segunda-feira, 14 de junho de 2021

‘Festa do tratoraço’: deputado manda 31 tratores para cidade governada pela mãe, OESP

  André Shalders, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 14h17

BRASÍLIA - Relator-geral do Orçamento de 2020, o deputado Domingos Neto (PSD-CE) realizou, na semana passada, uma espécie de “festa do tratoraço”: um evento na cidade de Tauá (CE), no qual ele entregou a prefeitos aliados maquinário pesado comprado pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) a partir de verbas do orçamento secreto indicadas por ele próprio. 

Como relator-geral do orçamento, Domingos Neto transformou Tauá, sua cidade natal e base eleitoral, no município que mais recebeu verbas federais das chamadas emendas de relator (RP 9), em 2020, proporcionalmente ao número de habitantes. O político destinou R$ 110,3 milhões para o município, que é governado por sua mãe, a prefeita Patrícia Aguiar (PSD). Parte do dinheiro foi revertido nas máquinas entregues na quinta-feira, dia 10, aos prefeitos aliados. 

Dra. Gorete
A prefeita de Itapajé (CE), Doutora Gorete, com maquinário recebido para o município Foto: Acervo Pessoal no Instagram

Chama a atenção a quantidade de prefeitos do PSD contemplados: das 28 cidades beneficiadas, 20 são comandadas por representantes da sigla de Domingos Neto, ou 71,4%. Os equipamentos atenderam desde municípios vizinhos a Tauá, como Aiuaba, comandada pelo prefeito Ramilson Moraes (PSD), que está a apenas 65 km em linha reta; até Itapajé, localizada a 270 km. Assim como Aiuaba, Itapajé também é dirigida pelo PSD.  

Nas imagens, é possível ver uma longa fileira de máquinas em uma rua de Tauá — segundo a própria Codevasf informou ao Estadão, são 31 máquinas de diferentes tipos, somando R$ 9,5 milhões em equipamentos, e que foram entregues a 28 cidades do Estado. Os recursos para a compra das máquinas fazem parte do Termo de Execução Descentralizada (TED) 141 de 2020, acordado entre a Codevasf e o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), por indicação de Domingos Neto.

A cerimônia de entrega do maquinário contou inclusive com a presença do presidente da Codevasf, Marcelo Moreira. Na agenda oficial do dirigente, o compromisso aparece como “assinatura de ordens de serviços e entrega de equipamentos para municípios do Ceará”. As imagens mostram prefeitos se revezando em um palanque com Domingos Neto e Moreira, no qual eles recebem uma grande “chave” simbólica de papel cartão.

Em um vídeo que circula no WhatsApp, o prefeito de Alto Santo (CE), José Joeni Holanda de Araújo, o Joeni (PSD), agradece ao ex-deputado Domingos Filho, a quem chama de “nosso líder”, pela doação de uma máquina de terraplanagem ("patrol"). Como o nome sugere, Domingos Filho é o pai de Domingos Neto, e é casado com a prefeita de Tauá. 

“Viemos receber uma patrol doada pelo governo federal através do nosso líder Domingos Filho para manutenção, para manter nossas estradas (...), para que todos possam trafegar de forma mais tranquila. Uma patrol dessa daqui que a gente está ganhando custa em torno de R$ 1 milhão”, diz o prefeito. Segundo a Codevasf, no entanto, as máquinas de terraplanagem como a recebida pelo prefeito foram compradas a R$ 457,8 mil cada uma. O valor citado por Joeni também é superior ao que aparece na própria cartilha do Ministério do Desenvolvimento Regional. No documento da pasta, que traz orientações para os congressistas na hora de elaborar as emendas, o custo estimado da máquina de terraplanagem é de R$ 470 mil. A reportagem do Estadão tentou contato com o prefeito de Alto Santo, mas não obteve resposta. O valor que consta na ordem de fornecimento (OF) emitida pela Codevasf para a empresa que forneceu o maquinário, a XCMG, é de R$ 457,8 mil.

“Esse programa do governo tem várias doações de várias máquinas, e todas nós necessitamos no nosso município. Como vocês podem ver é a patrol, tem a carregadeira, tem a enchedeira, tem a retroescavadeira, todas máquinas de muita necessidade para mantermos uma cidade organizada”, diz Joeni no vídeo.

