sábado, 19 de junho de 2021

Eles recorreram a hospitais privados na crise da covid. Agora, lidam com dívidas estratosféricas, OESP

 Jayanne Rodrigues e Sarah Nicoli, especiais para o Estadão

19 de junho de 2021 | 13h00

O avanço da covid-19 nas cidades brasileiras em 2021, ano em que os indicadores da pandemia bateram recordes no País, levou diversas famílias a recorrerem a serviços de hospitais privados em momentos de urgência, na expectativa de conseguirem acesso a leitos e assistência que não encontraram na rede pública. Agora, diante de contas com cifras que chegam a centenas de milhares de reais, elas se mobilizam para honrar as dívidas que se acumularam.

Relatos de dívidas com instituições particulares de saúde se multiplicam nas redes sociais. São famílias que buscam ajuda de conhecidos e desconhecidos para pagarem a conta do hospital que tratou entes contra a covid-19. Em alguns casos, os pacientes não sobreviveram e o luto se mistura à batalha para reunir a quantia devida. A mobilização também envolve rifas e vaquinhas online e gente que teve de vender veículos e até a própria casa.

Segundo entidades de hospitais privados e especialistas, os custos para internar pacientes, já elevados, cresceram ao longo do ano por causa da alta no preço dos remédios, como o kit intubação. Nessas situações, apontam, há ainda risco grande de inadimplência. 

Enquanto a família de Gustavo Ferreira, de apenas 22 anos, enfrenta um processo doloroso após a morte prematura do jovem, eles também precisam encarar outra adversidade: uma dívida hospitalar que chega a R$ 219 mil reais. "A gente foi surpreendido com a conta do hospital", afirma Victor Vasconcelos, primo de Gustavo.  

A primeira conta gerada pelo Hospital Santa Juliana, em Rio Branco, foi de R$104.795,55 e somente o gasto com medicamentos ultrapassa R$ 60 mil reais. Imersos nessa situação, o processo de luto foi negado aos pais de Gustavo. "Quis dar aos meus tios o direito de sofrer", desabafa Victor que iniciou uma campanha online para auxiliar o pagamento da dívida. Por se tratarem de contas altas, mesmo após significativa mobilização nas redes sociais, a vaquinha ainda não alcançou um terço do valor total necessário para pagar o hospital.

Logo quando a família da educadora Eliete Maia, de 42 anos, soube que a situação dela era grave - 90% do pulmão comprometido -, cogitaram transferi-la do hospital público em que estava internada na capital acreana para o Santa Juliana, o mesmo em que Gustavo ficou hospitalizado. A possibilidade foi descartada rapidamente após indicações de médicos locais que orientaram mover a paciente para um hospital de São Paulo, onde Eliete teria mais assistência.

Entretanto, no auge da pandemia, a luta pela vida requer gastos elevados. Com um depósito inicial de R$ 50 mil reais, Eliete foi transferida para o Hospital Incor, na capital paulista, no dia 11 de junho. 

Segundo a sobrinha dela, Patrícia Andrade, a diária do hospital chega a R$ 10 mil reais e os honorários médicos alcançam R$ 2 mil reais, diariamente. Para pagar toda a conta médica, Patrícia também promoveu uma vaquinha online para arrecadar recursos e a família já recorreu a empréstimos, vendeu um carro e colocou a casa à venda. "A vida dela é tudo", relata a sobrinha.

Rede privada
O professor Alexandre Guidice acumulou uma dívida superior a R$ 100 mil por três dias de internação pela covid-19; ao lado da esposa Marina Moura, ele lançou uma campanha virtual para quitar o débito  Foto: ANDRE MOREIRA / ESTADÃO

Sobreviventes que receberam alta do hospital também foram surpreendidos com uma dívida alta. É o caso do professor Alexandre Guidice, de 35 anos. Mesmo com plano de saúde, após 10 dias de internação no Hospital Primavera, em Aracaju, o professor foi recebido com uma fatura de mais de R$ 100 mil reais. 

"São valores que a gente não sabe de onde eles tiram", afirma Mariana Moura, de 31 anos, esposa de Guidice. Mariana relata que enquanto o marido estava entubado, a conta foi enviada via aplicativo de mensagens sem qualquer detalhamento de quais serviços estavam incluídos na cobrança.

O valor é referente aos três dias em que o plano não cobriu as despesas da internação. Sem condições para quitar a dívida, Mariana agiu de imediato e, assim como boa parte dos endividados, lançou uma campanha virtual. 

