domingo, 20 de agosto de 2023

Ruy Castro Pérolas nos candelabros, FSP

 O fenômeno não é novo, mas continua a me intrigar: por que astros de Hollywood, cantores sertanejos, jogadores de futebol, lutadores de MMA, deputados bolsonaristas, BBBs aposentados ou na ativa, influencers, hackers, haters, stalkers, geeks, gamers, trolls, nerds e outros modernos profissionais têm dentes tão brancos? O que faz com que, captados pelas câmeras, seus teclados dentais relampejem no vídeo e iluminem o cenário como pérolas pendendo dos candelabros? Produzem um sorriso tão branco que, no escuro, lembram aquele gato de "Alice no País das Maravilhas".

Por que nós, profissionais de áreas mais tradicionais, não fomos agraciados com tal alvura? Fui aos canais competentes em busca da resposta e descobri que os relampejantes adotam várias maneiras de branquear os dentes: usar pastas especiais, escovar com bicarbonato, enxaguar com água oxigenada, pincelar com caneta gel, aplicar fitas para clareamento, esfregar casca de banana.

Infelizmente, há algo nos dentes que faz com que esses ingratos teimem em escurecer por conta própria, obrigando os usuários de tais métodos a se absterem de vinho tinto, café, cerveja, Coca-Cola, chocolate, molho de soja, curry, ketchup, dendê, açafrão e demais corantes. Daí a preferência do pessoal por um novo método: as lentes de contato dentais.

São mais ou menos como as lentes de contato para os olhos, com a diferença de que, com estas, você pode morder maçãs, cenouras e torresmos sem risco. Com as lentes dentais, não. Enfrentar uma rapadura ou um rolete de cana, nem pensar. Nem mesmo roer as unhas. E são contraindicadas também para quem sofre de bruxismo, aquele hábito de, com ou sem motivo justo, ranger os dentes enquanto dorme.

Para mim, no entanto, o grande problema de superbranquear os dentes é que isso nos priva de um dos prazeres da vida: diante de uma gafe cometida por alguém, dar um sorriso amarelo.

Medicina negacionista, Lygia Maria, FSP

 

É espantosa —para não dizer vergonhosa— a nota divulgada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) contra a descriminalização da maconha no Brasil.
O texto começa dizendo que a planta "causa dependência gravíssima". Mas inúmeras pesquisas mostram que a cannabis é uma das drogas que menos predispõem ao vício.

Artigo da própria ABP, de 2002, reproduz dados dessas pesquisas e aponta que o risco de usuários de maconha desenvolverem dependência é de 10%, enquanto o álcool tem índice de 15%, opioides, 23%, e tabaco, 32%. Se, para o CFM, a dependência em maconha é "gravíssima", não sei qual adjetivo a entidade usaria para a descrever heroína ou nicotina —essa última, como se sabe, é legalizada e vendida na padaria da esquina, assim como álcool.

Processo de fabricação dos produtos à base de cannabis da Abrace-Esperança, associação com autorização judicial para o cultivo e extração do canabidiol
Processo de fabricação dos produtos à base de cannabis da Abrace-Esperança, associação com autorização judicial para o cultivo e extração do canabidiol - Adriano Vizoni-26.set.2019/Folhapress

A nota afirma ainda que a descriminalização "amplia o poder do tráfico, contribuindo para maiores índices de violência". Contudo, em "Análise econômica da proibição das drogas", Mark Thornton revela, a partir de revisão de pesquisas, que a legalização mina o tráfico, já que baixa preços, abre concorrência com produtos de melhor qualidade e retira as armas das negociações.

A experiência empírica da Lei Seca, que vigorou nos EUA entre 1920 e 1933, mostra que a criminalidade explodiu durante a proibição do álcool e diminuiu consideravelmente com a legalização. Mesmo assim, a nota nega a realidade: "não há experiência histórica ou evidência científica que mostre melhoria com a descriminalização de drogas ilícitas".

Segundo o CFM e a ABP, só países que agiram com maior rigor contra as drogas conseguiram diminuir consumo, dependência e violência. Pasmem: o combate ao tabagismo é citado como exemplo.
Ora, mas o tabaco nunca foi proibido. A comparação não faz sentido; ou melhor, até faz: mostra que a legalização é a melhor política pública para lidar com a maconha, ao regulamentar produção e consumo e retirar o tráfico da equação.


