domingo, 20 de junho de 2021

Entenda como funciona o sistema elétrico brasileiro, FSP

 

SÃO PAULO e RIO DE JANEIRO

Uma complexa malha de linhas de transmissão que corre o Brasil permite que a geladeira de uma família no interior de São Paulo funcione com energia gerada por uma hidrelétrica no norte do país. Por meio de um sistema eletromagnético, o movimento de turbinas giradas com a força do fluxo de água se transforma em energia.

E aí estão os três pilares do sistema energético brasileiro: geração, transmissão e distribuição. São hidrelétricas distribuídas em 16 bacias hidrográficas, usinas térmicas e nucleares e, na última década, também usinas solares e eólicas.

Por meio de mais de 150.000 km de linhas de transmissão, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) organiza o envio da energia de acordo com as demandas dos centros consumidores. Veja abaixo como funciona esse sistema.

COMO A USINA GERA ENERGIA?

A resposta a essa pergunta vai depender do tipo de usina em questão.

Em uma usina hidrelétrica, por exemplo, aproveita-se o fluxo de água e o declive de uma bacia hidrográfica para gerar energia cinética. Para isso, a água é represada (uma energia potencial) e direcionada para turbinas. As pás dessas turbinas em movimento pelo fluxo de água são a energia cinética. Ligadas a um gerador elétrico, provocam variação de corrente elétrica por meio de um sistema eletromagnético.

A ideia é semelhante em outros tipos de usina. O vento gira as pás dos aerogeradores que, conectadas a uma turbina, também produzem energia elétrica por meio de um gerador. São as usinas eólicas.

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Na usina termoelétrica, a força que empurra essas turbinas é a do vapor. Para gerá-lo, por exemplo, queima-se óleo combustível, gás ou bagaço de cana-de-açúcar —este último em usinas de açúcar e etanol.

COMO A ENERGIA É TRANSMITIDA E DISTRIBUÍDA?

Para chegar na casa do consumidor, a energia pode percorrer milhares de quilômetros por grandes linhas de transmissão que cortam o país. Como as estradas, essas linhas têm maior capacidade onde os fluxos de eletricidade são maiores.

As redes que se conectam a grandes usinas, como Itaipu ou Belo Monte, por exemplo, são de 500 kV ou mais. Mais próximas do consumo, essa tensão vai sendo reduzida, primeiro a 13,8 kV para entrar nas redes de distribuição e, por fim, a 127 V ou 220 V para entrar nas residências.

A alta voltagem no sistema de transmissão tem uma razão. "A transmissão consegue levar energia a uma longa distância e com pequena perda", afirma José Wanderley Marangon, ex-professor da Unifei (Universidade Federal de Itajubá) e consultor da MC&E.

As variações de tensão são feitas em subestações. Perto das usinas, elas aumentam a tensão dos fios, de 13,8 kV para 230 kV ou mais. Perto das cidades, voltam a reduzir a tensão.

"Subestação é um ente que faz uma transformação na tensão, como fazemos quando queremos, por exemplo, usar um equipamento que funciona em 220 V em uma tomada de 127 V", explica Marangon.

COMO OS OPERADORES ORGANIZAM A OFERTA E A DEMANDA?

O sistema elétrico foi planejado para aproveitar as peculiaridades de cada região. Com grande potencial gerador e pouco consumo, o Norte, por exemplo, é grande exportador de energia para o resto do país. O Nordeste, por sua vez, ajuda as outras regiões no inverno, quando os ventos mais fortes alavancam a geração eólica.

As usinas não operam em sua capacidade máxima durante todo o ano. Em época de seca, por exemplo, os níveis de água dos reservatórios descem, e é preciso rearranjar o fluxo de energia e mudar a direção da corrente elétrica nos cabos, se necessário. Hoje o Brasil tem mais opções do que há 20 anos, como as usinas eólicas no litoral do nordeste e as termoelétricas no interior de São Paulo.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico é o responsável por essa organização no Brasil. Ainda que o Estado conceda a construção de uma linha para uma empresa, quem a opera é o ONS, que tem normas, manuais e modelos para isso.

"É como se fosse o cérebro do sistema elétrico, é ele que toma as decisões", explica Nivalde de Castro, professor da UFRJ e coordenador do Gesel (Grupo de Estudos do Setor Elétrico). "O pulmão é quem tem as usinas e o coração é quem demanda a energia, os consumidores."

POR QUE A MATRIZ ELÉTRICA BRASILEIRA É DO JEITO QUE VEMOS HOJE?

