sexta-feira, 18 de junho de 2021

Com o foco na CPI, Congresso legisla em causa própria na MP da Eletrobrás e na Lei da Improbidade, OESP

 Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2021 | 03h00

Há algo errado quando, do PT ao PP, praticamente todos os partidos ficam do mesmo lado na Câmara e quando dez entre dez economistas liberais se manifestam contra o projeto pró-privatização da Eletrobrás da Câmara e do Senado. A explicação, porém, parece razoavelmente simples: com o foco na CPI da Covid, o Congresso corre para passar suas boiadas e jabutis. 

O pau come entre o PT e o bolsonarismo, mas lá, no escurinho da Câmara, reina a paz para legislar em causa própria. O deputado petista Carlos Zarattini (SP) apresentou um relatório substitutivo mudando drasticamente a Lei da Improbidade, de 1992, e o texto foi aprovado por 408 votos a 67 em plenário, com apoio de praticamente todos os partidos e patrocínio do bolsonarista Arthur Lira (PP-AL) – o presidente da Casa, alvo de processos por... improbidade. 

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O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (Progressistas-AL), na noite desta quarta, 16  Foto: Pablo Valadares/Agência Câmara

Para o procurador Roberto Livianu, do Instituto Não Aceito Corrupção, a Lei da Improbidade “é a mais importante lei anticorrupção em vigor no Brasil”. E ele cronometrou: o substitutivo de Zarattini foi apresentado às 17h10 de terça-feira, o pedido de urgência começou a ser votado às 17h11 e foi aprovado às 17h19. Nove minutos. No dia seguinte o plenário liquidou a fatura. 

“Não foi urgência para salvar vidas, combater o desemprego, a covid ou mesmo a corrupção”, diz Livianu. A pressa foi no sentido oposto: abrandar a lei que ataca uma das mais resilientes pragas brasileiras, a corrupção. Pelo texto, só serão enquadrados os ímprobos que ajam com dolo, intencionalmente. Os ingênuos, distraídos, que não sabiam que estavam desviando dinheiro público e enriquecendo ilicitamente, ficam numa boa. Basta fazer cara de surpresa: “Era corrupção? Eu nem imaginava!”. 

Também partiu da Câmara, e virou uma grande confusão no Senado, a medida provisória (MP) que abre espaço para privatizar a Eletrobrás, estatal responsável pela geração e distribuição de energia, um setor estratégico e sempre no fio da navalha – como agora, por exemplo. A medida é estudada e defendida por especialistas há anos, ou décadas, mas vinha sendo sistematicamente impedida pelos... políticos. 

Sejam de esquerda, direita ou centro, políticos adoram uma estatalzinha bacana para acomodar generosamente seus parentes, afilhados e aliados. Mexer com ela, a estatal, é mexer comigo! Assim, trabalham contra a privatização e, se não tem jeito, como na Eletrobrás, lá vêm boiadas e jabutis. Os economistas que bradavam pela privatização agora são os primeiros a gritar contra a proposta do Congresso. Com razão. 

Afora o fato de ter sido proposta pelo governo por MP, mesmo não tendo urgência nenhuma, o grave mesmo foi a movimentação frenética dos deputados e senadores para tirar uma casquinha para suas bases eleitorais. Em vez de melhorar o péssimo texto da Câmara, os senadores puseram ainda mais jabutis, o mostrengo agora volta para a Câmara e o que é ruim sempre pode continuar piorando. 

O resultado é que a questão será fatalmente judicializada, empacando nos tribunais sabe-se lá por quanto tempo e criando insegurança jurídica, que provoca um efeito colateral drástico: em vez de cumprir o objetivo de atrair grandes investidores de Europa e Ásia, por exemplo, o texto do Congresso tende a afugentar as empresas – e seus bilhões de dólares – num setor essencial. 

Passo a passo, o Brasil anda de marcha à ré, afunda no atraso e no negacionismo e perde credibilidade internacional, carente da liderança de um presidente da República que não governa, só faz campanha, guerreia pelo voto impresso, cria seus próprios jabutis e passa suas boiadas não só no meio ambiente, mas no pobre e abalado interesse nacional. “Jabuti não sobe em árvore. Ou foi enchente ou foi mão de gente.”

