sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Bahia prevê R$ 150 milhões em ressarcimento à Ford por fábrica alvo da BYD, FSP

 Alberto Alerigi Jr.

SÃO PAULO | REUTERS

O governo da Bahia tem uma avaliação preliminar de que o valor a ser ressarcido à Ford pela retomada da fábrica de veículos alvo do interesse da chinesa BYD em Camaçari gira em torno de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões, afirmou nesta quinta-feira o governador Jerônimo Rodrigues a jornalistas.

Ford divulgou na semana passada um acordo para reverter a propriedade de seu complexo industrial em Camaçari para o estado da Bahia, afirmando que o processo ocorrerá mediante o ressarcimento de investimentos realizados pela montadora na área.

Na ocasião, a montadora norte-americana não divulgou o valor que seria cobrado do governo baiano pela devolução da unidade. Desde pelo menos o ano passado, Ford, BYD e governo da Bahia têm travado discussões paralelas sobre a fábrica fechada pela montadora norte-americana em Camaçari em 2021.

Visão geral da fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia
Fábrica da Ford em Camaçari pode ser comprada pelo governo da Bahia para repassar para a BYD - Rafael Martins - 07.jan.2022 / Folhapress

A BYD tinha expectativa de anunciar já no final do ano passado um acordo definitivo para a instalação de um complexo fabril formado inicialmente por uma fábrica de carros elétricos, que seria ampliado para a inclusão de linhas de produção de ônibus e caminhões elétricos e também para montagem de baterias para os veículos.

"Estamos na fase de fazer uma avaliação do valor que eles investiram para a gente poder ressarcir (à Ford) e já ver com a BYD qual a condição de entrega (do complexo de Camaçari)", afirmou o governador. Segundo ele, o terreno ocupado pela Ford pertence ao estado. A Caixa Econômica Federal foi contratada pelo governo da Bahia para realizar a avaliação do ressarcimento, disse o governador.

"Foi um valor que a gente ouviu sobre a negociação (entre Ford e BYD). Então, para nós, vai ser um parâmetro", explicou o governador. Procurada no Brasil, a Ford não pôde comentar o assunto de imediato.

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Rodrigues afirmou que a expectativa é que a BYD possa dar o pontapé inicial a investimentos da ordem de R$ 3 bilhões no estado em outubro, quando o presidente global da marca, Wang Chuanfu, virá à Bahia para o lançamento da pedra fundamental da fábrica.

"O compromisso que ouvimos da BYD é esse", disse Rodrigues, acrescentando que a produção poderia começar entre outubro e novembro do próximo ano. "Vamos tentar fazer um esforço para que eles possam antecipar o prazo de início da produção."

ESTADO BUSCA PRORROGAR INCENTIVOS

Paralelamente, o governo da Bahia está buscando junto a outros estados do Nordeste e Centro-Oeste a prorrogação dos incentivos fiscais concedidos ao setor automotivo nessas regiões, de 2025 para 2032, algo que por ora não está contemplado na reforma tributária.

"Não estamos olhando só para a BYD, é claro que a BYD já está bem encaminhada, mas gostaríamos que esta reforma tributária pudesse criar um ambiente favorável para a negociação. Estamos dialogando com nossa bancada, com o Partido dos Trabalhadores, com o governo federal, para ver com os senadores, para tentar nos ajudar", afirmou Rodrigues.

"Se não for 2032, pelo menos que a gente tenha um fôlego para quem venha a investir agora", disse o governador, sugerindo a possibilidade de prorrogar o regime de benefícios fiscais para até 2025 ou 2027.

"O que a BYD colocou para a gente, a gente está atendendo", disse o governador, citando ainda discussões para que o porto de Aratu, que fica próximo ao polo industrial de Camaçari, possa ser utilizado também pela montadora chinesa para seus processos de importação de insumos e exportação dos veículos finalizados.

Ex-ministro das Cidades e conselheiro especial da BYD no Brasil, Alexandre Baldy afirmou que se não for possível renovar os benefícios fiscais por um período mais longo "poderá haver surpresas" quanto ao valor a ser investido pela empresa na Bahia.

