segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Eleição fortalece projeto de poder da Assembleia de Deus Madureira, FSP

Anna Virginia Balloussier
SÃO PAULO
Existe o Antonio Cezar Correia Freire e existe o Cezinha de Madureira. São, a princípio, o mesmo homem. Mas pode ter certeza que não foi à toa que o deputado federal eleito pelo PSD escolheu carregar sua igreja, a Assembleia de Deus Ministério Madureira, na alcunha política.
“Sou cristão, sou crente, sou pastor. E estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder”, diz à Folha em seu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo, da qual se despede em 2019 para assumir uma cadeira na Câmara.
Sua eleição é um passo a mais no projeto de poder desta gigante da fé, que concorre com outra ala assembleiana, Ministério Belém, como maior igreja evangélica do Brasil. 
Cezinha de Madureira, 44, pastor e deputado federal eleito por São Paulo (PSD), em seu gabinete na Alesp
Cezinha de Madureira, 44, pastor e deputado federal eleito por São Paulo (PSD), em seu gabinete na Alesp - Gabriel Cabral/Folhapress
Para Cezinha, tem muito deputado por aí que se coloca como porta-voz do povo evangélico no Congresso. Calma lá.
“Você pega três, quatro, cinco, alguns até que perderam a eleição, que dizem que estão representando a igreja.  Mas pra mim representante de igreja é aquele que tem pastor, liderança”, afirma, numa crítica velada a deputados que pastoreiam suas próprias denominações, bem menores do que a colossal Madureira.
A máxima de Cezinha: “Quem não aceita ser liderado nunca está pronto para liderar. Como ouço alguém falar em nome dos deputados que se declaram evangélicos, alguém que não tem nem líder? Não, senhor, não é assim, não. Tem um povo aqui que não quer ouvir só aquelas lorotas de microfone, não”.
Para ele, “as duas maiores igrejas, Madureira e Belém, essas, sim, formam o maior número de evangélicos”.
Não cita nomes de parlamentares, mas menciona Silas Malafaia, à frente de um galho menor da Assembleia, a Vitória em Cristo, e tem políticos que apadrinha, como o deputado federal reeleito Sóstenes Cavalcante, e o irmão Samuel Malafaia, deputado estadual eleito (os dois pelo DEM-RJ).
O deputado eleito parabeniza o pastor carioca “pelo trabalho dele”, mas frisa: “Não é meu pastor, não me perguntou se pode falar por mim”.
A saída de Cezinha não desfalcará esta Assembleia de Deus na Assembleia Legislativa paulista: em 2019 chega à Casa Alex de Madureira (PSD), outro pastor convocado para defender os interesses da igreja no meio político.
Essas são os “puros-sangues” de Madureira —que, nas palavras de um assessor, têm o “traquejo” da igreja, foram “doutrinados” lá e contam com a bênção de seu bispo. 
Dali saíram ainda outros peixes graúdos na política, como João Campos (PRB-GO), que já presidiu a bancada evangélica na Câmara e agora sonha em liderar a Casa toda, e João Jorge, que assumirá a Casa Civil no governo de outro João, o governador eleito Doria.
Segundo Jorge, durante o pleito, “a cúpula da igreja ajuda manifestando apoio como pessoas físicas e líderes que são”. A lei eleitoral tem uma série de vetos à atuação direita das igrejas em campanhas, como ao proibir que candidatos façam campanha em “bens públicos de uso do povo” (não só templos, como estádios e cinemas, por exemplo).
Nada que tenha impedido, nos últimos anos, um beija-mão no bispo titular da Madureira, Samuel Ferreira, que inclui políticos como Doria, Geraldo Alckmin e Michel Temer.
De Doria o bispo ouviu em 2017, numa visita à sua igreja do então prefeito que sonhava em ser o candidato do PSDB à Presidência: “Entre amigos dizemos: a química existe”. 
E retribuiu: “Quando [Doria] manda um WhatsApp saio mostrando pra todo mundo, óbvio. Faturar um pouquinho não faz mal a ninguém”.
Eduardo Cunha (MDB-RJ), o outrora todo-poderoso presidente da Câmara que caiu em desgraça e hoje está preso, era próximo da Madureira. Tão próximo, aliás, que uma denúncia da Procuradoria-Geral da República afirmava que Cunha teria transferido R$ 250 mil para uma conta bancária da igreja —supostamente, parte de uma propina de US$ 5 milhões.
Advogado do bispo Samuel, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, diz que não há “absolutamente nada” contra seu cliente, apenas “uma citação”. Também afirma que, “por falta de qualquer indício sério, sequer houve um aprofundamento na investigação”.
No Censo de 2010, a Assembleia de Deus liderou o ranking de denominações evangélicas, com 12,3 milhões de fiéis (a Universal, por exemplo, tinha 1,9 milhão). Não pode ser encarada como uma só igreja, pois se divide em várias ramificações, que não necessariamente dialogam entre si.
Cezinha de Madureira com o presidente eleito, Jair Messias Bolsonaro, no estádio Allianz Parque
Cezinha de Madureira com o presidente eleito, Jair Messias Bolsonaro, no estádio Allianz Parque - Reprodução/Facebook
As Assembleias mais poderosas, Madureira e Belém, já divergiram em eleições. Em 2010, por exemplo, a primeira apoiou a petista Dilma Rousseff, e a segunda, o tucano José Serra. Neste pleito, um consenso: Jair Bolsonaro (PSL).
A Madureira tem como bispo primaz Manoel Ferreira, colega do presidente eleito na Câmara de 2007 a 2011. Quem manda mesmo lá, atualmente, é seu filho Samuel.
Cezinha lembra que a relação de Bolsonaro com a igreja não é de hoje. O hoje presidente eleito já foi a convenções da Madureira. Em seu site, por exemplo, Arolde de Oliveira, que se elegeu senador no Rio numa dobradinha com Flávio Bolsonaro, destaca a participação de Eduardo Cunha num evento de 2015 já no primeiro parágrafo —e a presença do deputado Bolsonaro no último, junto com a prefeita de Iguaba Grande (RJ).
“Bolsonaro vivia na nossa igreja”, numa época em que “ninguém acreditava” nele, diz Cezinha, para quem a oratória inflamada do presidente eleito, que já falou em fuzilar opositores (de FHC, nos anos 1990, à “petralhada”, em 2018) tem lugar no meio cristão.
Lembra que Jesus tinha 12 apóstolos, “e um dos mais bravos se tornou o líder da Igreja” (Pedro). “O povo clamava por alguém com discurso duro para colocar o Brasil nos trilhos.”
O leme para a temporada em Brasília ele aprendeu em casa, conta. "Minha vó dizia: na dúvida, seja conservador. Temos que defender os bons costumes."