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

CARLOS TERENA (1954 - 2021) Mortes: De fortes convicções, preferiu a tradição indígena à vacina, FSP

 


SÃO PAULO

Carlos Terena era amante da vida, mas não queria passar dos 65 anos. Primeiro, para não se tornar um idoso dependente; em segundo lugar, estava abalado com as mortes dos líderes indígenas por Covid-19 e tinha medo de contrair a doença.

O terceiro motivo se refere a um projeto que idealizou e criou: os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. Havia o receio de não conseguir realizar mais o evento, devido à falta de apoio às causas indígenas por parte do governo federal. A última edição dos jogos ocorreu em 2015, em Palmas, no Tocantins.

Terena morreu dia 12 de junho, aos 66 anos, por complicações da Covid-19. Entre as comorbidades que apresentava, era diabético.

Carlos Terena (1954-2021)
Carlos Terena (1954-2021) - Marco Mendes


Segundo a jornalista Maíra Elluké, 36, sua filha, ele respeitou o isolamento, mas não se vacinou.

“Meu pai tinha medo de se vacinar porque estava inseguro em relação à vacina, mas eu dizia que era necessário se vacinar. Ele estudou muito, pesquisou vários artigos científicos e sobre os tipos de vacina. Na crença dele, a cura para as doenças vinha da natureza. Ele sempre respeitou essa tradição”, afirma.

Natural de Aquidauana, em Mato Grosso do Sul, Terena trabalhou na Funai (Fundação Nacional do Índio) entre 1979 e 2016, quando se aposentou. Além dos jogos, criou o Conplei (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas).

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“Ele era um grande sonhador e realizador. Mesmo aposentado dedicou boa parte do seu tempo aos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. A ideia era tirar da pauta diária dos índios questões negativas, como as mortes e as guerras no garimpo, por exemplo, levar alegria e deixar uma marca no Brasil”, diz a filha.

Às filhas ensinou acreditar nos sonhos e deu condições para que elas encontrassem sozinhas os próprios caminhos.

Carlos Terena deixa a esposa, duas filhas e uma neta. “Ele foi um líder, de convicções fortes e grande defensor das tradições e da cultura indígena. Prezava os amigos e a família. Cumpria com humildade o que havia estabelecido como meta”, afirma o professor Henrique Terena, 56, seu primo.

Pecuaristas dos EUA apostam em novos frigoríficos após pandemia e ataque à JBS, FSP

 Pecuaristas e investidores dos Estados Unidos estão destinando centenas de milhões de dólares à construção de novas fábricas de carne bovina, depois que o fechamento temporário de enormes unidades de abate no início da pandemia de Covid-19 deixou produtores sem ter para onde enviar animais prontos para serem transformados em carne.

Um ataque cibernético contra a unidade norte-americana da gigante brasileira JBS, que paralisou quase um quarto da produção de carne bovina dos EUA neste mês, voltou a ressaltar as vulnerabilidades da cadeia de oferta de carnes do país, causando mais dores de cabeça aos produtores.

Os pecuaristas, assim como o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês), afirmam que o setor está muito consolidado e, dessa forma, depende de apenas alguns grandes processadores e de seus frigoríficos industriais.

Unidade da JBS em Plainwell, Michigan - Jeff Kowalsky - 9.jun.2021/AFP

Quatro gigantes do setor —JBS USA, Tyson Foods, Cargill e National Beef Packing Company— são responsáveis pelo abate de 85% do gado engordado com grãos, transformando-o em bifes, costelas e assados para os consumidores.

As fábricas de carne de menor porte e startups têm o objetivo de fornecer aos pecuaristas locais mais espaços para o abate do gado, especialmente aquele criado para produção de carne de maior qualidade. Segundo elas, o aumento no número de plantas pode garantir que parte da produção seja mantida caso grandes instalações venham a fechar.

Quando grandes frigoríficos fecham, a oferta de carne diminui e os produtores ficam com o gado que teria sido abatido. Isso significa que o preço do gado geralmente cai, enquanto o preço da carne nos supermercados sobe.

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As longas paralisações em alguns dos maiores abatedouros dos EUA devido a surtos de Covid-19 afetaram a produção de carnes na primavera de 2020 (no Hemisfério Norte), resultando na imposição de limites para as compras por consumidores em supermercados e em uma redução nos estoques congelados, que os processadores ainda precisam reabastecer.

