domingo, 27 de junho de 2021

Uma em cada quatro crianças apresentou regressão de comportamento durante a pandemia, OESP

 De repente, o mundo de Benício, de 2 anos e meio, mudou. As visitas à casa de parentes e de outros bebês deram lugar ao único passeio possível: levar a mãe ao supermercado, de carro. O menino parou de falar e voltou a usar mamadeira, enquanto os pais, com medo do vírus e do desemprego, tentavam lidar com o mundo assustador que batia à porta. Como Benício, não foi pequeno o número de crianças que, na pandemia, voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas: chorar mais, falar menos, fazer xixi na roupa. 

Regressões no comportamento são sinais de que a criança está sob estresse e é uma forma que elas encontram de pedir aconchego. Estudo da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) indicou que 27% das crianças de 0 a 3 anos voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas na pandemia, segundo a percepção dos pais. A pesquisa, divulgada este mês, indica que regressões geralmente são transitórias, mas devem ser observadas com cuidado pelas famílias. 

Comportamento
Benício voltou a comer e já se arrisca mais na fala após retorno à escola  Foto: ALEX SILVA/ESTADAO

“Notei que ele deixou de tentar falar. Era um bebê e tentava se comunicar através da fala, mas começou a só apontar”, conta a mãe de Benício, a arte educadora Heloisa Trigo, de 41 anos. Junto com a regressão na fala, o menino também voltou algumas casas na alimentação: se recusou a comer alimentos sólidos e reativou a mamadeira. “Quando tentei fazer voltar a comer, organizar a rotina, era como se eu não o acessasse mais.”

A pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal ouviu 1.036 famílias de todas as classes sociais sobre as repercussões da pandemia na rotina de crianças de 0 a 3 anos. Embora a ciência já saiba que as crianças pequenas são menos atingidas de forma grave pela covid-19, pesquisadores em todo o mundo ainda tentam estimar os impactos emocionais e cognitivos do longo tempo de isolamento decorrente da pandemia e do estresse dentro das famílias.

Falta de contato com outras pessoas, rupturas na rotina, medo e angústia dos pais estão por trás dos comportamentos regressivos nas crianças. “Parte das regressões está relacionada a não conseguir manter o ambiente dentro de casa em função de variáveis externas que transbordam”, explica Mariana Luz, CEO da FMCSV. Em meio a uma situação sem precedentes, todas as famílias enfrentaram dificuldades, mas, segundo o estudo, pais da classe D se veem mais sobrecarregados e tristes. 

“Foram muitos lutos, a ameaça do desemprego, de não conseguir prover o sustento. Depois a falta de esperança, sem ver uma luz no fim do túnel”, lembra Heloisa. O marido perdeu parentes e o emprego. Trabalhando de casa, Heloisa se sobrecarregou com rituais de limpeza que não acabavam mais para tentar se defender do vírus. “Benício também sinalizou que estava difícil para ele.” De volta à escola, o espaço ekoa, na zona oeste de São Paulo, o menino voltou a comer, começa a se arriscar mais na fala e a mãe vê avanços. 

Na casa de Tatiane Zanholo, de 36 anos, o vírus assustou o casal de dentistas, que teve medo de voltar ao consultório. Com duas crianças pequenas e sem ajuda de parentes ou babá, as tarefas se avolumavam. Murilo, hoje com 4 anos, respondeu com uma gagueira que nunca havia manifestado, piora na dermatite e um “choro interminável”, nas palavras da mãe. “No começo não sentia tanto, mas fomos ficando cansados. De repente, ele não dormia, acordava várias vezes, chorava demais e começou a ficar birrento.”

Embora aflijam os pais, as regressões não devem ser vistas com desespero nem são sinais de que a criança terá defasagens no desenvolvimento. Muito mais do que adultos, crianças novas têm maior plasticidade cerebral - ou seja, se recuperam rapidamente quando são estimuladas e se sentem seguras. As mães dos “bebês da pandemia” comprovam que as mudanças não demoram. 

“Em uma semana virou outra criança”, diz a dentista Vanessa Junqueira, de 41 anos, sobre a ida do filho Rhian, de 1 ano e 4 meses, à escola após o isolamento. O menino passou os 11 primeiros meses de vida sem contato externo. Qualquer um que não fosse mãe ou pai parecia um monstro para ele e Rhian não parava de chorar. “Só queria ficar comigo o tempo todo, muito apegado. Agora, está bem mais sociável.” De volta ao Colégio Rio Branco, em Cotia, Murilo também melhorou o choro e o sono. 