Questionado sobre o interesse da empresa no Brasil, especialmente em um momento em que o mercado automotivo tem sofrido com demanda reduzida e juros elevados que dificultam as vendas, Baldy afirmou que a companhia considera o país como seu principal foco de investimento fora da China.

"Queremos o Brasil como um hub de produção na América do Sul de veículos elétricos e híbridos", afirmou, comentando que apesar das complexidades do Brasil, a empresa segue interessada em investir no país.

PROMESSA DE FÁBRICA PARA PRODUZIR 150 MIL CARROS POR ANO

Em outubro passado, a BYD e o governo da Bahia assinaram um memorando de entendimento para um investimento de R$ 3 bilhões no estado em cinco anos. A expectativa era de que o acordo fosse concluído até dezembro do mesmo ano, mas até hoje a empresa não definiu o local oficialmente.

Em julho deste ano, a empresa anunciou planos de construir um complexo industrial em Camaçari durante um evento na Bahia e disse que a instalação vai abrigar uma fábrica de carros elétricos com o objetivo de ter uma capacidade de produção de até 150 mil unidades por ano após futuras expansões.

No mesmo mês, a empresa promoveu um evento na Bahia afirmando que vai erguer um complexo industrial em Camaçari (BA) e que a instalação vai abrigar uma fábrica de carros elétricos com objetivo de ter capacidade de produção de até 150 mil unidades por ano após expansões.

Uma unidade de montagem de baterias e outra de chassis de ônibus e caminhões também serão instaladas no complexo, segundo a companhia, que atualmente concentra operações no Brasil em Campinas (SP) e em Manaus.

Fabricante de carros, caminhões e ônibus elétricos, além de baterias para outras montadoras e produtos como módulos fotovoltaicos, a BYD hoje disputa com a norte-americana Tesla a liderança global na produção de carros elétricos.

No início do mês, a BYD anunciou vendas de 262.161 veículos em julho. O volume é maior que o licenciamento de veículos de todas as montadoras no Brasil, que no mês passado emplacaram 225,6 mil unidades no país.

No acumulado do ano, a montadora chinesa teve vendas de 1,5 milhão de veículos, mais que os licenciamentos de todas as fabricantes de veículos do Brasil no mesmo período -- de 1,22 milhão de unidades, segundo dados da associação do setor, Anfavea.

Aterros sanitários são soluções verdes para a transição energética do Brasil, EPBR

 O Brasil possui 210 milhões de pessoas e cada uma produz, em média, 343 kg de lixo/ano, o que totaliza algo em torno de 80 milhões de toneladas de resíduos. Esses são os dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) que mostram o potencial competitivo do país para a produção de biometano oriundo dos aterros sanitários, figurando assim como um dos protagonistas mundiais no setor.

E foi esta oportunidade que a Marquise Ambiental vislumbrou dentro do atual contexto do crescimento da energia limpa no Brasil e no mundo. A companhia, que é a terceira maior do país neste setor e atende uma população estimada de 21 milhões de pessoas, coleta uma média de 13 milhões de toneladas/ano de resíduos e realiza o tratamento de mais de 3,6 milhões de toneladas/ano de resíduos.

“Para conseguir transformar lixo em biometano é preciso ter soluções inteligentes nos aterros. Hoje, as tecnologias estão totalmente dominadas para isso e temos um case de sucesso para comprovar. A GNR Fortaleza, que fica localizada no aterro metropolitano de Fortaleza (CE) e é fruto de uma parceria da Marquise Ambiental com a MDC, é a primeira planta de biometano do Norte e Nordeste e a segunda maior do país. Já produziu, em 5 anos de operação, mais de 132 milhões de metros cúbicos (m³) de biometano, o que representa mais de 306 milhões de m³ de biogás, volume suficiente para suprir o consumo residencial de uma cidade inteira com 2,5 milhões de habitantes por um ano ou abastecer a frota brasileira de 1,6 milhões de veículos GNV por duas semanas”, explica Hugo Nery, diretor-presidente da Marquise Ambiental.

