segunda-feira, 10 de julho de 2023

Hélio Schwartsman -Na política, criaturas costumam se voltar contra criadores, FSP

 Maluf e Pitta, Alckmin e Doria, Bolsonaro e Tarcísio. Nos três casos, políticos seniores criaram praticamente "ex nihilo" candidaturas que se sagraram vencedoras. Mas a festa não durou muito e logo sobreveio o rompimento. Essa dialética entre criador e criatura é inevitável na política?


Especialmente em política, há pouco que esteja inscrito em pedra. Lula também criou Dilma do nada e, embora tenha havido momentos de tensão no relacionamento entre os dois, eles nunca se desentenderam publicamente. Ainda assim, acho que dá para afirmar que o rompimento, mesmo não sendo uma lei, é tendência saliente. Eu próprio prognostiquei aqui em dezembro que Bolsonaro e Tarcísio se afastariam.

O governador Tarcísio de Freitas e o ex-presidente Jair Bolsonaro acompanham a formatura de oficiais da Academia de Polícia Militar do Barro Branco na zona norte de São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress

E não é difícil entender as razões para isso. Criadores costumam ver a eleição de seus protegidos como uma realização pessoal sua e por isso se sentem no direito de cobrar subordinação e lealdade. Já as criaturas, mesmo que não desejem o rompimento, têm agenda própria. Veem-se como detentores legítimos de seus mandatos e por isso não acham que devam colocar seu governo a serviço de patronos de outrora.

É interessante notar que dinâmica semelhante se repete entre pais e filhos. Mas aí temos o amor, que alguns chamam de genes compartilhados, para aparar as arestas. Para uma ala mais ortodoxa dos biólogos, foram as relações de parentesco que viabilizaram a evolução da cooperação entre humanos.

Penso que estão em jogo aí dois paradigmas conflitantes. O primeiro, favorecido pelos criadores, é mais
tribal. Nele, a lealdade se dá entre pessoas e segue a lógica dos serviços prestados. O segundo, ao qual apelam as criaturas, é mais institucional. Os compromissos são prospectivos e não retrospectivos e não têm caráter pessoal. A pendenga nunca se resolve porque os próprios eleitores transitam entre as duas visões. A maioria rejeita a subordinação absoluta, mas não perdoa traições escancaradas.

Mortes por overdose batem recorde nos EUA, The News

 Em 2022, quase 110 mil pessoas morreram de overdose de drogas nos Estados Unidos. O número é o maior já registrado, superando as 109 mil mortes de 2021, que era o antigo recorde.

  • O total de vítimas por overdose é maior do que a soma das mortes por arma de fogo e em acidentes de trânsito.

Analisando os dados, mais de 2/3 desses falecimentos envolveram um opióide sintético, que são drogas totalmente desenvolvidas em laboratório, com efeitos analgésicos e hipnóticos.

O protagonista da história 

Só o fentanil — opióide sintético que trata dor crônica — foi responsável por mais da metade das mortes. Em seguida, apareceram a metanfetamina, a cocaína e os opioides naturais, como heroína e morfina.

"Pesado" é pouco pra ele... Para ter ideia da gravidade, o fentanil é 50 vezes mais potente que a heroína e 100 vezes mais que a morfina.

Isso existe por aqui? Em março deste ano, o analgésico criado para uso hospitalar que virou febre nos EUA foi apreendido pela primeira vez no Brasil, em uma operação realizada na cidade de Cariacica, Espírito Santo.



Mauro Calliari - A arte de flanar, um convite para aproveitar as pequenas coisas que as cidades oferecem, FSP

 O "flâneur" é uma figura ligada a um tempo, um lugar e uma pessoa. O tempo é meados do século 19. O lugar é Paris, após as grandes reformas urbanas. A pessoa é o poeta Charles Baudelaire. Incensado pelo filósofo Walter Benjamin, o "flâneur" virou um ícone das contradições da modernidade após as grandes reformas urbanas.

Caminhar sem destino desafiava o utilitarismo. Andar devagar desafiava a eficiência. Observar tudo sem comprar nada desafiava o capitalismo.