Para Lino de Macedo, psicólogo e integrante do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância, regressões ou atrasos no desenvolvimento devem ser observados pela família. Mais do que um problema centrado na criança, esses sinais revelam dificuldades das relações na pandemia. O acolhimento com afeto e estímulos positivos, como as brincadeiras, criam segurança e favorecem o desenvolvimento. “Em boa parte dos casos, um pai mais próximo, amoroso, paciente e receptivo ajuda.” Se as regressões são duradouras ou há atrasos na fala, as famílias devem procurar um especialista, que pode ser o pediatra da criança.   

E, quando se fala em brincadeiras, é preciso superar a ideia de que apenas brinquedos de loja cumprem o papel. Usar sucatas, fazer sombras na parede, aproveitar a hora do banho para interagir com a criança são atividades valiosas. “O que a gente precisa é de disponibilidade de interações e brincadeiras para que o desenvolvimento seja atingido”, diz Mariana. Na contramão, a exposição passiva das crianças às telas, que teve um boom na pandemia, prejudica o desenvolvimento.

Segundo a mesma pesquisa, mais famílias hoje relatam que crianças de 0 a 3 anos usam equipamentos todos os dias, na comparação com o ano de 2019. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças de até 2 anos não tenham exposição às telas e aquelas de 2 a 5 anos limitem o uso a uma hora por dia. Pais dizem que o tempo no celular ou na TV estourou - e muito - o recomendado.

“A única coisa que ainda consigo controlar é celular e tablet. Não dou de jeito nenhum. A tela de TV eu tento tirar, mas a gente fica esgotada emocionalmente”, diz Marina Lacombe, de 39 anos, mãe de Laura, de 1 ano e 8 meses. Retomar padrões de tela pré-pandemia vai exigir, segundo especialistas, que as crianças recebam novos estímulos, mais atraentes do que os eletrônicos. No caso de Laura, os animais de verdade da Escola Equilíbrio, na zona sul, e principalmente a “cocó”, ganham de dez a zero de qualquer galinha pintadinha. “Ela está fascinada. Quer brincar, ficar junto, curte com amigos e professores.” 

Sequestro de dados de empresas vira joia do cibercrime na pandemia, FSP

 

SÃO PAULO

O trabalho remoto durante a pandemia e a valorização de criptomoedas turbinaram o sequestro de informações sigilosas de companhias e organizações públicas, elevando o chamado ransomware ao posto de ataque mais lucrativo do cibercrime.

Neste ano, gigantes como JBS Colonial Pipeline, a maior rede de oleoduto dos Estados Unidos, foram alvo desse tipo de ação, que consiste em invadir redes corporativas, copiar ou criptografar dados pessoais de funcionários e clientes e pedir um pagamento milionário em bitcoin para não vazá-los na internet.

Como o resgate é feito em moedas não rastreáveis, é difícil precisar quanto essa atividade ilegal movimenta por ano. A estimativa para 2020 supera US$ 350 milhões (R$ 1,77 bilhão), de acordo com a Chainalysis, empresa especializada na análise de transações em blockchain, a rede que opera o bitcoin.

JBS foi alvo de um ataque ransomware e decidiu pagar US$ 11 milhões para que criminosos não divulgassem dados sensíveis da companhia
JBS foi alvo de um ataque ransomware e decidiu pagar US$ 11 milhões para que criminosos não divulgassem dados sensíveis da companhia - AFP

A relação entre ransomware e o trabalho remoto é que, ao distribuir as pessoas geograficamente, muitas companhias não revisaram protocolos ou instruíram seus empregados sobre segurança digital, permitindo o aumento de brechas de acesso a cibercriminosos. O maior exemplo, alertam especialistas, está em programas que permitem a conexão remota de trabalhadores às suas máquinas corporativas.

Qualquer funcionário que utilizar uma senha simples, como 123456, para acessar o computador da empresa pode servir de canal para que um invasor adentre a rede e vasculhe sistemas inteiros da organização.

O relatório global Verizon DBIR, um dos mais confiáveis do mercado de segurança digital, que capta dados de múltiplas fontes empresariais e governamentais, mostra que o ransomware responde por 10% dos incidentes cibernéticos. O índice parece baixo, mas chama a atenção sua rápida evolução. Em 2018, o ataque representava menos de 2%.