Nos aterros sanitários, os resíduos sólidos geram, naturalmente, metano e gás carbônico, dois gases de efeito estufa (GEE) que, sem tratamento, são lançados na atmosfera e contribuem para o aquecimento global. O metano, por exemplo, é 28 vezes mais nocivo ao meio ambiente do que o CO2 (dióxido de carbono).

A operação da GNR Fortaleza evita que, todos os anos, aproximadamente 610 mil toneladas de gases de efeito estufa sejam lançadas na atmosfera.

Aterros sanitários se apresentam como soluções verdes para a transição energética do Brasil. Na imagem: Vista aérea de planta da GNR 1, na região metropolitana de Fortaleza, no Ceará (Foto Divulgação Marquise Ambiental)
Planta da GNR 1 (Foto: Divulgação Marquise Ambiental)

O biogás pode ser produzido por meio da agropecuária, agroindústria e saneamento, neste último, estão os aterros sanitários. Os atuais números do setor no país, segundo o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás) mostram o panorama:

  • Atualmente, o Brasil conta com 811 plantas;
  • 755 estão em operação;
  • 64 são a partir de aterros sanitários – destas 50 produzem energia elétrica e 14 produzem biometano;
  • As 14 plantas que produzem biometano em aterros sanitários são responsáveis por 74% de todo o biogás produzido no país atualmente.

Outro dado interessante é que, das plantas que produzem biometano em aterros, apenas seis estão autorizadas pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). A GNR Fortaleza é a única do país autorizada a injetar sua produção de biometano diretamente na rede de gás natural, que é distribuído pela concessionária Cegás, no Ceará.

“Os números falam por si. Acreditamos que este é o futuro, que passa, em especial por uma mudança de cultura. Por exemplo, se tivéssemos uma separação adequada na origem, certamente esta produção seria ainda mais expressiva. A transição energética é uma mudança de conceito que envolve não só a geração de energia, mas também como a gente lida com o consumo e o reaproveitamento dos resíduos”, finaliza Hugo Nery

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Ruy Castro - José Murilo, FSP

 Quando a Academia Brasileira de Letras perde um de seus membros, a sessão seguinte ao falecimento se dedica a lembrá-lo com relatos a seu respeito como intelectual e como pessoa. Daí ser chamada Sessão da Saudade. Desde que passei a pertencer à instituição, em março último, o historiador José Murilo de Carvalho, que nos deixou neste domingo (13), é o primeiro confrade que se vai. Mas nossos poucos meses de convívio foram suficientes para que eu compreendesse a razão de chamá-la Sessão da Saudade.

Não é fácil descrever a sensação de se ver privado da companhia de alguém que esperávamos ter ao nosso lado, todas as quintas-feiras, por muitos anos. Sendo ele José Murilo, o vazio é ainda maior. Já não o verei à minha direita, a dois confrades de distância, e, de meu ângulo na bancada, aquele que eu tinha quase de frente. A imagem do homem tímido e modesto que, de posse da palavra, esbanjava conhecimento era marcante.

Em seus livros, José Murilo dissecou com paixão e rigor as engrenagens do Império e da República: o egoísmo das elites, a alienação forçada das massas, o sufocante "poder moderador" dos militares, os obstáculos à cidadania. O estudo da história implica, quase sempre, uma visão otimista do futuro, uma esperança de que os problemas, velhos de séculos, um dia sejam resolvidos.

Mas, já de há alguns anos, José Murilo estava desencantado com o país. "Haverá saída para a situação em que vivemos?", ele perguntou, em 2019, em entrevista ao jornalista e também acadêmico Zuenir Ventura. "Acho muito difícil, com uma marginalidade tão grande, tanta exclusão social, milhões de desempregados, subempregados ou não empregáveis por falta de educação. Não vejo como incorporá-los ao mercado com um crescimento de 1% ou 2% ao ano."

Zé Murilo se foi, mas o Brasil fará melhor se levar em conta o alerta que seu grande historiador nos deixou.