Delírios do ancapismo, Reinaldo José Lopes, FSP

 Antigamente eram os brasileiros que costumavam refilmar tramas de sucesso da Argentina, como vimos com o sucesso duplo da novelinha "Chiquititas" nos anos 1990 e 2010 (meus filhos assistiam a esse negócio em looping infinito e, se os seus não o faziam, erga as mãos pro céu). Pode ser que agora a ordem dos fatores se inverta, e que a República platina faça um "remake" da nossa novela "Eleja um maluco que fala um palavrão a cada frase para presidente".

O destemperado em questão, Javier Milei, afirma ser "anarcocapitalista". O horizonte utópico do pessoal que segue essa ideologia é a abolição total do Estado e sua substituição por uma economia de mercado desreguladíssima, na qual educação, saúde, segurança, Justiça e o que mais você imaginar funcionarão com base em acordos privados entre indivíduos.

Javier Milei, candidato a presidente da Argentina, fala num púlpito
O horizonte utópico de Javier Milei é a abolição total do Estado e sua substituição por uma economia de mercado desreguladíssima - Luis Robayo - 13.ago.23/AFP

Inspirando-me na "sinceridade" de Milei, devo dizer que o sujeito que acredita mesmo nisso 1) é do tipo que come cocô de colherinha e acha que é chocolate ou 2) ignora completamente como funciona a natureza humana (ou de qualquer outro animal social) e como nossas sociedades evoluíram desde que o Homo sapiens surgiu.

Como esta ainda é uma coluna de ciência, falemos do motivo 2. Nas últimas décadas, muitos estudos destrincharam bastante bem como a cooperação pacífica entre indivíduos não aparentados pode emergir em espécies sociais como a nossa. Os principais mecanismos parecem ser a reciprocidade (o famoso "uma mão lava a outra": se eu te trouxer uma coxa da capivara que eu cacei, você me dá o cesto que você trançou) e a reputação (quem adquire fama de gente fina ganha um "bônus de confiança" inicial nas interações, ampliando suas chances de granjear a boa vontade de quem ainda não o conhece, mas já ouviu falar dele).

Esses princípios básicos parecem dar razão aos anarcocapitalistas (ou ancaps, como também são chamados). Mas repare que eles só funcionam em contextos nos quais há contato próximo direto ou indireto entre os indivíduos. Se você nunca teve a chance de estabelecer relações de reciprocidade com o outro sujeito, nem teve a chance de ouvir falar da reputação dele, como é que as coisas se ajeitam?

Pois é —não se ajeitam. O ideal ancap até poderia ser imaginado em pequenos grupos com algumas centenas de caçadores-coletores (ainda que de capitalistas eles não tenham nada), mas se esfarela diante de grandes populações. E não apenas porque fica muito difícil cooperar, mas porque se torna impossível impedir que grupos nada cooperativos, vindos de fora, façam a sociedade de gato e sapato.

É isso, claro, que os delírios ancaps, que se regozijam ao imaginar um comércio de armas livre, leve e solto para todos, com milícias privadas substituindo as Forças Armadas e a polícia, convenientemente ignoram. Sem uma autoridade superior que detenha a última palavra e o monopólio do uso da força, não há rigorosamente nada que impeça um grupo bem armado de assumir o controle de outro pela força.

Aliás, o paradoxo aqui é justamente esse: foi assim que os Estados surgiram. A Grécia caótica depois do fim da Idade do Bronze, a Europa Ocidental fragmentada após o fim do Império Romano e tantos outros lugares não passavam de variantes do "Ancapistão" primevo. As milícias mais organizadas simplesmente impuseram e/ou negociaram seu predomínio.

A grande questão é que, aos trancos e barrancos, de maneira contraintuitiva e frequentemente não intencional, os Estados que brotaram do Ancapistão primordial impuseram a ordem necessária para que a maioria dos seres humanos atuais viva no mundo proporcionalmente menos violento e mais próspero de todos os tempos.

Negar essa conquista só pela raivinha de não querer pagar imposto é uma marca de ignorância ou má-fé tão grande quanto negar a crise climática —coisa que, sem surpresa alguma, Milei também faz. Que Deus tenha piedade da nação argentina.