domingo, 21 de dezembro de 2025

105 colunas - Alberto Dines denunciou o esgotamento do jornalismo brasileiro, FSP

 Alberto Dines estava cansado das solicitações de estudantes de jornalismo e decidiu responder a todos de uma vez. Em novembro de 1998, o crítico de mídia publicou na Folha um diagnóstico devastador: "O modelo de jornalismo praticado no Brasil está esgotado".

O texto surgiu da perplexidade que Dines observava nos futuros jornalistas. Eles chegavam "abismados, perturbados" com o que viam na mídia, o idealismo sendo "triturado pela realidade". Para poupar-se de novas entrevistas acadêmicas, decidiu antecipar por escrito o que certamente perguntariam.

Homem idoso com óculos grandes e cabelo branco, vestindo suéter vinho e camisa xadrez, sentado próximo a uma máquina de escrever antiga verde. Ele apoia o queixo com a mão direita e olha para cima, em ambiente interno com iluminação suave.
O jornalista Alberto Dines - Rogério Albuquerque - 26.jun.1997/Folhapress

A crítica era impiedosa. O jornalismo brasileiro havia se tornado "um gigantesco faz-de-conta", onde profissionais imaginavam-se livres e empresas fingiam imparcialidade. "A isenção é uma farsa, mera distribuição de barbaridades em todas as direções", escreveu, sempre pontuando com a ressalva irônica: "Com as honrosas e raras exceções".

Dines identificou a "tabloidização" da grande imprensa mundial após a morte da princesa Diana — o próprio apelido Lady Di era uma contração para caber em títulos garrafais. No Brasil, as redações haviam se tornado bunkers onde se escrevia para outros jornalistas. "O leitor que se dane."

Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.

Por um jornalismo humanista (21/11/1998)

Crianças adoidadas -festas e férias-, universitários excitados -notas, diploma, carreira. Prazo fatal para as pesquisas de fim de semestre, trabalhos em grupo (em geral, tocados apenas por um), monografias finais. Zuenir Ventura, há dois anos, no "Jornal do Brasil", numa gostosa crônica, chamou a atenção para a avalanche das solicitações de entrevista que recebia de estudantes de jornalismo, alguns nem sabiam grafar seu nome, ansiosos para preencher os requisitos formais.

Sofro esse assédio, a tática de defesa consiste em exigir um mínimo de esforço -que anotem as respostas, porque a maioria prefere que o entrevistado faça o trabalho do entrevistador. Se, por acaso, animam-se a um encontro pessoal, dou um jeito de tirar das mãos do futuro repórter as perguntas que trouxe por escrito. Modesta contribuição para desenvolver a capacidade de perguntar. Ou a vontade de saber.

Por razões alheias à minha vontade, os pedidos aumentaram de repente. Noto, porém, uma atitude diferente nos futuros colegas. Abismados, perplexos, perturbados. Fico condoído em ver o idealismo (ou a ambição, talvez a combinação dos dois) triturado pela realidade do que lêem, ouvem ou assistem na mídia. Assim como a parte mais sensível do público, estes que vão lidar com o público começam a divisar algo que não está nos textos.

Para abortar novas solicitações, demandas acadêmicas e questionamentos existenciais dos jornalistas em gestação antecipo por escrito o que certamente vão perguntar.

O modelo de jornalismo praticado no Brasil está esgotado. Autoinfectou-se, carece de antídotos autógenos. É um gigantesco faz-de-conta, armação joco-séria (como as tragicomédias de Antônio José da Silva no século 18). Profissionais imaginam-se livres, empresas jornalísticas fingem imparcialidade. Arrogância, onipotência e, às vezes, perversidade escondem-se atrás de um pretenso senso de justiça que não resiste a qualquer avaliação mais profunda. Com as honrosas e raras exceções.

A isenção é uma farsa, mera distribuição de barbaridades em todas as direções. O linchamento dá-se com uma foto inocente e uma legenda pretensamente objetiva. A goela escancarada de um âncora ou o falsete de outro são as provas irrefutáveis de uma infração sequer investigada. "Comunicadores" nas rádios pinçam duas linhas nos jornais da manhã e, com elas, montam catilinárias para alimentar o dia inteiro.