Com as doações, conseguiu pagar 40% da conta, mas o restante segue em negociação. Apesar da preocupação com a dívida, hoje ela tenta se concentrar na recuperação de Guidice, que ainda necessita de fisioterapia, fonoaudiologia e cuidados extras com uma lesão na perna que adquiriu durante a internação.

Os pais internados e uma conta difícil de ser ignorada: esse foi o cenário enfrentado pela jornalista Narjara Costa, de 37 anos. Para internar a mãe, Edileusa Costa, de 61 anos, no hospital privado São Camilo em Macapá, Narjara vendeu seu carro e deu entrada de R$ 15 mil reais. 

Pouco tempo depois, o pai da jornalista, Ronaldo Costa, de 64 anos, também precisou ser internado por causa da covid-19. Os custos das permanências na UTI alcançaram R$ 30 mil reais, por dia. "Muitas pessoas falaram que eu era corajosa por fazer isso, mas o que você faz por quem você ama?", arremata Narjara.

Edileusa recebeu alta do hospital, mas Ronaldo não sobreviveu. Em meio à dor do luto, as dívidas não param de acumular. Para obter recursos, Narjara recorreu a rifas e vaquinhas nas redes sociais. Da conta de R$ 318 mil reais, ainda restam R$227 mil reais. 

A casa de Edileusa foi colocada à venda, mas o processo de negociação da dívida está parado, segundo a família, por causa de entraves com o Hospital São Camilo. "Eles pressionam muito e não negociam. E quando negociam, é muito difícil de pagar. Ali você tem de ter dinheiro", afirma Narjara.

Paciente custa R$ 100 mil por mês, aponta federação

Cobranças de valores altos não envolvem, necessariamente, preços abusivos ou irregulares, mas ilustram a pressão causada pela crise sanitária. A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) divulgou neste mês comunicado no qual detalha os custos das internações privadas de covid-19. Segundo a organização, em abril, o custo médio por paciente por mês em UTI estava em R$ 100,6 mil, aumento de 27% em relação ao mês de janeiro, variação que também se relaciona com a alta de preço dos medicamentos do chamado kit intubação.

"Se envolver intubação e ventilação mecânica, os materiais e medicamentos utilizados são extremamente caros. Além disso, numa UTI a equipe assistencial fica ao lado do paciente 24h por dia", diz Walter Cintra, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV.

Isso pode explicar as altas faturas recebidas no caso de pessoas que precisaram recorrer ao sistema privado de saúde. Estes eventos catastróficos, como são chamadas as internações de pacientes em estado grave, também apresentam um enorme risco de inadimplência, já que muitos pacientes são internados em um ato de desespero da família.

Como saída para evitar dívidas internas, conforme Cintra, os hospitais particulares costumam tentar transferência do paciente para um hospital público. "O que, no presente caso, é muito difícil de conseguir, uma vez que o paciente buscou o serviço privado exatamente por não conseguir vaga no SUS", ressalta.

Embora cada história apresente algum problema particular, a realidade que enfrentam é um reflexo estrutural do esgotamento nos hospitais públicos brasileiros. "Há uma demanda de assistência superior à capacidade de atendimento", afirma Cintra. Enquanto o Brasil tem quase 500 mil mortos pela covid-19, reverter essa situação pode ser uma tarefa árdua e que deve se estender a longo prazo. 

Procurada pela reportagem, a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), em nota, respondeu que a legislação impossibilita o pagamento antecipado em casos de emergência. Além disso, os acordos são permitidos entre paciente, hospital e seguradora. Sobre situações semelhantes às que foram apresentados nesta reportagem, a Anahp afirma que "não pode nem deve participar ou conhecer detalhes de operações comerciais ou financeiras de seus associados".

Até o fechamento desta matéria, nenhum dos hospitais mencionados responderam aos questionamentos enviados pela reportagem.


Vacinas da Pfizer e da AstraZeneca induzem mesmo nível de proteção contra covid, diz estudo, OESP

 Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2021 | 05h00

Enquanto no Brasil a vacinação continua lenta, muitos países vacinaram mais de 60% da população e ficou claro que as vacinas de mRNA, além de evitar hospitalizações, bloqueiam boa parte da transmissão comunitária. Além disso protegem contra novas variantes, mesmo perdendo efetividade frente às mais agressivas.

No Brasil estamos no bom caminho. A fábrica da Fiocruz está iniciando a produção da vacina da AstraZeneca e um número crescente de doses da Pfizer está chegando. A grande incógnita continua sendo a Coronavac: o estudo da fase 3 que mediu sua eficácia ainda não foi publicado. Não há estudos sobre sua eficácia em idosos ou crianças e tampouco trabalhos científicos que comprovam sua efetividade contra as novas variantes. Sabemos que ela produz poucos anticorpos neutralizantes e os estudos de efetividade, tanto nos funcionários do Hospital das Clínicas da USP, quanto em Serrana, sequer foram publicados na forma de manuscritos. Essa é a única vacina que ainda não obteve o registro definitivo na Anvisa, apesar de ter sido aprovada para uso emergencial pela OMS. Nesse início de vacinação a Coronavac ainda tem um papel importantíssimo no Brasil, mas sem esses dados vai ser cada vez mais difícil justificar a continuidade do uso.

