quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O jogo monstruoso dos conservadores, por Paul Krugman, do NYT, FSP


Juiz republicano declarou que toda a Lei de Acesso à Saúde é inconstitucional


As eleições legislativas americanas foram em grande parte um referendo sobre a Lei de Acesso à Saúde: o sistema de saúde, e não Donald Trump, dominou a campanha do Partido Democrata. E o veredicto dos eleitores foi claro: eles querem que as realizações do Obamacare, a maneira pela qual o sistema conferiu cobertura de saúde a 20 milhões de pessoas que antes não dispunham dela, sejam mantidas.
Mas na sexta-feira, Reed O'Connor, um juiz republicano altamente parcial conhecido por transformar seu poder judicial em arma, declarou que toda a Lei de Acesso à Saúde —a proteção aos pacientes portadores de doenças preexistentes, os subsídios que ajudam famílias a bancar planos de saúde e a expansão do programa federal de saúde Medicaid—  é inconstitucional. Especialistas judiciais da esquerda e da direita ridicularizam seu raciocínio e descreveram sua decisão como "ativismo político escancarado". E a decisão provavelmente não será sustentada pelas instâncias superiores.
Mas não confie muito em que a sabotagem dele será revertida. O abuso de poder de O'Connor pode ser incomumente cru, mas essa forma de comportamento vem se tornando cada vez mais comum. E não só quanto à saúde, ou nos tribunais. O que a deputada federal Nancy Pelosi definiu como "o plano de jogo monstruoso" para o ataque republicano ao sistema de saúde é apenas uma das partes de uma campanha em múltiplas frentes, na qual o Partido Republicano tentará contrariar a vontade dos eleitores e solapar a democracia em geral.

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Nancy Pelosi, líder do partido democrata no Congresso dos EUA - J. Scott Applewhite/Associated Press
Pois embora possamos nos congratular pela força de nossas instituições políticas, no final as instituições consistem de pessoas, e só cumprem seus papéis caso as pessoas respeitem seu propósito declarado. O Estado de Direito depende não só do que está escrito nas leis mas do comportamento daqueles que as interpretam e fazem aplicar as normas.
Se as pessoas não se se virem como servidores da lei em primeiro lugar e membros de partidos em segundo, se não subordinarem seus objetivos políticos ao seu dever de preservar o sistema, a lei perde o significado e só o poder importa.
E o que estamos vendo nos Estados Unidos —e já há anos, ainda que boa parte da mídia noticiosa e do sistema político se recuse a reconhecer o fato— é uma invasão de nossas instituições por partidários da direita cuja lealdade é para com seu partido, e não para com princípios. A invasão está corroendo a república, e a corrosão já está muito adiantada.
Uso o termo "direitista" deliberadamente. Há más pessoas em ambos os partidos, como em qualquer área da vida. Mas os partidos são estruturalmente diferentes. O Partido Democrata é uma coalizão frouxa de grupos de interesses, mas o Partido Republicano moderno é dominado pelo "movimento conservador", uma estrutura monolítica cuja união é mantido por dinheiro grosso —muitas vezes empregado de maneira clandestina— e pelo ecossistema intelectual fechado da Fox News e outras organizações de mídia partidárias. E as pessoas que ascendem nesse movimento são todas quadros do partido, em grau muito maior do que acontece na agremiação rival: lideranças que se apegam inflexivelmente à mensagem do partido.
Os republicamos vêm apontando pessoas desse tipo para postos judiciais há décadas. O'Connor foi indicado por George W. Bush. É por isso que sua decisão, por mais deficiente que seja o raciocínio legal que ele empregou para tomá-la, não foi grande surpresa. A única questão é determinar se ele imaginou que uma farsa como essa passaria impune. Obviamente sim, e pode ser que tenha razão.
Mas, como eu disse, não são só os tribunais. Enquanto Trump e seus aliados desfilam fantasias sobre a sabotagem do "Estado profundo" contra eles, a realidade é que número cada vez maior de postos em agências do governo vêm sendo ocupados por ativistas da direita que pouco se importam com as missões das agências nas quais trabalham, ou se opõem totalmente a elas. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) agora é dirigida por pessoas que não querem proteger o meio ambiente. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos está sob o controle de pessoas que desejam negar um sistema de saúde aos americanos.
A mesma tomada de controle por quadros partidários vem acontecendo na política. Lembra-se de quando o papel do Senado era o de "aconselhar e consentir"? Sob o controle dos republicanos, a missão se reduziu a apenas consentir. Não há praticamente nada que Trump faça, o que inclui claras indicações de corrupção e criminalidade, que induza os senadores de seu partido a fiscalizá-lo, de qualquer forma que seja.
Assim, como pessoas que pensam e se comportam dessa maneira reagem quando o público rejeita sua agenda? Tentam usar seu poder para reverter o processo democrático. Quando os democratas ameaçam vencer eleições, elas manipulam o processo, como fizeram na Geórgia. Quando os democratas vencem eleições a despeito dessas manipulações, elas privam os postos conquistados pelos democratas de seus poderes, como fizeram no Wisconsin. Quando as políticas democratas prevalecem a despeito disso tudo, elas usam tribunais ocupados por seus quadros para derrubar leis sob os pretextos mais frágeis.
Como alertou David Frum, autor de "Trumpocracy", um ano atrás, "se os conservadores se convencerem de que não conseguirão vencer democraticamente, não abandonarão o conservadorismo. Rejeitarão a democracia". E isso já está acontecendo.
Assim, Pelosi estava certa ao classificar a decisão de O'Connor como "um plano de jogo monstruoso", mas o jogo em questão não é só perpetuar o ataque ao sistema de saúde; é atacar a democracia em geral. E o jogo está apenas começando. Temo que o pior esteja por vir.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Paul Krugman
Prêmio Nobel de Economia, colunista do jornal The New York Times.

