terça-feira, 29 de agosto de 2023

Estado diz que vai adiar leilão para trem entre Campinas e SP e sinaliza busca por financiamento externo, g1

 G1 – O governo de São Paulo prevê adiar o leilão do Trem Intercidades (TIC) de Campinas (SP) até a capital paulista de novembro deste ano para janeiro de 2024, após considerar que é necessário publicar um novo edital diante da sondagem de mercado sobre o projeto e de tratativas para financiamento, sobretudo após inclusão dele no novo Programa de Aceleração de Crescimento (PAC).

A gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) também sinalizou busca por recursos externos.

O TIC deve percorrer 101 km entre as duas cidades no tempo previsto de 1 hora e 4 minutos. Neste percurso ainda serão atendidos passageiros nas cidades de Jundiaí, Louveira, Vinhedo e Valinhos.

📅O que vai mudar?

O edital com as regras de licitação foi publicado em março deste ano e, inicialmente, o estado previa o leilão em 28 de novembro. Entretanto, a Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) destacou que era necessário “ouvir preocupações do mercado” porque o projeto estava parado desde 2020.

Além disso, diz a pasta, a nova publicação de edital em setembro também deve ocorrer por conta de tratativas para financiamento de R$ 5,4 bilhões junto ao Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES).

“A entrada no PAC tem como objetivo garantir auxílio no financiamento, previsto em R$ 12,8 bilhões, e execução. O leilão deve ocorrer até janeiro de 2024, após diálogo do Governo de SP com interessados no projeto”, diz a assessoria da SPI ao ressaltar que a entrada no programa federal não significa o envio de recursos diretos, mas sim uma “facilidade” para buscar financiamentos.
Ao g1, o BNDES afirmou que o projeto do TIC é prioritário, e confirmou que já houve uma reunião entre Tarcísio e o presidente do banco, Aloizio Mercadante. “As equipes técnicas seguem em contato e o Banco dará o suporte necessário para estruturação ou financiamento do projeto”, diz nota.

A situação é diferente do Túnel Submerso Santos-Guarujá. Segundo o estado, além do financiamento, previsto em R$ 6 bilhões, a participação no PAC busca integração de verba federal, ainda indefinida. “A futura obra já tem projeto-executivo validado por duas consultorias internacionais especializadas na elaboração de projetos de alta complexidade de engenharia e licença ambiental prévia”, informa texto.

Em nota, o Ministério dos Transportes confirmou que não há previsão de aporte federal direto via novo PAC para o Trem Intercidades. “Ele foi incluído […] por solicitação do governo estadual para que receba apoio ao financiamento […] bem como ações para a segregação da malha ferroviária”, diz a assessoria.

💸 E a tarifa?

A secretaria não mencionou se já há novas projeções sobre o valor global do edital e nem comentou se o valor da tarifa, inicialmente prevista em R$ 64, pode mudar. Veja abaixo o que se sabe do projeto.

Com isso, o estado prevê conceder prazo de 100 a 120 dias para que instituições privadas possam analisar o edital, mas garante que os prazos de entrega, trechos em 2029 e 2031, seguem mantidos.

💰Financiamento externo

O estado também sinaliza busca por financiamento externo e, para isso, diz que buscará até fim deste ano aprovação da Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex), que é subordinada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços . O valor oficial pretendido não foi confirmado.

A finalidade da Comissão é avaliar projetos do setor público, cuja matriz de financiamento tenha recursos externos oriundos de organismos financeiros internacionais ou agências governamentais estrangeiras, como, por exemplo, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento.

A garantia para contratação da crédito externo é da União, mas a Constituição Federal estabeleceu meios de controle pelo Senado Federal para as operações financeiras.

Veja, abaixo, tudo o que se sabe sobre o TIC:
💰 Qual o investimento previsto?

O edital prevê aporte de R$ 12,8 bilhões para a infraestrutura, incluindo a construção e modernizações.
O primeiro valor previsto para o projeto foi de R$ 7,5 bilhões. Depois, no ano passado, a quantia foi alterada e elevada para R$ 10,2 bilhões. O novo montante, de R$ 12,8 bilhões, inclui correção inflacionária, segundo o governo estadual.

📅 Qual o prazo de concessão?

A concessão será de 30 anos, a partir do início da operação comercial.

🚄 Quais as ligações previstas?

