segunda-feira, 18 de maio de 2026

Banco ligado à Universal cedeu à empresa carteira de financiamentos que tinha até carro roubado, OESP

 Em mais um movimento que tirou ativos podres de seus balanços, o banco Digimais, do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, cedeu uma carteira de financiamentos veiculares que incluía até contrato rescindido judicialmente porque o carro vendido era roubado. A carteira foi repassada a um pastor de outra igreja em um negócio complexo envolvendo fundos de investimentos. Em troca, o banco devia investir em um negócio que envolvia a venda de imóveis por meio de crédito consignado. Mas o banco não teria depositado cerca de R$ 30 milhões prometidos.

O bispo Edir Macedo: seu banco repassou carteiras alta inadimplência em financiamento de carros
O bispo Edir Macedo: seu banco repassou carteiras alta inadimplência em financiamento de carros  Foto: Divulgação

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Como mostrou o Estadão, nos últimos dois anos, o banco repassou centenas de milhões de reais em carteiras que dariam prejuízo a fundos de investimentos dos quais o Digimais é o próprio cotista. A manobra dificultou o trabalho de auditores independentes e fez com que eles não conseguissem tirar conclusões sobre pelo menos R$ 3 bilhões em investimentos do banco, que declarou lucro de módicos R$ 31 milhões em 2025.

As principais carteiras envolvidas nessas transações com fundos são as de financiamentos de veículos de carros. Como mostrou o Estadão, somente uma delas tem inadimplência que beira os 50% dos financiamentos - percentual considerado crítico no mercado. Não são só os maus pagadores. Como o banco financia carros usados, alguns bem antigos, há um alto índice de processos em que os compradores pedem rescisão dos contratos.

O país do etanol agora é o país do elétron? 🇧🇷, The News

 

É fato que, nos últimos anos, andando pelas metrópoles brasileiras, você deve ter notado um aumento expressivo na quantidade de carros elétricos.

Carros silenciosos, ‘’pequeninos’’ e que passam reto pela bomba de gasolina e para ir direto a um carregador. Mas por que exatamente esses carros — que antes víamos pouco— passaram a ocupar um espaço relevante no asfalto brasileiro e virar objeto de desejo?

Vamos voltar no tempo…

Os carros elétricos estacionaram por aqui no final do século XIX, passando por experiências frustradas ao longo do século XX.

  • 1907: Caminhões elétricos da Commercial Truck Company já circulavam no Rio de Janeiro e em São Paulo, utilizados pela companhia de energia Light para manutenção e transporte de carga.

(Imagem: Reprodução)

  • 1919: Surgiram garagens especializadas, que ofereciam postos de recarga para os carros elétricos da época — considerados elegantíssimos.

Dando um salto para os anos 70, o Brasil viveu um momento de puro pioneirismo. Enquanto o mundo sofria com a primeira grande crise do petróleo, um engenheiro chamado João Gurgel decidiu que não dependeríamos mais da gasolina.

  • 1974: Nasceu o Itaipu E150, o primeiro protótipo elétrico da América Latina. Com um design futurista, ele era a aposta para as cidades.

(Imagem: Reprodução)

  • 1981: O Gurgel E-400 tornou-se o primeiro carro elétrico produzido em série no país. Era feito para o trabalho pesado, usado por estatais como Telesp e os Correios.

Na época, no entanto, as baterias de chumbo-ácido eram pesadíssimas e a autonomia era curta — cerca de 80 km. Com a descoberta do motor Flex e o foco no etanol, o carro elétrico acabou ficando na garagem durante um bom tempo.

Mas foi nos últimos dois anos que o boom dos elétricos deu as caras por aqui

Se nos anos 70, 80, os elétricos eram um sonho, foi nos últimos anos que eles passaram a ser uma realidade.

Para você ter uma ideia, em 2025, o país bateu seu recorde histórico com 223.912 veículos eletrificados vendidos — um salto de 26% em relação ao ano anterior.

(Imagem: Fernando Pires | Quatro Rodas)

Só no 1TRI desse ano, a BYD — uma das líderes do segmento — registrou um crescimento de 73,7% nas vendas. O motor dessa explosão tem nome: o Dolphin Mini.

  • O modelo transformou o carro elétrico em um produto de massa, focado em vendas diretas e preços competitivos.

Outro caso marcante é da Geely, que passou a ser símbolo do BBB26 como patrocinadora e como carro oficial do vencedor do programa.

Para frente, quem também vai se aventurar é a GM. A empresa sinalizou que quer montar mais dois modelos elétricos por aqui, e há boatos de que até um Celta elétrico estaria nos planos.

Mas o que exatamente mudou para que saíssemos de um mercado tão nichado a um salto tão expressivo nas vendas?

A resposta está no bolso e na geopolítica

Com a alta do petróleo e a instabilidade dos combustíveis fósseis, o custo por quilômetro rodado do elétrico tornou-se imbatível. Mas não foi só isso.

A "invasão" das fabricantes asiáticas democratizou o acesso, trazendo modelos que não custam mais o preço de antes.

Além disso, a onda agora transbordou para as duas rodas. O Brasil vive um boom de motos e scooters elétricas, impulsionado pela logística do delivery e pela necessidade de fugir do trânsito sem gastar com IPVA e gasolina.