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 Anvisa autorizou a indicação da vacina contra a covid-19 da Pfizer para adolescentes com 12 anos de idade ou mais Foto: Luis Acosta/AFP

Países desenvolvidos estão escolhendo quais vacinas utilizar caso seja necessário aplicar com periodicidade anual. Isto pode ser necessário ou porque a imunidade induzida dura pouco ou pelo surgimento de novas variedades. É nesse contexto que estão surgindo estudos que comparam diretamente duas ou mais vacinas na mesma população, no mesmo intervalo de tempo (e, portanto, na presença das mesmas variantes). O mais importante deles é a comparação entre Pfizer e AstraZeneca no Reino Unido publicado esta semana.

O Reino Unido implementou um sofisticado sistema de monitoramento da pandemia. Toda semana pesquisadores visitam milhares de residências escolhidas ao acaso, com uma metodologia muito semelhante à que usa em São Paulo o grupo de cientistas a que pertenço. A diferença é que, em vez de testar para a presença de anticorpos (o que detecta as pessoas já infectadas), os ingleses coletam amostras para fazerem o teste de PCR (que identifica as pessoas infectadas no dia da coleta).

 

Com esses dados o serviço de saúde sabe quantas pessoas estão transmitindo a doença naquele momento. É por isso que costumam divulgar que, por exemplo, 1 em cada 1.342 pessoas estão transmitindo a doença num dado dia. Além disso, as pessoas que testam positivo no PCR têm o genoma do vírus que os infecta sequenciado, o que permite que a variante seja identificada.

 

É dessa maneira que eles acompanham o aumento de alguma variante, como o que está acontecendo agora com a indiana. Cada pessoa também responde a um questionário e esse enorme banco de dados é enriquecido com os dados sobre seu estado vacinal (que imunizante foi aplicado e quando tomou cada dose). 

Analisando 1.945.071 resultados de PCR coletados em 383.812 pessoas entre 1.º de dezembro de 2020 e 8 de maio de 2021, foi possível aos epidemiologistas ingleses comparar a efetividade da AstraZeneca com a Pfizer. Os resultados surpreenderam. Vinte e um dia após a segunda dose, a da AstraZeneca reduziu a probabilidade de infecção dos vacinados (isso inclui os casos assintomáticos) em 79% e a vacina da Pfizer em 80%. Esse resultado demonstra que, neste caso, as duas vacinas induziram exatamente a mesma proteção. 

Esse resultado reforça a ideia de que estamos no caminho certo no Brasil ao aumentarmos o uso dessas duas vacinas. Mas é bom lembrar que no Brasil as variantes hoje são outras. O resultado também demonstra como é importante acompanhar a efetividade das vacinas e selecionar as mais adequadas. O fato é que o Brasil ainda rasteja no monitoramento da pandemia e na análise das variantes que circulam por aqui.

MAIS INFORMAÇÕES: IMPACT OF VACCINATION ON NEW SARS-COV-2 INFECTIONS IN THE UNITED KINGDOM. NATURE MEDICINE. doi.org/10.1038/s41591-021-01410-w 2021

João das ruas, Sergio Augusto, OESP

 Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2021 | 03h00

“Você é minha última esperança”, disse Odylo Costa, filho, me olhando com ar confiante, na redação da revista O Cruzeiro, que então comandava. “Você leu Gilberto Amado?”, perguntou. “Não”, respondi. E lá se foi o doce Odylo a resmungar sua decepção por não ter encontrado um escasso leitor de Gilberto Amado entre os seus pupilos. 

Já naquela época, nenhum jovem com os mesmos meus 21 anos, à exceção bastante provável de José Guilherme Merquior, havia lido ou se interessava pela literatura daquele que eu conhecia, acima de tudo ou quase que exclusivamente, como o pai diplomata da atriz Vera Clouzot, casada com o cineasta francês Georges Clouzot. 

