terça-feira, 15 de setembro de 2026

O privilégio de ser ativo- Bruno Gualano- FSP

 Leio no Financial Times, replicado nesta Folha, sobre os sacrifícios de CEOs para se manter em forma.

Temos o caso de Roland Busch, diretor-executivo da Siemens, para quem os treinos têm "a mesma importância que qualquer reunião de negócios". Apesar da agenda exigente, ele se gaba: "não pulo um único dia dedicado ao treino de pernas". Sayeh Ghanbari, chefe de consultoria da EY, não abre mão das artes marciais: durante as viagens, participa de aulas remotas, às vezes "com fusos horários bem diferentes... essa é a disciplina". Michael Murray, presidente da rede varejista britânica Frasers Group, declara sua paixão pela Hyrox, a nova febre do fitness: "adorei o quão mensurável era; você define metas e acompanha o progresso". James McMaster, executivo-chefe da Huel, admite que "conciliar exercícios físicos com a função de CEO e pai de crianças pequenas pode ser difícil", mas, bem organizado, encaixa uma sessão "em um intervalo aleatório, tipo às 15h".

pavel1964/Adobe Stock

E assim se sucedem exemplos edificantes, fundados em capitais hoje preciosos, como "resiliência", "consistência", "controle" e "foco". Índice de que "o tempo livre segue o trabalho como sua sombra", como diria o velho e atual Adorno. Mas não desperdicemos toda nossa compaixão com os abastados: numa sociedade em que a escala 6x1 ainda estrutura a vida de muitos, tempo livre — mesmo esse acossado pelo labor — é luxo.

Na reportagem, como de costume, a atividade física aparece como escolha individual. Mas as oportunidades de prática são distribuídas de forma desigual. Ter tempo disponível, acesso a espaços seguros, equipamentos esportivos, áreas verdes e transporte adequado depende, em parte, da posição social e do território onde se vive. Em uma metrópole marcada pela segregação socioespacial como São Paulo, essas diferenças se acentuam.

Um estudo liderado pelo meu colega Alex Florindo, da USP, procurou investigar se a combinação de diferentes marcadores de vulnerabilidade social, avaliada pelo índice de Jeopardy, estaria associada à atividade física no lazer e para transporte ao longo de dez anos. A distinção importa: exercitar-se ou caminhar por lazer envolve escolha e traz os maiores ganhos físicos e mentais; caminhar para chegar ao trabalho também pode fazer bem, mas para muitos não é escolha, e sim a única mobilidade possível.

A prática de atividade física no lazer subiu de 38,0% em 2014–15 para 51,4% em 2023–24, e a caminhada para transporte, de 61,8% para 71,6%. O principal achado veio à tona quando os cientistas incorporaram a dimensão social. Quanto maior a desvantagem acumulada, menor a prevalência de atividade física no lazer. No início do estudo, 51% do grupo menos vulnerável praticava atividade no lazer, contra 29% do grupo mais vulnerável. Dez anos depois, a diferença havia aumentado: 65% versus 39%, respectivamente.

Ser mulher, pertencer a um grupo racial ou étnico minoritário e ter baixa escolaridade está associado às menores prevalências. No outro extremo, entre os que mais se exercitam, os executivos do começo desta coluna: homens brancos com diploma. Vale dizer que a vulnerabilidade não se associou à atividade física como transporte, a sugerir que a desigualdade só aparece onde há escolha.

Daí se tira importante lição: não basta recomendar que as pessoas sejam mais ativas no lazer. É preciso criar condições materiais para que a recomendação possa ser seguida, com ações articuladas de saúde, educação, planejamento urbano, transporte, segurança e proteção social, priorizando os mais vulneráveis.

No caminho da ação coletiva, todavia, há a racionalidade neoliberal que gesta os sujeitos-empresas, fadados a competir entre si e consigo mesmos. Faceiramente, converte condições socialmente desiguais em responsabilidades pessoais. E assim faz crer que o dia de um CEO de multinacional e o de uma faxineira periférica têm as mesmas 24 horas.

‘Eu amo ser CLT’: ela deixou a carreira de atriz para voltar ao trabalho de carteira assinada, OESP

 Aos 31 anos, a atriz e publicitária Alice Milagres diz ter uma rotina comum, assim como a de muitos jovens brasileiros. Ela trabalha em horário comercial, bate ponto e é contratada no formato CLT. Há alguns anos, o seu rosto aparecia de segunda a sexta na televisão quando atuou por quase dois anos em Malhação, novela da TV Globo. Na época o elenco era contratado pelo regime CLT. Assim como a mãe Gorete Milagres, atriz que ficou famosa no papel de ‘Filó’, do bordão “ô, coitado”, Alice também planejava viver financeiramente da carreira artística. Mas não foi o que aconteceu, pelo menos por ora.

