domingo, 24 de novembro de 2013

Quem ficou rico no Brasil - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 24/11

Espírito Santo lidera crescimento no século e fica atrás apenas de Rio e SP em renda per capita


O NORDESTE seria a região que mais teria crescido no Brasil "nos últimos tempos", nos anos Lula etc. Era o que a gente tinha a impressão de ouvir por aí.

Bem, o Centro-Oeste cresceu mais entre 2002 e 2011. Quietinho, quietinho, o Estado que mais cresceu foi o Espírito Santo. Também foi o que se tornou relativamente mais rico neste século: o aumento de seu PIB per capita também foi o maior.

Os capixabas tinham em 2011 o terceiro maior PIB per capita do Brasil, depois de São Paulo e Rio (exclui-se aqui o Distrito Federal, uma anomalia estatística, entre outras). Em 2002, estavam em sétimo lugar.

As economias de Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, pela ordem, estão no G4, na "zona de rebaixamento" --foram as que cresceram menos.

Esquisito mesmo, porém, é que alguns Estados se tornaram relativamente mais pobres entre 2002 e 2011. O PIB per capita do Pará ficou estagnado ou decresceu e o de Rondônia cresceu pouco; os de Amazonas, Amapá, Roraima e Acre decresceram.

É o que se pode depreender do balanço das Contas Regionais (PIB por Estados) de 2011, divulgado pelo IBGE na sexta-feira passada. O IBGE divulgou só o PIB per capita de 2011, baseado na contagem de população dos municípios enviada ao Tribunal de Contas da União em 2011.

No entanto, fazendo contas pela estimativa de população da Pnad-IBGE, é possível fazer uma comparação aceitável dos PIBs per capita ("renda per capita") dos Estados entre 2002 e 2011.

Não aconteceu nenhuma catástrofe econômica nos Estados do Norte. As economias do Pará e de Rondônia estão em segundo e terceiro lugares na lista das que mais cresceram. Porém, houve um crescimento brutal das populações desses Estados, o que puxou para baixo seu PIB per capita, claro.

O que o Espírito Santo tem? Commodities (minerais metálicos, papel e celulose, petróleo e gás), por exemplo. Em 2002, 6% do PIB do Estado vinha da indústria extrativa; em 2011, 22,3%.

O grande setor da economia que mais cresceu no Brasil desde 2002 foi o extrativista. Porém, observando estatísticas antigas, vê-se que o Estado cresce bem mais do que o Brasil desde os anos 1980.

Piauí e Maranhão vêm logo depois do Espírito Santo em termos de velocidade do crescimento da renda per capita. Mas sua base (renda inicial) era muito baixa. Os desempenhos mais consideráveis, a seguir, são os de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, que tiraram proveito do crescimento de agropecuária e indústria extrativa, embora Mato Grosso do Sul tenha feito um progresso mais "completo", se industrializando bem.

Fora da região Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo registraram a menor alta do PIB per capita, não muito longe, é verdade, da Bahia e do Rio. Nesses Estados, o peso da indústria de transformação ("fábricas") era grande em 2002 e ainda é relevante.

Os tropeços feios do crescimento industrial parecem ter prejudicado o desempenho deles. Mas Santa Catarina tem indústria de peso e não foi nem de longe tão mal. Além do mais, São Paulo tem a economia mais diversificada do país, as maiores e melhores universidades e é o centro financeiro do Brasil. Por que não inventou negócios novos?

Filas nas farmácias - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 24/11

Comprar medicamentos tem exigido cada vez mais tempo e paciência do consumidor. Além da distribuição de senhas, algumas farmácias em São Paulo já dispõem de bancos ou cadeiras enfileiradas para os que aguardam atendimento.

O problema se agrava no caso dos remédios sujeitos a controle ou no das compras por meio do programa Farmácia Popular, do Ministério da Saúde. Em ambos os casos, além de apresentar a receita médica e documento de identidade, o cliente deve preencher formulário com múltiplos dados pessoais, que depois precisam ser lançados em sistemas eletrônicos.

Essas exigências aumentaram o tempo de atendimento e carregam os custos das farmácias. Pelos cálculos da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a operação de venda de um medicamento comum leva, em média, 6 minutos. Nos casos de controle, são 14 minutos. "Há excesso de burocracia, o farmacêutico se tornou um digitador de luxo", reclama Sérgio Mena Barreto, presidente executivo da Abrafarma.

