domingo, 20 de junho de 2021

Os cupins da democracia, Celso Ming, OESP

 Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2021 | 08h30

Democracia também morre por dentro, pelo uso de regras democráticas. A gente sabe disso muito antes da publicação do livro de Steven Levitsky e de Daniel Ziblatt (Como as democracias morrem), de 2018. O nazismo chegou ao poder na Alemanha pelo voto; a anexação da Áustria aconteceu em março de 1938 por plebiscito.

Hoje, os governos totalitários ou ditatoriais procuram chegar e manter-se no poder não mais com golpes de Estado clássicos, com tanques de guerra nas ruas e imposição dos militares, mas pelo voto e, depois, pelo controle paulatino das instituições e pela manipulação dos novos canais das comunicações de massa. E é isso que alguns analistas temem que aconteça no Brasil, onde a cultura democrática parece vulnerável às ações dos que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou de “cupins da democracia”, em seu livro mais recente Um intelectual na política (Companhia das Letras).

Quais seriam esses cupins? O mais antigo deles é o patrimonialismo, que é a utilização do Estado para interesses próprios, como se de direito fosse. O Brasil nasceu patrimonialista. A expressão mais importante no passado colonial foi a criação das Capitanias Hereditárias. Os contemplados podiam mandar e tirar proveito próprio das riquezas dos territórios que lhes foram designados pela Coroa. Com altos e baixos, essa simbiose entre governo e patrimônio perdurou durante o Império. Alguns autores entendem que a justificativa para manutenção da estrutura patrimonialista mudou alguma coisa depois da abolição, na medida em que foi tomada como compensação às elites pela perda dos benefícios obtidos na utilização da mão de obra escrava. Assim, perdura a ideia de que quem está no governo tem o “direito” de aumentar seu patrimônio com recursos públicos, não propriamente apoiado pela lei, mas pelo princípio de que quem reparte tem de ficar com a melhor parte.

DEMOCRACIA
Corrupção, ineficiência, malversação dos recursos públicos, aumento da pobreza e falência da governança são subprodutos dessa cultura térmita que corrói a democracia. Ilustração: Marcos Müller/Estadão

Outro cupim é o corporativismo. Certas camadas da sociedade entendem que podem se apropriar de benefícios distribuídos pelo Estado em proveito de sua categoria. No primeiro período getulista, o corporativismo foi assumido como modelo de governo, espelhado no que foi o estado corporativista da Itália, dos anos de Mussolini. Esse tipo de distribuição de regalias foi ficando. Funcionários públicos, funcionários de empresas estatais, sindicalistas, empresários, membros do Judiciário e das polícias vêm se aproveitando desse jogo.

As chamadas “bancadas” suprapartidárias no Congresso operam com esse objetivo. Não necessariamente precisam eleger representantes no Legislativo. Sempre darão um jeito de obter a adesão de alguns deles em benefício próprio. O presidente Jair Bolsonaro ajudou a empurrar os militares para esse barco. Hoje há mais de 6 mil deles no seu governo. Já não batalham apenas pelo aumento de verbas destinadas a reequipar as Forças Armadas, mas, também, para obter vantagens pessoais, em adicionais de salário e de aposentadoria – que ultrapassam o teto constitucional, atualmente em R$ 39,2 mil. Vai ser difícil cortar essas mamadeiras.

Outra velha instituição informal que sabota a democracia no Brasil é o nepotismo. É nomeado para um cargo público não o mais apto e o mais competente, mas o que tem laços de parentesco que garantem apoio político ao chefe.Os chamados “familismo” e “cupinchismo” são variantes genéticas do mesmo cupim.

E há os instrumentos de execução dessa política velha. O excesso de burocracia joga a favor desse tipo de doença, porque a criação de dificuldades é o meio pelo qual se assegura a distribuição de certas facilidades. A cultura da “carteirada” e do “furafilismo” procura impor privilégios. E tem o “mandonismo”, que Fernando Henrique identifica na velha fórmula: “Você sabe com quem está falando?”.

Demagogia e as políticas do medo e do ressentimento são consequência. Os movimentos populistas não são mais exercidos pelo controle da sociedade pelo partido único, mas pelo controle da opinião pública via manejo das redes sociais e acionamento das chamadas milícias populares.

