quinta-feira, 17 de junho de 2021

'No ano que vem vamos ter que vacinar todo mundo de novo', diz diretor do Sírio-Libanês, FSP

 

SÃO PAULO

O novo diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês (SP), o médico Fernando Ganem, 56, diz que os conhecimentos sobre a Covid-19 disponíveis até o momento indicam que será necessária uma imunização anual contra a doença.

“Ano que vem, vamos ter que começar a vacinar todo mundo de novo. Vai funcionar como funciona na gripe; mudam as variantes, tem fazer nova adaptação da vacina”, afirma.

Segundo o médico, o hospital vem registrando casos de reinfecção por Covid entre pessoas já imunizadas, mas nenhum grave ou que tenha levado o paciente à morte.

Por isso, recomenda que as pessoas continuem usando máscaras não só para se proteger contra o coronavírus, mas também contra outros vírus respiratórios que estão circulando, como o H1N1, e já provocam internações.

Cardiologista e intensivista, Ganem está no Sírio desde 1992 e ocupou vários cargos nas áreas da assistência e da gestão. Em maio, assumiu a diretoria geral, substituindo o cirurgião Paulo Chapchap, seu mentor.

Fernando Ganem, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês e que também coordena o programa de residência em clínica médica da instituição
Fernando Ganem, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês e que também coordena o programa de residência em clínica médica da instituição - Hospital Sírio-Libanês/Divulgação

Um assunto que circulou nas redes sociais recentemente foi que o Sírio estava com vários pacientes graves de Covid que já tinham sido imunizados com duas doses da vacina. O que há de real nessa história? Estamos monitorando todas as pessoas que internam, quantas já foram vacinadas. Existem pacientes internados que já tomaram a vacina? Sim. Existem pacientes que já tomaram a vacina e estão em estado crítico? Não é o que a gente está vendo.

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Nós e outras instituições vamos soltar publicações sobre colaboradores vacinados, quantos tiveram [reinfecções por Covid]. Na nossa experiência, não identificamos casos graves [de reinfecção] e óbito. Temos que estratificar todos os casos por idade e complexidade.

Casos individuais, a gente tem visto por aqui. Temos um caso curioso de uma médica que tem vários fatores de risco, atende em casa, já foi vacinada, teve Covid e não internou. O desfecho primário da vacina é evitar mortalidade. Agora, ter de novo… o ideal seria que não tivesse mais.

Ano que vem vamos ter que começar vacinar todo mundo de novo. Vai funcionar como funciona na gripe; mudam as variantes, tem que fazer nova adaptação da vacina.

Todo mundo me pergunta e eu falo: sabe quando a gente vai ter todas essas respostas? Daqui a um ano, quando 100 milhões de pessoas estiverem vacinadas. O resto são inferências, e inferências são perigosas porque podem gerar informações infundadas.

Mas teremos mesmo que nos vacinar anualmente contra a Covid, assim como ocorre com a gripe? Tudo indica que sim, pelo o que a gente tem acompanhado na literatura e com os nossos colegas. Foi como aconteceu na epidemia de H1N1 [em 2009]. Nós ainda temos casos de H1N1. Tivemos um caso recente. O paciente teve Covid, foi internado, saiu, e na semana seguinte estava com H1N1.

E nesse período outros vírus respiratórios têm circulado bastante… Exatamente. A gente sabe que de maio a julho, agosto, aumentam as visitas aos prontos-socorros, as internações, a mortalidade na população idosa por pneumonia. Também por isso é que a gente deve manter o uso da máscara.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vem discursando contra o uso da máscara. É o momento de deixar lado o acessório? Vamos ter que continuar usando máscara ainda por muito tempo, independentemente de uma recomendação técnica, deve ser uma orientação comportamental. Sempre que possível, precisamos diminuir a probabilidade do contágio.

Como está hoje a ocupação de leitos do Sírio por Covid? Semana passada estivemos bem apertados, variando de 90% a 97% de ocupação. Felizmente hoje [segunda, 14] estamos com 84%, estamos conseguindo acomodar. Mas é muito dinâmico. Há dias em que existe espera [por leitos] no pronto-socorro.

Ano passado, nosso pico de internação tinha sido 260 pacientes. Neste ano, baixamos para 130 por duas, três semanas, e a gente pensou que teria um período de sossego. Nas últimas semanas, voltamos a ter 250 pacientes. Hoje [segunda] estamos com 164.

Está sendo necessário suspender cirurgias eletivas? Dessa vez, não. Suspendemos por duas semanas alguns exames como a polissonografia, em que o paciente passa a noite no hospital e no dia seguinte vai embora. Muita gente que segurou procedimentos médicos meses atrás agora está nos procurando até porque começa a ficar ansioso, não sabemos até quando vai [a pandemia].

