sexta-feira, 11 de junho de 2021

Câmara atropela comissão para flexibilizar lei de improbidade, que pune nepotismo e 'carteirada', OESP

 Em acordo com líderes partidários na Câmara, o presidente da Casa, Arthur Lira (Progressistas-AL), decidiu pautar para a semana que vem a votação em plenário do polêmico projeto que afrouxa a Lei de Improbidade Administrativa, usada para punir práticas como o nepotismo. A decisão foi tomada sem que se conheça a versão final do texto, ainda não apresentada pelo relator, Carlos Zarattini (PT-SP), e atropela a comissão especial que analisa a proposta desde 2019.

A primeira versão do texto do relator, apresentada no fim do ano passado, foi criticada por entidades que atuam na área de transparência, agentes de órgãos de investigação e até por integrantes do governo, que enxergam possíveis prejuízos ao combate à corrupção no País. Entre as principais alterações propostas por Zarattini está a exclusão do artigo 11 da lei, que prevê punições a práticas que afrontem os princípios da administração pública, como o nepotismo, a “carteirada” e até a “furada de fila” da vacinação. Segundo a proposta, apenas condutas que gerem enriquecimento ilícito ou prejuízo aos cofres públicos poderiam ser alvo de processos contra prefeitos e demais gestores.

Zarattini disse ao Estadão que ainda deve apresentar um novo parecer até o início da próxima semana.  “Tivemos várias críticas e sugestões e estamos preparando modificações”, afirmou o petista. Questionado, ele não respondeu se devolverá o artigo 11 ao texto ou incluirá a possibilidade de punir agentes públicos que violarem os princípios da administração pública.

Arthur Lira
O presidente da Câmara, Arthur Lira Foto: Adriano Machado/Reuters

O autor do projeto, deputado Roberto Lucena (Pode-SP), estranhou o avanço da medida e a ideia de se pautar o texto, na semana que vem, diretamente no plenário, sem que ainda sejam conhecidas as alterações no projeto. É nas comissões especiais que os projetos passam por discussões mais aprofundadas, incluindo a realização de audiências com a sociedade civil.

“Como pode ser isso se não temos ainda o texto publicado com as adequações feitas pelo relator para conhecimento dos parlamentares e da sociedade? É um absurdo. Precisamos ter acesso ao texto do substitutivo e ver o que tem ali. Aliás, por que esse substitutivo não será votado primeiro na comissão especial?”, questionou Lucena. 

Para a deputada Adriana Ventura (Novo-SP), as mudanças propostas na Lei de Improbidade são “substanciais” e não poderiam ser votadas sem amplo debate: “O encaminhamento deste texto direto para o plenário ensejará uma aprovação de afogadilho e afetará o debate do tema, o que pode representar uma grande ameaça ao combate à corrupção”.

Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro é defensor da proposta com o argumento de que a legislação atual “engessa” a atuação de prefeitos, que deixam de agir em determinados momentos com receio de serem processados. O líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (Progressista-PR), é um dos principais articuladores para a votação do projeto. Em entrevista ao Estadão, em fevereiro, ele defendeu o fim da punição ao nepotismo, que é a prática de políticos contratarem os próprios parentes para trabalhar no serviço público.

Segundo o entendimento dos que defendem a mudança na legislação, é preciso evitar casos como a cassação ou a perda de direitos políticos de um prefeito até mesmo pelo fato de prestar contas fora do prazo.

A Lei de Improbidade Administrativa foi criada, em 1992, como resposta à sensação de impunidade no País, em meio ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello. 

As alterações gestadas no Congresso não preocupam apenas investigadores e órgãos de controle, responsáveis diretamente pelo combate à corrupção, mas até mesmo integrantes do próprio governo federal.

Em março, o Estadão mostrou essas preocupações em documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), elaborados pelas assessorias técnicas do Ministério da Justiça e da Casa Civil. 

“O texto do substitutivo revoga dispositivos importantes para o combate à improbidade administrativa e vai de encontro à finalidade do PL (projeto de lei), que é a de aprimorar o texto legal e conferir maior eficiência e eficácia ao combate à corrupção e à malversação dos recursos públicos”, diz o relatório da Casa Civil, que recomenda alterações em 44 pontos da primeira versão do texto apresentado por Zarattini.

Outra mudança polêmica prevista no primeiro relatório do petista é a que impede a demissão de agentes públicos, em casos de mudança de cargo. Por exemplo, se um deputado federal, hoje, for condenado em ação de improbidade administrativa, por atos que praticou quando era prefeito, não perderia a função pública.