Serviço Expresso (Trem Intercidades): São Paulo a Campinas, com parada em Jundiaí;

Serviço Linha 7 Inicial e o Serviço Linha 7-Rubi: conectam a Estação Barra Funda, em São Paulo, a Jundiaí, e atende às cidades de Franco da Rocha, Francisco Morato, Campo Limpo Paulista e Várzea Paulista;

Serviço TIM (Trem Intermetropolitano): vai de Jundiaí a Campinas, e atende também Louveira, Vinhedo e Valinhos.

⏳ Quanto tempo vai demorar a viagem?

O Trem Intercidades (serviço expresso) deve percorrer os 101 km entre São Paulo e Campinas no tempo previsto de 1 hora e 4 minutos.

A proposta é que as viagens do serviço expresso tenham intervalos de 15 minutos nos horários de pico.

📆 Qual a previsão de entrega?

Rafael Benini, Secretário de Parcerias em Investimentos (SPI), informou que o serviço intermetropolitano, com paradas em Jundiaí, Louveira, Vinhedo e Valinhos, estará em funcionamento até 2029, enquanto o trem expresso, que prevê apenas uma parada de dois minutos em Jundiaí, deve começar a operar até 2031.

💲 Quanto pode custar a passagem?

O valor estimado da tarifa do serviço expresso, definido a partir de pesquisas sobre potencial e demanda, é de R$ 64, mas a companhia vencedora da concorrência pode oferecer um valor inferior ao teto;

Atualmente, uma passagem de ônibus entre Campinas e São Paulo está na faixa de R$ 48, enquanto quem usa um carro próprio paga em torno de R$ 24,60 somente de pedágios para ir de Campinas a São Paulo, considerando-se o uso da Rodovia dos Bandeirantes (SP-348), uma das principais do estado;

“A gente entende que [a tarifa de] R$ 64 é adequada porque o serviço é mais rápido, estamos falando de um deslocamento em 1h04, enquanto o ônibus é de 1h30 a 2h, pode ser até mais que isso com trânsito. Além disso, as tarifas de ônibus não são reajustadas há algum tempo”, ponderou André Isper, secretário-executivo da SPI.

🚃 Qual a velocidade do trem?

Para a realização do serviço expresso, o edital prevê que a empresa implante trens cuja velocidade máxima chegue a 140 km/h – o que é considerado média velocidade.

O projeto também inclui a implantação de um serviço metropolitano entre Campinas e Francisco Morato (SP), e estabelece atendimentos a outros municípios do interior paulista como Louveira (SP), Valinhos (SP) e Vinhedo (SP). A extensão dessa operação seria de 65,8 km, com nove estações e velocidade comercial de 56 km/h – a estimativa é que o tempo de viagem dure 55 minutos.

👨‍👩‍👧‍👦 Quantos passageiros serão transportados?

O estado prevê que o serviço expresso (SP e Campinas em 64 minutos) seja atendido por um trem com capacidade para 800 passageiros, operando em intervalos de até 15 minutos nos horários de pico.

A expectativa do projeto é atender até 60 mil passageiros por dia em todos os serviços.

🧱 Qual a infraestrutura prevista?

O edital prevê que as composições contem com banheiros, incluindo os acessíveis;

Telas pelos vagões para informar detalhes sobre a viagem e trajeto, e que poderão ser explorados para publicidade;

Oferta de sinal de internet (Wi-Fi), tomada e porta USB aos passageiros.

🔨 Quantos empregos serão gerados?

A projeção é que o empreendimento irá gerar 10,5 mil empregos diretos, indiretos e induzidos.

Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2023/08/29/estado-diz-que-vai-adiar-leilao-para-trem-entre-campinas-e-sp-e-sinaliza-busca-por-financiamento-externo.ghtml

Governo de SP deu 90% de emendas a aliados em 2022; Tarcísio mantém verba em segredo, FSP

 O governo Rodrigo Garcia (PSDB) liberou um total de R$ 1,27 bilhão em emendas voluntárias em 2022, direcionando 90% da verba para parlamentares aliados na tentativa de se reeleger em São Paulo.

No ano eleitoral, o Palácio dos Bandeirantes alcançou quase R$ 1 milhão por hora no mês de maio para atender deputados federais e estaduais que integraram a coligação do tucano.

Os valores foram levantados pela Folha com base em dados obtidos após reiterados pedidos via Lei de Acesso à Informação —não há transparência em relação à distribuição desses recursos.

A gestão de João Doria (ex-PSDB) e Rodrigo não publicava os dados, algo que o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tampouco fez.