Bottom-line: Mesmo com os avanços e a demanda cada vez maior, o caminho é longo. Estima-se que hoje, o Brasil tenha apenas um eletroposto para 30 carros elétricos. Na China, por exemplo, há um ponto para 2,3 veículos.

domingo, 17 de maio de 2026

Liberdade impulsiona riqueza das nações, não o Estado, diz economista Deirdre McCloske, FSP

 Eduardo Cucolo

São Paulo

O principal fator que explica o enriquecimento de diversas nações nos últimos dois séculos é a liberdade, que impulsionou a criatividade e inventividade das pessoas, algo que até mesmo um país comunista como a China percebeu há algumas décadas. Não foi ação do Estado.

A afirmação é da economista Deirdre McCloskey, professora emérita de economia e história na Universidade de Illinois, em Chicago, e colunista da Folha.

Durante debate realizado pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) para comemorar os 50 anos de existência da instituição, McCloskey falou sobre o papel do Estado para um crescimento econômico sólido.

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Deirdre McCloskey, professora emérita de economia e história na Universidade de Illinois, em Chicago - Alexandre Mazo - 04.abr.2022/Divulgação

"O ingrediente secreto, ou a fonte do crescimento econômico moderno, é a criatividade, a invenção. Se você acredita nisso, conclui que a liberdade é o que faz o mundo moderno", afirma a economista.

"Como historiadora econômica, posso mostrar a vocês repetidas vezes que avanços e melhorias acontecem devido às pessoas. Um único cérebro humano com uma nova ideia, pequena ou grande. Não por causa de política estatal."

McCloskey diz que seu lugar nesse debate não está "nem na esquerda, nem na direita, nem no centro", mas em uma "pequena casa na árvore liberal, olhando para baixo com horror".

Ela lembrou que há uma tendência na América Latina de usar a palavra liberal para classificar "políticas que ajudam os ricos", enquanto nos Estados Unidos o termo é utilizado para designar pessoas de esquerda. Para a economista, no entanto, significa defender que as pessoas não tenham senhores que as dominem coercitivamente.

Essa era a principal preocupação dos primeiros teóricos do capitalismo. Uma segunda onda de pensamento levantou a questão da pobreza.

"Ensinei muitos dos ‘Chicago boys’. A melhor forma de ajudar os pobres é parar de oprimi-los, parar de impedi-los de se tornarem médicos, eletricistas, o que for, com licenças [autorizações de trabalho regulado], impedi-los de conseguir comida e roupas baratas de outros países com protecionismo. Pessoas pobres devem ser libertas, e a principal ameaça à sua liberdade não são seus empregadores, não são seus chefes, é o Estado, é o governo."

A economista afirma ser radical ao duvidar que "um governo imperfeito possa corrigir muitas das imperfeições de uma economia imperfeita". Para ela, corrigir a desigualdade com um governo imperfeito fazendo isso frequentemente mata o crescimento econômico. "Esse é um dos problemas europeus."

Então por que o Estado é tão popular?, questiona McCloskey. Na sua visão, a razão é que crescemos em famílias, e famílias são e devem ser empreendimentos socialistas. Tratar a nação como uma família, e os cidadãos como filhos dos seus líderes, é algo perigoso, improdutivo, e contribui para que países não consigam se tornar ricos.

"Do que um país precisa? Precisa de adultos, de pessoas crescidas", afirma. "Pessoas que não estejam dispostas a ser crianças de ninguém", afirma a economista, acrescentando que o liberalismo também pode ser pensado como um "adultismo".

Para ela, duas coisas necessárias para uma república funcionar são que as pessoas se comportem como adultos e que não haja líderes que as corrompam.

"Precisamos de cidadãos adultos que tenham orgulho de cuidar de si e ajudar os outros de forma sensata. E precisamos de líderes que parem de tentar nos corromper. Eu não votei nele, mas [Barack] Obama era um homem bom habilidoso em falar. [Donald] Trump é um homem mau habilidoso em falar. Vocês tiveram a mesma experiência aqui [no Brasil]."

Ela participou de um painel junto com o economista Gabriel Felbermayr, do Instituto Austríaco de Pesquisa Econômica, mediado pelo professor Ivan Colangelo Salomão.

Felbermayr diz que se define como um "ordoliberal", uma corrente baseada na ideia de que desenvolvimento e prosperidade requerem ação estatal. Ele afirma que precisamos de um Estado forte para nos libertar da coerção e fornecer o arcabouço em que transações voluntárias podem acontecer, no qual a inovação é permitida. Também não se deve confundir Estado com governo.

"O cerne do Estado forte é permitir a tomada de decisão descentralizada, que as escolhas de consumo, de lazer, de investimento das pessoas, como indivíduos, como trabalhadores, como empreendedores, possam acontecer da forma mais livre possível. Precisamos de um Estado forte para fornecer o arcabouço adequado para os mercados funcionarem", afirma.

"Forte não significa grande. Também não significa poderoso, no sentido de que o governo é intrusivo e olha para tudo, torna a privacidade e a dimensão privada de nossas vidas muito pequena. É isso que o Estado chinês faz."

O professor da FGV Nelson Marconi, que voltou nesta semana de uma visita com estudantes de administração de empresas à China, afirmou que aquele país não está questionando o papel do Estado, mas o que fazer para se desenvolver mais.

Durante outro painel no mesmo evento, ele destacou que o país trabalha com controle de movimentação de capitais, debate que no Brasil ele vê como proibido, e tem uma forte política industrial estatal.

"Não estão questionando se o Estado deve ou não participar desse processo. Isso para eles é absolutamente óbvio", afirmou Marconi, destacando que "o Estado tem de retomar o papel de indutor do desenvolvimento aqui no Brasil".