No final do século XIX o Brasil começou a construir usinas hidrelétricas. "O Brasil é um país continental, tropical, que tem grandes bacias hidrográficas", afirma Castro quando questionado sobre os motivos da escolha por hidrelétricas.

apagão de 2001, porém, mostrou ao país que era necessário diversificar a sua matriz elétrica. Em 2010, as usinas termoelétricas começaram a sofrer uma expansão, mesmo ano em que foi construída a primeira usina solar comercial no Brasil, no Ceará. As eólicas também começam a crescer na mesma época e é a fonte que mais cresceu nos últimos anos.

COMO O ESTADO SE PLANEJA PARA A DEMANDA DE ENERGIA NO BRASIL?

Todos os anos, a Empresa de Pesquisa Energética faz projeções para os próximos dez anos em relação ao consumo de energia no Brasil. "A expansão da demanda é aleatória. Então você faz estimativas, previsões de como ela vai crescer", explica.

Para isso, os pesquisadores entram em contato com distribuidoras, associações de empresas de diferentes setores, analisa estatísticas do PIB, do crescimento populacional e da urbanização. É com base nesse planejamento que o governo deve decidir se faz leilões para construir novas usinas e linhas de transmissão.


Trabalhador essencial e 'invisível' é maior vítima da pandemia no Brasil, FSP

 

SÃO PAULO

"Claudio, vá em paz", diz o cartaz no cortejo de caminhões organizado para se despedir do motorista José Claudio dos Santos, 39, morto há pouco mais de um mês. Ele, que trabalhou por quase uma década para uma transportadora de Santa Catarina, foi uma das centenas de milhares de vítimas da Covid-19 no Brasil.

Enquanto o país ultrapassa a triste marca dos 500 mil mortos pelo novo coronavírus, fica cada vez mais claro que os efeitos da pandemia são desiguais, e os trabalhadores mais "invisíveis" —aqueles de baixa remuneração ou que não puderam aderir ao trabalho remoto e nem manter níveis seguros de distanciamento social— foram os que mais sofreram nos últimos meses.

Dados de trabalhos formais do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério da Economia, apontam que caminhoneiros, porteiros de edifícios, vendedores do comércio e motoristas de ônibus estão entre as ocupações com mais desligamentos por morte no segundo bimestre do ano, quando o país atravessava a segunda onda da pandemia.

Os meses de março e abril foram os com maior número de mortes na pandemia até agora, com mais de 66 mil e 82 mil óbitos, respectivamente. Os registros de contratos formais encerrados por óbito no Caged saltaram 159%, de 8.821, no segundo bimestre de 2019, para 22.837 neste ano.

Entre os motoristas de caminhão, foram registradas 1.449 mortes em março e abril, o maior patamar entre as ocupações e um aumento de mais de 223% em relação ao mesmo bimestre de 2020 (ainda no início da pandemia no Brasil).

Na comparação com o mesmo período de 2019, antes da crise sanitária, a alta é ainda mais expressiva: 407%.

“Por circularem intensamente, os motoristas de caminhão, além de serem as maiores vítimas de óbitos, podem ser também vetores do vírus e suas variantes entre os estados e regiões do país”, diz Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós Desenvolvimento Social.

A demora na chegada de novas doses de imunizantes e a falta de previsibilidade na rotina também prejudicam a imunização de muitos desses profissionais.

Além das mortes de motoristas de ônibus, assusta também o aumento nas mortes de vigilantes —alta de 234% na comparação com antes da pandemia—, vendedores do comércio (crescimento de 187%), porteiros (147%) e faxineiros (97%), ainda segundo os dados Caged, que foram compilados pela Kairós.

Pesa contra esses trabalhadores a necessidade de deslocamento entre a residência e o trabalho por meio de transporte público, o que aumenta o risco de contágio.

O zelador Jailson Tavares, que pegou Covid-19, sentado, de roupa social e com os braços apoiados na perna direita, ao lado de uma parede espelhada na portaria do condomínio
O zelador Jailson Tavares, que ficou 12 dias internado após pegar covid-19 - Adriano Vizoni/Folhapress

Há 22 anos trabalhando em edifícios, Jailson Tavares, 49, ainda carrega as sequelas da Covid-19. Entre março e abril, ele ficou internado por 12 dias, logo após seu irmão ficar doente. Na mesma semana, o pai deles foi vacinado.

"Foi uma sorte, pois ele tem a saúde frágil e estou seguro que a vacina o salvou", disse.