O prefeito de Tejuçuoca (CE), Britinho (PSD), usou o Facebook para agradecer pela escavadeira recebida pelo município. “Recebendo agora em solenidade no município de Tauá uma Pá Mecânica para o nosso município. Quero agradecer ao Governo Federal, a Codevasf na pessoa do Presidente Marcelo (Moreira) e ao Deputado Federal Domingos Neto por ter nos atendido com esse equipamento”, escreveu ele.  

Mais bem aquinhoado foi o dirigente do município de Acopiara, Antônio Almeida Neto (MDB). No Instagram, ele contou ter recebido uma máquina retroescavadeira e outra de terraplanagem, “que irão integrar a nossa frota de maquinário para reforma das estradas rurais”. “Essa conquista veio através dos esforços do nosso deputado federal Domingos Neto e da CODEVASF”, disse o prefeito de Acopiara. 

A própria Tauá recebeu duas máquinas: uma motoniveladora e uma escavadeira hidráulica, totalizando R$ 890 mil. Com exceção da cidade natal de Domingos Neto, apenas Acopiara recebeu a mesma dupla de equipamentos. Todas as outras cidades receberam apenas um equipamento. 

Além da compra de equipamentos, o TED 141 de 2020 também destinou recursos para a “aquisição de reservatórios de água” e a execução de serviços de pavimentação em municípios do Estado do Ceará, de acordo com a Codevasf. 

Encravado no Sertão dos Inhamuns, o município de Tauá tem 57 mil moradores e vive da agricultura familiar e da pecuária. A política local é comandada pela família do deputado há décadas. Patrícia está no quarto mandato. O avô paterno do deputado, que lhe rendeu o nome, também foi prefeito duas vezes. A reportagem tentou contato com Domingos Neto, mas ele não respondeu.

Revelado pelo Estadão, o orçamento secreto é um esquema montado pelo governo Jair Bolsonaro, em 2020, para beneficiar deputados federais e senadores com a indicação do repasse de dinheiro das emendas de relator-geral (também chamadas RP9) em troca de apoio no Congresso Nacional. Ao todo, as emendas de relator somaram R$ 20,1 bilhões no orçamento do ano passado.

Ao contrário das emendas individuais, de bancada e de comissões, o valor das emendas de relator foi distribuído de forma desigual entre os políticos, de modo a beneficiar aliados do governo. Diferentemente do que acontece com outros tipos de emendas, tais recursos foram destinados mediante acordos secretos, sem que se saiba qual político indicou o quê. O Estadão revelou 101 ofícios que expõem essas negociações e que não estão públicos.

Falta de decisão final sobre Carandiru é 'muito ruim para a sociedade', diz secretário da Justiça de SP, FSP

 


SÃO PAULO

O secretário da Justiça de São Paulo, Fernando José da Costa, afirmou nesta sexta-feira (11) que o fato de ainda não termos uma decisão final sobre o massacre do Carandiru, quando 111 presos foram mortos em 1992, “é muito ruim para sociedade, é muito ruim para as vítimas e para os familiares das vítimas, bem como para as pessoas averiguadas.”

Na última quarta-feira (9), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) restabeleceu as condenações do policiais militares que atuaram na invasão da penitenciária do Carandiru, na capital paulista, em ação que resultou no morticínio quase 30 anos atrás. Decisão final ou decisão transitada em julgado é aquela em que não cabe mais recurso.

"Como eu não analisei esse caso, é difícil para mim verificar se, de fato, há como identificar a responsabilidade penal daquelas pessoas ou não. O ponto crítico que eu posso invadir é que a triste invasão ocorreu em 1992 e nós, em 2021, ainda estamos discutindo uma eventual condenação ou não dessas pessoas", comentou Costa, que é advogado criminalista e já lecionou direito penal e direito processual penal.

Massacre do Carandiru: corredor alagado de sangue no pavilhão da Casa de Detenção de São Paulo, após a intervenção da Polícia Militar do Estado de São Paulo para conter uma rebelião, em São Paulo (SP). A rebelião teve início com uma briga de presos no Pavilhão 9 da Casa de Detenção. A intervenção da Polícia Militar, liderada pelo coronel Ubiratan Guimarães, tinha como justificativa acalmar a rebelião no local. Sobreviventes afirmam que o número de mortos é superior ao divulgado e que os policiais atiraram em detentos que já haviam se rendido ou que estavam se escondendo em suas celas.
Corredor alagado de sangue no pavilhão da Casa de Detenção de São Paulo, após a intervenção da Polícia Militar - Niels Andreas/Folhapress

"É muito difícil você absolver ou condenar pessoas por fatos que aconteceram há quase 3 décadas. As pessoas já seguiram as suas vidas, continuam ou não trabalhando e, de repente, poderão ser punidas por fatos ocorridos 30 anos antes. Essa não é a intenção da Justiça", afirmou. "Não é produtivo, não é eficaz."