A Lei de Improbidade estabelece a “perda da função pública” como uma das penas possíveis a condenados nas ações civis de improbidade. Vinte anos depois, a interpretação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) está consolidada no sentido de que não importa o cargo ocupado pelo réu; ele será cassado no fim do processo caso essa pena seja aplicada.

No entanto, Zarattini não informou se essas mudanças serão mantidas na versão final.

O diretor-executivo da Transparência Brasil, Manoel Galdino, criticou as alterações propostas e também a falta de discussão do texto, que poderá ser votado na semana que vem. “O processo foi pouco transparente e com escasso debate com a sociedade civil e órgãos de controle, já que não houve audiências públicas para debater o substitutivo”, disse o diretor da Transparência Brasil.  


matéria da Agênca Câmara

Política e Administração Pública

Câmara poderá votar projeto que atualiza a Lei de Improbidade Administrativa

10/06/2021 - 17:33  

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Líderes discutem a pauta do Plenário na semana que vem
Líderes discutem a pauta do Plenário na semana que vem

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), apresentou algumas pautas do Plenário para a próxima semana. Após reunião de líderes, Lira afirmou que a proposta que altera a Lei de Improbidade Administrativa (PL 10887/18) poderá ser votada na próxima semana. Segundo ele, o relator do texto, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), fará mais algumas reuniões com alguns partidos para apresentar seu parecer. A proposta estabelece que caberá ao Ministério Público propor ações de improbidade administrativa, assim como a aprovação de eventuais acordos com os envolvidos. Já as ações de ressarcimento continuam de titularidade do ente público lesado.

Outra proposta apresentada por Lira que poderá ser votada na próxima semana é a Medida Provisória 1040/21, que tem o objetivo de modernizar e desburocratizar o ambiente de negócios no Brasil. O texto enviado ao Congresso Nacional promove diversas mudanças na legislação para simplificar a abertura de empresas, facilitar o comércio exterior e ampliar as competência das assembleias gerais de acionistas.

Lira disse também esperar que o projeto sobre regularização fundiária tenha seu relatório apresentado nesta semana para ser levado ao Plenário. O texto estabelece critérios para a regularização fundiária de imóveis da União, incluindo assentamentos (PL 2633/20). As regras são restritas a áreas ocupadas até julho de 2008 com até seis módulos fiscais – unidade fixada para cada município pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que varia de 5 a 110 hectares.

Reportagem – Luiz Gustavo Xavier
Edição - Wilson Silveira

  • Áudio da matéria

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Tatiana Prazeres - Altamente disputado, exame de admissão no ensino superior chinês reflete valores do país, FSP

 “Os recipientes para leite são sempre caixas quadradas; os recipientes para água mineral são sempre garrafas redondas; garrafas redondas para vinho são normalmente acondicionadas em caixas quadradas. Escreva uma redação sobre a filosofia sutil do redondo e do quadrado.” Eis um exemplo de questão do exame de ingresso no ensino superior chinês, o gaokao.

Nesta semana, 10,78 milhões de chineses fizeram as provas do gaokao em todo o país. O maior exame do mundo consiste basicamente na única porta de entrada para a universidade na China.

Estudantes saem de escola depois de terminar o primeiro dia do 'Enem chinês', chamado de gaokao, em Pequim
Estudantes saem de escola depois de terminar o primeiro dia do 'Enem chinês', chamado de gaokao, em Pequim - Noel Celis - 7.jun.21/AFP

Aqui, os candidatos listam suas universidades de preferência, e a nota nesse exame nacional define se o aluno tem acesso a alguma delas. O gaokao é parte do sonho chinês, é caminho para ascensão social, para empregos melhores, para uma vida longe das fábricas e do campo. Em vários aspectos, o gaokao se aproxima do Enem ou do vestibular no Brasil. Mas o valor da educação na sociedade chinesa é muito diferente. A importância do gaokao no imaginário coletivo é outra.

Durante os dias do exame, motoristas são proibidos de buzinar perto dos locais de teste. Alunos podem ter prioridade no transporte público. Templos recebem oferendas de familiares ansiosos. Pais já bloquearam ruas para que o barulho dos carros não atrapalhasse a compreensão oral do exame de inglês dos seus filhos, como me conta o podcast Pagode Chinês, num ótimo episódio sobre o gaokao.

