quinta-feira, 13 de julho de 2023

Um comercial, múltiplas leituras, FSP

Bruno Ferreira

Assessor pedagógico do Instituto Palavra Aberta

novo comercial da Volkswagen apela à emoção ao reviver Elis Regina dirigindo uma Kombi antiga, por inteligência artificial. O automóvel alcança o novo modelo do carro, dirigido por Maria Rita, filha de Elis. Ambas, numa estrada comum, cantam lado a lado "Como Nossos Pais", icônica canção de Belchior que, muito além de abordar modelos de comportamentos aprendidos com pais e repetidos por filhos, é um protesto à ditadura militar. "Mas é você que ama o passado / E que não vê / Que o novo sempre vem", diz um dos vários trechos críticos da letra.

A peça publicitária gerou muito debate na sociedade. Há quem a enxergue como bem-sucedida, por incorporar criativamente algo tão contemporâneo, como a inteligência artificial, à sua mensagem, atrelando-a não apenas à novidade do seu produto, a Kombi elétrica, mas sobretudo à memória afetiva de uma cantora-mãe que, até hoje, é um ídolo nacional. A afetividade que permeia toda a peça, porém, começa antes mesmo da aparição da Elis artificial, com uma sequência de imagens de outros modelos antigos da marca, que remetem a um álbum de família, relíquia que registra o passado saudoso de momentos em família.

A imagem mostra duas mulheres sorridentes na direção de veículos
As cantoras Maria Rita e Elis Regina no filme publicitário da Volkswagen - Divulgação/Volkswagen

No entanto, a positividade da mensagem escamoteia a incoerência de atrelar a letra de Belchior e a imagem de Elis, vozes críticas à ditadura, a uma empresa que contribuiu com o regime militar, no Brasil. Em seu Instagram, a antropóloga e historiadora da USP Lilia Schwarcz chama a atenção para isso, mencionando uma investigação feita em 2015 pelos Ministérios Públicos Federal, do Estado de São Paulo (MP-SP) e do Trabalho (MPT) que resultou num relatório que aponta colaboração da empresa alemã com os militares.

"O relatório destaca uma carta do presidente da subsidiária brasileira de 1964, no qual o ex-filiado ao partido nazista Friedrich Schultz-Wenk elogia ‘a organização da revolta, que havia sido extremamente bem preparada’. A correspondência, dirigida ao presidente da companhia na Alemanha, demonstra ainda conivência com a violência por parte do Estado. A empresa também entregou funcionários e mentiu para as famílias", diz o post da historiadora.

Além dessa questão, referente à autoria e contexto de produção da mensagem publicitária, é preciso refletir sobre a recepção dela: muitos referiram-se à "recriação" de Elis Regina como uma deep fake, modalidade de fake news criada a partir de inteligência artificial. Mas isso é um engano conceitual.

PUBLICIDADE

No comercial da Volks, é evidente que a representação de Elis não quer fazer o público acreditar que se trata da cantora de fato, mas de reforçá-la como uma artista do passado que segue sendo relevante no presente. Por isso, não se trata de uma deep fake. Esse equívoco de denominação, no entanto, é uma oportunidade para refletirmos mais profundamente sobre o papel da inteligência artificial na criação de mídias.

Mensagens construídas por meio desse artifício não têm, necessariamente, a intenção de enganar nem de ser conteúdos fraudulentos, no sentido de disfarçar a autoria de quem os produz. Trata-se de uma nova forma de facilitar processos criativos, testar ideias, produzir arte. O caso do Papa Fashion, imagem artificial do papa Francisco com um estiloso casaco branco, já tratado anteriormente por nossa coluna, é um bom exemplo disso.

É claro que conteúdos produzidos dessa forma podem enganar, embora não tenham essa intenção. Assim como imagens reais, mas equivocadamente atribuídas a outros contextos, também podem enganar. Foi o que aconteceu com as fotos verdadeiras do Corpo de Bombeiros do Estado de Minas Gerais em uma operação de resgate em 2018 que foram equivocadamente atribuídas ao acidente em Brumadinho, ocorrido em 2019.

Mas para além de analisar a intenção de recorrer à inteligência artificial para criar uma mensagem, o polêmico comercial da Volks é um exemplo da necessidade de termos mais capacidade crítica para interpretar conteúdos de mídia, demonstrando a importância de atrelar diferentes repertórios para leituras cada vez mais complexas, em diferentes camadas. Neste caso, foi preciso recorrer à história para compreender que o golaço da mensagem como um todo foi, na verdade, um gol contra.