Outro detalhe é que ele é muito mais custoso a uma operação empresarial do que outros tipos de hacking, como o de negação de serviço, por exemplo, que impossibilita o carregamento do site para os clientes. Esse crime tem alvos bem direcionados e visam alto retorno financeiro. A JBS, cujo caso tornou-se público, decidiu pagar US$ 11 milhões (R$ 55 milhões) neste mês para não ter suas informações sensíveis publicadas.

Em 2020, o maior pedido de resgate chegou a US$ 30 milhões (R$ 150 milhões), segundo a empresa de cibersegurança Palo Alto Networks. Já a maior quantia desembolsada foi de US$ 10 milhões (R$ 50 milhões), considerando Estados Unidos, Canadá e Europa. Embora a maior parte das organizações opte por não ceder à chantagem, a média estimada de custo envolvendo questões jurídicas e policiais em um incidente do tipo é de US$ 73,8 mil, mais de R$ 370 mil.

As companhias americanas, canadenses e europeias costumam estar entre as mais visadas de acordo com relatórios de segurança digital. O Brasil, embora domine outros rankings de crime cibernético, virou um destaque em ransomware durante a crise de Covid-19. Foram atacados o STJ (Superior Tribunal de Justiça), o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, empresas na área de energia e a Embraer, que não pagou aos criminosos e teve documentos como contratos de aviões circulados na internet.

A empresa russa Kaspersky, uma das líderes de mercado no país, colocou o Brasil entre as cinco nações mais atingidas por ransomware em 2020. Os chamados ataques de força bruta, quando um hacker usa diversas técnicas para obter a senha de um usuário, subiram 330% no país, com um pico no início da pandemia.

Esse aumento tem ligação direta com tentativas de ransomware, pois são o primeiro passo para o acesso a sistemas remotos, segundo Fabio Assolini, pesquisador de segurança sênior da companhia. Só a Kaspersky detectou entre seus clientes brasileiros 4.354 tentativas de ataque no primeiro trimestre deste ano.

"O ransomware é tão antigo quanto a história da computação, era distribuído por disquete e tinha de ser pago com cheque. Ele vem se repaginando e começa a atacar infraestruturas críticas à população, como o caso do Pipeline", diz o especialista. Ele afirma que empresas de energia elétrica no Brasil só não sofreram apagão porque têm a rede distribuição separada da área de tecnologia da informação.

Há cerca de 50 gangues reconhecidas por esse tipo de ataque no mundo, a maioria do Leste Europeu. Os grupos costumam adentrar as redes, estudá-las, verificar as soluções de segurança disponíveis e o valor dos dados. Uma tática comum antes de dar o bote é a criação de uma cortina de fumaça, um incidente menor usado como isca de distração às equipes de segurança.

A cada cerco de autoridades, o cribercrime se especializa para manter seus negócios ativos. Nos últimos anos, à medida que o ransomware ganhou mais atenção e rendeu mais dinheiro, as quadrilhas começaram a se ultraespecializar e dividir tarefas em pequenos grupos, o que tem gerado "aumento de produtividade", segundo Alexandre Sieira, cofundador da Tenchi Security.

"Tem gente especializada em varrer a internet em busca de sistemas vulneráveis ou expostos, outro em desenvolver uma solução de ransomware e alugá-la: 'Quer fazer o ransomware? Ser o cara que entra, criptografa os dados e cobra?' É como uma franquia, e tem o que faz o equivalente à lavagem de dinheiro com o bitcoin."

Em resumo, vários grupos trabalham de forma simultânea e em larga escala.

Além do aumento da ofensiva a companhias lucrativas, da manufatura à saúde, as gangues também têm apostado em governos, a fim de captar informações críticas de áreas da administração pública. Nesse caso, não tentam apenas burlar senhas de VPN, mas enviam phishings (uma isca, por aplicativo ou email, com um código malicioso) e realizam uma série de ataques de negação de serviço.

"Essas gangues realizam pesquisas completas para entender quais organizações são as mais vulneráveis e estão dispostas a pagar, e quanto elas podem pagar", diz Jen Miller-Osborn, diretora na Unit 42 da Palo Alto Networks.