O então governador Rodrigo Garcia com o então governador eleito, Tarcísio de Freitas
O então governador Rodrigo Garcia com o então governador eleito, Tarcísio de Freitas - Divulgação - 17.nov.22/Governo de SP

As emendas extras ou voluntárias, chamadas também de demandas parlamentares, são liberadas de forma desigual e conforme a conveniência do governo —ao contrário das emendas impositivas, que têm o mesmo valor para todos os deputados e são de pagamento obrigatório.

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A verba serve para atender a pedidos de deputados por repasses a prefeituras e entidades de suas regiões.

Em 2022, as emendas atenderam indicações de 85 políticos, incluindo deputados federais e o ex-senador José Serra (PSDB), numa média de R$ 15 milhões para cada um.

Em comparação, o valor da emenda impositiva para cada um dos 94 deputados estaduais no ano passado foi de R$ 6,6 milhões. No total, o Orçamento reservou R$ 620 milhões para esse gasto —e pouco mais que o dobro para as emendas extras.

Na Câmara dos Deputados, as emendas individuais somam R$ 17,6 milhões para cada congressista.

Segundo o governo informou à Assembleia Legislativa, R$ 624 milhões foram pagos até 15 de dezembro de 2022, e outros R$ 620 milhões ainda estavam em tramitação –R$ 31,5 milhões tiveram o pagamento impedido por alguma razão.

Deputados federais reclamam por não terem recebido o total liberado, e o governo Tarcísio diz que vai honrar os compromissos. Os dados obtidos indicam a liberação das emendas para processamento, mas não há uma forma transparente para acompanhar a execução delas.

Com poucas exceções, a legislação eleitoral proíbe o repasse de verbas voluntárias do governo para prefeituras nos três meses que antecedem a eleição —por isso as liberações diminuem drasticamente entre agosto e outubro.

Como revelou a Folha, a liberação de demandas parlamentares explodiu sob Doria em 2021, quando ele alimentava o projeto de ser candidato à Presidência. Rodrigo, que assumiu o governo em abril de 2022, manteve a prática em busca da reeleição, mas acabou derrotado no primeiro turno.

O partido do governador foi o mais beneficiado, com a liberação de R$ 304,8 milhões. Aliados de primeira hora, como a União Brasil e o PP, também figuraram entre as legendas mais contempladas.

Um indicativo do caráter político e eleitoral das liberações aparece na comparação entre dois partidos que, formalmente, integraram a coligação de Tarcísio, mas se comportaram de maneira diferente.

O Republicanos, que lançou Tarcísio, teve apenas R$ 30 milhões em emendas liberadas. Já um grupo de nove deputados do PL, que contrariou a legenda e apoiou o tucano no primeiro turno, teve R$ 86,5 milhões atendidos.

O grupo inclui o atual presidente da Assembleia, André do Prado (PL). Ele justifica as liberações dizendo que é presente nas cidades em que atua e que faz parte do papel do deputado encaminhar demandas, cabendo ao Executivo analisar a viabilidade dos pedidos.

O político com mais recursos liberados, somando R$ 74,9 milhões, é o ex-deputado federal Guilherme Mussi (PP), que não tentou a reeleição. Logo atrás, vêm os deputados federais Renata Abreu, presidente do Podemos, com R$ 60,3 milhões, e Fausto Pinato (PP), com R$ 50,8 milhões.

Abreu afirmou à Folha que, por recomendação do governo, concentrou em seu nome as indicações de emendas da bancada paulista do Podemos.

"Sendo legítima a indicação e fruto do trabalho parlamentar, a deputada federal encara como positiva a liberação das emendas, o que demonstra sua eficiência na representação dos municípios paulistas, apoiando efetivamente as realizações dos prefeitos e vereadores por todo o estado", afirmou sua assessoria.

Pinato disse à reportagem, por email, que as emendas permitem financiar ações de interesse público e atender necessidades das regiões. Ele ressaltou que divulga o uso dos recursos por meio de suas redes sociais, mas que nem todo o valor foi pago ainda.

A reportagem não conseguiu contato com Mussi. O ex-deputado fez 318 indicações diferentes, sendo a maior delas de R$ 1,5 milhão para a Prefeitura de Marília.

Já a presidente do Podemos chegou a indicar R$ 20 milhões para Guarulhos (Grande SP) e a mesma quantia para São Vicente (Baixada Santista) para atender a área da saúde.

O volume de liberações já chamou atenção do TCE (Tribunal de Contas do Estado), que apontou indícios de distribuição dos valores com caráter político e também a falta de controle em relação aos repasses.

