segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A próxima fronteira da mobilidade urbana, Joisa Dutra -FSP

A eletrificação da mobilidade avança mais rapidamente do que se projetava. Basta observar o crescimento dos veículos a serviço de aplicativos, das entregas urbanas e do transporte de última milha nas grandes cidades —e mesmo nas nem tão grandes assim.

O Brasil ainda está longe de países que adotaram metas agressivas para a eletrificação do transporte. Ainda assim, já superamos previsões oficiais feitas há poucos anos. Em 2017, estimava-se algo como 360 mil veículos eletrificados em 2026; em 2025, já ultrapassamos meio milhão. A meta mais recente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), no PDE 2035 (Plano Decenal de Expansão de Energia 2035), é que 23% dos novos veículos leves vendidos em 2035 sejam eletrificados.

Veículo em ponto de recarga elétrica no aeroporto de Congonhas
Veículo em ponto de recarga elétrica no aeroporto de Congonhas - Jardiel Carvalho - 9.abr.25/Folhapress

O mercado se move depressa. Em 2025, os veículos elétricos já responderam por cerca de 9% das vendas. Há mais modelos, mais concorrência e preços mais competitivos. O boca a boca faz o resto: quem dirige um carro elétrico tende a recomendá-lo. Converse com quem dirige.

E não são apenas os veículos leves. Pressões ambientais, políticas públicas e compromissos regulatórios vêm acelerando a eletrificação de frotas —sobretudo de ônibus urbanos. Em São Paulo, a proibição da aquisição de novos ônibus a diesel é compromisso oficial desde outubro de 2022. Apesar de revisões sucessivas após a pandemia —a meta original era atingir 2.400 ônibus elétricos em 2024—, o compromisso foi mantido. O ano de 2025 termina com mais de 1.100 novos ônibus elétricos em operação, resultado de um arranjo que combina mandato regulatório e financiamento, com apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e de instituições multilaterais como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Ganha a população, com menos poluição sonora, e ganha o clima, com menos emissões, já que nossa matriz elétrica é majoritariamente renovável.

Mas eletrificar frotas não é suficiente.

O transporte urbano enfrenta congestionamentos crônicos, enquanto eventos climáticos extremos já pressionam as redes de eletricidade. Um programa bem-sucedido precisa melhorar o sistema como um todo. Eletrificar sem olhar para a rede é receita para frustração.

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O sucesso da expansão dessas frotas depende de redes de distribuição preparadas —e, sobretudo, de seu uso inteligente. É aqui que entram modelos tarifários capazes de sinalizar custos reais e incentivar o uso eficiente da infraestrutura. A boa notícia é que há evidência sólida de que isso funciona.

Um estudo recente conduzido no Reino Unido por Bernard e coautores (NBER) oferece pistas valiosas. Trata-se de um experimento de campo envolvendo cerca de 110 mil usuários e 60% da infraestrutura pública de recarga. O objetivo era avaliar se descontos temporários —aproximando o preço da recarga do custo marginal da eletricidade— alterariam o comportamento dos usuários. Alteraram, e muito. Reduções de até 40% no preço, anunciadas com um dia de antecedência, levaram a aumentos de mais de 100% da demanda nos horários incentivados e a ganhos significativos de bem-estar. A resposta foi ainda maior entre consumidores de menor renda e entre aqueles que dirigem veículos com baterias maiores.

Em outras palavras: consumidores respondem fortemente a sinais de preço. E essa resposta permite reduzir custos de operação, aliviar o estresse sobre as redes e evitar investimentos ineficientes.

Para o Brasil, onde a eletrificação cresce e as redes urbanas já dão sinais de saturação, essa evidência é muito importante. Tarifas dinâmicas —que variam no tempo e refletem melhor os custos do sistema— podem orientar o carregamento para horários de menor demanda, reduzir gargalos locais e adiar expansões desnecessárias da infraestrutura.

Assim como no trânsito urbano, eletrificar a mobilidade sem regras claras de uso leva a congestionamento —não só nas ruas, mas também nas redes. Expandir infraestrutura sem orientar comportamento encarece o sistema e reduz seus benefícios. O sucesso da transição energética exige coordenação de sistemas de transporte e de eletricidade, não apenas velocidade.

Que em 2026, ano eleitoral, a transição seja julgada menos pelas promessas e mais pela capacidade de coordenação e entrega.

Uma questão de ego, Hélio Schwartsman, FSP

 

O problema de os EUA terem se tornado uma republiqueta é que ficou mais difícil prever como a principal potência econômica e militar do planeta se comportará no plano internacional.

Até não muito tempo atrás, presidentes americanos perseguiam aquilo que identificavam como interesses do país, que eram mais ou menos conhecidos. Com Trump 2, o jogo mudou. Hoje, um dos principais fatores a determinar a política externa dos EUA é o ego do presidente, que é volúvel e caprichoso.

Em algum grau, a personalidade de um líder sempre conforma suas ações. Dá até para afirmar que democracias têm um problema de seleção adversa, já que o próprio sistema eleitoral favorece a assunção de governantes de ego mais inflado enquanto a boa administração exigiria figuras menos cheias de si, capazes de reconhecer erros e abandonar ideias favoritas à medida que recebam novas informações.

