quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Hélio Schwartsman - O que fazer com os militares?, FSP

 A última coisa de que Lula precisa agora é uma crise com os militares. Meu receio é que, com base nesse raciocínio político que é essencialmente correto, o governo deixe de propor e tomar medidas necessárias para o aprimoramento institucional do país.

Por mais que os generais queiram circunscrever o noticiário negativo em que as Forças Armadas se viram enredadas nos últimos anos a iniciativas isoladas de oficiais que não representam a instituição, penso que o buraco é mais embaixo. Sim, temos casos como o do tenente-coronel Mauro Cid, que se envolveram até a medula no que parecem ser crimes e dificilmente escaparão a uma dura punição determinada pela Justiça. Só que os flertes dos militares com o golpismo e as dúvidas sobre sua lisura foram lamentavelmente muito mais generalizados e institucionalizados.

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Principal ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o tenente-coronel Mauro Cid, fardado, ficou em silêncio em depoimento à CPI do 8 de Janeiro, em Brasília - Pedro Ladeira - 11.jul.23/Folhapress - Folhapress

O Ministério da Defesa foi ator central na pantomima bolsonarista que tentou minar a credibilidade do sistema eleitoral. Um general pôs blindados para impedir policiais de encerrar um acampamento golpista.

E o leitor há de se lembrar das listas de compras dos militares que incluíam doses cavalares de uísque, picanha e Viagra. E essa, vale frisar, é uma lista bem resumida.

Parece óbvio que a resposta do governo, e, portanto, do país, a essa série de problemas não pode ser aumento nos soldos e mais verbas orçamentárias para projetos militares, como quer o comandante do Exército. O que a normalização institucional exige são investigações cuidadosas, sem perseguição, mas também sem leniência, e uma ampla revisão do papel dos militares na vida nacional. Penso em mudanças nos currículos das academias, num redimensionamento do próprio tamanho das Forças e na reformulação do artigo 142 da Constituição, para deixar claro de uma vez por todas que militares não escolhem a qual Poder devem obedecer. Se houver conflito entre os Poderes, cabe ao STF e a ninguém mais dirimi-lo.

O que fazer com os militares?, Hélio Schwartsman, FSP

 A última coisa de que Lula precisa agora é uma crise com os militares. Meu receio é que, com base nesse raciocínio político que é essencialmente correto, o governo deixe de propor e tomar medidas necessárias para o aprimoramento institucional do país.

Por mais que os generais queiram circunscrever o noticiário negativo em que as Forças Armadas se viram enredadas nos últimos anos a iniciativas isoladas de oficiais que não representam a instituição, penso que o buraco é mais embaixo. Sim, temos casos como o do tenente-coronel Mauro Cid, que se envolveram até a medula no que parecem ser crimes e dificilmente escaparão a uma dura punição determinada pela Justiça. Só que os flertes dos militares com o golpismo e as dúvidas sobre sua lisura foram lamentavelmente muito mais generalizados e institucionalizados.

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Principal ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o tenente-coronel Mauro Cid, fardado, ficou em silêncio em depoimento à CPI do 8 de Janeiro, em Brasília - Pedro Ladeira - 11.jul.23/Folhapress - Folhapress

O Ministério da Defesa foi ator central na pantomima bolsonarista que tentou minar a credibilidade do sistema eleitoral. Um general pôs blindados para impedir policiais de encerrar um acampamento golpista.

E o leitor há de se lembrar das listas de compras dos militares que incluíam doses cavalares de uísque, picanha e Viagra. E essa, vale frisar, é uma lista bem resumida.

Parece óbvio que a resposta do governo, e, portanto, do país, a essa série de problemas não pode ser aumento nos soldos e mais verbas orçamentárias para projetos militares, como quer o comandante do Exército. O que a normalização institucional exige são investigações cuidadosas, sem perseguição, mas também sem leniência, e uma ampla revisão do papel dos militares na vida nacional. Penso em mudanças nos currículos das academias, num redimensionamento do próprio tamanho das Forças e na reformulação do artigo 142 da Constituição, para deixar claro de uma vez por todas que militares não escolhem a qual Poder devem obedecer. Se houver conflito entre os Poderes, cabe ao STF e a ninguém mais dirimi-lo.

Marta diz que filiação ao PL ‘não está no radar’ e Valdemar vê dificuldades para vencer Boulos, OESP

 O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, sabe muito bem que Marta Suplicy não vai se filiar ao partido de Jair Bolsonaro para ser vice na chapa do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), candidato à reeleição. Mesmo assim, Valdemar “lançou” o nome da secretária de Relações Internacionais da Prefeitura na praça como parte de uma estratégia política.

As adiantadas investigações da Polícia Federal contra Bolsonaro fizeram o mandachuva do PL acelerar as conversas porque tudo indica que o ex-presidente não será o cabo eleitoral idealizado por ele para 2024, muito menos na capital paulista.