As redações são "bunkers", escreve-se para aqueles que escrevem. O leitor que se dane. O sistema mediático, viga mestra do processo democrático, converteu-se num pêndulo de clonagem e canibalismo, no qual todos se copiam e todos se digladiam. A concorrência não busca a pluralidade, a diversidade ou a qualidade, mas a anulação desta pela reiteração. Com as honrosas e raras exceções.

Logo depois da morte da princesa Diana Spencer mencionei a tabloidização da grande imprensa mundial. A prova estava no próprio apelido, Lady Di, contração do nome da infeliz para caber num título garrafal do jornal de pequeno formato. A grande imprensa hoje está visivelmente impregnada pelo baixo jornalismo. Com as honrosas e raras exceções.

O divulgador da primeira fofoca na Internet sobre o caso Monica Lewinsky foi claro: "sou repórter, não sou jornalista". Estabeleceu-se, nesta virada do século, uma linha divisória que vai marcar todos os debates sobre o futuro de um serviço público que já foi chamado de Quarto Poder. Colocou-se a preciosa arte da reportagem -busca permanente da verdade- nos porões de um negócio que confunde credibilidade com credulidade. Com as honrosas e raras exceções.

Quando em 1994 as parabólicas captaram uma conversa informal entre um repórter e o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, soltaram-se os mastins da mídia para estraçalhar a honorabilidade de um homem público que confessou aquilo que os jornais praticam ostensivamente: quando cai a circulação, inventam-se promoções ("o ruim a gente esconde..."). Ricupero foi salvo do justiçamento sumário da mídia por seu confessor, que pediu um crédito de confiança no ser humano.

Quatro anos depois, almas ensandecidas, estamos diante de um paraíso niilista: ninguém presta -de Lula a FHC. Paulo Mercadante traiu o PT porque deu as fitas ao adversário político. André Lara Resende prevaricou em favor de amigos que, afinal, não ganharam. Seu avô materno, Israel Pinheiro, vilipendiado ao longo de uma viciosa campanha de difamação orquestrada por Carlos Lacerda, era um homem de bem. Esse o seu mal.

A descrença fulcral na humanidade está na raiz de todos os espasmos despóticos e "saneadores". O fascismo não é um partido político, é uma psicopatologia, deformidade moral. Se ninguém presta, os "eleitos" podem tudo. A Inquisição foi estabelecida porque a igreja não acreditava na capacidade do ser humano de eleger: converteu escolha em heresia. O protofascismo austríaco do fim do século passado duvidava das instituições e dos valores que haviam contribuído para os avanços da sociedade: cultura, liberdade, leis, partidos.

As grandes falsificações da história foram maquinações dos fascistas, porque nessa paranóia justiceira não há lugar para escrúpulos ou limites, o que se pretende é obliterar o senso de justiça: o "Affaire Dreyfus" (1894) foi montado em cima de um "telegrama azul" produzido por um agente duplo a serviço da direita militar francesa. Os "Protocolos dos Sábios de Sion" com os planos de uma pretensa dominação mundial judaica apareceram na Rússia czarista (cerca de 1902), bode expiatório para abafar a rebelião. O incêndio do Reichstag (fevereiro de 1933) foi uma provocação anticomunista dos recém-empossados nazistas. O Plano Cohen, armado pelos militares integralistas brasileiros, tentou impedir as eleições e foi pretexto para o Estado Novo (1937). A "Carta Brandi" (1955) foi um falso escândalo articulado pelo mesmo Lacerda para melar as eleições de 1955 e prejudicar a chapa JK-Jango. Em todos esses episódios a imprensa foi protagonista. Salvo as honrosas e raras exceções.

O salutar ceticismo filosófico converteu-se em perigosa certeza jornalística: todas as suspeitas são fundadas, todos os suspeitos, culpados. Impera a ambiguidade. Ninguém presta, todos na vala comum, humanidade sem crédito. Simulacro de justiça -sem ritos, prazos, normas.

Visão de mundo a partir do lodaçal, ótica da sarjeta. A última profissão romântica confunde-se com a mais antiga profissão do mundo. Instituição financeiramente quebrada, tenta uma nesga de poder. Paga muito a poucos, ungidos para celebrar suas preferências e produzir lixo. Com as honrosas e raras exceções.

Descobrir as tais exceções, jovens amigos, acreditar nas distinções, combater as generalizações e o nivelamento por baixo é o desafio de um jornalismo humanista.

