quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Como é viver em cima de um vulcão ativo?, Rui Tavares, FSP

 Aqui, de onde escrevo, é um enorme vulcão, com quase 30 quilômetros de diâmetro, e dentro dele há uma cratera, com dez quilômetros de diâmetro, e dentro dessa cratera um outro vulcão, que se eleva a quase 3.000 metros de altitude. Tudo no meio do Atlântico Norte, no arquipélago de Cabo Verde.

Dentro da cratera, no sopé do vulcão-dentro-do-vulcão, há uma aldeia que se chama Chã das Caldeiras, dividida em dois povoados chamados de Portela e Bangaeira. Ao contrário do que se poderia supor, o vulcão está ativo. Na memória viva dos habitantes da aldeia, já entrou em erupção pelo menos três vezes, com várias erupções menores durando meses, a cada vez com rios de lava (só na última erupção, mais de 100 milhões de toneladas de lava) que destruíram casas, pomares, vinhas, modos de vida.

Vista aérea mostra uma ilha vulcânica com crateras visíveis e relevo acidentado, cercada por águas profundas e azuis do oceano.
Imagem do astronauta canadense Chris Hadfield, feita da Estação Espacial Internacional, mostra vulcão no Parque Nacional do Fogo, em Cabo Verde - Chris Hadfield - 2.abr.13/Nasa/AFP

Numa das vezes, em 1995, o Estado cabo-verdiano chegou mesmo a proibir que se vivesse gente dentro da grande cratera, tendo construído uma aldeia do lado exterior do vulcão principal para que os habitantes da Tchã (como se diz em crioulo de Cabo Verde) pudessem se mudar. Sem efeito. Logo que puderam, as pessoas não ligaram para as proibições do governo nem para os perigos vulcânicos e regressaram. Por quê?

Quando vim aqui pela primeira vez, em agosto de 1994, já não havia erupção desde 1951. O apego das pessoas ao seu habitat era tal que conheci então gente que, nesta ilha de pequena dimensão, nunca tinha visto o mar. O seu mundo era limitado de um lado pela enorme falésia a que chamam bordeira e que rodeia a Chã, uma parede que chega a ter quase um quilômetro a pique, e do outro pelo cone vulcânico secundário de 1.600 metros, tudo a partir de uma altitude-base de 2.000 metros.

Essas condições explicam por que razão, neste país onde chove pouco, a umidade que ali se acumula permite ter frutas e legumes de todo o tipo e ainda produzir um vinho especialíssimo. É isso que faz as pessoas voltarem a cada vez que a lava lhes destrói as casas.

Os ciclos do vulcão do Fogo são imprevisíveis. Num século como o 17 houve mais de dez erupções; no século 20, apenas duas. Elas podem durar dias, semanas, meses ou mais. E ainda assim a vida continua e tem de ser reconstruída a cada vez.

De certa forma, a experiência das gentes do Fogo, e em particular da Chã, são como uma metáfora para uma filosofia da história que me parece adequada aos dias de hoje. Depois de termos achado que "a história acabou", ou seja, que o vulcão que existe sob as nossas democracias e sociedades estáveis havia adormecido, eis que agora a crise é tão permanente que nos começamos a perguntar se a instabilidade e o autoritarismo é que são afinal a regra e que nós vivemos numa fugaz exceção.

Essa ideia deixa muita gente desanimada, desorientada, deprimida, desesperada ou todas as anteriores. Mas ao invés dessa dúvida nos tirar a vontade de lutar, ela deve é nos inspirar a cuidar bem de cada momento que nos é dado.

Nesta quarta-feira (31) regressarei à Chã das Caldeiras, a aldeia que tem de reconstruir a civilização a cada vez que o vulcão desperta. E a cada vez o vinho é melhor, e os sorrisos são mais abertos. É essa a lição que levo do último dia do ano para 2026.

O que aprendemos com o caso Master, Bernardo Guimarães, FSP

 O caso do Banco Master merece toda a atenção que está recebendo. O rombo é grande, e, ao que parece, um dos motivos é que demorou para a instituição ser liquidada. É difícil saber exatamente por que, mas salta aos olhos a assimetria de poder entre os donos do banco e os funcionários do Banco Central.

O principal acionista do Banco Master é representado por escritórios de advocacia que custam centenas de milhões de reais. É dito no meio jurídico que advogados e advogadas foram escolhidos pelas conexões com poderosos juízes. É de conhecimento público que vários ministros do STF não se preocupam minimamente com conflitos de interesse.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Fachada da sede do Banco Master, localizada na rua Elvira Ferraz, na Vila Olímpia, em São Paulo - Rafaela Araújo - 29.dez.25/Folhapress

É sabido também que o dono do Banco Master é muito bem conectado com políticos poderosos. Para citar um exemplo, é difícil imaginar um motivo honesto que levasse o senador Ciro Nogueira a apresentar uma proposta para expandir enormemente a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e entregar a conta ao contribuinte no momento em que o Master mais precisava disso.

Todo esse poder serve a vários propósitos.

Um deles é que, quando o Banco Central intervém, liquida ou nega socorro a um banco, diretores são tipicamente processados. Com advogados contratados a peso de ouro, banqueiros argumentam que o banco não tinha problemas, houve erro técnico grave, abuso de poder ou violação do devido processo.