É possível acreditar, FSP

Estaremos firmes no Congresso para inovar

Tabata Amaral, eleita deputada federal pelo PDT em São Paulo - Bruno Santos - 22.nov.16/Folhapress
Alessandro Vieira, Felipe Rigoni e Tabata Amaral
Nós, que integramos o Movimento Acredito e fomos eleitos por diferentes partidos, sabemos que a sociedade nos olha com expectativa e até curiosidade. Muitos se perguntam se conseguiremos romper padrões tradicionais de política no Congresso e inovar. Alguns até imaginam que o apelo da renovação foi puro marketing eleitoral. Tais dúvidas são naturais.

Estamos entre os estreantes, em meio à derrota de inúmeros políticos tradicionais. Mas é fato que a simples mudança de nomes não implica real renovação política, posto que esta depende muito mais da mudança de práticas e princípios. E o Brasil está ávido por resultados positivos, depois de muitos terem investido na divisão dos cidadãos e na desconfiança generalizada. A última campanha foi agressivamente polarizada, e parcela enorme do eleitorado decidiu simplesmente votar contra alguma coisa, e não a favor.

A hora é para construir pontes e resgatar a legitimidade dos representantes --buscar caminhos institucionais para a nossa democracia.

O Acredito, iniciativa de oxigenação da política suprapartidária, espraiou-se por 14 estados, recebeu uma quantidade expressiva de votos e elegeu dois deputados federais e um senador, com campanhas baratas e inovadoras.

Muitos consideravam impossível o sucesso eleitoral de candidatos sem grandes recursos financeiros, estruturas partidárias ou padrinhos políticos. Mantivemos a convicção, nadamos contra a corrente e provamos na prática que, sim, é possível vencer o sistema. Não foi o êxito de três pessoas, mas uma vitória de milhares que acreditaram conosco.

As nossas são três histórias de vida diversas, mas conectadas pelo propósito firme de colaborar na construção de um país mais justo e menos desigual. Agora, inicia-se uma nova etapa, a do exercício dos mandatos.