“Em política, até a raiva é combinada”: Paulo Mercadante e nossa tradição conciliatória – Parte 1, Claudio Ribeiro -jornal Opção

 

Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim é apontado como um forte candidato em uma eventual eleição indireta | Foto: Antônio Cruz/ABR

É sabido que, após o agravamento da crise institucional que sobreveio com as denúncias que Joesley Batista, da holding J & F, apresentou contra o presidente da República, Michel Temer, o mandato deste está por um fio. É sabido, também, que ao menos dois nomes que ora não ocupam nenhum posto no Estado, são aventados, nos bastidores de Brasília, como possíveis figuras centrais em uma eventual eleição indireta. Estes dois nomes são de indivíduos que já exerceram funções importantíssimas nas esferas do poder político brasileiro. Falo de Nelson Jobim, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), e Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República. Ambos, além desses cargos, tiveram sólida carreira política no Poder Legislativo, tendo sido também ministros de Estado. Mas por que são justamente os nomes dos dois que vêm à baila, agora? No presente artigo, me concentrarei na figura de Jobim. Em um próximo, na de FHC. Em ambos, as teses do historiador mineiro Paulo Mercadante (1923-2013) nos ajudarão a tangenciar a resposta.

“Conciliação”

Paulo Mercadante foi um intelectual que se dedicou a estudar um dos elementos mais impressionantes da tradição ibérica, de modo geral, e da brasileira, de modo especial: a capacidade de conciliação, isto é, de arremedos e costuras político-institucionais, a fim de evitar rupturas drásticas, revoluções e violências intestinas, enfim, de evitar quaisquer formas de radicalização. Mercadante estudou tal fenômeno com mais precisão em duas obras, hoje indispensáveis para quem quer entender o Brasil: “A Consciência Conservadora no Brasil” (Topbooks; UniverCidade, 244 páginas), de 1965, e “A Coerência das Incertezas: Símbolos e Mitos na Fenomenologia Histórica Luso-Brasileira” (É Realizações, 351 páginas), publicada em 2001.

Uma tal postura conciliatória se fez presente em nossa tradição desde a época das guerras civis-religiosas e da consequente reação contrarreformista, acontecimentos transcorridos nos séculos 16 e 17, mas passou a ficar mais nítida após a Revolução Francesa e a Era napoleônica, que exigiram novamente uma reação ibérica peculiar à onda nova de radicalização que inundava a Europa no início no século 19. A reação em questão ficou plasmada na atitude do então príncipe regente D. João VI de decidir fugir, com sua corte, para o Brasil. Sabemos que, como essa fuga, D. João elevou o Brasil, então colônia, à condição de parte de Reino Unido, junto com Portugal e Algarve. Além disso, possibilitou que a antiga colônia tivesse ligações econômicas diretas com a Grã-Bretanha, por meio da chamada abertura dos portos. Em contrapartida, esta última nos dava também proteção militar.

Quando, alguns anos mais tarde, com Napoleão já derrotado e preso, o embate entre restauradores do Antigo Regime e liberais radicais começou a ser travado em Portugal, por um lado, e, por outro, o Brasil já começava a dar sinais de desejo de emancipação – sobretudo instigados pela abertura dos portos –, uma nova reação conciliatória foi encontrada: o 7 de setembro, a Independência. Diz Mercadante, em a “Consciência Conservadora no Brasil”: “A independência política de 1822 encerra em seu contexto o espírito de conciliação que provinha de todo o processo histórico nacional. Prevista de fato, há muito, pelos portugueses, tornara-se inevitável, realizando-se quando irreversível a emancipação econômica, decorrentes da abertura dos portos.”

Desse fenômeno conciliatório premeditado, Marcadante diz que os homens públicos daquela época tiveram plena consciência: “Escrevia o Marquês de Sapucaí que ninguém podia arrogar-se a glória de ter apressado a emancipação política do Brasil. O ato operou-se tão aceleradamente e por tal unanimidade ‘que os fatos encaminharam os homens e não os homens os fatos’.” Nada se fez de modo ra­dical ou conflagrado. Tran­sigia o elemento mais avançado, radical e republicano, diz Mercadante, “com o elemento reacionário, em geral alimentado de pré-juízos contra o espírito democrático. Constituíra-se principalmente de antigos radicais, revolucionário de lojas maçônicas, os quais se deixaram influenciar pela ideologia da restauração, e pela tendência de centro, moderada e oportunista.” É este o cerne da tradição conciliatória que pode ser observado nos momentos cruciais de nossa história.

