terça-feira, 22 de junho de 2021

Hélio Schwartsman Como Bolsonaro não foi deposto?, FSP

 

O fim de semana foi agitado, mas as duas grandes notícias do feriado, os 500 mil mortos e as manifestações contra Bolsonaro, não me comovem muito. Calma, eu explico. Cada uma das mortes é uma tragédia e ver as pessoas se mobilizando para depor o pior presidente da história é positivo. Receio, porém, que a forma como essas notícias se colocam obscurece a gravidade da situação.

Meu pendor racionalista faz com que eu não veja diferença de escala ou essência entre 500.000 e, digamos, 502.324, mas, mesmo que aquiesçamos ao fetiche humano por números redondos, a marca do meio milhão já foi ultrapassada um bom tempo atrás.

O fenômeno da subnotificação é quase universal. Até há países como a Bélgica em que o cômputo dos óbitos pelo Sars-CoV-2 é praticamente o mesmo que o do excesso de mortes em relação a anos não pandêmicos, só que isso é uma raridade. Na maioria das nações, a contagem oficial fica sistematicamente abaixo da de óbitos não esperados. Em casos extremos, como o de alguns estados indianos, o número real de vítimas pode ser até dez vezes maior que o oficial.

Para o Brasil, estudos como o da infectologista Ana Luiza Bierrenbach estimam uma subnotificação da ordem de 30%. Isso significa que ultrapassamos os 500 mil lá pelo meio de abril e já nos aproximamos dos 700 mil.

Algo parecido ocorre com as manifestações. Como prefiro medidas objetivas a impressionismos, dou mais relevo a pesquisas que a fotos. E o Datafolha nos diz que 49% dos brasileiros com mais de 16 anos defendem o impeachment. Estamos falando de um universo de descontentes da ordem de 75 milhões de pessoas, o que empalidece até as mais fantasiosas estimativas dos organizadores sobre o número de manifestantes no sábado.

A moral que extraio dessas considerações é que estamos atrasados. Com quase 700 mil mortos e maioria relativa a favor do afastamento, como Bolsonaro continua no poder?


Governo comprou vacina indiana Covaxin por preço 1.000% mais alto do que o estimado pelo fabricante, OESP

 BRASÍLIA – Documentos do Ministério das Relações Exteriores mostram que o governo comprou a vacina indiana Covaxin por um preço 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela própria fabricante. Telegrama sigiloso da embaixada brasileira em Nova Délhi de agosto do ano passado, ao qual o Estadão teve acesso, informava que o imunizante produzido pela Bharat Biotech tinha o preço estimado em 100 rúpias (US$ 1,34 a dose).

Em dezembro, outro comunicado diplomático dizia que o produto fabricado na Índia “custaria menos do que uma garrafa de água”. Em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde pagou US$ 15 por unidade (R$ 80,70, na cotação da época) – a mais cara das seis vacinas compradas até agora.

Covaxin
A Covaxin foi desenvolvida com o estatal Conselho Indiano de Pesquisa Médica Foto: Jaipal Singh/EFE

A ordem para a aquisição da vacina partiu pessoalmente do presidente Jair Bolsonaro. A negociação durou cerca de três meses, um prazo bem mais curto que o de outros acordos. No caso da Pfizer, foram quase onze meses, período em qual o preço oferecido não se alterou (US$ 10 por dose). Mesmo mais barato que a vacina indiana, o custo do produto da farmacêutica americana foi usado como argumento pelo governo Bolsonaro para atrasar a contratação, só fechada em março deste ano.

Diferentemente dos demais imunizantes, negociados diretamente com seus fabricantes (no País ou no exterior), a compra da Covaxin pelo Brasil foi intermediada pela Precisa Medicamentos. A empresa virou alvo da CPI da Covid, que na semana passada autorizou a quebra dos sigilos telefônico, telemático, fiscal e bancário de um de seus sócios, Francisco Maximiano. O depoimento do empresário na comissão está marcado para amanhã.

