segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Alvaro Costa e Silva - Devassa na política fluminense deixa Flávio Bolsonaro em pânico, FSP

 

"Cherchez la femme" é uma expressão popularizada por Alexandre Dumas no romance "Os Moicanos de Paris", de 1854, significando que, para resolver um crime, deve-se procurar a mulher. Menos misógina, "follow the money" (siga o dinheiro) é o resumo do caso Watergate, na década de 1970. Hoje a dica óbvia é quebrar a senha do celular.

O vício de usar o aparelho é tão irresistível que o bandido —seja um pé de chinelo ou um engravatado— sabe que vai se comprometer, produzindo provas contra si mesmo, mas não resiste à compulsão de teclar com os polegares.

Homem de camisa azul clara e óculos sentado em escritório, gesticulando com as mãos. Ao fundo, quadro desfocado com imagem de pessoa e bandeira.
O senador Flavio Bolsonaro durante entrevista à Reuters em seu gabinete, em Brasília - Adriano Machado - 19.dez.25/Reuters

Um caso célebre é o do tenente-coronel Mauro Cid, cujo celular foi apreendido em 2023 durante a operação da Polícia Federal sobre a inclusão de dados falsos no cartão de vacina de Bolsonaro. A investigação acabou arquivada, mas o conteúdo do aparelho de Cid foi mais importante para elucidar a trama golpista do que a própria delação premiada do ajudante de ordens.

A prisão em setembro do então deputado TH Joias, aliado do governador Cláudio Castro, sob a acusação de negociar armas com o Comando Vermelho, puxou um fio de conversas que jogam o Legislativo e o Judiciário fluminenses no centro da atual devassa que liga a elite política ao crime organizado.

Antes de ser preso, TH Joias limpou seus aparelhos, mas usou um novo para conversar com o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. A partir de dados encontrados em três celulares de Bacellar, a PF prendeu o desembargador Macário Júdice Neto por obstrução de investigação e violação de sigilo funcional.

A troca de mensagens entre Bacellar e Macário é uma fofura: "Te amo", "Sou teu fã", "Saudade de falar com o amigo". Agora são os celulares do desembargador, já desbloqueados, que vão falar.

Um dos alvos da operação Unha e Carne é Gutemberg de Paula Fonseca, secretário estadual e homem de confiança de Flávio Bolsonaro. Nos corredores do Palácio Guanabara dizem que Gutemberg manda mais do que Cláudio Castro. A pré-campanha presidencial do filho 01 está em pânico.


Michael França - Rotas para o Nordeste, FSP

 Espedito sempre foi um cara humilde. E isso não se deve apenas à sua origem, mas sobretudo à forma simples e carinhosa como trata as pessoas. Saiu do sertão baiano ainda menino, por volta dos 14 anos, empurrado pela fome e pela seca. Em Minas Gerais, cruzou o caminho de Zilá e, de uma noite esquecida, mas não tão distante, eu nasci. Essa trajetória, marcada pela migração forçada e pela busca por sobrevivência, por muito tempo foi quase uma regra para milhões de famílias nordestinas.

Desde então, o Nordeste tem mudado. A migração em massa que marcou o imaginário do país durante décadas perdeu força. A figura do retirante, tão presente no passado, já não ocupa o mesmo lugar no debate público. Em várias regiões, surgiram polos produtivos, cidades médias ganharam dinamismo, cadeias produtivas locais se diversificaram e novas oportunidades passaram a existir mais perto de casa.

Cacto alto com vários braços em área seca e arbustos baixos ao redor. Céu parcialmente nublado com nuvens brancas e cinzas.
Mandacaru na cidade de Macururé (BA) - Rafaela Araújo - 14.out.24/Folhapress

Contudo, isso não significa que o problema do desenvolvimento esteja resolvido. Persistem barreiras estruturais importantes que limitam o potencial da região. Baixa produtividade, dificuldades de acesso a mercados, gargalos de infraestrutura, fragilidades institucionais e desigualdades educacionais seguem condicionando as trajetórias de milhões de nordestinos. O crescimento existe, mas ocorre de forma desigual, tanto entre estados quanto dentro deles.

Um estudo recente do Banco Mundial, intitulado Rotas para o Nordeste, elaborado por Cornelius Fleischhaker, Shireen Mahdi, Karen Muramatsu, Heron Rios e uma equipe multidisciplinar, ajuda a organizar esse novo cenário.

O relatório propõe olhar o desenvolvimento regional não como um caminho único, mas como um conjunto de rotas possíveis, que combinam vocações produtivas locais, integração territorial, capital humano e políticas públicas bem calibradas. Uma das mensagens do estudo é que o desafio do Nordeste hoje não é mais apenas crescer, mas crescer melhor, conectando pessoas, territórios e oportunidades.