Praticamente toda a vida escolar dos chineses é orientada para o teste. São 12 anos que culminam no momento do vai ou racha. Pais se sacrificam pelo sucesso dos filhos no gaokao, o que se traduz em pressão sobre as crianças desde cedo.

Algumas universidades estrangeiras, incluindo Cambridge, reconhecem o resultado do gaokao nos seus processos de admissão. O mais interessante, no entanto, é que muitas famílias chinesas com condições financeiras mandam os filhos estudar no exterior quando suas notas no gaokao não lhes asseguram acesso a uma boa universidade na China. Nesses casos, estudar fora pode vir a ser o remédio para um desempenho ruim no gaokao.

As críticas ao modelo não surpreendem. O gaokao acaba enviesando todo o sistema educacional, valorizando a cultura do teste em prejuízo de uma formação mais completa. Escolas teriam virado fábricas preparatórias para o gaokao. Além disso, a pressão excessiva tem repercussões na saúde mental, autoestima e sociabilidade dos adolescentes.

CHINA, TERRA DO MEIO

Receba toda sexta-feira um resumo das principais notícias da China no seu email

A realidade é que, apesar disso, o gaokao reflete valores importantes da sociedade chinesa. O país tem história milenar de exames para o ingresso no serviço público. Para se tornar um “mandarim”, um burocrata na China imperial, havia uma prova. A educação e a meritocracia têm raízes culturais profundas.

Além disso, o esforço, a disciplina e o trabalho duro são valores confucionistas —e endossados com gosto pelo discurso oficial de hoje. E mais: na China contemporânea, é grande a pressão para ser bem-sucedido e ter boas condições de vida. O gaokao se encaixa perfeitamente bem nesse caldo cultural.

Há vozes que propõem reformas no sistema, mas a tarefa não é fácil. Em 2016, uma das melhores escolas de Nanjing ajustou seu currículo para valorizar a criatividade, estimular atividades em grupo etc. O desempenho dos alunos no gaokao caiu. Revoltados, os pais fizeram manifestações em frente à escola. O diretor liberal deu meia-volta, as mudanças foram revertidas e tudo voltou ao que era antes.

Possivelmente os alunos da escola de Nanjing hoje conseguem discorrer sobre a filosofia sutil do quadrado e do redondo. Para alívio dos pais —e para o meu espanto.


Bolsonaro prepara o golpe, Ruy Castro, FSP

 Dos muitos achados de Nelson Rodrigues que entraram para a cultura nacional --"Complexo de vira-lata", "Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos", "O brasileiro quando não é canalha de véspera é canalha no dia seguinte"--, nenhum é mais atual que "Só os profetas enxergam o óbvio". Nelson criou-o a partir da história de Otto Lara Resende, que, ao ir de carro para a Cidade pelo Aterro do Flamengo, passava todo dia pelo Pão de Açúcar e não o enxergava. Por que não? Porque o Pão de Açúcar era o óbvio.

De repente, Otto o enxergou. Freou no meio da pista, desceu atônito e começou a apontar a pedra para interlocutores imaginários: "Não é possível! De onde saiu???". Outros motoristas pararam para, talvez, socorrê-lo. E, de fato, Otto, que era asmático, foi atacado de falta de ar. "Calma, senhor!", diziam. Alguém o abanou com o Globo. Ele não se conformava: "Ontem não estava aqui!". E Nelson completou: "Foi o encontro do Otto com o óbvio. O óbvio ululante".

Neste momento, estamos também diante de um óbvio que talvez não queiramos enxergar: o de que Jair Bolsonaro chegou a um ponto sem volta na sua preparação para um golpe.

Golpe que ele vem fomentando desde o dia da posse, quando botou em dúvida o voto eletrônico que o elegera —ideia que tem ganhado surpreendentes adesões. Bolsonaro, que já chegou ao Planalto com o aplauso das milícias, dedicou-se imediatamente a armar a população —hoje, o arsenal em mãos de civis, incluindo fuzis restritos às Forças Armadas, vai a quase 2 milhões de peças. Some a isso as PMs dos estados e o baixo oficialato do Exército, que ele corrompeu com cargos, benesses e ideologia. Efetivo para dar um murro na mesa e mandar um general calar a boca Bolsonaro já tem.

Ah, sim, os generais. Deixaram-no ir longe demais. Talvez por isso, vendo-se sem margem de recuo, tenham agora de continuar com ele rumo à aventura.