Corrupção, ineficiência, malversação dos recursos públicos, aumento da pobreza e falência da governança são subprodutos dessa cultura térmita que corrói a democracia.

A pergunta da hora consiste em saber até que ponto a democracia está suficientemente consolidada no Brasil para defender a sociedade dessa morte “por dentro”.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA 


Modelos de estadia flexível atraem hotéis e viram opção para driblar a crise no setor, OESP

 Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

O setor hoteleiro foi, sem dúvida, um dos mais afetados pela pandemia. Uma pesquisa feita pela Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH) mostrou que, em março, a taxa de ocupação dos empreendimentos hoteleiros no Estado de São Paulo, por exemplo, foi de apenas 19,18% em março.

Para driblar essa crise, algumas empresas optaram por embarcar na onda das plataformas de locação flexível (contratos de aluguel com duração mais curta que o padrão). Uma que acaba de integrar esse nicho em seu marketplace é a Housi, que tem atingido 80% de ocupação média das unidades que disponibiliza em sua plataforma. A empresa já fechou parceria com grandes marcas de hotéis pelo Brasil, como Staybridge Suites São Paulo, Blue Home by Blue TreeHilton São Paulo Morumbi, Transamérica Resort Comandatuba e Nacional Inn, entre outras. Além de contar com toda a tecnologia da plataforma, eles têm a possibilidade de vender estadias com tempo maior de hospedagem e acessar um público novo, que busca o conceito de moradia por assinatura da Housi.

Housi
Housi, plataforma de locação flexível, firmou parcerias com importantes redes de hotéis pelo Brasil. Foto: Housi/Divulgação

Com o objetivo de facilitar as escolhas de quem viaja e gerar receita para empreendimentos e proprietários, a startup Migro é outra que aposta no setor hoteleiro. A plataforma disponibiliza em torno de 2 mil unidades, entre apartamentos, casas e vilas, todas localizadas em hotéis, flats, resorts ou condomínios com infraestrutura e serviços hoteleiros.

Segundo o fundador Sergio Assis, a hospedagem por temporada é uma tendência forte, mas a empresa não direcionou toda a estratégia para essa modalidade. “Desenvolvemos soluções em que oferecemos opções para quem deseja se hospedar em hotéis e resorts, mas também temos o modelo de locação por temporada como opção, pois estamos em uma fase de mudança de costumes no modo de se fazer reservas em meios de hospedagem”, ele fala.

Assis acredita, no entanto, que essa atividade será temporária no caso dos hotéis. “Assim que o ritmo de hospedagens voltar ao normal, certamente não haverá tanta disponibilidade para esse modelo de negócio”, prevê. No momento, porém, a ideia acaba sendo uma fonte de renda para o mercado em baixa e ajuda a atender à demanda de um público específico.

“Em decorrência da pandemia, são muitas as empresas operando em sistema de home office e a (demanda por) locação tem variado por regiões próximas de aeroportos e de vias com acessos fáceis para a locomoção urbana”, diz. “O público é composto por profissionais liberais, como engenheiros, arquitetos e gestores de empresas de pequeno porte, que precisam se locomover para fazer negócios. Há uma procura significativa também pelas cidades do interior, sobretudo aquelas com potencial de negócios.”

Mensalidade

A rede Louvre Group Hotels, responsável pela administração e comercialização das marcas Royal Tulip, Golden Tulip, Tulip Inn e Soft Inn no Brasil, criou uma campanha de mensalistas para quem quiser morar em um de seus empreendimentos. O serviço foi implementado em 15 de seus hotéis, distribuídos em sete Estados (São PauloRio de JaneiroMinas GeraisEspírito SantoGoiásRio Grande do Norte e Alagoas e no Distrito Federal).

Nomah
Nomah, que tem foco na transformação de ativos residenciais para locação, também tem apoiado o setor hoteleiro. Foto: Birdie/Nomah

“É uma estratégia que já era adotada pela rede há bastante tempo, mas que reforçamos durante a pandemia com pacotes mais atrativos”, explica o diretor de marketing e vendas no Brasil, Sandro Fonseca. Ele diz ainda que esse formato de campanha foi implantado para os hotéis participantes por aqui, mas que na França existe até uma nova bandeira que foi criada exclusivamente para atrair estadas de longa duração.