Capa da obra “A Consciência Conservadora no Brasil”, publicada originalmente em 1965

Em, “A Coerência das Incertezas”, Mercadante amplia a análise para o campo simbólico e fenomenológico, e observa o transcorrer da conciliação no Brasil da segunda metade do século XX. Diz ele que “velhos valores de quando em vez predominam por meses e até anos. Com frequência, a plebe idealiza um demagogo salvador, brandindo a vassoura como simulacro da lança templária. Ou ressuscitado o fantasma da corrupção como arma eleitoral para em seus braços atirar-se no fim da festa. A vocação para o sebastianismo salvador dirige a opção eleitoral.” Por exemplo, de um Vargas ditador e perseguidor da esquerda política, nos anos 1930 e 1940, teríamos, nos anos 1950, um Vargas populista, flertando com a esquerda, procurando dissipar a contenda iminente entre radicais e reacionários. Seu suicídio foi, grosso modo, um ato conciliatório que garantiu a fase dos governos de Juscelino, Jânio e Jango.

Prossegue ainda Mercadante dizendo que, nas décadas de 1960 e 1970, “os militares assumiram o poder servindo-se de valores arcaicos e modernos. Enquanto se atiraram ao programa primeiro de Roberto Campos, a fim de modernizar o país, deixaram-se entregar à radicalização ética nos governos seguintes, imbuindo-se de preconceitos contra a economia de mercado, que traz em seu ventre o malsinado lucro do capitalista. Em que pese, pois, o sentido de modernidade impressa ao movimento, as forças culturais da Contra-Reforma não cessaram de agir, aproveitando-se das vacilações.” Com a saída dos militares do Poder, a transição se fez também de modo a frear a radicalização. A Lei da Anistia é exemplo disso. A constituinte de 1987, com sua enorme e variada gama de pautas, é outro.

“Pinguela”

Pois bem, e hoje? A sensação é que parece não haver saída para a crise que vivemos. Nós, cidadãos comuns, não conseguimos vislumbrar como solucioná-la. Será que nossa tradição conciliatória vai imperar, novamente? Ou será que os tempos são outros?

No evento “Desafios Conjuntos – O Futuro da América Latina”, realizado na Fundação Getúlio Vargas (FVG), na cidade de São Paulo, em 21 de março de 2017, o ex-ministro do STF Nelson Jobim disse que há um problema grave que nos cerca: a introdução da intolerância e do ódio no sistema político brasileiro. É grave, disse Jobim, por que isso inviabiliza o diálogo: “Em política, não se escolhe interlocutor. Em política, fala-se com quem se está ali”. Jobim citou o exemplo da acusação que recaiu sobre o presidente Michel Temer quando houve os primeiros sinais de estabilidade econômica: “Acusaram-no de fazer a ‘velha política’, o ‘entendimento’”, referindo-se à negociação de ministérios com partidos políticos. “A academia”, continuou Jobim, “é ótima para fazer a crítica do que se faz. Mas é absolutamente incapaz de dizer o que se pode fazer com eficácia. E, evidentemente, nessa situação de pinguela que estamos vivendo, o que é que podemos fazer? Como se consegue uma maioria no Congresso? Criticando o Congresso, ou negociando com o Congresso? Ou seja, não se faz política sem se considerar o entorno. E o entorno é o que está aí, e não o que gostaríamos que fosse.”

Nesta fala, pode-se ver o tom conciliatório do ex-ministro, que é considerado por muitos que o conhecem um hábil interlocutor e um grande articulador. Jobim disse ainda que, se não houver acordo, negociação, entre as figuras políticas de espectro conhecido – poderíamos pensar na expressão “políticos profissionais” –, haverá o perigo de um “outsider” chegar ao poder, o perigo de um “Trump Caboclo”, em 2018. Mas o que mais me chamou atenção na fala de Jobim foi uma digressão jocosa, e, por isso mesmo, sintomática, que ele fez quando criticou a estratégia comunicativa do governo de Michel Temer com relação à Reforma da Previdência. Para Jobim, não se conquista a opinião pública fazendo apresentação de números: “Não adianta querer obter apoio popular com contas. Não. Precisa-se encontrar o ‘inimigo’”. É neste momento, quando fala da necessidade de se encontrar “o inimigo”, que o ex-ministro conta uma história sobre Jânio Quadros, quando este estava na presidência da República. História esta que lhe foi contada por Roberto Campos, quando os dois eram colegas na Câmara dos Deputados.

