terça-feira, 18 de novembro de 2025

Bolsonaro merece tratamento especial?, Hélio Schwartsman, FSP

 Começou a contagem regressiva para o encarceramento definitivo de Jair Bolsonaro. É justo que ele receba algum tratamento especial?

O jornal O Estado de S.Paulo acaba de publicar um editorial em que crava um "sim" à pergunta. E a linha-fina da peça desenvolve o raciocínio: "Como ex-presidente, Bolsonaro não pode ser tratado como um preso qualquer". A Folha já defendera, em setembro, prisão domiciliar para o ex-mandatário.

A imagem mostra uma pessoa de perfil, parcialmente visível, atrás de persianas. A pessoa está vestindo uma camisa azul e tem cabelo curto e grisalho. O ambiente parece ser externo, com luz natural. As persianas criam um efeito de sombras e linhas na imagem.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) dentro de sua casa, em Brasília, onde cumpre prisão domiciliar - Gabriela Biló - 27.ago.2025/Folhapress

Não me insurjo contra um eventual cumprimento de pena em casa, mas a forma como se chega a esse resultado faz diferença. Discordo inteiramente da ideia de que a condição de ex-presidente justifique regalias.

Um dos pontos altos da humanidade foi ter desenvolvido a noção de igualdade republicana, que rejeita ou ao menos limita fortemente distinções jurídicas entre cidadãos. Sociedades ocidentais começaram a dar certo depois que aboliram ou reduziram a meros simbolismos as diferenças entre nobres e plebeus.

Até Augusto, o primeiro imperador romano e um dos mais ambiciosos, tomava o cuidado de fazer-se chamar "primus inter pares" ("o primeiro entre iguais"), afetando não ser diferente de nenhum outro patrício.

Voltando ao indigesto ex-presidente, não penso que seja impossível conciliar o princípio igualitário com uma domiciliar. É só basear a decisão não numa dignidade especial inerente ao cargo mas no fato de que o Estado tem a obrigação de zelar pela saúde de todos os que estão sob sua custódia. E a saúde de Bolsonaro, gostemos ou não, é frágil.

É claro que, se for esse o caminho escolhido pelo STF, seria preciso estender o benefício a todos os presos em situação semelhante. O tribunal criaria para si a obrigação moral de organizar um megamutirão para mandar para casa dezenas de milhares de presidiários com saúde frágil.

Haveria justiça poética num desfecho desses. O presidente durão contra o crime seria causa indireta da soltura de uma legião de criminosos condenados. Ele também faria avançar a causa do humanismo penal, bandeira que até a esquerda covardemente renunciou.

A esquerda ainda não entendeu o apoio popular à operação militar no Rio, Wilson Gomes - FSP

 A megaoperação no Rio produziu um fenômeno desconcertante para a esquerda e os progressistas: apesar do número extraordinário de mortos, a maioria da população a aprovou. A Quaest mostra que 67% dos brasileiros consideram a operação correta e que 67% julgam que a polícia não exagerou na força.

No Rio, o Datafolha confirma: 57% concordam com o governador que a ação foi "um sucesso", e quase 70% dizem que ela foi bem ou suficientemente bem executada. Mais decisivo: 81% acreditam que "todos" ou "a maioria" dos mortos eram criminosos.

Para a maioria, portanto, a operação foi legítima, necessária e moralmente justificável, e os rótulos "chacina" e "genocídio" não pegaram.

O progressista reage a esses números com perplexidade moral. Ele os lê através da sua carta de valores: o morador de favela, mesmo cooptado, é antes de tudo vítima; direitos humanos são inegociáveis; respostas autoritárias do Estado são inadequadas; quem aprova tais ações é cúmplice ou presa da narrativa da direita.