Marta Suplicy tem seu nome cotado para a chapa de Ricardo Nunes à reeleição: "Estou quieta no meu canto"
Marta Suplicy tem seu nome cotado para a chapa de Ricardo Nunes à reeleição: "Estou quieta no meu canto" Foto: IARA MORSELLI / ESTADAO CONTEUDO

Se Bolsonaro não estiver preso após o escândalo da venda de joias da Arábia Saudita, que envolveu até militares do governo, é provável que tenha de ser escondido na campanha por se tratar de um padrinho tóxico para Nunes.

Uma recente pesquisa apresentada por Duda Lima – o marqueteiro de Bolsonaro que foi citado pelo hacker Walter Delgatti e hoje trabalha como consultor do prefeito de São Paulo – mostra que o apoio do ex-presidente a Nunes resulta em saldo negativo.

O levantamento revela que, quando Bolsonaro aparece ao lado do prefeito, tira dele dois votos e dá apenas um.

“Não sou bolsonarista. Sou ricardista”, costuma dizer Nunes, com uma frase ensaiada. Ainda desconhecido, no entanto, o prefeito precisa do tempo de TV e da estrutura do PL na campanha.

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Não foi à toa, porém, que o herdeiro de Bruno Covas “colou” em Tarcísio de Freitas: o respaldo do governador assegura a ele dois votos e subtrai um. A pesquisa mostra, ainda, que, se a eleição fosse hoje, o aval do presidente Lula a Nunes tanto o faria perder como angariar votos.

Nesse cenário, o aceno de Valdemar a Marta indica que o PL tenta atrair uma ala do centro que não vota em Bolsonaro, mas também não quer Guilherme Boulos, do PSOL. O principal desafiante de Nunes conta com o apoio de Lula e, oficialmente, do PT, apesar das divergências internas. Até agora, outras pré-candidaturas, como a de Tabata Amaral (PSB) e Kim Kataguiri (União Brasil), não se mostram viáveis.

Ex-prefeita de São Paulo, Marta afirma que, no momento, está “exclusivamente” dedicada a seu trabalho à frente da secretaria. Filiada ao PT durante 33 anos, ela rompeu com a sigla após ter sido ministra em duas ocasiões e votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Passou pelo MDB e Solidariedade e há quase três anos está sem partido. Na campanha de 2022, Marta se reaproximou de Lula e chamou Bolsonaro de “psicopata”.

“Participar do processo eleitoral não está no meu radar e por isso não cogito uma nova filiação partidária”, disse ela à coluna. Mesmo assim, a ex-prefeita tem recebido apelos para mudar de ideia e ser candidata à sucessão de Nunes.

No domingo, por exemplo, piscou no seu celular mensagem do marqueteiro Augusto Fonseca, que assinou sua vitoriosa campanha de 2000. No ano passado, Fonseca começou a produzir os programas de TV de Lula, mas saiu após “fogo amigo” no PT.

“Tenho acompanhado o seu trabalho e acredito que o momento é muito favorável”, escreveu Fonseca para Marta. “A lembrança dos seus programas sociais, os CEUs, o Bilhete Único, o Vai e Volta, enfim, são provas da sua capacidade”, completou ele, ao destacar que os mais necessitados precisam hoje de “um novo horizonte”.

Em 2020, quatro anos após perder a eleição para a Prefeitura pelo MDB, Marta quase foi vice de Bruno Covas. “Gostaria muito de ter uma conversa com você para pensarmos juntos essa pré-candidatura”, propôs Fonseca, no domingo.

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À coluna, a secretária de Relações Internacionais disse não estar interessada nisso. “Estou quieta no meu canto”, desconversou. Mas deixou uma porta aberta ao observar que as chapas serão definidas na última hora, às vésperas das convenções. “Diante de tantas notícias bizarras e inimagináveis, e de tanta coisa acontecendo, muita água irá rolar embaixo dessa ponte”, resumiu.

Valdemar, por sua vez, não esconde a preocupação com a disputa na capital paulista, classificada no mundo político como “a joia da coroa”. O PL quer ter o vice na chapa de Nunes, mas agora já admite até mesmo negociar a vaga com outros partidos, na aliança com o Centrão. E Valdemar indica que ele, não Bolsonaro, dará as cartas.

“Essa disputa não é fácil e precisamos de um vice que agregue. Marta se afastou da esquerda e tem votos”, insistiu o presidente do PL ao falar sobre o perfil almejado para a dobradinha. “A capital é de centro e temos de tomar cuidado. Se cometermos qualquer erro, a coisa escapa.”

Antes de encerrar, Valdemar lembrou uma frase do vice-presidente José Alencar, morto em 2011: “São Paulo é um lugar em que, se a gente atravessar o samba, perde a eleição.”

O problema é que hoje, na política, os atravessadores são diferentes. Agora, eles também vendem joias do acervo presidencial...