Existe até o ransomware como serviço, um modelo baseado em assinatura que permite aos afiliados usarem ferramentas para executar ataques e ganhar uma porcentagem de cada pagamento de resgate bem-sucedido. ​

"Observamos um grupo chamado Prometheus que se refere às suas vítimas como 'clientes' e se comunica com elas por meio de um sistema de bilhetagem de atendimento ao cliente, que os avisa quando os prazos de pagamento se aproximam. Usam ferramentas como um timer que faz a contagem regressiva de horas, minutos e segundos até o prazo de pagamento", afirma Jen.

Autoridades governamentais têm discutido maneiras de conter o avanço desse tipo de atividade —o tópico foi debatido por representantes do G7 em reunião recente. Por enquanto, há duas principais propostas na mesa: classificar ransomware e o cibercrime em geral como terrorismo, o que facilitaria a cooperação transnacional, ou tentar sufocar o pagamento por criptomoedas, tentando regulamentá-las globalmente, o que não seria uma tarefa simples.


COMO EVITAR RANSOMWARE NA SUA EMPRESA

  • Aplique todas as correções de segurança —esses ataques exploram vulnerabilidades já conhecidas
  • Habilite o segundo fator de autenticação para dificultar o acesso por força bruta em serviços que utilizam somente login e senha
  • Tenha o backup dos dados, mas não online —isso é essencial para o retorno imediato das operações
  • Utilize DLT (data loss prevention, prevenção da perda de dados): é um grupo de tecnologias que identifica, por exemplo, se um programa está lendo em segundo plano mil arquivos por segundo ou se um dado sensível está sendo exportado para fora da empresa
  • Não use software pirata
  • Mantenha a rede sempre atualizada

  • Instrua funcionários sobre o acesso remoto e sobre senhas fortes


sexta-feira, 25 de junho de 2021

‘O Corcunda de Notre Dame’ faz 25 anos: filme com conteúdo impróprio recebeu classificação livre, OESP

 Sarah Bahr, The New York Times

25 de junho de 2021 | 20h00

Eles sabem exatamente como se safaram.

“Esse é o filme com classificação livre e mais conteúdo impróprio para menores que você vai ver na vida”, disse Tab Murphy, roteirista da animação da Disney O Corcunda de Notre Dame, que completa 25 anos de lançamento neste mês.

“Milhares de dólares devem ter mudado de mãos em algum lugar, tenho certeza”, brincou Gary Trousdale, que dirigiu o filme com Kirk Wise.

Independentemente de como tenha sido, uma comissão de classificação formada por pais decidiu que um filme com um número musical sobre luxúria e o fogo do inferno, além de uma trama que envolve a ameaça de genocídio contra os ciganos era apropriado para o público em geral.


O Corcunda de Notre Dame
'O Corcunda de Notre Dame', da Disney, completa 25 anos de lançamento neste mês. Foto: Reuters

Talvez o motivo tenha a ver com o estúdio: quase todos os filmes de animação desenhados à mão da Disney foram classificados como adequados a todas as idades até aquele ponto. Talvez tenha sido o marketing, que apresentou o O Corcunda de Notre Dame como algo diferente do romance sombrio de Victor Hugo, no qual se baseou, vendendo-o como uma celebração com o subtítulo Junte-se à festa!. Talvez os chefes da Disney tenham exercido pressão, convencidos de que uma classificação diferente que alertasse quanto a presença de material inadequado para crianças pequenas prejudicaria a bilheteria. (“Ou conseguiam uma classificação livre ou seria um fracasso”, disse Wise.)

Mas o fato de que o filme de animação possivelmente mais sombrio da Disney tenha recebido uma classificação igual a de Cinderela reflete a subjetividade do sistema de classificação - e o tanto que os filtros dos pais mudaram ao longo dos anos.

“A classificação que atualmente pede a presença de um responsável para que a criança possa ver um filme equivale à classificação livre dos anos 1990”, disse Wise.

Trousdale acrescentou: “Hoje em dia, você não pode nem fumar em um filme de classificação livre.”

Mas uma cena em particular desafia qualquer explicação.

“Aquela sequência de Fogo do Inferno?”, lembra Murphy, referindo-se à canção de Stephen Schwartz-Alan Menken cantada pelo juiz Claude Frollo sobre seu conflito entre a piedade e o desejo por Esmeralda. "Fala sério, cara. Não dá."

Murphy há muito queria adaptar a história gótica de Esmeralda, de 1831, uma bela cigana que captura os corações de vários homens parisienses, entre eles Quasimodo, um tocador de sinos com uma acentuada corcunda que Hugo descreve como "horrível" e "um demônio em forma de homem."

