Nenhum dos picaretas que atacou a bolsa da Viúva equiparou-se ao cabo da PM mineira Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Ele denunciou que Roberto Ferreira Dias, o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, pediu-lhe um pixuleco de US$ 1 para cada unidade da vacina da Oxford/AstraZeneca numa encomenda de 400 milhões de unidades.
A um dólar por vacina o pixuleco seria de US$ 400 milhões. Isso não existe, como não existe um rato de 40 toneladas. Na tarde de quinta-feira o senador Tasso Jereissati, com sua experiência de empresário bem-sucedido, demonstrou que o laboratório AstraZeneca não teria como entrar numa operação desse tipo. Se isso fosse pouco, a empresa nunca teria capacidade para fornecer 400 milhões de vacinas a quem quer que seja.
Num governo normal, o cabo Dominguetti seria desqualificado como um simples Napoleão de hospício, mas o de Bolsonaro não é um governo normal. Nele, os Napoleões internam o diretor do manicômio.
Em dezembro do ano passado, o coronel Elcio Franco, com seu brochinho de punhal ensanguentado, disse que o governador João Doria sonhava acordado ao prometer vacinas para janeiro: “Não brinque com a esperança de milhares de brasileiros. Não venda sonhos”. No dia 17 de janeiro a enfermeira Mônica Calazans recebeu a primeira dose da vacina Coronavac, aquela que Bolsonaro garantia que não seria comprada.
Um mês depois da vacinação de Mônica Calazans, o cabo Dominguetti encontrou-se com Dias num restaurante de Brasília. Dias estava acompanhado pelo seu assessor, o tenente-coronel da reserva Marcelo Blanco, um dos 21 militares da ativa e da reserva que escoltavam o general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde.
Em março, ao deixar o cargo, o próprio Pazuello denunciou “a liderança política que nós temos hoje”. Atribuiu sua queda a um grupo de “oito atores [...], um grupo interno nosso” que “tentou empurrar uma pseudonota técnica que nos colocaria em extrema vulnerabilidade, querendo que aquele medicamento, a partir dali, estivesse com critérios técnicos do ministério, e ele [o medicamento] não tinha”.
O general deixou o ministério, subiu no carro de som de Bolsonaro e hoje está no Palácio do Planalto. Nunca explicou quem eram os oito nem qual era o medicamento.
Três dias antes do jantar com o cabo Dominguetti, o tenente-coronel Blanco abriu a empresa Valorem Consultoria em Gestão Empresarial. Já o diretor Roberto Dias estava com a cabeça a prêmio, pois Pazuello havia decidido demiti-lo, mas o senador Davi Alcolumbre segurou a lâmina na Casa Civil da Presidência. A mesma lâmina que meses depois cortaria o pescoço da médica infectologista Luana Araújo, nomeada pelo ministro Marcelo Queiroga para a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à
Covid-19. Ela não merecia a confiança do governo, pois condenara o uso de drogas milagrosas.
No andar de cima, duas operações tentaram trazer vacinas ao país
Ainda não se conhece a identidade do operador da proposta de comprar imunizante da AstraZeneca por US$ 23,79
O cabo Dominguetti operou a compra de vacinas vindo do andar de baixo.
Pelo andar de cima conhecem-se duas operações. Uma veio da autodeclarada Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas. Ela trabalhava com a Covaxin indiana, representada por Francisco Maximiano, o Max.
No braço da Oxford/AstraZeneca, que reiteraria nada ter a ver com a proposta, notáveis operadores tentaram, sem sucesso, formar um consórcio de empresas que trariam ao Brasil 33 milhões de vacinas. Como no caso dos 400 milhões de Dominguetti, ofereciam uma produção que a empresa não seria capaz de produzir.
Essa operação teve a simpatia de Fabio Wajngarten, então secretário de Comunicação do governo, do diretor jurídico do grupo Gerdau e do doutor Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo. Skaf desmentiu que tivesse perfilhado a proposta e ela sumiu na orfandade.
A dose da AstraZeneca do cabo custaria US$ 3,50 (sem contar o dólar do pixuleco). A do andar de cima sairia por US$ 23,79. Ainda não se conhece a identidade do operador dessa proposta.
COSTURANDO POR DENTRO
Enquanto toda sorte de espertalhões tentavam atravessar contratos de vacinas e os "çábios" do governo obstruíam negociações com a Pfizer, foi o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, quem desemperrou as conversas.
Não disse uma palavra antes, durante, nem depois.
!["Tem que fazer do limão uma limonada. [...] Acho que você já fez alguma coisa. Tem que peticionar o Supremo para botar em pauta o impeachment também de [ministros do STF]", disse Bolsonaro em conversa por telefone divulgada pelo senador Jorge Kajuru](https://f.i.uol.com.br/fotografia/2021/04/14/16184340636077580fb1405_1618434063_3x2_md.jpg)
![Não dá para ouvir tudo [da CPI], né? Primeiro que é uma xaropada, raramente tem um senador ali... Raramente não, têm senadores bem intencionados, que fazem um grande trabalho. Agora tem uns quatro ali que pelo amor de Deus. Sabem tudo](https://f.i.uol.com.br/fotografia/2021/05/07/162041394560958df93c648_1620413945_3x2_md.jpg)

!["Se você [Kajuru] não participa [da CPI], vem a canalhada lá do Randolfe Rodrigues para participar e vai começar a encher o saco. Daí, vou ter que sair na porrada com um bosta desses", afirmou Bolsonaro em áudio divulgado pelo senador Jorge Kajuru](https://f.i.uol.com.br/fotografia/2021/04/14/161843484360775b1b34c59_1618434843_3x2_md.jpg)
!["Olha só, o que você tem que fazer? Tem que mudar o objetivo da CPI. Ela tem que ser ampla. Bota governadores e prefeitos. [...] Se não mudar, a CPI vai simplesmente ouvir o Pazuello, ouvir gente nossa para fazer um relatório sacana", disse Bolsonaro em conversa por telefone divulgada pelo senador Jorge Kajuru](https://f.i.uol.com.br/fotografia/2021/04/14/1618434543607759efd65a4_1618434543_3x2_md.jpg)


!["Agora, queria que ele fizesse a mesma coisa, já que fez para nós, eu não queria entrar numa briga com ninguém do Supremo, uma liminar para o Senado abrir o processo de impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal também. Afinal de contas, aí mostra que ele é isento e tira meu discurso de agora, [...] que seria uma perseguição ao Poder Executivo."](https://f.i.uol.com.br/fotografia/2021/04/14/16184329246077539c78a74_1618432924_3x2_md.jpg)










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