No caso das emendas impositivas, o governo Tarcísio inaugurou um site que detalha o deputado responsável e o grau de execução dos gastos.

Já as demandas parlamentares foram enviadas à reportagem após vários meses de pedidos e recursos via Lei de Acesso à Informação –em anos anteriores, o governo chegou a fornecer os dados em milhares de folhas de papel.

ESPECIALISTAS COBRAM TRANSPARÊNCIA E CRITÉRIOS

A cientista política da FGV Lara Mesquita afirma que é prerrogativa do Executivo, não do Legislativo, executar o Orçamento e diz ser natural que a base de apoio do governante acesse mais recursos que a oposição —mas ressalta que é preciso haver transparência e critérios claros nessa distribuição.

Questionada sobre a derrota de Rodrigo e de políticos contemplados com as emendas, Mesquita afirma que pesquisas indicam não haver relação direta entre alocação de recursos e resultado eleitoral.

"Por outro lado, esses recursos podem ajudar a mobilizar prefeitos, vereadores e outros cabos eleitorais locais", diz.

Do ponto da igualdade de condições entre os candidatos, a advogada eleitoral e membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político) Carla Nicolini afirma que há indícios de abuso de poder e desvio de finalidade.

"Não se pode orientar os atos administração para atender objetivos pessoais e para favorecer um grupo político."

Segundo Nicolini, a distribuição das emendas extras não pode mais ser enquadrada pela Justiça Eleitoral, pois o prazo para abertura de ação passou. Mas o Ministério Público ainda poderia apurar se houve improbidade administrativa.

RODRIGO DIZ QUE LIBERAÇÕES SÃO TRANSPARENTES E ATENDEM A POPULAÇÃO

A assessoria de Rodrigo Garcia afirmou que "todas as liberações de emendas parlamentares são feitas com total transparência, publicadas autorizações, valores e destinação no Diário Oficial do Estado, atendendo demandas dos municípios e instituições em prol de toda população, independente de partidos".

"Em ano eleitoral, a lei permite a liberação de recursos até três meses antes do pleito. A gestão respeitou o calendário eleitoral. Em São Paulo, no Brasil ou qualquer democracia, os eleitos governam com os seus aliados e suas coalizões. À oposição, a todos os eleitos e à sociedade cabe fiscalizar", completa a nota.

O ex-governador João Doria não se manifestou.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Lula é de esquerda?, Hélio Schwartsman, FSP

 Petistas e simpatizantes estão furibundos com Lula por causa da indicação de Cristiano Zanin Martins, que vem proferindo votos de perfil conservador em suas primeiras participações no STF.

A inexistência de critérios racionais e coerentes para distinguir esquerda de direita faz com que recorramos a uma espécie de algoritmo que combina autodeclaração, genealogia e concordância com algumas bandeiras, como abortodescriminalização das drogas, ações afirmativas e defesa do meio ambiente, que julgamos representativas o suficiente para funcionar como um teste ideológico.

O ministro do STF Cristiano Zanin e sua esposa, Valeska Martins, recebem os cumprimentos do presidente Lula e da primeira-dama, Janja, após a cerimônia de posse no Supremo - Pedro Ladeira/Folhapress - Folhapress


Podemos dizer que Lula é de esquerda porque é assim que ele costuma se classificar. Ele também marca coluna da esquerda pelo pedigree. O PT surgiu na tradição dos movimentos de esquerda, com um pé no sindicalismo, outro no da intelectualidade universitária paulista e um terceiro no comunitarismo da Igreja Católica. Mas a adesão do atual presidente da República às grandes pautas da esquerda, quando ocorreu, nunca foi das mais entusiasmadas.

Em relação ao aborto, por exemplo, ele mantém uma posição para lá de ambígua, ora dizendo que é contra, ora afirmando que a questão deve ser tratada como problema de saúde pública e não penal. Não me lembro (nem encontrei no Google) uma declaração dele na linha de que as mulheres devem ser soberanas para decidir se vão ou não em frente com uma gravidez.

A indefinição é em parte reflexo do sistema eleitoral, pelo qual candidatos a cargos majoritários evitam meter-se em polêmicas que possam alienar o voto de parcelas expressivas da população. Seja como for, ao indicar Zanin, valorizando mais o critério da fidelidade pessoal do que o do perfil ideológico, Lula mostrou que está mais preocupado em angariar blindagem para si próprio do que em influenciar os rumos da interpretação constitucional pelas próximas décadas. É uma decisão humana, ainda que não muito "de esquerda".