terça-feira, 15 de junho de 2021

O dilema da esquerda- Guilherme Boulos, FSP

 O bolsonarismo mudou a régua política brasileira. Quem sempre foi da direita passou a ser chamado de “centro”. Quem de fato era de centro tornou-se “esquerdista”. E a esquerda virou “extremismo”. Sinal dos tempos. Na verdade, os novos rótulos não significaram mudança das posições históricas de cada campo, tanto é que, na agenda econômica, o dito “centro” votou alinhado com Bolsonaro e Guedes em quase todas as matérias.

Mas a nova situação colocou um dilema para a esquerda. O que é preciso para derrotar Bolsonaro? É preciso fazer aliança com a direita tradicional nas eleições? É preciso abrir mão, ainda que momentaneamente, de nossos valores e propostas, em nome de uma plataforma de defesa da democracia?

Esse debate está pulsante nos partidos de esquerda. O ponto de consenso é que precisamos derrotar Bolsonaro e virar a página do pesadelo que assola o país. Sem isso não há como disputar o futuro. É a luta pela vida contra um governo da morte. É a luta pela democracia contra as constantes ameaças autoritárias.

E essa luta exige unidade política e amplitude, enfim, exige responsabilidade histórica da esquerda brasileira.

Agora, amplitude não significa diluição de projeto. Mais do que nunca, precisamos de um projeto de combate às desigualdades, à fome, ao desemprego, com retomada do investimento público e enfrentamento a privilégios. A pandemia escancarou a urgência de um SUS forte, da educação e da pesquisa científica. Em tempos de intolerância bolsonarista, o combate ao racismo, ao machismo e o respeito à diversidade precisam estar no centro do debate público. Em tempos de devastação ambiental, a proposta de um novo modelo de desenvolvimento —com carbono zero, energia limpa e transição agroecológica— não pode mais esperar.

Quem pauta essas agendas no Brasil é a esquerda. Esse é o nosso lugar político e é ele que nos permite mobilizar engajamento e esperança na sociedade. Para derrotar Bolsonaro não precisamos abrir mão disso. Ao contrário, o bolsonarismo engaja seus apoiadores tendo o ódio como operador político. Não vamos vencê-los apenas com apelos democráticos —como atesta a falta de encanto do “centro” nas projeções eleitorais— mas alimentando esperança, a partir de um projeto que aponte soluções concretas para os sofrimentos do nosso povo.

É possível superar o atraso e a ameaça autoritária sem deixar de disputar o futuro. É possível ter a amplitude que o momento exige e, ao mesmo tempo, afirmar um projeto de transformações. Aliás, é necessário. Bolsonaro e a pandemia fizeram do Brasil uma terra arrasada, seria ilusão supor um simples retorno à normalidade. Precisaremos de ousadia e mobilização da sociedade para superar essa tragédia.


Alvaro Costa e Silva - O país da gracinha, FSP

 O Tio do Pavê que mora dentro do brasileiro —não importa idade nem ideologia— não resiste a gracinhas quando o Peru está na roda. Não à toa “peruada” é sinônimo de gracejo, chiste, gozação. Ainda mais quando no país vizinho é eleito, como agora, um presidente que era professor primário numa província chamada Chota.

Carola e sindicalista, Pedro Castillo é uma incógnita do tamanho de seu chapelão branco. Sua votação foi apertadíssima, ganhou no fotochat, mas confirmada por observadores internacionais. A esquerda brasileira comemorou o resultado, passando pano para o fato de o azarão Castillo ser contra o aborto e pautas LGBT.

A direita lamentou a derrota de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, condenado por tráfico de drogas e corrupção e por ordenar assassinatos. Bolsonaro não perdeu a chance de voltar à quinta série (se é que algum dia ele saiu dela): “Perdemos o Peru”. Dizem que Mario Vargas Llosa, que apoiou Keiko, ficou desconsolado após a vitória de Castillo, repetindo sem parar a famosa frase de seu romance “Conversa no Catedral”: “Em qué momento se había jodido el Peru?”.

Derrotado por Alberto na eleição presidencial de 1990, Vargas Llosa fez campanha para Keiko e, como ela, afirmou ter havido irregularidades no pleito atual. O mesmo jogo sujo de Trump. Igualzinho ao que está fazendo Bolsonaro desde que chegou à Presidência pela urna eletrônica e botou na cabeça que o Brasil precisa de um ditador energúmeno.

No Peru a votação é feita em cédulas de papel, processo semelhante ao voto impresso desejado pelos bolsonaristas que preparam o terreno para uma quartelada de aloprados. No entanto, mal se tentou armar um tumulto, com a apuração em curso, o Ministério da Defesa peruano soltou uma nota afirmando que as Forças Armadas não interferem em assuntos políticos e eleitorais. Qual o país da gracinha? Brasil ou Peru?