Campos era assessor do ministro da Fazenda do governo Jânio Quadros, Clemente Mariani e, certa feira, expos a Mariani a necessidade de aumentar o preço da gasolina. Mariani disse então que eles deveriam comunicar a necessidade ao presidente Jânio. Como relata Jobim: “Jânio estava atirado sobre a cadeira, com aquelas roupas safári, então Roberto começou a expor, mas percebendo que Jânio não estava ouvindo, fraquejou na exposição. Terminou, enfim, e Jânio fez três perguntas. As duas primeiras diziam respeito exatamente aos pontos aos quais Campos não havia se referido porque achava que o presidente não estava ouvindo. A última foi: ‘Professor, quem são os inimigos?”. Campos, evidentemente, não tinha ideia de quem eram os inimigos.

Paulo Mercadante (1923-2013) é autor da tese da tradição conciliatória no Brasil

Jobim imitando o sotaque de Jânio, reproduziu o que o então presidente disse a Campos: “Não se preocupe, professor. Eu já tenho os inimigos. Mas, lembre-se: para termos apoio popular, precisamos ter um objeto de ódio. Porque o povo não se junta para amar, se junta para ter alguém a odiar.” Campos, então, foi embora para o Rio de Janeiro. Lá chegando, ligou o rádio e ouviu Jânio fazendo um pronunciamento público atacando, brutalmente, os Estados Unidos. Falando do mal que as pressões econômicas dos Estados Unidos estavam fazendo ao Brasil etc, terminando o discurso, anunciando a necessidade de aumentar o preço da gasolina, por causa dos americanos. Roberto Campos levou um susto porque não tinha nada a ver uma coisa com a outra. Perguntou então a um motorista de táxi, português, o que ele achava daquilo. O aumento ia prejudicá-lo. O motorista então disse: “É verdade, é um problema. Mas esses americanos filhos da p…! Vamos aumentar a gasolina!” Campos, ainda segundo o relato de Jobim, ligou para o embaixador americano no Brasil, que era seu amigo, a fim de esclarecer o que estava havendo. Eis a surpresa: o embaixador já sabia. Disse ele a Campos: “Não, não. Não se preocupe! O presidente Jânio Quadro nos avisou antes.” E assim Jobim rematou o seu relato: “Isso mostra a verdade de uma frase do Dr. Ulisses Guimarães, de 1987, que dizia o seguinte: ‘Em política, até a raiva é combinada’”.

Nos resta saber, então: qual será, dentro em breve, o nosso objeto de ódio, de raiva combinada? E quem serão os agentes da combinação, ou melhor, da conciliação?

A parte II será publicada na próxima edição

Jesus não é só um objeto de fé, mas também um campo acadêmico de estudos, Luis Felipe Pondé FSP

 

Jesus existiu? Essa pergunta, hoje, não é só ultrapassada, ela é cafona. Até o século 19, existiam autores que tentaram pôr em dúvida a existência histórica de Jesus Cristo, mas, hoje, ninguém sério mais faz isso.

Claro que uma coisa é você saber que houve um judeu chamado Jesus no período do segundo templo de Jerusalém, no qual a Israel antiga estava sob o domínio romano. Outra é você crer que ele ressuscitou. Este relato já não faz parte do conjunto de evidências que sustentam a existência histórica de Jesus de Nazaré.

A ilustração de Ricardo Cammarota foi executada em técnica mista, com traços aparentes de lápis grafite e colorização digital. Ao centro da composição, há uma árvore em formato triangular formada por livros empilhados horizontalmente, criando camadas que se estreitam em direção ao topo. O tronco também é construído por livros empilhados verticalmente. No topo da árvore, um livro aberto, de páginas claras, emite raios de luz amarelos voltados para cima. Entre os livros, estão distribuídos símbolos inseridos em bolas circulares brancas, todas de mesmo tamanho. Dentro dessas bolas há ícones gráficos em preto que representam conhecimento, como um yin-yang, um olho estilizado, uma espiral tripla, uma coruja e outros símbolos abstratos. Intercaladas entre os livros e os símbolos, aparecem lâmpadas acesas em diferentes cores de amarelo, azul, rosa, verde e vermelho — com pequenos traços ao redor indicando luminosidade. O fundo é um céu azul em gradiente, pontilhado por pequenos pontos brancos semelhantes a estrelas. Na parte inferior da imagem há um campo verde ondulado que sustenta a árvore.
Ilustração para a coluna do Pondé do dia 21 de dezembro de 2025 - Ricardo Cammarota/Folhapress