Mas então ele percebeu no que estava se metendo.

“Eu estava tipo, 'Ah, meu Deus, eu não quero escrever um filme com canto, dança e temática suavizada que transforma esta incrível peça da literatura mundial em um típico filme da Disney’”, disse ele.

Mas, afirmou, foi graças aos executivos da Walt Disney Co. na época, Roy E. Disney e Michael D. Eisner, que eles adotaram uma abordagem menos comedida.

“Nunca me disseram para evitar isso ou aquilo ou você não pode fazer isso”, afirmou. “Eles disseram algo como: ‘Você escreve a história que quer contar e deixa com a gente a preocupação com a nossa marca’”.

Sem dúvida, o romance de Hugo, no qual muitos personagens principais morrem no final, era “deprimente demais” para um filme da Disney. Então Murphy teve que ser criativo.

Ele decidiu que a história focaria no colorido mundo de fantasia que Quasimodo imagina enquanto está preso em sua torre do sino. Haveria um festival. Gárgulas falantes. E um herói para receber nossa torcida.

Em vez de Quasimodo ser chicoteado no pelourinho, ele é atacado com vegetais e humilhado no "Festival dos Tolos". O problemático arquidiácono de Hugo, Claude Frollo, tornou-se um magistrado do mal. A Disney não queria enfrentar a igreja, disse Trousdale. Ao contrário do que acontece no romance, Esmeralda é salva por Quasimodo e o valente Febus, o capitão rebelde da guarda. Todos os três vivem felizes para sempre em vez de morrer, como acontece com Quasimodo e Esmeralda no livro.

Mas, disse Wise, sempre havia uma questão pairando ameaçadoramente com a qual eles tinham que lidar: a luxúria de Frollo por Esmeralda.

“Sabíamos que seria um assunto muito delicado”, disse. “Mas também sabíamos que tínhamos que contar essa história, porque ela é importante para as relações amorosas dos personagens centrais.

  


No início, Murphy tentou resolver o problema com palavras.

“Originalmente, tinha escrito um monólogo para aquela cena que estava repleto de mensagens implícitas mostrando que sua raiva era toda relacionada ao seu desejo proibido por ela”, disse Murphy.  “Mas, depois, Stephen e Alan disseram: ‘Achamos que isso pode dar uma ótima música’”.

Seis meses depois, um pequeno pacote de Schwartz, que escreveu a letra, e Menken, que compôs a trilha, chegou ao Walt Disney Studios em Burbank, Califórnia. Dentro dele havia uma fita cassete com uma nova canção.

Murphy, Trousdale, Wise e Don Hahn, o produtor do filme, reuniram-se em um escritório, colocaram a fita em um toca-fitas e deram o play nela - e se deram conta do que estavam ouvindo.

Em um excepcional número de percussão, Frollo, apoiado por um coro cantando em latim, agoniza com sua luxúria, sua fé religiosa e seu ódio pelos ciganos.

“Este desejo ardente” (a versão dublada no Brasil adotou “Desejo eterno”), ele canta no filme, esfregando o lenço dela sensualmente contra o rosto, “está me levando ao pecado” (na versão dublada brasileira escuta-se “do mal é o estopim”). (Schwartz cantou essa parte na fita demo.)

“Juro por Deus, o queixo de todos começou a cair lentamente”, disse Murphy. “No final da música, Kirk esticou o braço, desligou o toca-fitas, recostou-se na cadeira, cruzou os braços e disse: ‘Bem, isso nunca vai entrar no filme’. E entrou!”

Embora nunca tenha sido declarado explicitamente, Wise disse que a expectativa era que o filme recebesse uma classificação livre.

“O estúdio sentiu que qualquer restrição ameaçaria a bilheteria do filme”, disse. “Isso foi antes de Shrek ou filmes que tornaram comum as animações apresentarem alguma restrição na classificação indicativa.”

Um filme adequado para todas as idades, de acordo com o sistema da Motion Picture Association of America, lançado em 1968, “não contém nada de temas, nudez, sexo, violência ou outros assuntos que, na opinião do Rating Board (conselho que decide a classificação etária dos filmes), ofenderiam pais cujos filhos mais novos assistem a ele”. Alguns trechos de linguagem, diz o sistema, “podem exceder uma conversa educada, mas devem ser expressões comuns do dia a dia”.

