domingo, 21 de dezembro de 2025

A vitória de Jo Ann, Ruy Castro - FSP

 Em 1964, a revista americana Look, com seus seis milhões de exemplares semanais, dedicou a página dupla central a uma ilustração feita pelo artista Norman Rockwell. Na cena, uma menina negra, escoltada por quatro agentes federais a caminho de uma escola pública branca, passa diante de um muro onde se leem as pichações "nigger" e "KKK" (referência à organização supremacista Ku Klux Klan) e se vê a mancha de um tomate escorrendo, atirado contra o muro —ou contra ela. Era o auge do movimento pelos direitos civis nos EUA, cem anos depois de uma guerra civil que se propunha a evitar que tais coisas acontecessem.

A imagem de Rockwell se referia a um fato ocorrido oito anos antes em Clinton, cidade de 4.000 habitantes no racista estado do Tennessee, quando um grupo de doze meninas e meninos negros, aptos a ingressar na escola secundária, foram ofendidos e atacados durante dias pelos brancos da cidade, que não admitiam a integração racial em suas escolas. A essa agressão se juntavam os alunos brancos, ofendendo seus colegas negros, pondo-os a correr e os alvejando com giz e apagadores.

A chegada à cidade de repórteres dos jornais e revistas de Nova York forçou o governador do estado a garantir o direito daquelas crianças à educação, convocando 600 membros da Guarda Nacional em farda de combate e cem patrulheiros rodoviários para conter a ira da majoritária população branca. Com isso, o ginásio de Clinton se tornou a primeira escola integrada do sul do país e Jo Ann Allen, uma corajosa garota de 14 anos, o símbolo daquela luta.

Em 2016, Jo Ann, que seguiria a carreira da enfermagem, teve a glória de ver o quadro de Rockwell, um óleo sobre tela de 91 x 150 cm, ser pendurado pelo presidente Barack Obama numa parede da Casa Branca, com sua presença. Obama lhe disse que, se não fosse por ela, talvez ele próprio não estivesse ali para prestar-lhe aquela homenagem.

Jo Ann Allen morreu na semana passada em Los Angeles, aos 84 anos. Há um memorial em Clinton em homenagem à sua luta.

Menina negra de vestido branco e tênis brancos caminha na calçada entre homens brancos vestidos com ternos cinza e braçadeiras amarelas. Ela segura livros e um lápis. Ao fundo, parede com grafite e manchas vermelhas.
Ilustração 'O problema com que todos nós vivemos', de Norman Rockwell, para a revista Look - Reprodução

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Não é só a Enel, tem coisa pior vindo por aí, Marcelo Leite FSP

 

Blecautes repetidos em 2023, 2024 e 2025 na Grande São Paulo? Simples: basta cancelar a concessão do serviço porco prestado pela Enel. Raciocínio infantil, pensamento mágico, manobra diversionista, mas vingou como único debate na praça.

O governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes foram os primeiros a esbravejar. Cantando de galo, pediram cancelamento do contrato com a empresa de origem italiana, que assumiu a distribuição de energia em 24 municípios da metrópole em junho de 2018.

Técnico com equipamento de proteção individual, incluindo capacete e máscara, opera em altura para ajustar componente da rede elétrica aérea. Estrutura de madeira e transformador são visíveis contra céu azul.
Enel faz reparo na rede elétrica na região da Mooca, na zona leste de São Paulo, no último dia 15 - Danilo Verpa/Folhapress

Solução fácil e errada. Só com muita ingenuidade dá para acreditar que a dupla bolsonarista tem o bem-estar da população em mira, e não transferir o ônus para o governo federal, ou seja, para o pré-candidato mais bem-colocado nas pesquisas eleitorais para presidente.

Não menos simplório é vociferar contra a privatização do setor elétrico, como se todo o mal do mundo nascesse da busca de lucro privado, usurpador do monopólio natural e benevolente do Estado. Quem defende essa tolice deve ter saudades da Telesp e de pagar milhares de dólares para comprar uma linha telefônica fixa.

Escorraçar a Enel não resolve nada. Não há empresa no mundo com capital suficiente para pagar conta da omissão de sucessivos governos, de todos os níveis e orientações ideológicas, diante da mais que prevista crise climática.

Tarcísio e Nunes militam no campo político sempre pronto a duvidar do aquecimento global, como faz o presidente do país cuja bandeira levam para a avenida Paulista. Seus correligionários do direitão rural-negacionista estão aí para não deixá-los sozinhos, enquanto desfilam com a boiada do marco temporal e do PL da devastação no Congresso.

O bloco estatizante não faz melhor. Enche a boca para prometer transição energética justa, sem enrubescer, usando a renda da exploração de combustíveis fósseis para pagar a conta do agravamento do efeito estufa provocado pela queima de... combustíveis fósseis.

Entendeu? É o carbono, estúpido.

Tempestades e vendavais que se abatem mais e mais sobre a região metropolitana são resultado da mudança do clima. Simples assim. Agora até ventania de 100 km/h sem chuva, algo inédito por aqui, derruba árvores, postes e cabos elétricos.