Ao fazer esse diagnóstico, o estudo chama atenção para algo importante. O futuro da região depende menos de soluções genéricas e mais da capacidade de reconhecer suas diferenças internas, suas potencialidades específicas e seus nós históricos. Pensar novas rotas para o Nordeste representa aceitar que o desenvolvimento não virá de um atalho, porém, como todo projeto de desenvolvimento, virá de escolhas consistentes ao longo do tempo.

Quando olho para a história de Espedito, meu pai, penso no quanto essas escolhas importam. Durante décadas, a única rota disponível para muitos era sair. Talvez o maior sinal de avanço seja justamente a possibilidade de que, para as atuais e próximas gerações, ficar também seja um caminho viável, digno e cheio de futuro.

Esse texto não é apenas uma homenagem a Espedito, que, além da miséria enfrentada pelo retirante, também é um recente sobrevivente de um câncer de próstata agressivo, mas também representa um pedido para que meus leitores não deixem de se cuidar e não tenham preconceito do dedinho do exame de próstata. No mais, também é uma homenagem à música "Retirada", de Elomar. Bom Natal.

Genealogia do crime perfeito, Muniz Sodré ,FSP

 Epidemia (do grego "epi-demos") significa literalmente aquilo que incide de forma direta, sem mediações, sobre o povo. Por isso nomeia surtos inesperados de doenças infecciosas em várias regiões. Endemia, por outro lado, é a manifestação desse fenômeno de modo estável. Choque e perplexidade têm levado frações de público a falar de uma "epidemia" de feminicídios e violências contra as mulheres, talvez devido ao aumento extraordinário de casos, mas esse é um mal culturalmente endêmico. Sempre existiu como uma recorrência em graus variáveis, a depender da região.

O choque atual parece ter a ver com o fim de outra forma de violência, o silêncio. O problema é antigo, mas dele se falava pouco, fossem as vítimas ou as autoridades. É possível que fosse menor a avaliação estatística das ocorrências, porque a mulher se expressava menos, tanto no espaço público quanto no privado, e, quando podia fazê-lo, sua voz sujeitava-se a restrições e interrupções pela masculina. Isso não acabou, mas se enfraqueceu. Leis e movimentos feministas, como o Me Too, ajudaram as mulheres a tomar consciência de que a violência simbólica do silêncio produz cumplicidade.

A imagem mostra uma manifestação com várias pessoas segurando cartazes e faixas. Em destaque, uma faixa grande com a frase 'NÃO ACOBERTAR AGRESSOR SIM APOIAR A MULHER'. As pessoas estão vestidas em sua maioria com roupas roxas e há um clima de protesto e apoio à causa feminina.
Marcha pelo Dia Internacional da Mulher, na avenida Paulista - Bruno Santos - 8.mar.25/Folhapress

Algo semelhante ocorreu quando os negros, até então objeto de ciência, começaram a articular posições contra o racismo. Nos anos 1950, um sociólogo espantava-se que quisessem falar de si, assim como fariam micróbios ao microscópio de um cientista. O bom objeto não berra. Isso valeria para indígenas e mulheres. A história revelou outra coisa: a emergência de intelectuais orgânicos da afrodescendência, dos povos originários e da condição feminina. Histeria, que a psiquiatria restringia às portadoras de útero (hysterion), é hoje a voz masculina da mídia (Raquel Paiva, em "Histeria na Mídia").

A violência radica na separação absoluta entre dois termos complementares de uma equação social: capital/trabalho, natureza/cultura, homem/mulher etc. O mais abstrato impõe-se como lei estrutural. Na dicotomia masculino/feminino, o patriarcalismo universaliza a submissão da mulher e faz disso política de Estado, como nas ditaduras islâmicas. Nelas existe posse, mas não amor às mulheres. Ódio à primeira vista de um fio de cabelo. Por quê? Por medo mítico, primitivo, da diferença.

Medo é a forma negativa do desejo.

Guardadas proporções e variáveis, o fenômeno se irradia. Num país de forte tradição espiritual como a Índia, são elevados os índices de estupros e feminicídios. No Brasil, há quatro feminicídios por dia, mas aqui a polícia e o Judiciário vêm sendo compelidos a atuar. E já se instituem laboratórios de discussão do flagelo.

Visto que nada se pode fazer como prevenção, os diagnósticos confluem para a adoção de punições mais duras, em geral ineficazes. O que há mesmo é um enorme trabalho educacional a ser feito desde os primórdios até a formação superior.

No âmago da questão está o lugar de fala: a voz autônoma da mulher pode desencadear a fúria narcísica do assassinato ou da agressão mutilante. A negação machista da palavra feminina já configura o crime perfeito.