quarta-feira, 23 de junho de 2021

Lista para PGR desprezada por Bolsonaro em 2019 tem votação de 70% dos procuradores em 2021, FSP

 

SÃO PAULO

Desprezada pelo presidente Jair Bolsonaro em 2019, a nova eleição da lista tríplice dos integrantes do Ministério Público Federal para a sucessão na Procuradoria-Geral da República teve participação de 70% dos procuradores em atividade, segundo a ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República).

Embora os presidentes da República venham indicando o PGR por meio de um nome dessa lista desde 2003, em 2019 Bolsonaro decidiu escolher Augusto Aras, que não havia participado da disputa organizada pelos pares.

A expectativa deste ano é que Bolsonaro reconduza Aras a um novo mandato, e apenas três concorrentes disputaram as eleições à lista. Ainda assim, 811 dos 1.171 integrantes em atividade do Ministério Público Federal participaram da votação desta terça-feira (22), encerrada às 19h.

A ANPR divulgou nota na qual afirma que a participação é considerada "expressiva".

Por ordem de votação, foi eleita em primeiro lugar a subprocuradora-geral Luiza Frischeisen, seguida pelos subprocuradores-gerais Mario Bonsaglia e Nicolao Dino. ​Os três já haviam integrado listas à PGR em anos anteriores.

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A ANPR encaminhará os três nomes aos presidentes da República, do Supremo Tribunal Federal, do Senado e da Câmara dos Deputados, e também ao próprio Augusto Aras e ao Conselho Superior do MPF.

O mandato de Aras vence em setembro. Após Bolsonaro indicar quem ocupará a PGR até 2021, o nome deve ser aprovado pelo Senado, em sabatina.

Integrantes do Ministério Público Federal que defendem a lista têm dito que, mesmo que ela seja desprezada pelo presidente, é importante expor a necessidade de escolha do procurador-geral da República por meio desse processo, para que haja autonomia no órgão.

"[Precisamos] Deixar claro para a sociedade que a lista é um processo democrático, é um processo de transparência e que isso tem uma importância na situação como a nossa. O fato de que no momento não há nenhum prognóstico de que a lista seja observada não significa que ela não deve ser feita, pelo contrário", disse o presidente da ANPR, Ubiratan Cazetta, à Folha em maio.

Além disso, procuradores entendem que é necessário demonstrar ao Congresso que uma parte significativa do Ministério Público Federal quer a aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que obrigue o presidente a indicar o procurador-geral da República a partir de uma lista tríplice da categoria.

Em 2019, a lista teve 10 candidatos. À época, ainda havia expectativa de que o presidente indicasse alguém que integrava a lista tríplice. O então ministro Sergio Moro era simpático à possibilidade.

Por fora, além de Aras, tentava se viabilizar em 2019 para a recondução à PGR a então procuradora-geral da República Raquel Dodge. Ela ocupou o cargo por dois anos, após indicação do ex-presidente Michel Temer em 2017. Dodge havia ficado em segundo lugar na lista tríplice da ANPR.

Quando Aras foi indicado por Bolsonaro, causou reações e protestos no Ministério Público Federal. Em diversas unidades do Brasil, procuradores fizeram atos em que empunhavam cartazes dizendo que “lista tríplice para PGR é a independência do MPF levada a sério”. Prometeram boicotar cargos na gestão Aras.


Elio Gaspari - Ouçam Tasso Jereissati, FSP

 Em janeiro, quando os mortos da pandemia já passavam de 200 mil, olhando para a eleição do ano que vem, o senador Tasso Jereissati avisou: “As instituições precisam ser fortes, trincar os dentes”.

De lá para cá, Jair Bolsonaro continuou defendendo a cloroquina, combatendo o isolamento e as máscaras. Os mortos chegaram a meio milhão e, na segunda-feira, o presidente teve seu momento de destempero em Guaratinguetá (SP).

Coisa parecida só aconteceu em 1979, quando o general João Figueiredo saiu do palácio do Governo de Santa Catarina e foi para a rua, tentando sair no braço com manifestantes que o hostilizavam. (Na ocasião, autoridades presentes e mesmo integrantes de sua comitiva entenderam que ele estava com um parafuso solto.)

Todo mundo precisa trincar os dentes, porque vem por aí um ano que testará o Brasil. A cena de Guaratinguetá, antecipada em inúmeras ocasiões, haverá de se repetir, como sucedia nos Estados Unidos com Donald Trump. As instituições americanas funcionaram, e desde que ele foi para a Flórida, o mundo e o país se tornaram mais calmos e seguros.

Bolsonaro destempera-se com adversários e desentende-se com correligionários. Pouco a ver com os dois ministros da Saúde que dispensou em circunstâncias macabras. Rifou Gustavo Bebianno que se juntou a ele quando os bolsonaristas cabiam numa kombi. Dispensou o general da reserva Santos Cruz, que lhe deu apoio quando ele era visto na hierarquia como um capitão indisciplinado. O mesmo aconteceu com o vice-presidente, Hamilton Mourão, que entrou na chapa supondo que viria a ser um parceiro.

(Em benefício do capitão, o presidente americano Franklin Roosevelt morreu em 1945 sem ter contado ao vice Harry Truman que a bomba atômica estava quase pronta. O piloto que haveria de jogá-la meses depois em Hiroshima já treinava num B-29 sem saber para quê. Roosevelt, contudo, cultivava a própria simpatia.)

Passeatas de motociclistas, manifestações políticas de militares e destemperos presidenciais haverão de se repetir. Daí, só trincando-se os dentes e contando-se os dias. Passada a eleição, contam-se os votos e em janeiro assume o novo presidente. Caso perca, Bolsonaro já tem o roteiro (“fraude”) e ameaça (“convulsão social”).

Se Bolsonaro deve ter argumentos para sustentar que haverá fraude na eleição futura, bem que poderá mostrar os que tem da eleição passada, na qual diz que saiu vencedor no primeiro turno. O ministro Luis Felipe Salomão, corregedor do Tribunal Superior Eleitoral, deu-lhe 15 dias para mostrá-las

O Brasil poderia ter hoje uma agenda parecida com a dos Estados Unidos, enfrentando a pandemia e o desemprego. Em maio de 2020 a taxa de desemprego americana era de 13,3% e caiu para 5,8%. A brasileira era de 12,6% em março de 2020 e subiu para 14,7% em março deste ano, a maior da série histórica. Esse percentual significa que 14,8 milhões de pessoas não têm trabalho.

Bolsonaro chegou à Presidência numa eleição em que se apresentava como a melhor alternativa ao PT. Sua agenda era desconjuntada, mas parecia liberal e moralista. O presidente que se oferece para a reeleição (instituto que combatia e prometia rejeitar) não cavalga uma agenda, mas apenas as crises que provoca.