Há algumas semanas, ela compartilhou a sua história no TikTok. O relato ultrapassou 2 milhões de visualizações e despertou a curiosidade de jovens que a acompanhavam desde os tempos do seriado. Ao Estadão, a ex-Malhação conta, do seu home office, como foi o percurso até retornar de vez ao trabalho de carteira assinada.

“O meu sonho era ser uma grande atriz e emendar uma novela na outra, fazer publicidade, ficar rica, mas a vida real é outra coisa”, diz.

Alice Milagres diz que a carreira de atriz é o plano 'b' na vida profissional
Alice Milagres diz que a carreira de atriz é o plano 'b' na vida profissional Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Quando as gravações da novela foram finalizadas em 2019, Alice retomou a graduação de publicidade e decidiu seguir em paralelo com a carreira de atriz. Enquanto se mantinha com a reserva financeira que havia feito na televisão, fez participação em uma série, conseguiu uma publicidade e continuou fazendo testes. Então veio a pandemia.

Sem trabalhos no setor artístico, o caminho foi buscar outras possibilidades. “Viver de frila é sempre estar com a corda no pescoço. Você não sabe o quanto vai ter naquele mês”, afirma. Ainda na esperança de trabalhar no meio, mesmo que fosse nos bastidores, fez uma especialização em produção audiovisual. Já para pagar as contas, começou a fazer projetos avulsos na área de publicidade.

Alice Milagres, ao lado da atriz Guilhermina Libanio, em cena na novela "Malhação", da TV Globo
Alice Milagres, ao lado da atriz Guilhermina Libanio, em cena na novela "Malhação", da TV Globo Foto: TV Globo/Reprodução

No entanto, as contas apertaram e a jovem decidiu entregar as chaves da casa que morava de aluguel na capital paulista para ficar um tempo no litoral do Ceará, em Jericoacoara, onde a mãe estava construindo um complexo de casas de temporada. “Era uma angústia horrorosa, parecia que eu não sabia o dia de amanhã”, relembra. Nesse meio tempo, conseguiu um trabalho de carteira assinada como gerente de marketing em uma rede de hotéis da vila.

A busca por estabilidade financeira

De volta a São Paulo, em 2023, voltou a ser freelancer. Por meio de indicação de colegas, conseguiu trabalhos como social media para empresas de hotelaria e projetos com estratégia de influenciadores. Os bicos a ajudavam a pagar o aluguel, mas não eram suficientes para ter uma renda confortável no longo prazo.

“São muitas variáveis que você não controla, como você controla no mundo corporativo de alguma forma. Você entra como estagiário, vira júnior, analista, pleno, sênior. Você tem uma trajetória. A vida artística não é assim”, afirma.

A busca por estabilidade acabou levando Alice novamente para a CLT. Em 2024, ela foi indicada para uma vaga de estrategista de publicidade em uma empresa de tecnologia especializada em dados de redes sociais. Hoje, trabalha de segunda a sexta, em horário comercial e em home office. Além do salário, tem plano de saúde, vale-refeição e bônus por metas a cada três meses.

Alice Milagres , atriz e publicitária, retornou ao formato CLT há mais de dois anos
Alice Milagres , atriz e publicitária, retornou ao formato CLT há mais de dois anos Foto: Pedro Kirilos/Estadão

“Eu amo CLT, sou uma grandíssima fã. Nada como férias remuneradas, benefícios e um bom plano de saúde”, afirma.

Embora possa ser considerada millenials por alguns, Alice está na fronteira com a Geração Z, que vive o mesmo dilema da atriz: o que vale mais no trabalho? Propósito, flexibilidade ou dinheiro? Para eles, a remuneração (salário e benefícios) é o fator mais importante para sair ou permanecer em um emprego, contrariando o estereótipo de que os mais jovens priorizam liberdade, acima de tudo.

De acordo com a pesquisa inédita do Insituto Ipsos, em parceria com o Estadão, para 33% dos jovens brasileiros de 16 a 29 anos, o dinheiro é mais atrativo do que o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a flexibilidade de horário.

O salário funciona como uma condição básica antes de qualquer outro atributo, avalia Patrícia Pavanelli, diretora de opinião pública no Instituto Ipsos. “A flexibilidade é valorizada, mas não é suficiente para compensar a remuneração nem substitui a necessidade de renda adequada”, diz. Entenda o contexto que divide os jovens entre o modelo CLT e o trabalho autônomo na série “O retrato da Geração Z brasileira”.