Ademais, convenceram-me de que ele era um chato e danado de prosa. Mas dois outros fatores foram igualmente determinantes para me resguardar dele e suas prosas: Amado matara com uma pistola o poeta Aníbal Teófilo e descrevera de forma grosseira a mãe de seu confrade na Academia Brasileira de Letras, Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio

João do Rio
O jornalista e escritor Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio Foto: Acervo da Biblioteca Nacional

O assassinato, ocorrido à saída de uma tertúlia literária, no centro do Rio de Janeiro, vale bem uma crônica exclusiva, que pode ficar para ocasião mais apropriada, pois hoje meu personagem é justamente aquele cuja mãe, dona Florência Barreto, Amado descreveu nestes termos: “Morenona refolhuda e penigenta, alegre e vivedora, de um egocentrismo de atriz”. 

Porque faz 100 anos na próxima quarta-feira que o jornalista e escritor Paulo Barreto morreu, tirando de cena a figura ímpar de João do Rio, cronista maior da belle époque carioca, o Oscar Wilde caboclo, habitué encasacado dos saraus mais elegantes da cidade e conhecedor intimíssimo de suas ruas e sua gente.

Gilberto Amado, morto em 1969, é ainda menos lido hoje do que 60 anos atrás, ao contrário de João do Rio, cujo fundamental A Alma Encantadora das Ruas, caleidoscópica coletânea de crônicas publicadas na Gazeta de Notícias, no início do século passado, nunca saiu de catálogo. 

Gordo, mulato, homossexual, dândi, epicurista, comilão e flâneur da mítica Rua do Ouvidor, frequentador e observador diário dos bares, livrarias e redações que nela se concentravam, Barreto teve mais de um heterônimo. Foi também Joe, José Antonio José, X. Claude e Máscara Negra, todos aplicados na produção de textos vivos, eruditos e, coerentemente, pernósticos. 

O pândego filho de dona Florência brilhou na imprensa diária, semanal e mensal como cronista, repórter, crítico, editorialista, ensaísta e sociólogo amador. Era, de certo modo, mais moderno que os próprios modernistas, de cuja Semana, em 1922, não pôde participar. 

O cinema mal chegara ao País e ele já tinha uma coluna intitulada Cinematographo. As primeiras lutas de nossas feministas contaram de pronto com sua entusiástica solidariedade. Vítima de preconceitos, precisou insistir duas vezes para ser aceito na Academia Brasileira de Letras, mas o Barão do Rio Branco barrou sua entrada na vida diplomática, por não considerá-lo fisicamente digno da carrière. 

Seu prestígio como cronista e conferencista alcançou Portugal, onde também lhe reconheceram o pioneiro esforço por valorizar os aspectos humanos e sociais da vida urbana. Ele deu visibilidade à miséria dos anônimos e voz “às queixas dos infelizes”, lutou contra a exploração de menores pelos falsos mendigos que infestavam a capital da República.

Com o pseudônimo Joe assinou a melhor cobertura da inauguração do Teatro Municipal, em 1909. Em linguagem literária, pontuada de alusões históricas e literárias, nada escapou ao seu olhar deslumbrado, jubiloso e fotográfico. Do intenso movimento de veículos e cocheiros à entrada do teatro à cerimônia em si (Hino Nacional, discurso de Olavo Bilac, um poema sinfônico de Francisco Braga e Escragnole Doria, uma peça em um ato de Coelho Neto, uma ópera lírica, também em um ato, de Delgado de Carvalho), com preciosas descrições do opulento interior da casa e dos solenes convivas presentes à grande noite. Era o repórter certo, no lugar certo, na hora certa – e com o estilo certo. 

Na noite de 23 de junho de 1923, Paulo Barreto tomou um táxi na porta de seu jornal, A Pátria, no largo da Carioca, e rumou para Ipanema, onde morava. Não se sentia bem e piorou ao passar pelo Catete, onde pediu que o taxista parasse e lhe providenciasse um copo d’água. Ao voltar com a água, o taxista o encontrou morto – fulminado por um derrame. Para quem tanto se orgulhava de viver na rua, morrer nela foi uma abençoada fatalidade.

O poeta americano Robert Lowell também morreria dentro de um táxi 58 anos mais tarde, mas ele não desfrutava em Nova York da mesma popularidade que João do Rio alcançara em sua cidade. Antes da meia-noite, boa parte da população carioca já sabia da morte do jornalista. Na manhã seguinte, a notícia foi manchete de todos os jornais. 

O enterro, três dias depois, um domingo, atraiu em torno de 100 mil pessoas, num cortejo que lotou todo o trajeto que liga o centro do Rio ao cemitério de São João Batista, em Botafogo. Divulgou-se, na época, que fora o mais concorrido funeral da cidade desde o do Barão do Rio Branco, nove anos antes. O barão fizera muita coisa e tinha 66 anos. João do Rio tinha apenas 39 e ainda muita coisa por fazer. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’