Em uma farmácia na Avenida Pompeia, em São Paulo, por exemplo, quatro farmacêuticos se revezam para lançar diariamente cerca de 300 receitas médicas no Sistema Nacional de Gestão de Produtos Controlados (SNGPC). Nessas condições, tende a aumentar a incidência de erros de digitação.

Essa é a lei e a lei tem de ser cumprida, argumentam os reguladores da Anvisa e do Ministério da Saúde. Mas, para garantir segurança, não é necessário tanto arrasta-arrasta. Nos Estados Unidos e em certos países da Europa, por exemplo, as receitas médicas têm validade de dois a três anos. E pacientes com doenças crônicas ou que fazem uso contínuo de medicamentos podem cadastrar-se e encomendar remédios até pela internet.

A regulação dos medicamentos controlados no Brasil, assim como a exigência de receita especial e identificação no ato da compra, existe desde 1998 (Portaria 344). A informatização, a partir de 2009, não deixou de ser um avanço, porque antes os dados eram anotados manualmente em livros de registro.

O secretário-geral do Conselho Federal de Farmácia (CFF), José Vilmore, atribui a excessiva lentidão do sistema à falta de investimentos das farmácias em informatização. O setor de Comunicação da Anvisa argumenta que a digitação dos dados nos sistemas de controle não precisa, necessariamente, ser tarefa de farmacêutico; podendo ser delegada a outros funcionários sob supervisão.

Mesmo que a tarefa seja repassada para auxiliares, não há garantia de fim dos transtornos ao cliente. "O atendimento demora porque há poucos profissionais ou porque eles estão despreparados", diz Ana Maria Malik, coordenadora do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Independentemente das justificativas de um lado e de outro, o fato é que a população brasileira está ficando mais velha, vai dependendo mais dos seus remedinhos e precisa de mais cuidado, não só das farmácias, mas também da regulamentação. Apenas chá de cadeira não é remédio.

MÃE-MODELO - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 24/11

A top Carol Francischini vai se mudar para os EUA com a filha para retomar a carreira longe das especulações sobre o pai da criança e fala do machismo e das ciladas do mundo da moda


Aos 12 anos, Carol Francischini desembarcava em Nova York para iniciar sua carreira internacional. Em 2001, a garota de Lindoia (154 km de SP) passava-se por gente grande no glamouroso e incerto mundo da moda.

"Saí de casa adolescente. Foi uma loucura. Sozinha, sem falar inglês. Te jogam em um mundo bem real. Era tratada como adulta e tinha que me comportar como tal", relata à repórter Eliane Trindade, às vésperas de embarcar novamente para os Estados Unidos para um recomeço.

Doze anos depois, a modelo de 24 anos decidiu se mudar do Brasil, levando a filha, Valentina, que faz um ano na próxima sexta-feira. "Uma das razões é protegê-la da curiosidade."

O temor materno é que a filha seja tragada pelo turbilhão de especulações que cercou sua gravidez, quando Carol decidiu não revelar a identidade do pai da criança. Uma bisbilhotada no Google dá a medida do que a "produção 100% independente" representou na vida e na carreira da top. Entre as pesquisas relacionadas ao nome da modelo aparecem "grávida de Luciano Huck", "grávida de Bruno Gagliasso", "quem é o pai", e por aí vai.

"Não sei se vai ter um ponto final nessa loucura. Valentina está crescendo, vai fazer perguntas e ver tudo isso na internet", angustia-se Carol.

A bola de neve, reconhece, ganhou forma pelo modo como comunicou a gravidez. No backstage de um desfile no Fashion Rio, em maio de 2012, contou a novidade para um jornalista. "Ele perguntou quem era o pai e respondi: Não é ninguém'." Assim foi publicado. "Quando você fala é uma coisa, escrito é outra. Foi o meu erro. Achei que falava com um amigo."

Ao ler a notícia em um site de celebridades, Carol diz ter tomado um susto. "Era para ser o anúncio de uma coisa maravilhosa. Virou barraco."

A sanha em desvendar a paternidade do bebê da top logo se apresentou. Hospedada no hotel Fasano, Carol conta ter sido surpreendida com a primeira nota que dizia que o pai de sua filha era o músico Gabriel, o Pensador. "Eu estava na piscina e ele pediu para deixar a mochila do meu lado para ir surfar. Já virou pai, coitado", relata.