Os sonhos de atriz e o novo plano de carreira

Para Alice, ter um trabalho fixo não significa abandonar outros planos profissionais nem quer dizer que almeja seguir na mesma empresa ao longo da carreira, característica comum das gerações anteriores. Inclusive, ela não descarta voltar às telas. Pelo contrário, a estabilidade da CLT a permite continuar tentando. “Às vezes chega um teste que não vale a pena fazer, porque vou ter de pedir demissão, vou gravar por dois meses e ganhar um valor que não vai me sustentar nem por seis meses”, diz.

O ambiente artístico faz parte da vida de Alice desde a infância a partir da influência da mãe. As aulas de teatro e balé clássico faziam parte da rotina da jovem. Gorete, que conseguiu ter uma vida confortável por meio da carreira de atriz, a incentiva a não abandonar 100% esse lado.

“Minha mãe sempre fala para eu não desistir dos meus sonhos. Mas, ao mesmo tempo, ela entende que não é preto no branco, que a gente tem de seguir, que existe um aluguel para pagar”, diz. Hoje, Gorete vive entre Belo Horizonte e Jericoacoara, onde administra o complexo de casas de temporada que construiu.

Alice, ao lado da mãe Gorete Milagres, atriz consagrada nacionalmente por interpretar a personagem Filó
Alice, ao lado da mãe Gorete Milagres, atriz consagrada nacionalmente por interpretar a personagem Filó Foto: Arquivo pessoal

Agora, Alice não descarta mudar de rota novamente desde que a proposta a sustente por um período que considere suficiente para não depender de outras fontes de renda enquanto atua. “Se um dia chegar uma proposta que vai valer muito a pena financeiramente e artisticamente, eu consigo pedir férias e fazer, ou pedir demissão e fazer um planejamento financeiro para me sustentar por mais dois anos”, afirma.

O retrato da Geração Z brasileira

Ao longo desta semana, o Estadão irá desvendar quem é e o que pensa a Geração Z brasileira a partir de dados apurados pelo Instituto Ipsos e de relatos de jovens e especialistas ouvidos pela reportagem. Além do escolha entre o modelo CLT e o trabalho autônomo, a série também investiga como essa geração enxerga algumas das principais questões que devem definir o futuro do trabalho: o desejo de ocupar cargos de liderança, o medo de substituição pela inteligência artificial e, ainda, o peso que o ensino superior tem na busca por emprego.

Biometano precisa de pacote de políticas para competir com diesel- EIXOS

 Precificação de carbono, paridade com o diesel, corredores de abastecimento e integração de resíduos ajudam a formar um pacote de políticas para viabilizar o uso de biometano em frotas pesadas, aponta um estudo recém lançado pelo Instituto MBCBrasil.

 
Elaborada com participação de pesquisadores da USP, Universidade Federal de Itajubá, Instituto Agronômico de Campinas e Instituto Mauá, a análise parte da experiência de mercados onde o biocombustível já se consolidou como uma das soluções de descarbonização do transporte terrestre.
 
"Levantamos evidências de dezenas de fontes internacionais e nacionais com o objetivo de demonstrar como o biometano pode impulsionar a transição energética no transporte terrestre em escala global. O retrato é consistente: o combustível é uma solução madura, viável e com benefícios sistêmicos para diversos países”, conta a professora Gláucia Souza (USP), líder da IEA Bioenergy Task 39 e uma das autoras do estudo.
 
Produzido em cerca de 40 países, o biometano é utilizado no transporte em quase 30 mercados. Mas não se firmou como solução sozinho. 
 
O mapeamento (.pdf) traz uma série de mecanismos que, combinados, permitiram que o gás renovável pudesse conquistar um papel relevante na matriz.
 
E elenca aquelas mais promissoras para o contexto brasileiro. 
 
“Dentro desse cenário mundial, o Brasil se destaca pela escala, mas a grande oportunidade do país não é apenas produzir o combustível, e sim liderar o fornecimento de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções integradas desenvolvidas aqui para outros mercados que buscam se descarbonizar", diz Souza. 
 
Uma delas é a precificação de carbono. O documento defende que a negociação de créditos baseada na intensidade de carbono seja combinada a de créditos emissões de metano evitadas, a partir de matérias-primas como esterco e resíduos.
 
O RenovaBio é citado como um exemplo de “estrutura inovadora de créditos de descarbonização orientada pelo mercado”, ao passo que o Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS, em inglês) da Califórnia é avaliado como uma forma eficaz de remunerar o biometano pela intensidade de carbono.
 
“Para o biometano produzido a partir de dejetos de gado leiteiro, os créditos do LCFS proporcionaram incentivos equivalentes a aproximadamente US$ 45/MMBtu, ao passo que o biometano proveniente de gás de aterro sanitário recebe cerca de US$ 4,00 a US$ 4,25/MMBtu (dependendo da contabilização da mitigação de emissões de metano)”, exemplifica.