A imagem mostra uma fusão entre elementos urbanos, violência armada e a presença humana. No fundo, aparece uma grande massa de construções de favela, em tons terrosos, formando um padrão denso e repetido de casas comprimidas. Em primeiro plano, à esquerda, há o desenho detalhado de um fuzil preto, mostrado de perfil e em grande escala. De cima dele e atrás dele surge um emaranhado de fios elétricos irregulares, cabos sobrepostos e desorganizados, como os “gatos” comuns nas áreas periféricas. Esses fios atravessam horizontalmente toda a imagem. À direita, esses mesmos fios penetram na cabeça de uma figura humana de perfil. A cabeça é representada como um contorno anatômico simples, mas seu interior é preenchido pelo mesmo padrão visual das casas da favela, como se o território ocupasse também o espaço mental. Há áreas internas destacadas em cinza, sugerindo cavidades ou regiões do cérebro, reforçando a metáfora da mente atravessada e ocupada. Um dos fios atravessa diretamente a altura da testa em direção ao fundo da cabeça, como uma linha que perfura pensamentos. A composição cria um contraste duro entre os cabos caóticos, a arma e a figura humana, transmitindo a sensação de uma vida mental e social atravessada pela violência armada, pelo controle territorial e pela desordem estrutural. A favela aparece simultaneamente como cenário, como estrutura e como parte do corpo — sugerindo que a experiência cotidiana de ameaça e colapso normativo molda a percepção, a mente e a sobrevivência das pessoas que vivem ali.
Ariel Severino/Folhapress

O apoio popular, nessa chave, só pode ser explicado por desinformação, conservadorismo moral ou captura pelo discurso punitivista. Sobram acusações até para o jornalismo, que estaria colaborando para justificar a matança.

Mas essa leitura, cujo foco está na luta ideológica de soma zero com a direita, não permite entender tudo o que está em jogo.

A sociologia política de Karen Stenner oferece um caminho mais convincente. Em "The Authoritarian Dynamic" (2005), Stenner demonstra que respostas autoritárias não derivam primariamente de ideologia, mas da percepção de ameaça normativa —isto é, do sentimento de que a ordem comum, as regras mínimas de convivência e o horizonte moral compartilhado se desfizeram. Quando as pessoas percebem que "ninguém manda", "ninguém obedece", que autoridades são impotentes e que as normas que definem o certo e o errado perderam validade, a predisposição autoritária se ativa. E, uma vez ativada, ela exige ordem, coerção, homogeneidade e restauração da autoridade.

O ponto decisivo é que a ameaça normativa não é ideológica; é existencial.

A vida cotidiana sob o domínio de facções e milícias —especialmente para os pobres— constitui exatamente esse tipo de ameaça. Não se trata apenas de medo do crime, mas da sensação de que a ordem normativa ruiu. O Estado perdeu o monopólio das regras e da violência. A moralidade cívica que orientava a vida comunitária —a perspectiva de que compensa ser honesto e respeitar as regras, o valor da vida, a educação moral dos filhos— entra em crise porque, na prática, torna-se inoperante. Vigora o arbítrio armado. A previsibilidade some. E a distinção entre certo e errado desaparece como critério eficaz de sobrevivência.

É difícil imaginar que a perspectiva de quem vive por anos em territórios ocupados por facções e milícias possa ter qualquer semelhança com a de quem julga a violência a partir do conforto de uma vida mais ou menos previsível, segura e sob regras. A população em áreas dominadas por traficantes não prioriza ideologia; o que a move é um impulso de sobrevivência normativa: precisamos de alguém que restabeleça regras, que contenha os que impõem pela força uma ordem ilegítima, brutal e imprevisível.

A repressão do Estado aparece então não como "violência policial", mas como recuperação da ordem moral perdida e —por que não?— como uma pequena vingança por tanta violência sofrida. Quando progressistas denunciam em coro, como gostam, "a polícia que mais mata", quem vive sob a bota das facções balança a cabeça e retruca: "mata ainda pouco, deveria era matar mais". É tão difícil assim entender isso?

É isso que as pesquisas mostram —e que não cabe no repertório explicativo da esquerda: a população aprova massivamente a operação no Rio (67%) e apoia medidas duras contra facções (73% querem enquadrá-las como terrorismo; 88% querem penas maiores).