Os senadores querem entender o motivo de o contrato para a compra da Covaxin ter sido intermediado pela Precisa, que em agosto foi alvo do Ministério Público do Distrito Federal sob acusação de fraude na venda de testes rápidos para covid-19. Na ocasião, a cúpula da Secretaria de Saúde do governo do DF foi denunciada sob acusação de ter favorecido a empresa em um contrato de R$ 21 milhões.

A Precisa tem como sócia uma outra empresa já conhecida por irregularidades envolvendo o Ministério da Saúde – a Global Gestão em Saúde S. A. Ela é alvo de ação na Justiça Federal do DF por ter recebido R$ 20 milhões da pasta para fornecer remédios que nunca foram entregues. O negócio foi feito em 2017, quando o ministério era chefiado pelo atual líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR), do Centrão. Passados mais de três anos, o ministério diz que ainda negocia o ressarcimento.

Em depoimento ao Ministério Público, um servidor do Ministério da Saúde aponta “pressões anormais” para a aquisição da Covaxin. O funcionário relatou ter recebido “mensagens de texto, e-mails, telefonemas, pedidos de reuniões” fora de seu horário de expediente, em sábados e domingos. Esse depoimento está em poder da CPI.

O servidor assegurou que esse tipo de postura não ocorreu em relação a outras vacinas. O coordenador-geral de Aquisições de Insumos Estratégicos para Saúde do Ministério da Saúde, Alex Lial Marinho, foi apontado como o responsável pela pressão.

O interesse do Brasil na Covaxin foi registrado formalmente em carta de Bolsonaro ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em 8 de janeiro. Na ocasião, o brasileiro informou ter incluído o imunizante no Plano Nacional de Imunização.

Covaxin
Vacina Covaxin é produzida pelo laboratório indiano Bharat Biotech Foto: Divulgação/Bharat Biotech

Acordo. Quatro dias depois, a Bharat Biotech anunciou em seu site que havia assinado um “acordo com a Precisa Medicamentos para fornecimento de Covaxin para o Brasil”. Segundo o anúncio da empresa, o embaixador do País na Índia, André Aranha Corrêa do Lago, havia expressado o interesse do governo brasileiro em adquirir o imunizante indiano.

Nos meses anteriores, a embaixada brasileira havia feito uma verdadeira “pesquisa de mercado” dos imunizantes indianos disponíveis para a venda. Um telegrama enviado por Lago em 31 de agosto do ano passado detalhava cinco iniciativas relativas a vacinas no país asiático. Uma delas era a Covaxin, que usa uma versão inativada do vírus Sars-CoV-2, tecnologia menos avançada do que a usada pela Pfizer.

Quatro meses depois, em dezembro, o ministro-conselheiro da embaixada Breno Hermann relatou uma conversa com Lisa Rufus, relações públicas da Bharat Biotech, na qual ela citou que “uma dose da Covaxin custará ‘menos que uma garrafa de água’”.

O valor da vacina foi tópico de outro telegrama, em 15 de janeiro. Dessa vez, o embaixador dizia ao Itamaraty que o governo indiano vinha sendo criticado pelo preço que havia pagado pela Covaxin (US$ 4,10).

O Ministério da Saúde fechou o contrato para a aquisição de 20 milhões de doses da Covaxin por R$ 1,6 bilhão em 25 de fevereiro, antes mesmo de assinar com a Pfizer e com a Janssen, por US$ 10 a dose em ambos os casos. As duas fabricantes já concluíram os testes de seus imunizantes, enquanto os estudos de fase 3 da vacina indiana – a última etapa – ainda estão incompletos.

O acordo da Covaxin previa o fornecimento de 6 milhões de unidades já em março, mas condicionava a um aval da Agência Nacional Nacional de Saúde (Anvisa), que só foi dado no dia 4 deste mês. Ainda assim, a autoridade sanitária impôs uma série de condições para que o governo distribua a vacina, como um plano de monitoramento de quem receber as doses, o que, segundo a Anvisa, ainda não foi apresentado.

