domingo, 3 de maio de 2026

Messias, dosimetria e autopreservação, Lara Mesquita, FSP

 A rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para o Supremo e a derrubada, pelo Congresso, do veto presidencial ao PL da Dosimetria, lei que afrouxa punições e beneficia diretamente os condenados pelo 8 de Janeiro, não são episódios isolados. Expressam os limites de um governo de esquerda minoritário diante de um Congresso com maioria de centro-direita e direita.

E revelam mais: em momentos de crise e autoproteção institucional, a distância ideológica entre presidente e maioria legislativa torna-se ainda mais custosa. O caso Banco Master, com suas conexões políticas e judiciais, agrava esse quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos entre atores que têm pouco interesse em fortalecer o Executivo.

Grande grupo de deputados reunidos no plenário de uma casa legislativa, muitos tirando fotos com celulares e comemorando. Alguns parlamentares estão sentados nas mesas ao fundo, observando a movimentação.
Parlamentares da oposição comemoram a derrubada do veto ao projeto da dosimetria em sessão do Congresso Nacional - Pedro Ladeira - 30.abr.2026/Folhapress

Estudos sobre governos minoritários ajudam a entender esse impasse. O cientista político José Antônio Cheibub mostrou em seus trabalhos que presidentes sem maioria legislativa não estão automaticamente condenados à paralisia. A capacidade de governar depende da posição que ocupam no espectro ideológico e da distribuição de preferências no Congresso.

Quando o chefe do Executivo está próximo ao parlamentar mediano, pode governar por meio de "maiorias móveis": buscar apoio na centro-esquerda para pautas sociais e na centro-direita para reformas econômicas.

Quando o presidente está distante da maioria legislativa, o custo da governabilidade aumenta. O governo de minoria é empurrado a uma escolha amarga: ou capitula ideologicamente, abandonando promessas de campanha para aprovar apenas o que agrada à maioria conservadora, ou tenta montar uma coalizão, entregando ministérios vitais e o controle do orçamento a adversários em troca de sobrevivência.

Parece ser esse o impasse enfrentado por Lula, agravado pelas ameaças decorrentes do escândalo do Banco Master. O caso não explica tudo, mas amplia os incentivos de autoproteção de parcelas do sistema político e reduz a disposição para conciliação com um governo já minoritário. A bancarrota de Daniel Vorcaro incentiva a busca, como na Lava Jato, de um "grande acordo, com Supremo, com tudo".

Nesse contexto, a indicação de Messias não conseguiu produzir a sinalização política que parte do Senado parecia demandar. Sua proximidade com Lula, os sinais de que defenderia a moderação na atuação dos ministros do Supremo e o apoio a André Mendonça no caso do Banco Master não contribuíram para persuadir a maioria dos senadores a apoiar sua indicação.

desempenho de Lula nas pesquisas de intenção de voto mais recentes aumenta a pressão. Quando a reeleição parece ameaçada, aliados se afastam, adversários elevam o preço do apoio, e o Congresso começa a antecipar o poder futuro. Para parte da maioria legislativa, pode parecer mais racional apostar no desafiante, ideologicamente mais próximo e que sinaliza estar disposto a ampliar concessões ao Congresso, incluindo ceder uma cadeira do STF.

Um lembrete para o pleito de outubro: o voto para deputados e senadores não pode ser dissociado do voto para presidente. Presidentes não governam sozinhos. Sem maioria legislativa, o Executivo perde agenda, perde veto e passa a administrar derrotas, por mais churrascos e almoços que o Planalto esteja disposto a oferecer.

Geradora defende exigência de instalação de baterias em novos parques solares para evitar cortes, FSP

 A Atlas Renewable Energy, uma das maiores geradoras de energia do país, defende que o Brasil passe a exigir que novas unidades solares no país sejam construídas já acopladas a grandes sistemas de baterias. O excesso de energia gerada em alguns períodos do dia é o maior gargalo para o setor de renováveis do país, que convive diariamente com cortes definidos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).