O Sírio acaba de lançar o pronto-atendimento digital. Como vai funcionar? A experiência com pacientes com Covid possibilitou uma nova forma de atendimento para todo tipo de condição de saúde. As avaliações podem ser agendadas por meio de um número de WhatsApp. O paciente responde a uma série de perguntas para a triagem do caso e se não for considerado crítico, recebe um link para acesso a uma plataforma de telemedicina do Sírio e é atendido pelo médico de plantão. Se os sintomas forem de gravidade, é orientado a comparecer ao hospital.

Várias instituições de saúde têm estendido o atendimento médico digital para áreas como escolas e empresas. Isso veio para ficar? Sim, o hospital presta hoje um serviço de saúde populacional que abrange 180 mil colaboradores de outras empresas em que o atendimento é digital. Tanto de um médico de família ou clínico-geral com nosso médico especialista, ou diretamente com o paciente.

Isso evitou idas desnecessárias ao pronto-socorro, garantindo a segurança. Antes da Covid, em torno de 20% dos pacientes que vinham ao pronto-socorro não eram submetidos a nenhum exame nem recebiam medicação. Podemos inferir que eles precisavam de uma consulta médica.

Não tenho dúvida de que o atendimento e do monitoramento digital de pacientes, serviços de saúde mental e de reabilitação a distância terão oportunidade de crescimento no pós-pandemia.

O que não é possível ainda fazer com o atendimento digital? Não conseguimos substituir alguns tipos de assistência. Dor aguda, por exemplo, é uma coisa muito preocupante. Dor abdominal pode ser algo mais simples, como uma gastroenterite [infecção intestinal], uma diverticulite [inflamação ou infecção na parte interna no intestino]. O exame físico faz toda a diferença. Uma dor torácica, um formigamento, pode ser desde uma tensão emocional até um AVC [Acidente Vascular Cerebral]. Ter um olhar médico é fundamental.

Mas hoje, com uma boa anamnese, um check-list de perguntas, um algoritmo bem direcionado, você consegue saber quando orientar a pessoa a procurar um atendimento presencial ou se ela pode seguir no acompanhamento digital.

No âmbito do SUS, o Sírio e outros hospitais têm desenvolvido por meio do Proadi alguns projetos usando a telemedicina nas emergências e na UTI. O que já é possível mensurar de resultados? O Lean nas emergências, essa ferramenta de gestão que ajuda a diminuir o tempo de permanência do paciente no serviço de urgência, já existia antes da pandemia e, devido à repercussão e ao impacto que causou em vários hospitais públicos, foi renovado.

Em 2020, o projeto passou por 35 hospitais do SUS. Já são 102 instituições beneficiadas em 24 estados desde que teve início há pouco mais de três anos.

No ano passado, houve redução média de 38% no tempo de espera, de 50% no tempo da passagem do paciente da urgência até a internação, e uma redução média de 11% no tempo médio de permanência na internação (de 8,5 dias para 7,6 dias, em média).


Raio-X

​Fernando Ganem é médico cardiologista formado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com doutorado na mesma instituição. Também é especialista em terapia intensiva, tem pós-graduação em gestão de atenção à saúde pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês e Fundação Dom Cabral.

Trabalha no Hospital Sírio-Libanês desde 1992, inicialmente como plantonista no pronto-atendimento. Já trabalhou como intensivista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, como chefe da UTI cardiovascular no Hospital Nove de Julho. Ocupa cargos na área de gestão do Sírio desde 2007. Em maio passado, assumiu a diretoria geral do hospital. Coordena também o programa de residência de clínica médica da instituição.


Morre aos 91 anos Boris Tabacof, empresário no setor de celulose e preso político de Getúlio Vargas, FSP

 RIBEIRÃO PRETO

Faleceu nesta terça-feira (15), aos 91 anos, o empresário Boris Tabacof. Durante a sua carreira, o engenheiro de destaque no setor de celulose foi secretário da Fazenda na Bahia e presidente do Conselho Superior de Economia da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e do Conselho de Administração da Suzano. Ele faleceu devido a complicações de uma pneumonia.

Em nota, a empresa afirma que a história de Tabacof se confunde com a da companhia de produção de celulose.

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"Tabacof participou de diversos momentos marcantes da empresa, incluindo a abertura de capital na década de 1980 e a construção da fábrica em Mucuri, na Bahia, abrindo uma nova fronteira para a evolução do setor de árvores cultivadas no Brasil", diz a nota. "(...) [Ele] será sempre lembrado como uma referência de pessoa e profissional."

Boris Tabacof em seu apartamento, em São Paulo, em 2005 - Eduardo Knapp - 1º.abr.2005/Folhapress

Nesta quarta (16), em nota de pesar, o presidente da Fiesp e do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, disse que a trajetória de Tabacof está ligada ao desenvolvimento da indústria no Brasil.

​Tabacof nasceu em Salvador, na Bahia, e era filho de imigrantes judeus. Ele se formou na em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade da Bahia

No ano passado, aos 90 anos, o engenheiro seguia ativo. Em março de 2020, ele lançou o livro "Riscos e oportunidades no novo milênio", pela editora Contexto, sobre o avanço tenológico e seus riscos e benefícios potenciais.