Agora vacinado, por ser diabético, Tavares conta que ainda falta fôlego para subir lances de escada ou caminhar até a padaria. "Conheço uns vinte colegas que tiveram Covid-19 e ainda carregam problemas físicos ou psicológicos. Eu era um antes do coronavírus; agora, sou outro."

Por mais que tenham conseguido restringir a circulação nas áreas comuns do condomínio, ele lembra que o contato com moradores é inevitável e as correspondências não param de chegar.

"Os zeladores e os porteiros não pararam de trabalhar e não puderam fazer home office. As pessoas não fazem ideia do quanto somos importantes para a vida de um condomínio. A gente se sente invisível."

Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelou que no fim do ano passado, do total de pessoas em trabalho remoto, 76,1% tinham nível superior completo, 31% tinham entre 30 e 39 anos e a maioria era branca (65,4%).

Sob pressão das entidades do setor de transporte, neste ano, o Ministério da Saúde incluiu trabalhadores do transporte, como os de caminhão, ônibus, metroviários, ferroviários, de transporte aéreo e aquaviário entre as profissões prioritárias no Plano Nacional de Vacinação.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, até o fim de maio, mais de 95 mil doses do imunizante foram aplicadas em trabalhadores do transporte. De acordo com a CNT (Confederação Nacional do Transporte), os estados que mais vacinaram esses profissionais até agora foram São Paulo, Bahia e Maranhão.

Os caminhoneiros também compõem um grupo considerado eleitoralmente importante para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que deve buscar a reeleição no ano que vem.

Entre os prioritários, ainda estão trabalhadores portuários, de indústrias e da limpeza urbana.

Ao mesmo tempo, apesar de gravemente expostos ao risco, sete entre as dez ocupações com mais mortes registradas pelo Caged não foram incluídas como prioritárias para receber a vacina, segundo edição do Plano Nacional publicada no fim de maio.

No caso dos porteiros, zeladores e demais trabalhadores em condomínios, os sindicatos pediram a inclusão desses profissionais como prioritários em nível nacional. Com a falta de diálogo, as entidades de trabalhadores decidiram também ​solicitar a inclusão a governos estaduais e municipais.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) e a CNTC (Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio) também pediram ao Ministério da Saúde para que os trabalhadores do comércio fossem incluídos no grupo prioritário de vacinação. Segundo o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, não houve resposta por parte do governo.

A análise dos dados mostra que as dez ocupações mais expostas a risco de morte no segundo bimestre de 2021 concentram 30% de todos os desligamentos por morte de trabalhadores.

Além deles, há um exército de informais —trabalhando como entregadores, diaristas ou ambulantes— que, apesar de igualmente expostos ao vírus, não entram nas estatísticas de trabalho com carteira assinada.

Desligamentos por morte, por subgrupo de atividadesTotal de óbitosQuanto isso representa
Condutores de veículos e operadores de equipamentos de movimentação de cargas2.75812,1%
Serviços de administração, conservação e manutenção de edifícios1.7957,9%
Trabalhadores nos serviços de proteção e segurança1.7557,7%
Vendedores e demonstradores1.5216,7%
Escriturários, agentes, assistentes e auxiliares administrativos1.2725,6%

Fontes: Caged, com cálculos da Kairós


Em 2020, após uma mudança de metodologia no Caged, passou a haver uma maior notificação de empregados temporários. Isso elevou a quantidade de trabalhadores registrados pela pesquisa, o que prejudica a comparação da série histórica do número total de empregos.

Segundo Bonassa, no caso dos óbitos, no entanto, a participação das modalidades de trabalho temporário é inferior a 1%. Para os caminhoneiros, por exemplo, eles representam 0,5%, por isso a comparação com as duas metodologias tem baixo impacto no comportamento da série histórica.

Apesar de o Caged apontar o número de contratos encerrados por morte do trabalhador, o cadastro não diz a causa da morte. Ou seja, não é possível atribuir todo o aumento no número de mortes à Covid.

Bonassa ressalta, no entanto, que o principal fator que pode explicar esse aumento é a pandemia.

“Não há outra mudança no cenário que possa ter causado esse impacto, e mesmo que algumas ocupações tenham subido mais que outras, o aumento de óbitos foi generalizado”, afirma.

Segundo outro levantamento, do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), mesmo para os profissionais da linha de frente que foram mais priorizados na vacinação, como os da área de saúde, houve uma alta de 75,9% nas mortes entre o primeiro trimestre do ano passado e o mesmo período deste ano.

“A pandemia levou a uma perda de capital humano e a uma queda na renda para essas famílias”, diz a economista da entidade Rosângela Vieira. “Por mais que essas famílias sejam amparadas por uma pensão por morte, é uma renda muito menor e isso vai ter impacto no futuro."