A esquerda, presa à sua moldura moral, vê somente a esfera dos princípios: direitos, garantias, limites ao Estado. O erro está no "somente", pois não percebe, além disso, que, para boa parte da população, a disputa real não está entre direitos humanos e punitivismo, esquerda e direita, e sim entre uma ordem normativa em colapso e um Estado que, ainda que de modo brutal, promete restaurá-la.

Enquanto não compreender que o apoio popular a ações como essa deriva da experiência concreta de viver sob uma ameaça normativa total, e não de conservadorismo moral ou manipulação discursiva, a esquerda seguirá falando para si mesma —e desconectada do país.

Assessora de Lula deixa evento judaico durante fala de Caiado com ataques ao governo, FSP

 Assessora especial da Presidência da República, Clara Ant abandonou neste sábado (8) um jantar da Conib (Confederação Israelita do Brasil) durante fala do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), com ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Clara Ant, assessora de Lula, durante conversa ao deixar evento da Conib - Fábio Zanini/Folhapress

Ambos estavam entre os convidados de um evento de gala da 56ª Convenção da principal entidade judaica do país, em um clube em São Paulo.

Sentada numa mesa, ela se levantou discretamente quando Caiado, pré-candidato a presidente no ano que vem, começou a fazer uma série de críticas ao governo e ao presidente durante sua fala no evento.

"O governo atual, do PT, do Lula, é um governo que prega o radicalismo, prega o ódio de classe, prega uns contra os outros, ricos contra pobres. Isso é inadmissível, isso é inaceitável", disse o goiano. Ao tratar de segurança, uma de suas bandeiras, disse que atual governo é "complacente, conivente com o narcotráfico".

Ao ouvir as palavras, Ant, que é uma das mais importantes judias do PT, deixou seu local e saiu por uma saída lateral.

Ao se dirigir para a rua, disse ao Painel que lamentava o episódio. "O Caiado foi inadequado e desrespeitoso até com o Conib, que fez um evento sobre democracia, pluralidade e convivência. Era o que estava rolando aqui até agora", declarou.

Ela ressalvou que não tinha queixas sobre a entidade judaica. "Não é nada contra o Claudio [Lottenberg, presidente da Conib], mas o Caiado foi bastante deselegante".

"Vou embora. Lamento, porque gostaria de ficar, é uma festa, estava tudo indo bem. Não estou aqui para julgar o que os outros falam, pensam, mas eu acho que [Caiado] foi desrespeitoso. E ele sabia que tinha uma pessoa aqui do governo", afirmou.

Apesar do entrevero, a presença de Ant no evento sinalizou uma tentativa de Lula de distensionar a relação com a comunidade judaica, que ficou abalada com as críticas do presidente à guerra de Israel contra Gaza, chamada por ele de "genocídio".

Ela era a única representante do governo petista no local, que tinha maioria de opositores, como os governadores Tarcísio de Freitas (SP), Claudio Castro (RJ), Eduardo Leite (RS), além do próprio Caiado. A organização diz que chamou também outros políticos de esquerda, mas que não compareceram.

Antes do jantar, Ant se reuniu com representantes da Conib e de federações judaicas e entregou a eles um caderno de 24 páginas produzido pela Presidência com o título "Destaques da relação entre Lula, Israel e a Comunidade Judaica".

Os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (à esq.), e do Rio de Janeiro, Claudio Castro, durante evento da Conib - Fábio Zanini/Folhapress

No material, a assessora lista uma série de gestos do presidente aos judeus em seus dois primeiros mandatos, inclusive viagens a Israel. A foto da capa é uma visita de Lula ao Museu do Holocausto, em Jerusalém.

O caderno também lista notas do Itamaraty condenando atos de antissemitismo e atentados contra Israel, inclusive os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Há ainda fotos de Lula com líderes como o ex-primeiro-ministro Shimon Peres e declarações dele em defesa de uma solução de dois estados para o conflito com os palestinos.

"Para o presidente, apenas o diálogo e a solução de dois Estados podem oferecer uma saída duradoura para o conflito, reafirmando o compromisso histórico do Brasil com a paz e o multilateralismo", diz o material entregue pela assessora.