Rusty Kemp notou a necessidade de mais capacidade de processamento após um incêndio em uma fábrica da Tyson Foods em Holcomb, no Kansas, em 2019, que levou os consumidores de carne a lutar por suprimentos e deixou produtores de gado sem ter para onde vender seu gado. Em seguida, ocorreram a pandemia e o ataque ransomware à JBS.

Agora, Kemp planeja inaugurar no outono deste ano uma fábrica de carne bovina de 300 milhões de dólares no Nebraska.

"Achamos que o incêndio em Holcomb havia sido um desastre absoluto, mas então a Covid apareceu e Holcomb passou a não parecer mais tão ruim", disse ele.

A fábrica de Kemp, batizada de Sustainable Beef, vai abater 1.500 cabeças de gado por dia e utilizar a tecnologia de blockchain para que os consumidores possam rastrear cada corte de carne até a fazenda, afirmou ele.

A Sustainable Beef tem como coproprietários produtores de gado que fornecerão animais à fábrica para abate, em vez dos grandes frigoríficos, acrescentou Kemp. Ele contratou ex-executivos da Cargill —uma das maiores processadoras de carnes— como consultores, devido a seu expertise.

Kemp afirma, porém, que não está tentando entrar em conflito com os quatro grandes frigoríficos do país, e que fábricas maiores são necessárias para produzir grandes volumes de carne.

"Precisamos absolutamente de mais capacidade e mais players", disse.

Em todo o país, pelo menos cinco novas instalações de processamento de tamanhos variados foram inauguradas ou têm planos de abertura após os choques de oferta vistos no início da pandemia. Considerando expansões em fábricas já existentes, incluindo uma da JBS, a capacidade de abate diário dos EUA deve aumentar em cerca de 5%, de acordo com cálculos da Reuters e dados do Instituto Norte-Americano de Carnes.

As condições de mercado são favoráveis para novos participantes. A oferta de gado é ampla, enquanto os preços da carne bovina e as margens de lucro dos frigoríficos dispararam devido às fortes exportações e à demanda dos consumidores norte-americanos.

Em Butler, Missouri, Todd Hertzog e sua família inauguraram a Hertzog Meat Company neste mês, após estudarem o projeto por cinco anos.

Embora a fábrica de 3,75 milhões de dólares abata apenas cerca de 20 cabeças de gado por dia, ela atende a fazendeiros próximos que desejam produzir carne bovina de alta qualidade, disse Hertzog, que administra a operação.

"A pandemia abriu nossos olhos para as necessidades dos produtores locais", afirmou ele.

As interrupções de produção durante a pandemia levaram Cliff Welch a iniciar a construção de uma fábrica de processamento de carne na região de Central City, Kentucky, a um preço de mais de 1,2 milhão de dólares. O ataque cibernético à JBS reforçou a decisão de Welch de construir a instalação, com inauguração prevista para o final de 2021, disse ele.

Welch pretende começar com o abate de 75 cabeças de gado por semana, mas vê capacidade de abater 300 cabeças por semana eventualmente. Ele disse que vai produzir cortes personalizados de carne usando o "açougue à moda antiga", e planeja vendê-los localmente.

"Estou começando do zero", disse Welch. "É um grande empreendimento."

Welch acrescentou ter recebido uma doação de 250 mil dólares do Kentucky para o projeto.

SUBSIDIÁRIA DA JBS FAZ AQUISIÇÃO NA EUROPA

A JBS informou nesta quinta-feira (17) que sua subsidiária Pilgrim's Pride fechou um acordo para aquisição dos negócios de alimentos preparados e refeições da Kerry Consumer Foods no Reino Unido e na Irlanda.

A operação tem um "enterprise value" de £ 680 milhões (aproximadamente R$ 4,7 bilhões), o que representa um múltiplo de 8,5 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla inglês) esperado para 2021 dos negócios adquiridos, disse a JBS em fato relevante.

A conclusão do negócio é esperada para o quarto trimestre de 2021, estando sujeita a aprovações regulatórias usuais.

"A operação fortalece a posição da Pilgrim's Pride como uma das empresas líderes na indústria de alimentos na Europa, criando uma das maiores e mais completas plataformas integradas de alimentos, com um portfólio de produtos de valor agregado com marcas", afirmou a JBS.

A Kerry comercializa marcas líderes como Denny, Richmond e Fridge Raiders.

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