“Nunca pensamos que conseguiríamos escapar impunes da expressão ‘fogo do inferno’”, disse Trousdale.

O primeiro corte de O Corcunda de Notre Dame de fato não passou no teste para receber a classificação livre - mas não foi o uso das palavras "inferno" ou "condenação" que não agradou ao sistema.

Foram os efeitos sonoros.

Na cena de Fogo do Inferno, imaginada como uma sequência alucinógena e com tons de pesadelo, Frollo é atormentado por figuras encapuzadas em vestes vermelhas que refletem sua perda de controle sobre a realidade.

“Este desejo ardente”, ele canta, olhando para uma figura dançante de Esmeralda em sua lareira, “está me levando ao pecado”.

O conselho de classificação ficou desconfortável com a palavra “pecado”, disse Trousdale. Mas a sequência já estava animada e a trilha sonora gravada, portanto não foi possível alterar a letra.

Então Hahn veio com uma solução: deixe o som de quando os juízes encapuzados surgem do chão um pouco mais alto para abafar a palavra "pecado". Funcionou, disse Trousdale.

Mas o que finalmente deu ao filme sua classificação livre, disse Wise, foi uma mudança tão insignificante que “você nunca vai acreditar nisso”.

Na cena em que Frollo chega de fininho por trás de Esmeralda e cheira seu cabelo, o conselho de classificação achou que o ato era “muito insinuante”, disse ele.

“Eles meio que pediram, ‘Vocês poderiam diminuir o volume disso?’”, afirmou. “E nós fizemos isso e o filme conseguiu a classificação livre.”

Nem os pôsteres ou os trailers sugeriam os temas mais sombrios.

“Sem dúvida, houve um esforço enooorme para enfatizar os aspectos alegres de O Corcunda de Notre Dame', disse Menken, rindo.

E o subtítulo do filme? "Junte-se à festa!"

“Talvez essa tenha sido a campanha certa para o estúdio levar as pessoas aos cinemas”, disse Hahn. “Mas tenho certeza de que não faria isso hoje - acho que há uma responsabilidade pela verdade na publicidade que talvez tenhamos negligenciado naquela época.”

Quando o filme, que custou US$ 70 milhões para ser feito, antes das ações de marketing, estreou em 21 de junho de 1996, a recepção foi um pouco decepcionante nas bilheterias, arrecadando cerca de US$ 100,1 milhões nos Estados Unidos. Trousdale disse que eles receberam certa reação negativa dos grupos de pais em relação à classificação livre.

“Eles diziam 'Vocês nos enganaram; vocês nos iludiram '”, afirmou.  “O marketing era todo baseado naquela coisa feliz e ‘Venha para o Festival dos Tolos; é uma festa!’ com gárgulas falantes, confetes e tortas na cara. E, depois, aquele não era o filme, e as pessoas ficaram muito irritadas. ”

Tom Zigo, porta-voz da Classification and Rating Administration, que administra o sistema de classificação de filmes, disse que não poderia se pronunciar a respeito da classificação livre para O Corcunda de Notre Dame, mas que era “muito possível” que um filme classificado há 25 anos recebesse uma classificação diferente hoje.

Hahn, Menken, Murphy, Trousdale e Wise concordaram que não haveria chance do filme receber uma classificação livre hoje - ou mesmo, sugeriu Murphy, de ele ser feito.

“A Disney estava disposta a correr certos riscos com aquele filme que eu acho que ela não estaria hoje”, disse. “Para mim, esse é um filme inadequado para menores de 13 anos.”

Apesar disso, o filme resistiu ao longo dos anos e continua sendo importante - Frollo, observou Wise, parece  um vilão “muito contemporâneo” na era #MeToo (movimento contra assédio e agressão sexual) - e o favorito entre os jovens adultos que o assistem novamente e descobrem referências que deixaram passar na primeira vez que o viram.

“Eu li postagens em páginas de fãs de algumas pessoas na casa de seus 20 e 30 anos que eram muito jovens quando viram o filme”, disse Trousdale. “Elas eram mais ou menos assim, ‘Sim, o filme me deixou confuso quando o assisti criança, mas continuo adorando ele’”.

Menken disse que Fogo do Inferno testou mais limites em termos do que a Disney faz do que qualquer música que ele já escreveu.

“Talvez, olhando para trás, O Corcunda de Notre Dame tenha sido um passo arriscado demais”, disse ele. "Mas, meu Deus, como sou grato por eles terem feito isso."


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA