quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A escolha é: poderes médios contra homens fortes. Rui Tavares, FSP

 Se eu fosse brasileiro, não quereria ler sobre mais nada senão as eleições brasileiras. Mesmo não sendo, partilho da obsessão com o assunto; mas a Folha já tem gente muito boa para escrever sobre o tema — e esta coluna faz parte da seção Mundo, pelo que decidi antes escrever sobre desenvolvimentos recentes que também terão de ter uma resposta por parte do Brasil quando estas eleições produzirem o seu resultado.

Hoje é dia do discurso do Estado da União Europeia em Estrasburgo, numa das sedes do Parlamento Europeu. Falará Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Mas pela primeira vez assistirá ao discurso um chefe de governo de um país não-europeu, o premiê canadense Mark Carney, que recentemente declarou que o Canadá procurará ter um tipo de integração por associação na União Europeia (da Austrália chegaram intenções semelhantes).

Este passo, à primeira vista surpreendente, não é tão estranho; o Canadá já tem um modelo de estado social, uma democracia liberal e uma afinidade cultural com o continente europeu que lhe facilita a aproximação. Acima de tudo, é do ponto de vista da "estratégia dos poderes médios", que Carney defendeu no seu discurso de Davos, que deve entender-se a ideia de juntar de alguma forma a União Europeia e o Canadá.

Dois representantes do G7 conversam em sala de conferência com cadeiras brancas e microfones. Ao fundo, janelas com logotipo do G7 e a palavra 'France'.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, conversa com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante reunião do G7 - Thibault Camus -16.jun.26/AFP

Escrevo antes de ser conhecido o discurso, mas espero que haja nele um anúncio que nos permitirá entender que forma de aproximação poderá ser essa: trata-se da proposta de criar um Conselho de Segurança Europeia do qual façam parte os chefes de Estado e de governo, ministros da Defesa e Estados-Maiores de todos os países da União Europeia, com possibilidade de extensão ao Reino Unido, à Noruega, à Islândia e precisamente ao Canadá. No fundo, uma espécie de Otan sem Trump, preparada para qualquer eventualidade futura.

É que Trump tem também ele uma estratégia global: a de favorecer a eleição em todo o lado de "homens fortes" alinhados ideologicamente com ele e que facilitam a expansão permanente de uma esfera de corrupção à escala global, de que se beneficia ele e a sua família. Na sua estratégia, não há diferença entre democracias e ditaduras, desde que o dinheiro corra para os seus bolsos, venha ele do Qatar, da Rússia ou do petróleo venezuelano.

Também o Brasil vai fazer uma escolha entre estas duas estratégias. Ou segue o resto da tendência no continente americano, da Argentina a El Salvador, passando pela Colômbia, e se estabelece como mero estado-cliente dos EUA trumpistas. Ou preserva a sua autonomia de decisão para poder fazer alianças, seja no quadro do Sul Global, dos Brics ou da estratégia de "poderes médios" preconizada pelo líder do Canadá e que tanto agrada aos europeus.

Na primeira opção, o Brasil ficará encerrado num caminho de sentido único. Na segunda, o Brasil manterá aquilo que o tem historicamente definido: a capacidade de ser uma potência com política exterior própria, uma diplomacia reconhecida e respeitada, uma voz própria no mundo.

Imagino que poucos brasileiros vão decidir por estas razões; mas é importante para o mundo a decisão que tomarem.

Mortes: Amelinha Teles lutou contra a ditadura militar e nunca optou pelo silêncio - FSP

 Isabela Palhares

São Paulo

Ela foi torturada, teve os filhos sequestrados, viu o marido em coma e testemunhou o assassinato de um companheiro pelos militares durante a ditadura. Nada, no entanto, tirou de Amelinha Teles a coragem de lutar pela democracia no país.

"Isso me deu força para que eu lutasse contra qualquer violência, contra qualquer violação dos direitos humanos. Selou e consolidou minha consciência política, de que eu teria sempre que ter a capacidade de me indignar diante da injustiça", disse Amelinha, em 2013, em uma audiência pública promovida pela Comissão Nacional da Verdade e a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva.

Nascida em Contagem, em Minas Gerais, em 1944, Maria Amélia de Almeida Teles iniciou a militância política na juventude, atuando na resistência contra o regime militar pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

Mulher com casaco preto e óculos vermelhos olhando para frente. Microfones e copos de água estão sobre a mesa.
Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles (1944 - 2026) - Fabio Braga - 19.ago.13/Folhapress

Em dezembro de 1972, aos 27 anos, foi presa em São Paulo e levada à Oban (Operação Bandeirantes), onde foi submetida a sessões de tortura física e violência sexual, que, segundo seu depoimento, foram praticadas pessoalmente pelo major Carlos Alberto Brilhante Ustra, então comandante do DOI-Codi de São Paulo.

Junto com ela, foram presos também seu marido César Augusto Teles e um companheiro de militância, Carlos Nicolau Danielli. Os três eram do PCdoB e escreviam para um jornal que denunciava os abusos dos militares.

Em depoimento, Amelinha contou ter testemunhado o assassinato de Danielli após sessões de tortura.

Durante a prisão, ela também teve os filhos, Janaína e Edson, então com 5 e 4 anos de idade, sequestrados pelo regime. As crianças foram levadas ao centro de repressão para ver os pais serem torturados.

Amelinha nunca optou pelo silêncio. Já em 1975, ela entrou para o Movimento Feminino pela Anistia e criou o jornal Brasil Mulher. Ainda durante a ditadura militar, ela participou da elaboração dos primeiros relatórios produzidos pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Em 1984, ela fundou a União de Mulheres de São Paulo que, durante a Assembleia Nacional Constituinte, lutou para garantir a inclusão da igualdade de direitos entre homens e mulheres na Constituição de 1988.

Ela também liderou o movimento para que todas as mais de mil ossadas encontradas em uma vala clandestina no cemitério de Perus, na zona norte de São Paulo, fossem transferidas para um instituto de medicina forense para serem analisadas e identificadas.

Em 2005, a família Teles moveu uma ação civil declaratória contra o coronel Ustra, pedindo que ele fosse reconhecido como torturador. Em 2008, a solicitação foi acatada e Ustra foi o primeiro agente da ditadura a ser declarado torturador pela Justiça.

Por sua contribuição à democracia brasileira e à defesa dos direitos humanos, a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) concedeu, em 2023, o título de doutora honoris causa a Amelinha.

Ela foi ainda autora de obras sobre os direitos das mulheres e, em 2024, publicou o livro "Contos da Cela Três: Memórias de uma Presa Política na Ditadura", no qual retoma memórias do tempo em que ficou presa.

Os depoimentos e a luta de Amelinha foram fundamentais para mostrar o papel das mulheres na resistência contra a ditadura e também denunciar as violências que sofreram. "Não se pode construir uma verdade sobre a ditadura sem falar das mulheres. Essa seria uma meia verdade", disse ela no depoimento em 2013.

Amelinha morreu nesta terça-feira (15) aos 81 anos, em São Paulo. A causa da morte não foi divulgada pela família. O velório será nesta quarta-feira (16) na reitoria da Unifesp.


Flávio Bolsonaro cresceu e o PT tenta acordar, Elio Gaspari, FSP

 A pesquisa Quaest de segunda-feira caiu como uma bomba na campanha de Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o na simulação de um segundo turno (42% a 40%). A seco, esse número quer dizer pouca coisa. Está dentro da margem de erro e eleição se ganha na urna. Bolsonaro cresceu, absorvendo o apoio de eleitores que, há tempo, avaliavam negativamente Lula 3.0.

Era inevitável que a avaliação negativa migrasse para um adversário. Lula faz uma campanha chique, fala em terras raras, soberania e escala 5x2. Ulysses Guimarães dizia que política externa só dá votos no Burundi. Quanto à escala, é uma promessa de uma vida melhor, mas é promessa.

Homem de camisa azul em primeiro plano com expressão neutra. Ao fundo, pessoas desfocadas, algumas vestindo camiseta amarela, em ambiente interno com iluminação clara.
O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, durante agenda de campanha em Roraima - Felipe Medeiros - 10.set.26/Folhapress

A mesma pesquisa Quaest tentou saber para onde iriam os votos de quem preferia Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury ou Romeu Zema. Juntos, eles somam 16% dos entrevistados. Num segundo turno, a maior fatia iria para Flávio Bolsonaro.

Como era de se esperar, na busca de responsáveis apontou-se para o ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira. Contem outra, companheiros. Desde a fundação do PT, em 1980, o maestro dessa orquestra chama-se Lula.

Com o Supremo Tribunal em chamas, Lula decidiu ficar fora das brigas e limitou-se a falar da necessidade de reformas na política e no Judiciário, o que não quer dizer coisa nenhuma.

Não se diga que Flávio Bolsonaro eleva o nível do debate. Seu único capital é o sobrenome, encrencado por um filme milionário bafejado pelo dinheiro de Daniel Vorcaro. A abulia de Lula alimenta o antipetismo.

O historiador francês Claude Manceron (1923-1999) escreveu cinco magníficos volumes sobre a Revolução Francesa. No primeiro tratou do ocaso do reino de Luís 15. Tendo reinado de 1715 a 1774, ele morreu de varíola, quando, segundo Manceron, havia saído de moda. Aquele Lula que passeia pelos palanques dominando plateias saiu de moda.

Lula 1.0 ou 2.0 poderia ter aberto as portas do Brasil para a jogatina (para arrecadar) mas, colocado diante das consequências, enfrentaria os problemas. No seu desenho original, o Bolsa Família era um monstrengo burocrático. Em poucas semanas, Lula 1.0 deu-lhe uma nova cara, que está aí até hoje. Lula 3.0 limita-se a condenar a facilidade para quem aposta, e mais nada.

Isso não quer dizer que colocarão coisa melhor no lugar dele.

A melhor previsão do resultado da próxima eleição presidencial veio do banqueiro André (BTG Pactual) Esteves: "A eleição será 51% a 49%, só não sabemos para quem".

A ideia de que Lula passaria um trator em Flávio virou fumaça, e ele está diante de um adversário favorecido pela indefinição.

A volta de Lula ao Planalto foi uma coisa tão espetacular que a aritmética ficou esquecida. Ele ganhou a eleição por uma margem de 1,8 ponto percentual (pouco mais de 2 milhões de votos de diferença). Dois anos depois, o candidato apoiado pelo PT à Prefeitura de São Paulo foi batido por uma margem de mais de 1 milhão de votos. O eleitor mandava sinais, mas os poderosos de Brasília não ouviam.