Com o tempo, a palavra se soltou das amarras e ganhou novos usos. Flanar é andar sem destino, coletando experiências. E esse sentido pode ser a chave para explorar uma cidade contemporânea, seja ela desconhecida, seja ela onde você mora.

Para mim, as melhores caminhadas são sempre em cidades antigas. Assim é em Roma ou na pequena San Gimignano, onde sentei para comer uma pizza e ganhei amigos para a vida inteira. Em Nara, a antiga capital japonesa, saí de um restaurante e dei de cara com um veadinho, pulando feliz entre as ruas vazias.

Jovem mulher parada numa calçada de Barcelona contemplando a arquitetura dos prédios
Mulher flana por Barcelona - Katemangostar no Freepik

Também as cidades coloniais brasileiras expõem essas rugosidades temporais. Depois que os turistas vão embora, Ouro Preto ou Parati ganham um silêncio grave e tornam quase transcendental a experiência de ouvir seus passos pelas ladeiras ou pelas pedras irregulares.

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A sensação de não ver carros ao redor melhora muito a experiência do caminhar. Logo ali em Paquetá, já dá para sentir esse prazer. Mas é em Veneza, provavelmente a melhor cidade do mundo para pedestres, que perder-se vira uma arte, sem motores ou pontos de referência.

As cidades grandes trazem sensações opostas: a vitalidade, a multidão, o anonimato. No Rio de Janeiro, do centro à Zona Sul, qualquer esquina tem um boteco, uma vista, uma surpresa. Foi por lá, no início do século 20, que andou João do Rio, o nosso maior andarilho, escrevendo sobre as transformações da vida moderna. Para ele, flanar era "vagabundear com inteligência".

Em Buenos Aires, mesmo com a crise, o prazer é caminhar pela cidade de calçadas largas, olhando cada loja, cada café ou tentando refazer os passos de BorgesCortázar ou Quino.

As maiores cidades do mundo estão cada vez mais caminháveis. Brasileiros que nunca foram até a esquina andam quilômetros em Nova York, olhando vitrines e comendo onde der na telha. Londres criou redes de caminhos para pedestres que circulam ao redor do Tâmisa e se abrem para becos e vielas. Se há o "flâneur", há também a "flaneuse", claro, e é sobre Londres que escrevia Virginia Woolfa "flaneuse" por excelência, observando e descrevendo suas descobertas, as pessoas, as placas de publicidade, o som do Big Ben e seguindo o fluxo de seus pensamentos.

Cidades desconhecidas trazem surpresas desde o primeiro passo. Em Istambul, é o onipresente som do minarete que chama os fiéis para a oração. Da primeira vez que ouvi, vários homens abriram seus tapetinhos na calçada e rezaram. Acompanhei imóvel aqueles minutos em que a cidade parecia pausar, até voltar tudo ao normal. Em Tóquio, saí do hotel que ficava numa enorme avenida, virei a esquina e me descobri numa ruazinha estreita e lotada de pequenos bares, que depois revi numa série da Netflix — Midnight Diner.

Mesmo no lugar onde moro, São Paulo, às vezes consigo ter essa sensação de andar por uma cidade desconhecida, apenas por virar numa rua em vez de seguir em frente. Ao chegar a uma praça que nunca vi, serei recompensado com a visão de crianças brincando, adultos entrando numa academia de bairro, uma pessoa lendo um inesperado livro no ponto de ônibus e talvez até um vendedor de milho verde.

Ao planejar seus passeios, brasileiros sempre se preocupam — com razão — com a segurança. Nas suas caminhadas, cada um vai montar sua estratégia e andar onde se sente confortável. Com bom senso, vale misturar pontos turísticos com lugares desconhecidos. Vale combinar a segurança de um destino final com a bem-vinda sensação de desligar o celular para não saber exatamente onde se está a todo momento.

Você vai se perder, mas vai encontrar o caminho. E, de quebra, vai chegar ao final uma pessoa um pouquinho diferente.