Era o primeiro famoso de uma lista que foi ganhando nomes, dia após dia. Em seguida, surgiram as especulações com astros da Globo, como Luciano Huck. "Coitado dele e da Angélica [mulher do apresentador]. Não tenho ideia de como ele surgiu no meio disso. A última vez que o vi havia sido seis anos antes. Ele nem lembrava que eu tinha ido ao programa dele."

Apontada como pivô da separação do ator Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank --o casal reataria meses depois--, Carol também se disse surpresa. "Encontrei o Bruno numa festa e virou isso."

Desabafa: "Precisavam achar um global? Não posso namorar um anônimo, um pobretão? Tinha acabado de terminar um namoro. Pessoas que encontrei em festas e jantares já viravam suspeitas."

Diz que a figura mais notória que namorou é o campeão olímpico César Cielo. Bem antes de engravidar, esclarece. "Meu histórico de relacionamentos é tranquilo. Nunca fui santa, mas também não peguei todo mundo." Jura que o anticoncepcional falhou.

Depois, apareceram os empresários. Um deles, Luigi Cardoso, ganhou ação de indenização de R$ 20 mil contra um blogueiro que escreveu ser ele o pai. Carol não processou ninguém. "Não tenho cacife pra isso. Advogado é caro", diz ela. Jantar em Miami com Luigi e a mulher dele, Lala Rudge, teria sido a deixa para que ele entrasse na lista.

Sobre a identidade do pai da criança, ela repete: "A pessoa sabe que é o pai, mas nunca procurou saber da filha. É minha filha e ponto". Um exame de DNA foi feito para liquidar o assunto. Quem espera a revelação nesta reportagem também vai se frustrar. "Valentina é a única pessoa que tem direito de saber quem é. No momento certo eu vou contar a ela."

O ônus de ser mãe solteira foi grande. Quando anunciou que estava grávida de quatro meses, a top estampava uma campanha mundial da GAP. Na volta às passarelas após o parto, livre dos 10 kg que engordou na gestação, Carol viu os contratos minguarem.

"Ela perdeu muitos trabalhos aqui. O cliente diz que é perfeita, mas não quer associar a imagem dela com sua marca", relata Isabel Oliveira, agente da modelo. Agenciada pela Joy, no Brasil, e pela Women, no exterior, a top chegou a faturar US$ 1,5 milhão por ano. "O dinheiro entrava e saía. Sou o homem da casa. Minha mãe e meus dois irmãos dependem de mim."

Os julgamentos foram impiedosos. "Ninguém ficou do lado dela. Decidir não abortar é uma atitude corajosa de uma menina tão jovem e com tanta coisa em jogo", afirma Liliana Gomes, dona da Joy. "Carol pegou o caminho mais difícil, o de não pedir ao cara que a sustentasse."

Em pleno século 21, sentiu na pele que o peso da decisão de ter um filho fruto de um relacionamento fortuito ainda recai sobre a mulher. "Sempre foi assim e está longe de mudar", resigna-se. "Nunca pensei em tirar o bebê. Muitas meninas disseram: Carol, com a sua idade passei por isso e não tive a coragem que você teve. Fui lá e abortei'. E se arrependem. Mas não abrem a boca."

Assim como pouco se fala da roda-viva em que candidatas a tops são lançadas, em ritmo de sexo, drogas e rock'n'roll. "Já passei por tudo isso. Vivo nesse mundo desde os 12, podendo ver e fazer tudo. Escapei de muita enrascada. Saía pra balada quase todos os dias. Se não tivesse cabeça, não estaria aqui. Muitas amigas se perderam."

A mãe e modelo diz que não deixaria a filha trilhar o mesmo caminho tão cedo. A top parou de estudar na sétima série. Rodou o mundo, com acesso VIP às melhores festas do circuito Paris, Milão, Nova York.

A maturidade veio a fórceps. "Virei mulher de uma hora para outra. Sou pai' de família. Valentina está em primeiro lugar." Agora, tenta passar a limpo a imagem de "destruidora de lares". A passagem por NY em novembro foi frutífera. Emplacou uma campanha para a Macy's. "Comecei a respirar", disse ela, por telefone, ansiosa para desembarcar hoje em São Paulo e poder abraçar a filha. "Fico sem ar quando a vejo pelo Skype. Valentina foi a melhor coisa que me aconteceu na vida."