Quanto custa essa destruição para a economia, a vida cotidiana, as famílias que perdem parentes? Cabeças-de-planilha, à direita e à esquerda, não fazem o cálculo prudencial. E não vão fazer, porque aí teriam de encarar o elefante na sala e tomar providências com enorme custo social.

Fala-se em enterrar a fiação em São Paulo. Dependendo da área considerada na metrópole paulista, estimativas variam entre R$ 90 bilhões e R$ 320 bilhões. À quantia estratosférica se contrapõem prejuízos que parecem modestos, como R$ 2 bilhões perdidos pelo comércio no último apagão.

E sua repetição? E as horas de trabalho desperdiçadas no trânsito, nos estabelecimentos fechados, na limpeza de casas e lojas invadidas pela lama? E os alimentos estragados na geladeira, os móveis arruinados, os eletrodomésticos queimados, os veículos com perda total? E as mortes evitáveis, a piora da saúde mental, os ambulatórios lotados?

Essa conta ninguém quer saber de assumir.


Ué, tem fome aqui? Becky S. Korich, FSP

 Existem duas coisas muito estranhas nas redes sociais: gente que chora diante da câmera (se bem que gente que se grava gargalhando com os amigos pra mostrar alegria também é esquisito) e gente que transforma boa ação em conteúdo. Quando as duas coisas vêm juntas, o resultado é um melodrama indigesto.

O choro quer transmitir: sou sensível; a caridade: sou bom. São justamente esses atributos —sensibilidade e generosidade— quando autênticos, que dispensam prova, não pedem trilha sonora, enquadramento, post.

Mulher jovem de cabelos longos e castanhos usa camisa branca com bordados coloridos no ombro e bolso. Fundo interno com iluminação quente e letras grandes desfocadas.
A influencer Nathalia Valente, que competiu no reality A Fazenda, viajou a Angola como voluntária em uma iniciativa solidária - Edu Moraes - 18.set.23/Record

Vamos ao exemplo da semana. A influencer Nathalia Valente virou assunto depois de viajar a Angola como voluntária em uma iniciativa solidária. Ao encontrar crianças em situação precária, ela chora, liga a câmera (ou vice-versa) e, com uma maquiagem resistente à água, soluça como se estivesse vendo uma revelação súbita, "ué, tem fome aqui?". Ué, não é uma ação humanitária? Entre uma lágrima e outra, explica o gatilho: "Porque eu faço muita dieta, né, deixo de comer um monte de coisa, e aqui elas não têm o que comer... Então, pra mim pesa muito isso."

Vamos (tentar) entender: o corpo leve de crianças desnutridas pesa... nela. O sofrimento do outro vira um tipo de "experiência sensorial". A miséria sai do centro e entra a necessidade de tornar pública a comoção.

Quando o foco recai sobre o benfeitor, e não sobre a causa, a benfeitoria deixa de iluminar o cerne do problema e passa a iluminar quem segura a lanterna.

E sim, existe um contraponto relevante: visibilidade gera recursos. Sem visibilidade não há doação; sem doação não há ajuda. A repercussão aumenta arrecadações e viabiliza projetos concretos, como aconteceu nesse caso. Aplaudo iniciativas como o Zuzu for Africa e exalto a entrega generosa dos voluntários, inclusive de Nathalia Valente —não questiono sua generosidade.

Vozes são importantes. Mas, sem o cuidado necessário —doar também exige responsabilidade— corre-se o risco de enfraquecer a própria causa.

Expor a dor tem limites éticos. A expropriação da imagem, ainda mais quando o rosto é infantil, avança essa linha. Entre vídeos regados a lágrimas de crianças vulneráveis, dancinhas, e —a cereja do bolo— meninas em biquínis com estampa de cereja da marca da própria influencer, o arranjo fica delicado, mesmo que o destino do dinheiro seja nobre. É aí que o ato começa a perder a inocência.

Não precisa ser expert em psicologia para imaginar o impacto sobre uma criança quando alguém pergunta, com cara de dó, "é aqui que você mora?", chora na frente dela e depois se desculpa: "não aguentei". Olhares piedosos arranham a dignidade humana.

Solidariedade não se limita ao ato de dar, a ajuda não termina aí. Sérgio Buarque de Holanda dizia que o colonialismo não acaba quando o colono vai embora, acaba quando a mente do colonizado se liberta. Por melhor que sejam as intenções, o "olhar salvador" continua ali, vivo, ainda mais quando há espetacularização.

E depois? O que será da voluntária-influencer-branca-redentora depois de tanta comoção? Certamente aprendeu sobre dignidade, fome, dureza da vida. Mas, se for verdade que dias depois usou o mesmo alcance como propaganda do tigrinho ou qualquer outra promessa de dinheiro fácil, fica difícil chamar de consciência social.

Ainda assim, o saldo é positivo só por estarmos falando sobre isso. Valeu, Nathalia!