Por outro lado, narrativas como aquela em que o discípulo cético Tomé pede a Jesus que mostre a ele suas chagas para que ele as toque, a fim de provar que Jesus havia voltado da morte com seu próprio corpo, é orgânica com o conjunto de crenças judaicas da época.

Para os judeus, vencer a morte era voltar dela com o corpo —e não apenas vagar por aí como uma alma penada. Espíritos de mortos vagando no mundo tinham em toda esquina. Quem criou essa narrativa conhecia esse conjunto de crenças da época.

A fortuna crítica sobre Jesus é vastíssima e de alto nível. Para quem estuda religiões, é sabido que o substantivo "religião" tem vários sentidos. Por exemplo, religião é uma coisa para uma senhorinha católica que reza o terço e vai à missa. É outra coisa para o rabino estudioso e responsável pela vida espiritual de uma comunidade judaica. E ainda outra para um estudioso do fenômeno histórico que costumamos chamar de religião para facilitar o entendimento entre nós.

Em português, temos alguns volumes excelentes sobre o personagem histórico e o seu contexto social, político e espiritual.

O livro "Jesus Fora do Novo Testamento: Uma Introdução às Evidências Primitivas" de Robert R. Van Voorst, da editora Biblioteca Teológica, é rico no tratamento do personagem histórico Jesus a partir de fontes clássicas, judaicas, canônicas e pós-canônicas.

O livro "Jesus", do historiador israelense David Flusser, pela editora Perspectiva, é indispensável. Entre outras características, um dos eixos argumentativos centrais é a constatação de que o que está descrito nos evangelhos sinóticos —Marcos, Mateus e Lucas— é historicamente consistente com a época, seja em suas estruturas de poder dentro da sociedade israelita de então, seja no tocante ao ensino de um judeu típico da sua época, como era Jesus.

Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova.

Vale lembrar que, naquele tempo, o judaísmo era uma religião como qualquer outra. Isto é, qualquer um poderia se tornar judeu sem toda a questão da linhagem matrilinear tão conhecida atualmente. A rigor, a ideia de partida era trazer novos convertidos para o messias judeu recém-chegado.

Outro fator importante é que o termo "o Cristo", ou "o ungido", era uma categoria política. Por isso, os romanos olhavam com desconfiança —ungido era o rei de Israel, visto naquele momento como um possível inimigo do imperador. Não foi à toa que colocaram na cruz, em forma de deboche, que Jesus era o rei dos judeus.

Outro título, esse escrito por especialistas do Brasil na área, é o volume "Jesus de Nazaré: Uma Outra História", da editora Anna Blume, com apoio da Fapesp, organizado por André Leonardo Chevitarese, Gabrielle Cornelli e Mônica Selvatici. Distante de qualquer tratamento teológico ou movido pela fé, a coletânea traz um olhar "outro", ou mesmo "estranho", para o personagem histórico antigo, o "homem divino da Galileia".

Um volume essencial que temos traduzido no Brasil é "O Jesus Histórico: Um Manual", organizado por Gerd Theissen e Annette Merz, pela editora Loyola. Este volume enfrenta todos os campos de estudos acadêmicos sobre a figura histórica de Jesus: as fontes cristãs e não cristãs, a avaliação dessas fontes, o contexto da época, as relações políticas, as diversas figuras do Cristo, o messias judeu para alguns, herege para outros, o curador de doenças e milagreiro, o profeta, o líder político, o rebelde, o mestre de sabedoria, o Jesus histórico como fonte da cristologia nos primórdios do cristianismo.

Há estudos também da igreja primitiva em tradução no Brasil, como os três volumes magistrais de James D. G. Dunn, "O Cristianismo em seus Começos", pela editora Paulus.

Enfim, Jesus não é só um objeto de fé, ele é um campo acadêmico de estudos de peso, que exige uma vasta erudição e muito folego. Um campo atravessado por polêmicas ricas, estimulantes e intermináveis.