A conclusão é que um dono de banco bem conectado e mal-intencionado teria grande poder de intimidar os agentes públicos. É razoável esperar que esse poder se traduza em demora para intervir e liquidar bancos.

Isso precisa mudar.

Diretores do Banco Central, ministros e secretários do governo precisam ser blindados desse tipo de intimidação. Eles devem ser processados se houve corrupção, mas não se alguém acha que eles tomaram uma decisão ruim —mesmo que eles de fato tenham errado. Corrupção é crime; erros fazem parte do processo.

Em países desenvolvidos, é assim que funciona. Para processar um agente público, é preciso argumentar que houve dolo ou corrupção. Nos Estados Unidos, seguindo a crise de 2008, inúmeros bancos regionais foram liquidados. Nenhum diretor do banco central americano foi processado.

Parte do rombo do Banco Master será coberta pelo FGC. Um banco deve ser liquidado quando seu patrimônio líquido fica negativo. Nesse caso, o banco não é capaz de honrar suas dívidas, e o FGC paga a quem tem até R$ 250 mil para receber.

O FGC é uma instituição privada, financiada pelos bancos. Estes têm interesse em preservar o caixa do FGC. Então, poderíamos pensar que o poder dos bancos serviria como contrapeso ao poder político que um banqueiro sozinho conseguisse comprar, de forma que grandes perdas seriam evitadas. O tamanho do prejuízo imposto pelo Master ao FGC oferece um contraexemplo a essa tese.

Portanto, precisamos de instituições públicas capazes de punir atos de corrupção e, também, proteger agentes públicos responsáveis por fiscalizar e regular. Em 2026 e nos anos que virão, espero que consigamos reformar nossas instituições e avançar nessas duas direções.

O funeral de Brigitte Bardot, Elio Gaspari, FSP

 O ano de 2026 começará com o funeral de Brigitte Bardot, símbolo de uma libertação feminina. Bonita e irreverente, colecionou namorados (dez mais ou menos duradouros), transformou duas aldeias de pescadores (Saint-Tropez e Búzios) em pontos turísticos.

Ao chegar ao Rio, linda, depois de 12 horas de voo, deu uma entrevista coletiva e ouviu uma pergunta do repórter Orion Neves: "A senhora pretende ter um filho brasileiro?"

Resposta rápida: "Com quem, com você?"

Brigitte Bardot em "Les Femmes", de 1969 - @brigittebardotbb no Instagram

Bardot morreu aos 91 anos, claustrofóbica e conservadora. Com ela, foi-se mais um pedaço do século 20. Nele, viveram mais duas mulheres lindas e fantásticas: Greta Garbo (1905-1990) e Marilyn Monroe (1926-1962).

Bardot e a Garbo superaram as armadilhas da celebridade. Garbo avisou que "quero ficar sozinha" e conseguiu. Viveu seus últimos anos em Nova York e fazia longas caminhadas, de chapéu, vestindo suas enormes pernas em calças compridas, às vezes passava pela Park Avenue. La Garbo sofreu para ficar sozinha.

La Bardot viveu o suficiente para não ser aporrinhada. De Garbo a Bardot o século 20 aprendeu a conviver com mulheres famosas.

No meio do caminho, Marilyn Monroe chegou ao triunfo das cocotes. Namorou o homem mais poderoso do mundo, o presidente John Kennedy, e o irmão dele, Robert. As pressões, e talvez suas ambições, levaram-na ao suicídio.

La Bardot conseguiu ficar sozinha e esteve à sua maneira na Pasárgada de Manuel Bandeira. Teve os homens que quis, nas camas que escolheu.

Essas três mulheres seguiram roteiros diversos e hoje o mundo é outro. Outro na França e nos Estados Unidos e sabe-se lá onde mais. Menos na Inglaterra, ou, com mais precisão, na casa reinante dos Windsor, na Inglaterra.

Lá o rei Charles 3º conseguiu fazer de Camilla Shand, ex-Parker Bowles, rainha consorte. Ela conseguiu o título que não passou pela cabeça de sua bisavó, Alice Keppel, namorada de fé do rei Eduardo 7º.

Conta a lenda que Camilla Shand, ao ser apresentada ao príncipe Charles, disparou: "Minha bisavó foi amante do seu bisavô, o que você acha disso?"

Não se sabe exatamente quando, mas Charles achou a ideia boa. Seguindo a tradição inglesa, namorou-a enquanto ela estava casada. A infidelidade de Charles envenenou seu casamento e ele foi o primeiro príncipe de Gales a se divorciar. Seu tio-avô foi forçado a abdicar para se casar com uma divorciada.

Quando Lady Diana morreu, em 1997, 9 em 10 pessoas eram capazes de apostar que Camilla nunca conseguiria ser rainha. Ela conseguiu, a Inglaterra mudou, mas nem tanto.

Em tempo: a infidelidade de Charles corroeu sua popularidade. Tudo bem, e é falta de educação lembrar que, na crônica da embaixada do Brasil em Londres, uma cama do palacete teria fama porque nela teria sido gerado o príncipe Harry. (Charles, ao ver o bebê, estranhou seu cabelo ruivo.)

Bardot transgrediu num tempo de transgressões. Retraiu-se quando a fama começou a incomodá-la e blindou-se defendendo os animais e seguindo uma linha conservadora. De certa maneira, acompanhou o século 20.