quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Bandidos fora da cadeia, FSP

Prisão deve ser reservada para gente que representa risco físico à sociedade

Um dos problemas do ser humano é que, pelo menos no mundo moderno, nossos impulsos atávicos nem sempre correspondem ao que é melhor para nós. Um bom exemplo desse abismo é a questão do encarceramento de criminosos.
Detentos durante banho de sol no complexo penitenciário de Alcaçuz
Detentos durante banho de sol no complexo penitenciário de Alcaçuz - Adriano Abreu / Tribuna do Norte
Não há dúvida de que aqueles que violam as normas do grupo precisam receber alguma sanção. Modelos matemáticos mostram que sociedades só são estáveis quando punem aqueles que tentam levar vantagem indevida. Até aqui, nossas intuições e necessidades estão do mesmo lado. As complicações surgem quando temos de definir quais são as sanções cabíveis.
A cadeia até surgiu como um avanço humanitário, já que substituiu a pena capital, que era aplicada até para delitos que hoje consideraríamos menores. Mas isso foi no século 18. De lá para cá, o mundo mudou bastante, mas avançamos muito pouco na questão da atribuição de penas. O encarceramento segue sendo a resposta automática.
E o problema da cadeia é que ela é um instrumento muito grosseiro para controlar o crime. Uma pena de dez anos não inibe significativamente mais que uma de oito. O preço é outra complicação. O custo é elevadíssimo não só para o pagador de impostos como para a família do preso. Nos EUA, após décadas de aumentos de penas, até políticos republicanos, pressionados pelos custos, têm defendido uma reorientação na política de encarceramento. No caso do Brasil, há ainda o agravante de que as cadeias se tornaram os celeiros nos quais as organizações criminosas recrutam seus quadros.
Não há como resolver essa equação sem abrir mão de prender tanto. Temos de reservar a cadeia para gente que representa risco físico à sociedade, aplicando outros tipos de pena aos demais, que incluem ladrões de galinha, pequenos traficantes e corruptos. Sei que isso contraria nossa intuição fundamental de que lugar de bandido é a cadeia, mas a alternativa é continuar pagando muito para subvencionar o PCC.
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

Opacidade a toda prova, Opinião FSP

Lei de Acesso à Informação completa sete anos sem ter enraizado transparência

A lei federal 12.527, mais conhecida como Lei de Acesso à Informação, completou sete anos sem ter enraizado por completo a cultura da transparência no poder público brasileiro. Melhorou muito a possibilidade de obter dados e esclarecimentos do Estado, decerto, porém ainda estamos distantes do ideal.
Pastas de arquivo da Polícia Civil em Santos, litoral de São Paulo
Pastas de arquivo da Polícia Civil em Santos, litoral de São Paulo - Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem
Haveria espanto se assim não fosse. Ninguém esperava que burocratas e administradores passassem, de um dia a outro, a abrir mão de informações que se habituaram a controlar e sonegar, em desafio ao princípio da publicidade que deveria reger todos os atos oficiais.

Agora, entretanto, isso tornou-se ilegal. E, mesmo assim, repartições e servidores seguem erguendo obstáculos aos cidadãos que lhes encaminham pedidos, como assinala recente levantamento da organização não governamental Transparência Brasil.
A própria ONG enfrentou o problema, ironicamente, ao compilar os dados sobre o relativo sucesso da legislação nesses sete anos. Em 2017, solicitou a 206 órgãos de governo estatísticas sobre pedidos recebidos, atendidos e recusados desde 2012, quando a lei entrou em vigor. Ficou sem nenhuma resposta de 93 deles (45%).
Negaram por escrito o fornecimento dos dados outras 36 entidades (17%); 47 (23%) franquearam acesso apenas parcial. No final, meros 30 órgãos (15%) acataram de modo integral o pedido.
Com isso, abandonou-se o objetivo inicial de classificar num ranking as repartições mais e menos abertas. Apenas foram analisados cerca de 10 mil pedidos, e as conclusões pouco têm de animadoras.
O Poder Executivo, nos três níveis de governo, é o mais demandado pelo público e também o mais refratário. Acata 52% das solicitações e recusa 36% (as demais são atendidas de forma parcial). O Legislativo se sai melhor, com três quartos dos pedidos respeitados.
A própria qualificação de “atendido” tem um quê de duvidoso. Não raro a repartição dá por resolvida a demanda para a qual tenha dado resposta, mesmo que negativa.
Isso quando não responde de maneira obscura, em textos repletos de terminologia incompreensível para o leigo em regulamentos. O relatório também registra casos de documentos ilegíveis.
A Constituição diz que a administração pública tem de obedecer aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Há servidores descumprindo vários desses quesitos.

O QUE A FOLHA PENSA O social sob o teto, FSP

Com ou sem o limite para o gasto federal inscrito na Constituição, avanços em educação e saúde não podem mais contar com a alta contínua de verbas

Para qualquer gestor, a imposição de um limite à expansão de despesas representa um desafio. Para a administração pública brasileira, que por duas décadas elevou seus desembolsos de modo contínuo, a instituição de um teto constitui um choque ainda não superado.
No governo federal, os gastos com pessoal, custeio administrativo, programas sociais e investimentos cresceram do equivalente a 14% do Produto Interno Bruto, em 1997, a 20% em 2016, patamar que deve se repetir neste ano.
Estudante da rede pública em São Paulo
Estudante da rede pública em São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress
Embora com dados menos precisos, pode-se afirmar que os orçamentos estaduais e municipais também viveram uma escalada no período, impulsionados por objetivos e encargos na área social.
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A considerar as três esferas de governo, por exemplo, a despesa com educação se elevou de 3,9% para 5,1% do PIB de 2000 a 2015, conforme o registro mais recente.
Na saúde, mediu-se uma alta de 2,9% para 3,9% do PIB entre 2000 e 2011, e o percentual tem variado pouco desde então.
É a Previdência, contudo, que responde com folga pela maior fatia da expansão estatal. Só os pagamentos do INSS saltaram de 4,9% do produto, em 1997, para 8,6% estimados neste 2018.
Evidente que tal estratégia para enfrentar as mazelas nacionais, por meio do aumento permanente do peso do setor público na economia, acabaria por se tornar, cedo ou tarde, insustentável.
A carga tributária subiu até ficar excessiva, mas, ainda assim, a arrecadação não basta. A dívida pública disparou, nos últimos quatro anos, a ponto de ameaçar a solvência do governo. Uma brutal recessão adveio da perda de confiança de empresários e investidores.
Nesse contexto, o congelamento da despesa federal —a vigorar por um período entre uma e duas décadas— apenas confere alguma ordem a um arrocho inevitável. Mesmo sem o limite inscrito na Constituição em 2016, a expansão do gasto estaria impossibilitada pela falta de receita e de crédito.
As metas de melhorar os serviços públicos e combater a pobreza, portanto, devem ser perseguidas em outras bases. Cumpre, em primeiro lugar, planejar com racionalidade a alocação de recursos, uma obviedade orçamentária infelizmente há muito esquecida.
Como proporção do PIB, a verba pública para a educação se encontra em patamar compatível com padrões internacionais. A tendência de redução do número de crianças permitirá, ademais, desembolsos maiores por aluno. Falta avançar na qualidade do ensino básico.
Na saúde há um problema mais complexo, dado que o envelhecimento da população tende a exigir mais desembolsos no futuro.
Qualquer que seja a linha de ação, nada vai prosperar sem uma retomada do crescimento da economia associada ao reequilíbrio das finanças públicas, com ganhos de eficiência. A agenda social é mais complexa que o aumento do gasto.