Detalhes do contrato foram contados pelo sócio da Precisa ao embaixador do Brasil na Índia em um encontro em março. Segundo Maximiano, além das 20 milhões de doses, o Ministério da Saúde tem a opção de compra de outras 12 milhões de unidades. “Maximiano frisou que, ainda que tenha sido a Precisa Medicamentos a assinar contrato com o governo brasileiro, o pagamento, que, segundo os termos do contrato, só poderia ocorrer após licenciamento da vacina no Brasil, será feito diretamente pelo Ministério da Saúde à companhia indiana”, aponta o relato do embaixador. Ao pedir as quebras de sigilo do empresário, porém, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirma que a Precisa receberá R$ 500 milhões pelo negócio.

Questionada, a Precisa informou que “o preço da vacina é estabelecido pelo fabricante”, mas não informou se recebeu comissão pelo negócio. "O mesmo preço praticado no Brasil foi estabelecido para outros mercados. Em agosto, quando a vacina estava na fase 2 de testes clínicos, não havia ainda como dimensionar o preço final. Em janeiro, a Bharat Biotech comercializou a vacina internamente, para o governo indiano, praticando um valor menor do que o comercializado para fora da Índia. Isso porque o país é codesenvolvedor da vacina e disponibilizou recursos para auxiliar no seu desenvolvimento", diz, em nota.

Sobre a denúncia de irregularidades na venda de testes ao governo do DF, a empresa diz ter cumprido “todas as exigências legais” e que já prestou esclarecimentos às autoridades.

Também procurado, o Ministério da Saúde se limitou a dizer que o pagamento das vacinas será feito “somente após a entrega das doses”.

Hidrogênio verde deverá impulsionar energia eólica, solar e dessalinização no Ceará, Diário do Nordeste

 O Governo do Estado confirmou em fevereiro deste ano que o Ceará deverá receber um investimento de mais de R$ 5 bilhões de uma das maiores plantas de hidrogênio verde do mundo. O plano para o empreendimento pode, além de inserir o Estado em um novo mercado, gerar oportunidades em outros segmentos, inclusive impulsionando as áreas de energia solar, eólica, além de elevar o potencial de projetos de dessalinização. 

A perspectiva foi apresentada pelo estudo "Oportunidades para o Brasil com o hidrogênio verde" e comentada por Emílio Matsumura, diretor-Executivo do Instituto E+ Transição Energética e Professor do Ibmec-Rio; Marcelo Montenegro, coordenador do programa de Justiça Socioambiental da Fundação Heinrich Böll no Brasil; e Joilson Costa, coordenador Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil.

Segundo Joilson Costa, como a Enegix Energy – empresa que firmou o protocolo de entendimento com o Estado para o investimento no Porto do Pecém – já disse que o nível de produção será consideravelmente alto, o projeto deverá demandar uma quantidade muito grande de energia. 

E para garantir que o combustível (hidrogênio verde) será produzido nos parâmetros ambientais focados na redução das emissões de carbono no mundo, o Ceará poderá ver uma nova expansão de investimentos em plantas de produção de energia solar ou parques eólicos, usados como fonte energética para o hidrogênio. 

Legenda: Pela alta demanda, a produção de hidrogênio verde poderá impulsionar a geração de energias renováveis no Ceará, como as fontes eólica e solar
Foto: Foto: Kid Júnior

POTENCIAL PARA DESSALINIZAÇÃO 

Além disso, Costa projetou que o Estado terá outra possibilidade de mercado a explorar: as plantas de dessalinização de água do mar para produção de água potável.

O coordenador da frente política sobre energia afirmou ser possível que as usinas de hidrogênio verde possam, no futuro, estar associadas aos projetos de dessalinização, o que acaba potencializando novas iniciativas neste segmento. 

Esses fatores, conectados, poderiam ser importantes, segundo Joilson, para o Brasil mudar a matriz energética ao aproveitar mais as energias renováveis, acompanhando tendência mundial. 

Não há dúvidas que o hidrogênio pode ser um ponto de potencial mudança da nossa matriz energética, visto que ele pode ser um indutor de energia solar e eólica. Ao se associar essas plantas de energia solar e eólica, você impulsiona esses segmentos e isso já deve aumentar a produção desses tipos de energias renováveis", disse. 
JOILSON COSTA
coordenador Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil

MERCADOS COMPLEMENTARES

Outro ponto discutido por Emílio Matsumura, e abordado pelos empresários da Enegix durante entrevista ao SVM, é que os investimentos em hidrogênio verde no Ceará deverão movimentar mercados complementares.