A própria Atlas é uma das empresas que decidiram suspender os investimentos no país até que a situação seja resolvida. A companhia, controlada por um fundo ligado à gigante BlackRock, não tomou nenhuma decisão final de investimento no Brasil no ano passado e não prevê nenhuma em 2026.

Vista aérea mostra grande usina solar com milhares de painéis fotovoltaicos organizados em fileiras retas sobre terreno plano, cercada por vegetação e céu parcialmente nublado ao fundo.
Plana solar no interior do Ceará - Rubens Cavallari/Folhapress

Segundo o vice-presidente comercial da Atlas, Luís Ballester, o governo federal deveria seguir o exemplo do México e determinar uma fatia mínima necessária de baterias para essas instalações. Em março do ano passado, o governo mexicano definiu que todas as usinas solares e eólicas precisam ter sistemas de baterias equivalentes a 30% de sua capacidade instalada, com autonomia mínima de descarga de três horas —a medida deve adicionar 574 MW (megawatts) de baterias até 2028.

Para ele, no entanto, essa obrigatoriedade deve ser acompanhada de outros fatores. O primeiro é a regulamentação do uso desses sistemas, conhecidos no setor como BESS. O tema é pauta da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) desde 2023, mas está parado desde agosto do ano passado em meio a pedidos de vista de diretores do órgão regulador.

As principais discussões na Aneel passam pela forma como serão feitas a tributação e a remuneração de empresas donas de baterias. Além disso, há dúvidas se elas serão consideradas uma extensão das unidades renováveis ou um ativo separado capaz de ser despachado pelo próprio ONS.

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Já o segundo fator é a tributação. De acordo com Ballester, os tributos pagos no Brasil por importados correspondem atualmente a 70% do preço original desses sistemas, que vêm sobretudo da China, país que lidera a fabricação dessa tecnologia. "É uma carga tributária elevadíssima. Nós temos uma indústria nacional boa, mas ela tem produção e competitividade limitadas", diz Ballester.

A redução dos tributos dos sistemas de armazenamento é vista como essencial por todo o setor de renováveis —incluindo a indústria local de baterias, que depende da importação de equipamentos, também tributados.

Dentro da indústria solar e eólica, há o entendimento de que hoje, com a carga tributária elevada e sem uma remuneração específica para esses sistemas, a adoção de baterias não compensa o faturamento perdido com os cortes de energia.

Como a Folha mostrou, a situação atual dos cortes de energia provocou a suspensão de investimentos próximos a R$ 38,8 bilhões entre 2025 e 2026, principalmente no norte de Minas Gerais e no Nordeste, onde está a maior parte de grandes usinas solares e eólicas no país.

De acordo com Ballester, a Atlas tem entre 20% e 25% de sua energia cortada, o que, conforme a reportagem apurou, gerou perdas de US$ 45 milhões no ano passado. A empresa não revela seu faturamento anual.

Para além do prejuízo gerado pela incapacidade de vender a energia cortada, as empresas do setor também sofrem com a necessidade de comprar energia de outros agentes para vender a seus clientes. Isso acontece porque essas empresas têm contratos de fornecimento contínuo com grandes indústrias, por exemplo —assim, quando não há geração própria, é necessário contratar energia de outro gerador para, então, passar para o cliente.

Como forma de aliviar as perdas, o setor intensificou no ano passado a influência em Brasília para garantir o reembolso de parte dos cortes. Em novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei aprovada no Congresso que garante a compensação daqueles cortes gerados pela falta de linhas de transmissão —estimado em cerca de R$ 4 bilhões pela Abrace, associação que representa os grandes consumidores de energia. Nesse caso, os cortes gerados pelo excesso de energia ficaram de fora do reembolso.