“O foco principal são trabalhadores que precisam passar longos períodos em determinado local, mas a proposta atende a qualquer cliente que tenha essa necessidade ou que enxergue na tarifa mensal uma oportunidade interessante para o seu momento de vida”, diz.

Outras vantagens, segundo ele, estão na ausência de burocracias e em facilidades como limpeza diária, serviço de quarto e área de lazer. As mensalidades (sem as tarifas) podem variar de R$ 1,5 mil a aproximadamente R$ 5,7 mil, dependendo da localização.

Retrofit

Startup com foco na gestão e transformação de ativos residenciais, a Nomah desenvolveu um novo caminho para empreendimentos hoteleiros, fazendo o retrofit para o modelo de estadia flexível. “Hoje temos um hotel na região da Avenida Paulista que está passando pela transformação completa em um residencial”, diz Thomaz Guz, presidente da empresa.

Thomaz Guz
A startup Nomah, de Thomaz Guz, vem investindo no retrofit de hotéis. Foto: Alan Teixeira

Ele conta que as áreas comuns foram adaptadas para uma operação guiada por tecnologia. Um dos pontos-chave é o controle de acesso: em vez de uma passagem aberta para a calçada, o empreendimento terá um hardware que permite a entrada de clientes que já tenham passado pelo processo de checagem online. Ou seja, um modelo tecnológico mais semelhante ao da portaria, ao invés de uma recepção tradicional de hotel.

Para o empresário, no cenário atual, a ideia de retrofit faz todos saírem ganhando. “São empreendimentos em que os proprietários possuem uma dor latente muito clara”, afirma, lembrando que a operação tradicional de hotelaria tem uma estrutura de custos alta, que, com a retração da demanda, causou um acúmulo de prejuízos. “Temos a oportunidade de resolver essa dor dos proprietários e aumentar a oferta de unidades dentro da nossa plataforma, trazendo mais diversidade de produtos para os clientes.”

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 A retomada vem depois de um período difícil – no ano passado, o recuo nas vendas foi de 4% –, que fez o setor colocar o pé no freio dos lançamentos. Por outro lado, a combinação de aumento da demanda, sem aumento correspondente da oferta, fez com que o estoque de terrenos caísse bastante. De 2018 para cá, o total de lotes disponíveis recuou à metade: de 125,4 mil para 67,4 mil. Só no ano passado, a queda foi de 33%, de acordo com a Aelo. A alta na procura já começa a se refletir nos preços.

Parte desse movimento está relacionada ao vácuo deixado pelas grandes loteadoras na última década, como Alphaville Urbanismo, Scopel e Cipasa. Essas companhias chegaram a ter dezenas de canteiros de obras abertos ao mesmo tempo Brasil afora. No entanto, amargaram prejuízos com a crise de 2014 e tiveram de enxugar as operações. A Alphaville, recentemente, vem apostando no loteamento com a construção de casas pré-fabricadas, ainda para clientes de alta renda.

Vácuo competitivo

“O estoque hoje (de terrenos no País) é uma piada, ele despencou. É um dos níveis mais baixos desde que o mercado de loteamentos se profissionalizou”, afirma Fábio Tadeu Araújo, sócio da consultoria Brain. E ele diz que a crise que envolveu as grandes loteadoras, a partir da metade da década passada, deve dificultar a mudança desse cenário. “Não tem mais competidores nacionais relevantes no setor de loteamentos. É um mercado que começou a depender mais das empresas regionais”, diz o consultor.

A escassez de terrenos no mercado já estimula alguns projetos de porte reduzido a retomarem os lançamentos. É o caso da Urba, loteadora do grupo MRV. A companhia tem meta de lançar entre 4 mil e 4,5 mil lotes em 2021, o que representará um salto considerável em relação a 2020, quando ofertou apenas 250 unidades. Nos próximos cinco anos, as metas são mais ambiciosas, com previsão de 15 mil novos lotes por ano.

“O setor de loteamentos tem bastante procura dos consumidores, principalmente no interior do País. Mas ainda é um segmento pulverizado, com muitas empresas locais. Então, nos deu ‘um clique’ de que faz sentido avançar”, diz a presidente da Urba, Érika Matsumoto.