quinta-feira, 2 de maio de 2019

Solução para aposentadoria, confiança no teletrabalho e roubo de assentos, Dan Ariely, FSP

Querido Dan,
Qual é a melhor maneira de garantir que os americanos tenham fundos suficientes para a aposentadoria?
—Ben
Existem basicamente duas maneiras de ajudar as pessoas a terem dinheiro suficiente para a aposentadoria: incentivar que economizem mais dinheiro ou que morram mais jovens. O mais fácil, de longe, é estimular que as pessoas morram mais jovens. Como podemos fazer isso? Permitindo que os cidadãos fumem, subsidiando alimentos açucarados e gordurosos e dificultando o acesso a cuidados de saúde preventivos. Opa, pensando bem, parece que já estamos fazendo o nosso máximo nessa frente.

Querido Dan,
Estou escrevendo para você sentado no chão de um trem na Alemanha. O trem está lotado e todos os assentos estão ocupados. No entanto, existe uma classe especial de “clientes conforto” que tem preferência pelos assentos podendo requerer que o passageiro sem esse status ceda o seu lugar. “Cliente conforto” é aquele que, assim como eu, viaja muito de trem. Seria bom conseguir poder sentar em um assento e, de acordo com as regras, eu tenho direito a um. Mas eu não consigo pedir a um dos passageiros que não é “cliente conforto” que ceda seu lugar para mim. Por que isso é tão difícil?
—Frederick
Sua pergunta tem a ver com o que chamamos de “efeito da vítima identificável”. A ideia básica é que, quando vemos uma pessoa necessitada, nosso coração se apega a ela —nós nos importamos e ajudamos. Mas quando o problema é muito grande, distante ou não vemos a pessoa que está sofrendo, não nos importamos nem ajudamos com a mesma intensidade.
No seu caso, suspeito que, se o condutor do trem escolhesse um passageiro aleatório para ceder o assento para você, e especialmente se o condutor fizesse isso antes de você embarcar no trem, você conseguiria desfrutar do assento. Nessa mesma situação, se o condutor pedisse que algum conhecido seu liberasse o assento para você, a sensação seria um pouco pior. Entretanto, escolher você mesmo a pessoa que deverá ceder o lugar é provavelmente o cenário mais difícil, porque você terá que enfrentar o efeito da sua ação (a pessoa se levantar e ter de se sentar no chão), além da reação dela ao seu pedido.
Qual é a lição aqui? É que o contato direto com outras pessoas possibilita nos importarmos e agirmos de acordo. E quando a distância é grande, ou as ações são tomadas sem o nosso conhecimento, nos importamos muito menos. Agora, a questão é como levar políticos, banqueiros, CEOs e todos os outros a sentir mais diretamente as consequências de suas ações no bem-estar dos outros.
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Aposentados durante leilão de fazendas no Kansas (EUA) - Reuters

Querido Dan,
Eu trabalho para uma agência do governo que está nos estágios iniciais de tornar o teletrabalho uma opção para seus colaboradores. A ideia está gerando muita desconfiança entre os gerentes. Eu sei que os gerentes devem confiar em seus subordinados, mas me parece óbvio que os colaboradores trabalharão menos em casa. Qual a sua opinião sobre trabalhar em casa?
—Julisa
Existem várias razões possíveis para a recente decisão de oferecer a opção de trabalho remoto —algumas boas e outras más. Deixe-me concentrar aqui em apenas duas delas: horas de trabalho e atenção. Em termos de horas de trabalho esperadas, aqueles que estão em um escritório são expostos a dois padrões: o padrão oficial de 40 horas por semana e o padrão social, aquele definido pelas pessoas que trabalham junto delas. Por exemplo, nós todos sabemos que o padrão social na indústria de alta tecnologia é muito maior do que o oficial de 40 horas por semana. Nesses casos, as pessoas que ficam no escritório seguirão esse padrão social de muito mais horas trabalhadas. Para aqueles que trabalham em casa, a jornada de 40 horas será uma referência e, consequentemente, é provável que adotem isso como uma dedicação justa.
Em termos de atenção ao trabalho, minha própria experiência me diz que quando as pessoas estão juntas na mesma sala, elas prestam atenção e concentram-se com grande parte de sua capacidade cognitiva. Mas quando as pessoas estão remotas, participando via telefone ou videoconferência, elas não estão totalmente engajadas e, em muitos casos, até tentam (sem sucesso) realizar tarefas em paralelo durante reuniões importantes.
A propósito, minha mãe sempre sabe quando eu estou realizando outras tarefas enquanto converso com ela, então talvez a sua empresa deva contratá-la para monitorar suas conferências onine e repreender aqueles que não estão focados o suficiente.
Dan Ariely
Professor de economia comportamental e psicologia na Universidade Duke (EUA), autor de “Previsivelmente Irracional”.
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