Bandeiras decisivas para os brasileiros nos unem, como a da educação de qualidade para todos, o combate às desigualdades econômicas e sociais, o combate à corrupção, aos privilégios e à ineficiência do governo. Mas não somos quixotes sonhando o impossível. E, novamente, o senso comum deve sinalizar que temos chances mínimas de fazer a diferença no ecossistema árido do Congresso Nacional. 

Resiliência, ética e transparência radical, conteúdo, inovação e disposição incansável para o diálogo com todos que estejam dispostos a fazer algo bom pelo Brasil --independente de partidos ou ideologias-- serão as marcas da atuação conjunta que pretendemos empreender. Vamos quebrar mais esse tabu. Vamos provar que é possível gerar impacto positivo dentro e fora do Congresso, partindo de um movimento pela renovação. 

Claro que não vai ser fácil. Nada foi fácil até aqui.

Apostamos em duas grandes alavancas para elevar a nossa chance de sucesso. A primeira consiste em mobilizar um número cada vez maior de brasileiros para a participação política, fiscalizando e acompanhando o exercício dos mandatos. As estratégias de comunicação digital serão essenciais para isso.

A segunda se traduz em integrar parlamentares que tenham clara identidade com nossas bandeiras. O respeito pelas diferentes visões de mundo e a busca pelos pontos de consenso, sempre de forma suprapartidária, serão a base para essa atuação. 

Estaremos firmes no Congresso Nacional nessa construção. Acompanhem nossa trajetória e nos ajudem a iniciar a tão esperada mudança do Brasil. Fiquem de olho em nossas redes sociais.
Alessandro Vieira, Felipe Rigoni e Tabata Amaral
Senador eleito pela Rede-SE e integrante do Movimento Acredito; Deputado federal eleito pelo PSB-ES e integrante do Movimento Acredito; Deputada federal eleita pelo PDT-SP e cofundadora do Movimento Acredito

    Mariliz Pereira Jorge Twitter é tóxico para mulheres, FSP

    Projeto analisa episódios de agressões e de assédio moral na rede social

    Análise da Anistia Internacional identifica mensagens problemáticas ou abusivas no Twitter
    Análise da Anistia Internacional identifica mensagens problemáticas ou abusivas no Twitter - Richard Drew/Associated Press
    Você quer transar? Essa foi uma resposta a um post meu que pedia sugestões de perfis para seguir no Twitter. O comentário recebeu mais de 200 likes. Pessoas acham natural ou divertido uma mulher ser abordada dessa forma nas redes sociais. É rotina.
    Tanto que episódios de agressões e de assédio moral passaram a ser radiografados pela Anistia Internacional, desta vez em parceria com a Element AI, empresa de inteligência artificial. Batizado de Troll Patrol, o projeto analisou milhões de tuítes recebidos por 778 jornalistas e políticas, nos EUA e no Reino Unido. 
    Os dados mostram que 7,1% das mensagens são consideradas problemáticas ou abusivas, o equivalente a uma a cada 30 segundos. Negras, mestiças, asiáticas e latinas tinham 34% mais chances de receber ataques racistas, misóginos ou homofóbicos do que brancas.
    Tanto faz o espectro político. Jornalistas e políticas de direita e de esquerda enfrentam níveis semelhantes de abuso, mas as que defendem ideias progressistas recebem mensagens um pouco mais agressivas. Não há dados sobre o Brasil, mas sabemos o que ocorreu neste ano de eleição. 
    Para a Anistia, ainda que o Twitter tenha atualizado sua política contra a propagação de ódio, este relatório, somado a informações dos dois últimos anos, mostra que a empresa “falhou em sua responsabilidade de investigar e responder às denúncias, o que leva muitas mulheres a se calar ou se censurar”. 
    O ideal seria que ninguém agisse como troglodita ou precisasse de babás eletrônicas para fiscalizarem seu comportamento. Se você tem dúvida (e tem gente que não tem noção de como é tosco) ou quer checar quão agressivo é na internet, faça o teste no site do projeto. Uma ferramenta avalia a toxicidade dos comentários. O feito no meu post, por exemplo, foi considerado 76% abusivo. Não, não foi só brincadeira. 
     
    Mariliz Pereira Jorge