do túnel, para o qual talvez não haja saída em tempo hábil, como não houve para Venter.


O paradoxo da Noruega, país que ganha bilhões com aumento do petróleo mas o consome cada vez menos, FSP

 Guillermo D. Olmo

BBC News Mundo

Noruega é considerada um dos países mais verdes do mundo.

As bicicletas são onipresentes nas suas cidades, 98% da sua eletricidade provém de fontes renováveis e nove em cada 10 carros novos vendidos em 2024 foram veículos elétricos.

A Noruega é também o país membro da Agência Internacional de Energia em que a eletricidade representa a maior proporção do consumo total de energia. E foi um dos primeiros a criar impostos sobre as emissões de carbono.

Mas, ao mesmo tempo, o país não deixa de aumentar sua produção de gás e petróleo e exportar massivamente os combustíveis fósseis contaminantes.

Duas mulheres caminham lado a lado empurrando bicicletas com cestas dianteiras contendo bolsas. Elas estão em calçadão de pedra com pessoas ao fundo e árvores nas laterais.
A Noruega produz e exporta petróleo e gás, mas seu consumo interno é baseado principalmente na energia limpa - Getty Images

Esses recursos representam a maior fonte de receita do Estado norueguês e formam o pilar do famoso fundo soberano, o chamado "Fundo do Petróleo", que garante a solvência do generoso sistema de aposentadorias e bem-estar do país.

Essa contradição entre a descarbonização interna e seu papel como grande exportador global de combustíveis fósseis é conhecida como "paradoxo norueguês" e gera, há anos, um intenso debate político e social.

De um lado, grupos ambientalistas e jovens ativistas exigem compromissos concretos e um calendário para reduzir a atividade petrolífera. Do outro, o setor do petróleo e gás defende sua importância para a economia e as centenas de milhares de empregos gerados por ele.

A guerra no Oriente Médio e o aumento dos preços globais do petróleo e gás causado pelo bloqueio do estratégico Estreito de Ormuz geraram enormes e inesperados benefícios para a Noruega, mas também reabriram um dos seus debates internos mais incômodos.

"Para um ambientalista norueguês como eu, é claro que essa é uma situação vergonhosa", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o presidente da associação ecologista Amigos da Terra Noruega, Truls Gulowsen.

IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA

A Noruega é um dos países mais desenvolvidos do mundo, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. E o setor de energia é a sua principal fonte de riqueza.

As exportações do setor representam mais de 60% do total dos produtos vendidos para o exterior e somam mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O Estado mantém participação majoritária no conglomerado Equinor, o principal operador da plataforma continental norueguesa, e destina a maior parte dos seus benefícios ao fundo soberano.

No final de 2025, o fundo contava com ativos no valor estimado de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 9,4 trilhões), o equivalente a US$ 350 mil (R$ 1,7 milhão) por cidadão do país.

Bandeira da Noruega tremula em primeiro plano à esquerda, com plataforma de petróleo flutuante no mar ao centro. Montanhas e casas pequenas compõem o fundo sob céu claro.
As exportações de petróleo e gás desempenham papel fundamental na economia da próspera Noruega - Kristian Helgesen via Getty Images

No contexto atual de 2026, as tensões no Oriente Médio indicam que esses números continuarão aumentando.

O Estado norueguês recebeu US$ 5 bilhões (cerca de R$ 24,7 bilhões) a mais desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. E a Bolsa de Valores da capital norueguesa, Oslo, bateu recordes graças às companhias locais do setor de energia.

O governo trabalhista tentou neutralizar a ideia de que o país que concede o Prêmio Nobel da Paz vem enriquecendo com os transtornos da guerra.

O ministro das Finanças norueguês e ex-secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, destacou que esse é um paradoxo, já que a Noruega "se beneficia mais da paz".

Mas, como afirmou a colunista da rede pública norueguesa de rádio e televisão NRK, Cecilie Langum Becker, "a dura realidade é que, quando o mundo está em chamas, o dinheiro flui para o nosso orçamento estatal".

Essa dinâmica já havia ficado clara em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia reduziu drasticamente as exportações de Moscou para a Europa. Desde então, a Noruega surgiu como o último fornecedor confiável de um continente assolado pela crise energética.

"Fornecemos, hoje, cerca de 30% do gás e 15% do petróleo que é consumido na Europa, para onde enviamos 90% das nossas exportações", explica à BBC a analista Thina Saltvedt, da empresa financeira Nordea.

Quinze manifestantes seguram placas vermelhas com letras pretas formando a frase 'END OIL NOW!'. Alguns estão sentados e outros deitados em faixa de pedestres, bloqueando a rua em dia claro.
O debate sobre as exportações de combustíveis fósseis está presente na Noruega há anos - Paul S. Amundsen via Getty Images

A DESCARBONIZAÇÃO

Apesar das suas jazidas petrolíferas, a Noruega possui, há décadas, uma das infraestruturas mais limpas da Europa, graças à sua rede hidrelétrica.

Em 1991, o governo norueguês criou um imposto ao carbono, para promover a energia limpa. Em 2005, incentivos transformaram o país no líder mundial em carros elétricos. E, em 2017, o Parlamento da Noruega aprovou a Lei do Clima, para reduzir as emissões em 50% até 2030.

Mas o atual contexto internacional parece ter freado esta tendência.

Os conflitos na Ucrânia e no Irã obrigaram até mesmo os partidos mais "verdes" a aceitar que o gás norueguês é um "mal necessário" para a segurança energética da Europa.

Para Gulowsen, a narrativa dominante, agora, é que a instabilidade global justifica a aposta nos hidrocarbonetos.

"Fala-se em abrir áreas em águas profundas do Ártico, que são ambientes vulneráveis onde não deveria haver exploração, em nenhuma hipótese."

Homem com colete de segurança amarelo e capacete está em plataforma metálica sobre o mar, olhando para o horizonte sob céu nublado.
O governo norueguês quer continuar desenvolvendo a indústria petrolífera e aprovou novas licenças de exploração - Chris Ratcliffe via Getty Images

O QUE ACONTECERÁ AGORA?

O governo do primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, ofereceu recentemente 57 novas licenças de exploração.

"Continuaremos buscando mais petróleo para fornecer à Europa, prometeu Støre. Ele aposta no "desenvolvimento" da indústria, em vez de estabelecer "fases de saída".

Apesar da pressão dos setores mais jovens do seu partido, Støre não tem intenção de defender um calendário de abandono. Pelo contrário, ele aposta na zona menos explorada do país (o mar de Barents) para compensar a queda das jazidas atuais.

Frode Alfheim, do sindicato Industri Energi, relembrou à BBC News Mundo a importância social do setor.

"Estamos falando de mais de 200 mil postos de trabalho diretos", destaca ele. "Não é o momento de deixar a Europa sem fornecimento."

Já Saltvedt conclui com uma advertência.

"Cada vez mais pessoas se dão conta de que há um pôr do sol no horizonte. Mas será doloroso."