Homem idoso de terno escuro e gravata amarela sentado à mesa em evento formal, levantando a mão direita. Mesa decorada com arranjo floral e copos, com pessoas ao fundo em ambiente interno.
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante jantar na véspera de Natal em Mar-a-Lago, em Palm Beach, Flórida - Jessica Koscielniak - 24.dez.25/REUTERS

Os níveis egoicos de Trump, porém, não estão no padrão dos de líderes democráticos mas sim no de ditadores. Talvez até no de tiranos ensandecidos, como Idi Amin Dada, que se fazia chamar "senhor de todos os animais da terra e peixes dos mares".

Multiplicam-se os sinais de que Trump entrou com tudo no ramo do culto à personalidade. Ele acaba de incorporar seu nome ao Kennedy Center for the Performing Arts, que passou a chamar-se Trump Kennedy Center, e anunciou que a Marinha vai desenvolver a classe Trump de belonaves. Um navio é pouco, ele quer uma classe inteira.

O personalismo não funciona sempre para o mal. Em sua campanha pelo Nobel da Paz, Trump forçou Israel a suspender a carnificina em Gaza e mediou alguns cessar-fogos mundo afora.

Os pontos positivos, porém, nem de longe compensam o estrago que ele causou à ordem internacional, que regrediu uns cem anos. A ideia de um mundo pautado por regras que valem para todos e no qual as diferenças são resolvidas pela diplomacia e não pela força, que nunca chegou a ser plenamente implementada, hoje parece menos do que um sonho distante.

Como é Jaci, novo supercomputador que vai revolucionar a previsão de chuvas e ondas de calor no País, FSP

 Suely Araújo, ex-presidente do Ibama, e Paulo Saldiva, da USP, falam de aceleração do aquecimento global.

O Brasil acaba de ganhar um novo supercomputador capaz de ampliar significativamente a capacidade nacional de produzir previsões meteorológicas mais rápidas e mais detalhadas, aperfeiçoar a modelagem climática e fortalecer o monitoramento ambiental, incluindo o apoio a alertas de desastres naturais.

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O supercomputador Jaci está instalado na unidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo. O equipamento substituirá o Tupã, que deve se aposentar definitivamente no primeiro trimestre de 2026.

Com capacidade de processamento 24 vezes maior, o Jaci permitirá a operação plena do novo modelo brasileiro de previsão climática e oceânica (Monan), projetado para apresentar com maior precisão as condições ambientais da América do Sul — um salto fundamental para estudos de clima, impactos ambientais, agricultura, defesa civil e planejamento territorial.

Para você

A previsão do tempo futuro só é possível com bom diagnóstico das condições do tempo presente. Tal diagnóstico demanda uma infinidade de dados, atmosféricos e terrestres, coletados em terra e também via satélites.

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Essa aferição inclui, exemplo, as condições da cobertura vegetal, umidade do solo, monitoramento de nuvens, condições atmosféricas, temperatura, velocidade dos ventos, entre tantos outros, perfazendo um total de nada menos que 40 bilhões de informações.

“Esse é um problema gigantesco que enfrentamos atualmente porque esse volume de informações não cabe em um computador comum. As demandas atuais para previsão do tempo já não cabem no supercomputador anterior”, explica José Aravequia, coordenador-geral de Ciências da Terra do Inpe, órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Nos últimos anos, o Brasil tem visto a intensificação de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, chuvas fortes - a exemplo da tempestade recorde que inundou o Rio Grande do Sul em maio de 2024 - e tornados, como o que destruiu Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, em novembro.

“O novo supercomputador é seis vezes mais potente em termos de cálculos e capaz de carregar em sua memória vinte vezes mais informações; ou seja, agora temos um sistema capaz de carregar todos esses dados.”

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Quanto mais locais ou regionais forem as previsões climáticas demandadas, mais dados serão necessários processar. O mesmo acontece com a duração dos fenômenos. Previsões de poucos segundos, por exemplo, também demandam mais informações.

“Para os fenômenos severos, que em geral são aqueles que mais atingem a vida cotidiana e causam grandes prejuízos de vidas e danos materiais, precisamos de uma previsão com maior detalhamento temporal e espacial”, afirma Aravequia. O investimento no projeto foi de R$ 30 milhões, segundo o ministério.

Até 2028, o supercomputador deve incorporar ainda dados de qualidade do ar e volume de gases do efeito estufa na atmosfera. A partir de então, poderá gerar também previsões de cenários de mudanças climáticas nacionais para nortear as ações do governo de monitoramento e quantificação das emissões.

O supercomputador é o primeiro grande marco do projeto Renovação da Infraestrutura de Supercomputação, cujo objetivo é modernizar o Centro de Dados Científicos do Inpe, uma modernização orçada em aproximadamente R$ 200 milhões.

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A iniciativa prevê a instalação de mais três novos sistemas de processamento de dados até 2028, a expansão da infraestrutura elétrica e a implementação de uma usina fotovoltaica, garantindo eficiência energética e sustentabilidade ao parque computacional.

“Os maiores problemas dos grandes datacenters em todo o mundo hoje são o alto consumo de energia elétrica e de água”, explicou o coordenador-geral de Infraestrutura de Dados e Supercomputação do Inpe, Ivan Barbosa.

“Sobre a questão da água, optamos por tratar e reutilizar a água das diferentes lagoas que temos dentro do Inpe. Sobre a energia elétrica, estamos criando uma usina de geração elétrica fotovoltaica, soluções verdes e sustentáveis.”

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