Segundo o Ministério da Saúde, todos os grupos prioritários para a vacinação estão no Plano Nacional de Vacinação, que está em atualização constante. A pasta afirma, ainda, que a seleção foi definida por especialistas e compactuada com várias entidades, como o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e o Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde).


Em decisão rara, USP demite docente que enviou bilhetes com xingamentos a professoras e alunas, FSP

 Em decisão rara, a Universidade de São Paulo demitiu um professor do Instituto de Biociências após ele ter endereçado bilhetes com xingamentos a duas alunas e duas docentes. Eduardo Gorab, 64, colocou cartas com ofensas em salas frequentadas pelas vítimas e foi flagrado por câmeras de segurança.

Uma das professoras ainda registrou boletim de ocorrência em que relata ter sido perseguida por ele no campus. A guarda universitária forneceu um botão de pânico para que as vítimas utilizassem no local. Uma das docentes passou a ser escoltada nos trajetos entre sua sala e o laboratório no qual ministrava disciplina.

Distribuídos em 2019, os bilhetes continham ofensas com trocadilhos relacionados às vítimas. Um deles, por exemplo, dizia "Hiscória da ciência! Você é lixo", e tinha como alvo a única docente da área de história da ciência no instituto. Outro fazia trocadilho com sobrenome de uma professora por meio dos dizeres "putarias e banda podre".

No verso de um deles estava um formulário de parecer sobre realização de doutorado em universidade do exterior, de caráter sigiloso, preenchido com o nome do parecerista —no caso, Gorab.

Eduardo Gorab foi flagrado por câmeras de segurança

Imagem da câmera de segurança mostra Eduardo Gorab entregando um dos bilhetes
Imagem da câmera de segurança mostra Eduardo Gorab entregando um dos bilhetes

As denúncias e o material contra Eduardo Gorab foram analisados por uma comissão processante, cujas conclusões foram acolhidas pelo reitor da USP, Vahan Agopyan, que decidiu pela demissão diante da "gravidade das condutas do processado".

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O nome de Gorab já não consta mais na seção de docentes do site do Instituto de Biociências.

Cabe recurso à decisão, e Gorab diz ao Painel que o fez, e portanto ainda não se considera demitido. Ele não quis falar do caso. À polícia ele disse que sofre de "apagões de memória", que iniciou tratamento psiquiátrico em 2015 e que estava arrependido.

Ele anexou ao processo um laudo médico que faz afirmações no mesmo sentido: houve troca em sua medicação em 2019 e 2020, época em que ele se queixou de lapsos de memória, que teriam acabado após a estabilização dos remédios em seu organismo.

Um dos bilhetes distribuídos por Eduardo Gorab, demitido da USP
Um dos bilhetes distribuídos por Eduardo Gorab, demitido da USP - Reprodução

O histórico do professor pesou negativamente na avaliação do caso mais recente. A aluna referida em bilhete como "pósputa.doc", atualmente no pós-doutorado (a única no laboratório em que foi encontrada a carta), já havia apresentado denúncia por assédio moral em 2015 contra Gorab.

Na mesma época, uma estudante fez boletim de ocorrência e abriu processo administrativo contra Gorab por assédio sexual. Ela foi alvo de um dos bilhetes de 2019: no caso, uma associação de seu nome a “mau caráter” e “vagabunda".

Uma funcionária do laboratório também encontrou em setembro de 2019 sete bilhetes idênticos com referência ao ocorrido em 2015 com injúrias como "vagabunda", "canalha" e "tipinho criminoso".

Sobre essas denúncias anteriores, uma comissão processante concluiu em 2016 que Gorab havia agido inadequadamente, destratando alunos e colegas, mas que não existiam "evidências contundentes e irrefutáveis" que caracterizassem claramente assédio sexual.

Uma das professoras ofendidas pelos bilhetes foi testemunha de uma aluna na sindicância, que resultou em uma suspensão para Gorab.

Na Justiça, as professoras chegaram a acordo a respeito das injúrias, e Gorab não poderá se comunicar com elas de qualquer forma (email, telefone, etc.), deverá manter distância delas e enviar relatórios de acompanhamento psiquiátrico trimestralmente ao tribunal.

O coletivo feminista Trepadeiras, de estudantes da Biologia da USP, publicou relato atribuído a uma professora anônima que afirma que o processo de demissão de Gorab foi muito longo e custoso para as vítimas.

“Hoje é um dia de celebração de um marco histórico. Pelo menos, nunca vi acontecer em uma universidade grande do país”, diz o texto.