 

terça-feira, 11 de julho de 2023

Empresa vai à Justiça para patentear primeira super-maconha medicinal, FSP

 Depois da soja modificada, famosa pela resistência a variações climáticas e produtividade, o Brasil agora se prepara para fazer o primeiro registro de sementes turbinadas de maconha junto ao Ministério da Agricultura.

O pedido será feito pela Adwa Cannabis, única empresa nacional autorizada a cultivar comercialmente.

O uso da cannabis medicinal ainda não é totalmente regulamentada no Brasil
O uso da cannabis medicinal ainda não é totalmente regulamentado no Brasil - Zanone Fraissat - 27.fev.2023/Folhapress

Nessa linha, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) tem acordo com a Adwa para compartilhar informações para subsidiar futuras pesquisas públicas sobre o tema, explica Rodrigo Mesquita, diretor jurídico da Adwa.

Serão pelo menos duas patentes: uma para a cannabis, junto como Departamento de Agronomia da Universidade Federal de Viçosa, e outra para o cânhamo industrial, no Departamento de Engenharia.

No primeiro caso, se extraem os óleos essenciais que têm finalidade terapêutica. No segundo, aproveita-se a semente e as fibras do caule da planta para a alimentação e finalidades industriais.

PUBLICIDADE

Embora seja permitido pela Lei das Drogas, o cultivo ainda não foi regulamentado pela União. Por isso, foi preciso correr à Justiça para obter o direito de registro e proteção intelectual das variedades da espécie. A comercialização de produtos medicinais é permitida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas a Justiça vem concedendo permissão para o plantio.

Os registros são resultado da parceria entre Universidade Federal de Viçosa e a Adwa Cannabis, uma startup que investe em tecnologias relacionadas à cadeia produtiva de cânabis. A Embrapa já celebrou acordo com a empresa.

A Adwa e a Universidade já trabalhavam no melhoramento genético de quatro tipos de sementes fornecidas pela Colômbia para adaptação às condições climáticas do Brasil e com mais concentração de THC e CDB, princípios ativos para os medicamentos usados no tratamento de doenças como ansiedade, depressão, insônia, artrite, e até Alzheimer e Parkinson.

Segundo Mesquita, o governo tem competência para editar um decreto de lei que regulamente o cultivo, dando mais segurança jurídica para um mercado que já está firmado no país.

Somente uma das associações envolvidas nesse negócio já movimenta R$ 4 milhões por mês.
Estima-se que existam 13 milhões de pacientes no país que potencialmente fariam uso de cannabis.

Com Diego Felix


ESTADÃO - Monica Gugliano Criador e criatura: Itamar passou do amor ao ódio com FHC- OESP

 Se na direita o clima entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, Criador e Criatura, não anda nada lá essas coisas, por outras bandas um nome tem suas qualidades cada vez mais exaltadas e já há quem veja nele um sucessor natural para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2026: o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Não só pela aprovação da emenda da reforma tributária que, apesar da expressiva votação que obteve na Câmara, dificilmente permanecerá igual no Senado. Mas por que o placar robusto revelou um lado de Haddad do qual muitos duvidavam quando Lula o indicou para o cargo.

O ministro transitou com habilidade de uma ponta à outra do espectro político nas negociações. Foi do agronegócio aos petistas mais renitentes, passando por governadores e prefeitos temerosos de perder recursos. E, segundo àqueles que o acompanharam, foi flexível quando necessário e resiliente para aguentar as puxadas de tapete. Conseguiu dar a Lula mais um troféu para incluir em sua estante, o de ter uma reforma tributária para chamar de sua. É claro que contou com os cinco bilhões em emendas liberadas pelo governo aos parlamentares, sempre ariscos a votar qualquer coisa sem levar qualquer outra coisa em troca.

A desenvoltura de Haddad fez com que muitos lembrassem do tempo em que Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda de Itamar Franco, negociou o Plano Real que acabou com a inflação no País. “Ambos são professores, sabem escutar e gostam de conversar. Sei que atrapalha quando os tucanos falam bem dele. Mas, guardado o crédito que é preciso dar ao presidente Lula pela escolha, Haddad está muito bem na função”, comenta o cientista político, e diretor da Fundação FHC, Sérgio Fausto.

