terça-feira, 30 de abril de 2024

Jerson Kelman - Energia solar e hídrica são complementares, FSP

 Fazenda solar evoca um lugar onde consumidores de eletricidade se consorciam para "plantar" e compartilhar placas fotovoltaicas capazes de produzir eletricidade limpa, renovável e barata. Energia que, embora gerada remotamente, goza dos benefícios da geração distribuída, originalmente concebidos para estimular a produção de energia no local do consumo.

Todos os usuários de geração distribuída, na forma local ou remota, puxam energia da rede elétrica quando necessário. A desconexão seria impossível na forma remota. Na forma local sim, seria possível. Porém, é tão caro instalar baterias para uso à noite ou num dia nublado que ninguém faz isso.

Imagem mostra uma série de placas solares em um campo aberto de terra, com a cidade ao fundo
Fazenda solar em Hortolândia (SP) que terá cerca de mil placas - Adilson Lucena e Reginaldo Prado

Anos atrás, quando os telhados com placas fotovoltaicas eram raros e caros, a Aneel adotou a regra do "net metering", que também se aplica às fazendas solares. Funciona assim: quando a placa gera mais eletricidade do que o consumo, o consumidor exporta para a rede. E vice-versa. A conta de luz considera apenas o consumo "líquido". Por exemplo, se a energia mensal importada da rede for 300 kWh e a exportada 200 kWh, o consumidor só paga 100 kWh à distribuidora. No exemplo, a redução de 2/3, que só deveria ser aplicada ao custo de geração, é na realidade aplicada a todas as parcelas que somadas resultam na "conta de luz" (geração + transmissão + distribuição + encargos + tributos).

Como o custo das instalações de transmissão e distribuição necessárias para prover o consumidor com 300 kWh (e não 100 kWh) continuam a existir, a conta de luz dos consumidores comuns, sem instalações fotovoltaicas em suas residências e sem participação em fazendas solares, é aumentada para compensar a diminuição das despesas dos que têm esses recursos. Trata-se de uma transferência de renda não apenas injusta mas também desnecessária e desproporcional.

Desnecessária porque a geração solar seria economicamente viável sem subsídio. Desproporcional porque, mesmo quando o consorciado recebe desconto de 20% na respectiva conta de luz, a parte do leão fica com o empreendedor da fazenda solar, que chega a conseguir taxa de retorno desalavancada superior a 20%.

Isso posto, é preciso não deixar que regras ruins empanem o papel virtuoso da fonte solar em nossa matriz elétrica. O contínuo barateamento das placas fotovoltaicas pode ocasionar uma superoferta de energia, mesmo sem subsídios, que torne desnecessário o uso de fontes fósseis para a produção de eletricidade, mesmo durante as secas. Ou seja, a emissão de gases de efeito estufa decorrente da produção de eletricidade, que no Brasil já é muito baixa —3% do total de emissões—, pode chegar a zero.

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Nessa hipótese, é necessário ter uma fonte flexível para complementar a geração solar. As usinas hidrelétricas são talhadas para isso, porque são aptas a sair do repouso à plena potência quase instantaneamente. Porém, mesmo que fossem corretamente remuneradas por esse serviço, e não são, haveria ainda uma dificuldade: bruscas flutuações de produção causam variações de vazões às vezes inaceitáveis para outros usuários de recursos hídricos.

Já as usinas hidrelétricas reversíveis a ciclo fechado não têm esse problema, porque dependem apenas do vaivém da água entre o reservatório superior e o inferior, como se fosse um elevador. Quando há excesso de energia solar, a água é bombeada do reservatório inferior para o superior. Ao revés, nos períodos sem insolação, a água despenca do reservatório superior para o inferior, passando por uma turbina para produzir energia.

A usina hidrelétrica reversível (UHR) La Muela, na região de Valência, Espanha
A usina hidrelétrica reversível (UHR) La Muela, na região de Valência, Espanha - Iberdrola

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