Uma das questões apontadas pelo diretor-Executivo do Instituto E+ Transição Energética está relacionada às soluções que deverão ser usadas para o transporte do hidrogênio verde, por exemplo.  

Como o mercado de hidrogênio verde ainda está em estágio inicial no mundo inteiro, Matsumura projeta que investimentos em infraestrutura de exportação e transporte do insumo podem acabar influenciando o potencial de crescimento de outros segmentos de mercado, como minério de ferro, aço e até amônia. 

"A gente não tem uma infraestrutura de exportação e transporte de hidrogênio hoje no Brasil, então isso seria um outro aspecto que precisa ser trabalhado se quisermos utilizar o hidrogênio verde. Temos algumas alternativas como aço ou amônia, mas temos complicações de todas as formas, então será preciso fazer alguns investimentos e isso pode gerar novos mercados", disse.

Matsumura ainda projetou que o mercado global de hidrogênio verde possui um potencial muito grande de crescimento nas próximas décadas, o que pode ajudar a manter boas perspectivas de evolução para esses segmentos indiretos a ser explorados. 

O nosso estudo traz algumas expectativas para a economia e indica que é possível ver o mercado de hidrogênio verde chegar a até 2,5 trilhões de dólares em 2050. Isso é só na comercialização do hidrogênio direto, mas temos outras áreas que podem ser impactadas pelo mercado, como o uso de alguns aços e onde acrescentaríamos valor ao minério de ferro e outras questões", projetou.
EMÍLIO MATSUMURA
diretor-Executivo do Instituto E+ Transição Energética
 

QUESTÕES AMBIENTAIS 

Contudo, Marcelo Montenegro, defendeu que o Brasil ainda precisa repensar as posturas envolvendo as políticas ambientais para alguns desses projetos realmente se consolidem. Isso porquê o mercado de hidrogênio verde está sendo encarado como uma boa oportunidade de reduzir as emissões de gás carbônico na atmosfera, o que ajudaria até mesmo nos indicadores do Acordo de Paris. 

Montenegro comentou que poderá ser importante envolver a sociedade ambiental na discussão sobre os investimentos em hidrogênio verde e nas metas de descarbonização da matriz energética brasileira, até para o desenvolvimento de um plano geral de utilização do hidrogênio verde no País. 

É preciso saber o fim que se quer dar ao hidrogênio verde. Tem gente que fala que ele pode ser usado em foguetes, mas isso nos afasta da discussão de se fazer uma transição energética e até para cumprir as metas do Acordo de Paris", disse.
MARCELO MONTENEGRO
coordenador do programa de Justiça Socioambiental da Fundação Heinrich Böll no Brasil

"Mas a questão é que precisamos envolver a população para podermos incluirmos o hidrogênio verde na matriz energética", disse o representante Fundação Heinrich Böll no Brasil", completou.

Hidrogênio Verde
Legenda: Hidrogênio pode ser utilizado para diversos fins no dia a dia
Foto: Shutterstock

MERCADO DE TRABALHO

Já sobre as possíveis novas demandas do mercado de trabalho envolvendo o hidrogênio verde no Ceará e no Brasil, Matsumura comentou que não deverá haver uma necessidade muito grande de adaptação de ensino a novas tecnologias. Ele comentou que o processo de produção do hidrogênio verde já utiliza conhecimentos no mercado brasileiro. 

Contudo, projetou que será, sim, necessário realizar treinamentos específicos para operação nas plantas de hidrogênio, e que isso deverá gerar diferentes ofertas e oportunidades de trabalho, ainda que o Brasil já possua um bom nível de mão de obra para fornecer ao setor. 

"É uma economia que está começando e há 2 anos não se falava disso. Temos muitas possibilidades no Brasil e temos chance de produzir o hidrogênio de forma competitiva. Mas estamos falando de energia de longo prazo então as coisas não saem de uma hora para outra", disse. 

"Mas o Nordeste tem vários locais onde podemos fechar todas as pontas necessárias. A questão é ver como vamos usar todos esses recursos, principalmente investindo na capacitação de pessoas na Região", completou.