Em 2005, escreveu um livro de memórias, "Perdidos e Achados", pela editora Hucitec.

Na juventude, Tabacof foi membro do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e ajudava militantes que atuavam dentro das Forças Armadas.

"Fui secretário de organização do Comitê do PCB na Bahia, o segundo cargo do partido no Estado. É aí que entra como eu tenho a ver com todo esse movimento, que foi um movimento dentro da esfera militar", afirmou na época em que deu depoimento à Comissão Nacional da Verdade, orgão fundado pela então presidente Dilma Rousseff que investigou atos de violações de direitos humanos entre 1946 e 1988.

Ele foi a primeira pessoa que relatou torturas fora do período da ditadura militar (1964-1985) no Brasil à comissão. Tabacof foi preso em 1952, durante o governo Getúlio Vargas.

"Como eu não estava contando nada que eles queriam, nem queria assinar, eles foram piorando as coisas. Eu fiquei alguns dias de pé com um soldado, de baioneta calada, ao meu lado, que não deixava que eu me sentasse", disse à comissão. Ele foi solto em 1954.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Joice afirma que PSL se vendeu a Bolsonaro e entra com ação no TSE para deixar o partido

BRASÍLIA

A deputada Joice Hasselmann (SP) entrou nesta segunda-feira (14) com ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pedindo desfiliação por justa causa do PSL, argumentando sofrer perseguição política no partido por seu posicionamento contrário ao presidente Jair Bolsonaro (ex-PSL, hoje sem partido).

Joice chegou a ser líder do governo no Congresso até ser retirada do cargo durante o racha no PSL iniciado com a briga pública entre Bolsonaro e o presidente do partido, o deputado Luciano Bivar (PE).

Na ação, a deputada acusa Bivar de ser o principal responsável pela perseguição interna que sofre.

A ação junto ao TSE pede “reconhecimento de justa causa para desfiliação e consequente filiação a outro partido que reconheça o que lhe trouxe uma deputada federal de 1 milhão de votos, retribuindo-lhe a fidelidade partidária com que a filiada sempre tratou o partido, mas não recebeu de volta, especialmente após a eleição da Câmara.”

A deputada federal Joice Hasselmann (SP) na tribuna da Câmara
A deputada federal Joice Hasselmann (SP) na tribuna da Câmara - Divulgação

Na disputa mencionada, Bivar foi eleito primeiro-secretário da Câmara, em um acordo que incluiu a indicação do deputado Vitor Hugo (PSL-GO) como líder do partido na Casa e da bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) como presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

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“Meu rompimento com o partido internamente já aconteceu desde a eleição para a Mesa da Câmara. Eu inclusive saí do grupo raiz, depois que o Bivar me ameaçou no grupo, dizendo que tínhamos que resolver a situação, como se fosse coronel de partido pequeno”, afirma Joice.

“Entregar a liderança do partido na Câmara para o Vitor Hugo é entregar ao Bolsonaro”, diz ela, que ainda acusa Bivar de ter entregado as principais comissões da Casa a bolsonaristas.

“Eu cobrei do Bivar, dizendo que a culpa era exclusivamente dele nós termos Bia Kicis na CCJ, uma doida como a Carla Zambelli comandando uma comissão [do Meio Ambiente]."

Joice diz que Bivar sacrificou todos os que foram leais à legenda e às bandeiras que elegeram os deputados. “É muito clara a perseguição ali”, afirma. “O PSL que deixa a porta aberta para o Bolsonaro não é um partido que me representa. Eu já cometi esse erro uma vez, entrar num partido que estava agarrado nesse maluco, em quem eu acreditei, na ânsia de tirar o PT do poder. Eu não vou cometer esse erro duas vezes.”

Na avaliação da deputada, ao deixar a porta aberta a Bolsonaro após o presidente sair da legenda para tentar criar um partido próprio —a Aliança pelo Brasil, que não saiu do papel—, o PSL “se vendeu”. “Eu não faço parte dessa negociata."

Joice afirma ainda que foi censurada no PSL. “O líder do partido tem o poder de cercear e de calar deputado. Então, desde que houve essa eleição, meu microfone foi retirado. Eu não tenho voz, eu não tenho microfone."

Segundo Joice, cinco partidos a procuraram e com três a conversa está bem adiantada. “São cinco partidos com os quais eu tenho alguma afinidade”, diz ela, que afirma que um dos pré-requisitos para a escolha será a possibilidade de atuar na capacitação de mulheres. “É uma coisa que eu já ia fazer, independentemente de partido, e agora eu vou juntar isso numa questão partidária.”

No final de maio, o TSE autorizou a deputada federal Tabata Amaral (SP) a se desfiliar do PDT, sob a alegação de justa causa, depois de ter votado a favor da reforma da Previdência, em 2019.

Em abril, o TSE concedeu vitória semelhante aos deputados Felipe Rigoni (ES) e Rodrigo Coelho (SC), que ganharam o direito de deixarem o PSB preservando o mandato. Eles também foram enquadrados pela sigla por votarem a favor da reforma da Previdência.