Fernando Haddad desponta como herdeiro político de Lula
Fernando Haddad desponta como herdeiro político de Lula Foto: Carla Carniel / Reuters

E o peso político que ganhou nas últimas semanas o fortaleceu no lugar onde sempre estão nomes possíveis para suceder o presidente da República, o ministério da Fazenda. Afinal, por aqui, tão logo é ocupada a cadeira do Palácio do Planalto começa a bolsa de apostas sobre se o novo dono disputará a reeleição ou se terá um candidato. Se Lula não quiser ficar mais quatro anos, um bom ministro da Fazenda tem tudo para ser o escolhido. E Haddad, então ex-prefeito de São Paulo, já foi esse candidato em 2018, quando Lula, preso, ficou fora da eleição. Não derrotou a onda conservadora que elegeu Jair Bolsonaro, mas tampouco foi mal. Agora, se Lula não pensar na reeleição e, além da caneta na mão, tiver popularidade suficiente para eleger seu sucessor, Haddad pode ser esse nome.

Mas este é o País em que, como já disse o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, “até o passado é incerto”. Sendo assim, Criador e Criatura, portanto, nem sempre estão fadados a uma eterna lua de mel de reconhecimentos e afagos. Por mais brilho próprio que a Criatura possa ter e por mais desprendido que o Criador seja, esse é um terreno muito delicado. Às vezes uma piscadela de olho ou o aval para um projeto que possa facilitar a vida do adversário – o caso de Tarcísio de Freitas que apoiou a reforma tributária– podem desencadear reações terríveis e inesperadas.

Política

As principais notícias e colunas sobre o cenário político nacional, de segunda a sexta.

Ao se cadastrar nas newsletters, você concorda com os Termos de Uso e Política de Privacidade.
Encontro de Itamar Franco e Fernando Henrique em 2002, no Rio de Janeiro Foto: Fabio Motta / Estadão - 9/7/2002

Continua após a publicidade

Foi o que aconteceu, com o então presidente Itamar Franco (1930-2011) e seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que veio a ser seu sucessor. Já está sendo desse jeito entre Bolsonaro e Tarcísio e ninguém sabe o que o destino reserva a Haddad.

Os personagens são totalmente outros, mas nunca é demais lembrar a história recente em que Itamar um presidente “mercurial”, como ele mesmo se definia, acompanhava sestroso os voos em altitude cada vez maior do seu ministro da Fazenda, autor do Plano Real. FHC, com o apoio de Itamar, que lhe dera total liberdade para trabalhar, venceu a inflação e - com perdão da rima - a eleição de 1994. Ainda no primeiro turno aniquilou o petista Luiz Inácio Lula da Silva que, com seu partido, negara os benefícios que o Real traria à economia e à população.

Em janeiro de 1995, Itamar desceu a rampa do Planalto com mais de 80% de popularidade e seu sucessor eleito. Após alguns meses, entretanto, o ex-presidente passou a emitir sinais de desagrado com a política de FHC, liberal demais para ele. Fernando Henrique tentou contornar. Fez de Itamar embaixador em Lisboa e na Organização dos Estados Americanos (OEA), mas não teve jeito. O mercurial ex-presidente, do amor, saltou para o ódio.

E ser detestado por Itamar Franco não era pouca coisa. Atribui-se a Tancredo Neves – o quase primeiro presidente civil da redemocratização – a frase de que Itamar “guardava o ódio na geladeira”. Estaria, assim, com o sentimento sempre fresquinho para usar contra algum adversário.

Não contava com o projeto da reeleição do ex-amigo em 1998 e ficou furibundo quando soube que ele não o chamaria para sucedê-lo no Palácio do Planalto. Passou a tratá-lo de Doutor Jekyll e Mr. Hyde (“O médico e o monstro”, novela escrita pelo escocês Robert Louis Stevenson, em 1886) dizendo que FHC virara esse personagem do clássico. Em outro acesso de raiva – ele mesmo me contou – rasgou todas as fotos que tinha em casa com a então cúpula do PMDB (hoje MDB), pois eles lhe haviam negado a legenda para disputar a eleição presidencial e ficaram com FHC.

Itamar bandeou-se para a ala da oposição e, dessa trincheira, passou a combater o novo “inimigo”. Deu-lhe trabalho. Entre Lula e Haddad ainda há uma cachoeira de água para rolar. Mas, não será estranho se, daqui a pouco, Bolsonaro bloquear Tarcísio nas redes sociais.