Mas, cinco meses após a aprovação da lei, o governo ainda não publicou o decreto que regulamenta a forma como será feito o reembolso. "Além disso, a lei também não trouxe nenhum prognóstico futuro, então está longe de ser minimamente bom", afirma Ballester.


RAIO-X Atlas

  • Capacidade instalada e em construção no Mundo: 6.000 MW
  • Capacidade instalada e em construção no Brasil: 3.911 MW
  • Onde atua: Brasil (BA, CE e MG), Chile, Colômbia e México
  • Maior acionista: Global Infrastructure Partners (GIP)
  • Principais concorrentes: Elera, Enel, Eneva

Marcus André Melo - Lula, o affair Messias e o presidencialismo de coalizão, FSP

 A rejeição da indicação de Messias ao Supremo não pode ser lida apenas como derrota do Executivo, nem apenas como reação do Centrão à escolha unilateral de Lula. Seu aspecto mais relevante é a evidência de uma articulação envolvendo lideranças do Senado e setores do próprio Supremo. O que veio à tona foi uma dinâmica inédita: a Corte não aparece apenas como instância de controle externo sobre Executivo e Legislativo, mas como ator que interfere no processo político de sua própria composição.

Esse ponto desloca o problema para além da literatura usual sobre independência judicial e separação de poderes. Em geral, as interações entre Executivo, Legislativo e Judiciário são pensadas em termos de checks and balances: o Congresso controla a Corte por sabatinas, orçamento e regras institucionais; a Corte controla Executivo e Legislativo por meio da revisão judicial; o Executivo influencia a Corte por meio de nomeações. O caso sugere algo inteiramente novo: a participação ativa de ministros ou "facções judiciais" na própria disputa sobre nomeações, em articulação com atores legislativos. Trata-se de uma forma de coordenação horizontal entre elites institucionais, na qual a Corte deixa de ser apenas árbitro e passa a operar diretamente a barganha. O mais assombroso é que as clivagens associadas ao Master se sobrepuseram às partidárias e às de governo/oposição.

Homem de terno escuro e gravata verde escura olha para o lado em ambiente interno com outras pessoas desfocadas ao fundo.
Ministro-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, após ser reprovado pelo Senado para o cargo de ministro do STF - Pedro Ladeira - 29.abr.26/Folhapress

A segunda dimensão é a transposição bizarra para o Supremo de uma lógica típica do presidencialismo de coalizão. Historicamente, a governabilidade brasileira foi garantida a partir da distribuição de portfolios ministeriais, cargos e recursos orçamentários. A variável central é a coalescência: a correspondência entre o peso parlamentar dos partidos e sua participação no governo. Nesse plano, o PT caracterizou-se pelo manejo monopolista da coalizão: mesmo minoritário no Congresso, concentra poder.

A indicação de Messias reproduz essa lógica monopolista no terreno judicial, com um critério novo, a lealdade pessoal. Lula desconsiderou uma concertação prévia em torno de Pacheco, para reiterar um padrão de nomeações personalistas. O problema é que esse padrão tem sido adotado num momento de forte declínio da força gravitacional do executivo (pela crescente probabilidade de derrota em novembro) e maior autonomia do Congresso. A escolha, portanto, revela uma inconsistência entre a estratégia presidencial de controle e as exigências de coordenação da coalizão.

Se o Supremo passou a integrar a lógica da partilha de poder, isso indica não apenas politização da Corte, mas erosão das fronteiras entre arenas institucionais. A nomeação para o tribunal deixa de ser apenas prerrogativa presidencial sujeita ao controle senatorial e passa a ser disputada como recurso estratégico da coalizão. O episódio, assim, ilumina uma transformação mais profunda: a governabilidade brasileira já não se organiza apenas pela distribuição de ministérios e orçamento, mas também pela disputa sobre ativos institucionais de alta intensidade —tribunais, regras, procedimentos e capacidade de veto. As consequências desse estado de coisas para o estado de direito são difíceis de superestimar.