Ao todo, 74 policiais foram condenados em cinco júris diferentes, ocorridos em 2013 e 2014, a penas que vão de 48 a 624 anos. Essas sentenças haviam sido anuladas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) em 2016.

Em 2018, o tribunal voltou a analisar o caso e manteve a anulação das condenações e pediu a remarcação de um novo júri. O argumento é que a decisão do júri de condenar os policiais foi contrária às provas dos autos, o que foi questionado pelo Ministério Público paulista.

Segundo o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Mario Sarrubbo, o TJSP ainda pode anular as sentenças de primeira instância a partir de outros pontos que não aqueles decididos pelo STJ nesta semana. Outros procuradores ouvidos pela Folha discordam. Para eles, o TJ só pode retomar o caso para mudar a dosimetria das penas aplicadas.

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"Até antes da decisão do STJ, essas pessoas haviam sido absolvidas. Agora, voltaram a ser condenadas. E, lá na frente, poderá ser mantida essa condenação ou poderá novamente haver uma decisão reformada", avalia Costa.

Para ele, a decisão do STJ indica que o tribunal paulista não pode "invadir o mérito por uma questão de soberania do júri nos casos dolosos contra a vida, mas pode dosimetrar e modificar a pena" e, neste caso, novamente caberá recurso aos tribunais superiores.

"As pessoas sempre falam que existe uma quantidade muito grande de recursos. Eu discordo dessa opinião. Entendo que não há uma grande quantidade de recursos, mas uma morosidade no processo", afirmou o secretário.

"Nós não podemos ter um processo que bata mais de meio ano, um ano em cada instância. Se nós tivéssemos mais celeridade em cada instância, teríamos um processo iniciado e finalizado em até 2 ou 3 anos. E, com isso, uma Justiça muito mais eficaz, muito mais justa."

De acordo com o Ministério Público de São Paulo, há uma estimativa de que os casos ligados ao massacre do Carandiru comecem a prescrever a partir de 2029, considerando a opinião mais favorável aos réus. Outros apontam 2037, em razão da manifestação do STJ desta semana.

Erramos: o texto foi alterado

MINHA VIDA - Bertrand Russel, Revista Mensal de Cultura, n. 53, p. 83. Por Alvarão

 Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governaram minha vida: o desejo imenso do Amor, a procura do Conhecimento e a insuportável Compaixão pelo sofrimento da humanidade. Essas paixões, como os fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminhos caprichosos, para além de um profundo oceano de angústias, chegando à beira do verdadeiro desespero.

 

Primeiro busquei o Amor, que traz o êxtase – êxtase tão grande que sacrificaria o resto de minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Procurei-o, também, porque abranda a solidão – aquela terrível solidão em que uma consciência horrorizada observa, da margem do mundo, o insondável e frio abismo sem vida. Procurei-o, finalmente, porque na união do amor vi, em mística miniatura, a visão prefigurada do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer bom demais para a vida humana, foi o que encontrei.

 

Com igual paixão busquei o Conhecimento. Desejei compreender os corações dos homens. Desejei saber por que as estrelas brilham. E tentei apreender a força pitagórica pela qual o número se mantém acima do fluxo. Um pouco disso, não muito, encontrei.

 

Amor e Conhecimento, até onde foram possíveis, conduziram-me aos caminhos do paraíso. Mas a Compaixão sempre me trouxe de volta à Terra. Ecos de grito de dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desprotegidos – odiosa carga para seus filhos – e o mundo inteiro de solidão, pobreza e dor transformaram em arremedo o que a vida humana poderia ser. Anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Isso foi a minha vida. Achei-a digna de ser vivida e vivê-la-ia de novo com a maior alegria se a oportunidade me fosse oferecida.

(Bertrand Russel, Revista Mensal de Cultura, n. 53, p. 83)

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