quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

2019, o ano de redescobrir a inteligência natural, Roberto Dias, FSP

Kissinger diz que a humanidade está despreparada para a inteligência artificial

Um dos melhores textos deste ano foi escrito por alguém que não se interessava pelo assunto discutido nele. Henry Kissinger versou sobre inteligência artificial em artigo na revista The Atlantic.
O ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, na China, em novembro de 2018
O ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, na China, em novembro de 2018 - Thomas Peter/Pool/AFP
Acabou metralhado por integrantes da comunidade científica, não raro com argumentos do tipo "ele não entende nada disso".
A reação é compreensível, mas vale espiar o que está escrito. Do alto de 95 anos de uma vida que cruzou algumas das grandes decisões do século passado, Kissinger defendeu a tese de que a humanidade está despreparada para a inteligência artificial.
Ele afirma que a chamada IA encerra a era do iluminismo, impulsionada pela imprensa e a propagação do conhecimento.
"O iluminismo procurou submeter verdades tradicionais à razão analítica humana. O propósito da internet é ratificar o conhecimento pela acumulação de uma quantidade crescente de dados", diz. "A cognição humana perde seu caráter pessoal. Internautas raramente interrogam a história ou a filosofia; buscam informação para necessidades práticas. A verdade se torna relativa."
Esse novo mundo não é governado por normas éticas ou filosóficas, escreve ele. A inteligência artificial toma decisões estratégicas sem explicar o que fez —o famoso exemplo do carro autônomo que deve escolher quem atropelar encaixa-se aqui.
Esse processo computacional altera o comportamento humano; Kissinger afirma que a reverberação de nichos nas redes sociais encurta a visão dos políticos, premidos a decisões de menor qualidade.
O pior está por vir, diz ele: ao enxergar um processo decisório como uma sequência de operações matemáticas, arriscamos perder nossa capacidade de pensar. 
O ano que se encerra foi aquele em que os humanos correram atrás da privacidade perdida, expondo o porão das empresas de tecnologia. Em 2019, podem encontrar problemas ainda maiores escondidos por lá.
Roberto Dias
Secretário de Redação da Folha.

O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos’, diz Mike Shatzkin, OESP

Para o consultor americano Mike Shatzkin, não se pode administrar uma livraria do mesmo jeito quando mais da metade das pessoas que ainda leem livros impressos não consideram ir até uma loja para comprar livros

Entrevista com
Mike Shatzkin
Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo
27 Dezembro 2018 | 03h00
Mike Shatzkin acompanha o mercado editorial americano e internacional há mais de 40 anos, período em que o negócio do livro passou por inúmeras mudanças. As transformações seguem chacoalhando livrarias e editoras as redor do mundo, e as incertezas que pairam sobre as empresas brasileiras são antigas conhecidas nos EUA, que em 2011 assistiu ao colapso da Borders, rede de livrarias com lojas espalhadas também pelo Reino Unido e outros países. Procurado pelo Estado para comentar o momento pelo qual o setor passa e para sugerir o que o mercado brasileiro poderia aprender com o internacional, ele disse: “Eu gostaria de oferecer algum consolo, mas receio não poder oferecer nada”. 
‘O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos’, diz Mike Shatzkin
Borders entrou em colapso em 2011 Foto: Rick Wilking/Reuters
O que está acontecendo no mundo do livro?
Duas coisas estão acontecendo simultaneamente. Mais e mais leituras estão sendo feitas nas telas. E o que tem sido lido em papel é cada vez mais comprado online e não numa loja do varejo. Essa mudança ocorreu por muitas razões, mas ela é inexorável e há um longo caminho até que se encontre um equilíbrio. Muitas vezes, poder escolher entre todos os livros do mundo e ter o livro entregue em casa é um jeito mais eficiente de comprar para mais pessoas do que sair para procurar alguma coisa numa livraria física e escolher a partir de uma pequena oferta de títulos potenciais. E depois ter que carregar o livro com você quando você pode estar ou não estar indo para casa e pode ter ou não ter outras coisas para carregar. Não é “culpa” de ninguém, mas não se pode administrar uma livraria do mesmo jeito quando mais da metade das pessoas que ainda leem livros impressos não consideram ir até a sua loja para comprar um livro.
O que aconteceu aqui é que a Borders entrou em colapso em 2011, deixando entre 400 e 450 megastores abandonadas. Eram lojas que comportavam 100 mil títulos. Talvez àquela altura já fossem lojas de 60 mil títulos. O “renascimento” das livrarias independentes substituiu essas lojas com, talvez, uma certa quantidade de lojas especializadas, mas elas são lojas de 5 mil, 10 mil títulos. Muito menores. E não estão interessadas em estocar fundo de catálogo. Enquanto isso, a Barnes & Noble diminuiu a quantidade de espaço dedicado a livros em suas estantes. Assim, o espaço total de estante diminuiu e ainda deve diminuir ainda mais.
À medida que caminhamos rumo a um mundo sob demanda operado por livrarias online, o que uma editora tem a oferecer a seu autor é menor. A importância de ser uma grande editora diminuiu. O marketing de uma grande editora tem muito menos a ver hoje com a força de venda de colocar livros em milhares de lojas do com influenciadores digitais e engajamento direto com o consumidor de diferentes formas. Há algumas oportunidades, como construir sites verticais - onde ser grande ajuda. Ser especializado ajuda ainda mais.
O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos. Assim, eu não esperaria uma volta ao negócio do livro que conhecíamos, independentemente de quão forte o livro impresso seja.
Qual é o papel da livraria hoje e num futuro próximo e quem vai sobreviver?
A maioria dos títulos disponíveis nas grandes lojas não são vendidos com lucro: eles estão lá para gerar tráfego. Mas, na era digital, isso não funciona mais. Quem sobreviverá são os proprietários-gestores que estiverem dispostos a ganhar menos dinheiro do que fariam de outra maneira porque gostam muito de administrar uma livraria. Há muitas pessoas assim, mas elas não são tantas quanto as que são mais atraídas pela possibilidade de ter lucro mesmo. Uma empresa como a Ingram nos Estados Unidos pode, de verdade, ajudar essas livrarias a sobreviver ao dar a elas um suporte - e providenciar qualquer coisa que elas precisem de forma rápida e eficiente. Eu nunca perguntei a ela, mas suspeito que as livrarias independentes de maior sucesso compram muito do seu estoque da Ingram. Então, o que vai acontecer depois da ‘ascensão’ das livrarias depende muito de existir uma infraestrutura atacadista para possibilitar a administração de uma pequena livraria.

Encontrou algum erro? Entre em contato