Ruy Castro Confusos e distraídos, FSP

'Tchau, Tasso', disse eu ao Ciro

Ciro Gomes (à esq.), candidato à Presidência na eleição deste ano, e Tasso Jereissati, senador
Ciro Gomes (à esq.), candidato à Presidência na eleição deste ano, e Tasso Jereissati, senador - Fotos Eduardo Anizelli/Folhapress e Renato Costa/Folhapress
Uma amiga andou perdendo o sono por causa do Natal. Nada a ver com compras ou presentes. Mas porque, noites em seguida e até de manhã, o tec-tec de uma bolinha de pingue-pongue no andar de cima não a deixava dormir. Ele se perguntava como o casal seu vizinho conseguia jogar pingue-pongue a noite inteira e sair cedo para trabalhar. Mas o mistério acaba de se resolver. Ninguém estava jogando pingue-pongue. Era a gatinha do casal brincando com uma bola que subtraíra à árvore de Natal de seus donos. Essas bolas não são mais de vidro, mas de plástico, como as de pingue-pongue, e fazem o mesmo tec-tec. 
Minha amiga atribuiu o equívoco à sua imaginação, que às vezes se mistura com a realidade a ponto de se confundirem. Ela é daquelas que fazem sinal para o metrô na estação, tentam abrir a roleta com a chave de casa e, ao volante, abaixam a cabeça ao entrar no túnel. Um dia, numa loja, esbarrou num manequim e pediu-lhe desculpas pensando que era o vendedor. Já lhe aconteceu de, ao tomar um ônibus, esquecer o filho no ponto e só se dar conta disso no ponto seguinte. E, fã de jazz, passou uma noite conversando comigo sobre o baterista Gene Krupa. Só que ela o chamava de Frank Capra, que, como se sabe, foi um diretor de cinema. 
Eu próprio vivo dando foras. Há anos, fui apresentado num aeroporto ao cearense Ciro Gomes. Conversamos por alguns minutos e pedi licença: “Bem, tenho de tomar um avião. Tchau, Tasso” —e saí, confundindo Ciro com seu arqui-inimigo na política do Ceará, Tasso Jereissati. 
Às vezes, a confusão é coletiva. Estava eu num botequim com o escritor baiano Marcos Santarrita quando entra um sujeito e me pergunta: “O senhor é o João Ubaldo Ribeiro?”. E eu: “Não. Eu sou o Rubem Fonseca”. Apontei para o Santarrita: “Ele é que é o João Ubaldo Ribeiro”. 
O homem nos abraçou, empolgado. Era fã do Zé Rubem e do João Ubaldo.
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

O homem que construiu a Paris que conhecemos hoje, BBC CULTURA


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Image captionA Paris que conhecemos hoje surgiu no século 19
Paris ainda é uma das cidades mais visitadas do mundo, e o distrito do Marais é um dos mais populares entre as milhões de pessoas que frequentam a cidade a cada ano.
Popular entre aristocratas antes de Luís 14 (o “Rei Sol”) transferir a corte para Versailles, essa animada região de ruas estreitas e casas históricas caiu no abandono nos séculos seguintes antes de renascer nas ultimas décadas como um charmoso labirinto de lojas fashion, cafés, restaurantes, museus e galerias.
Ao andar por essas agitadas ruas medievais, é difícil de acreditar que elas já foram consideradas “o inimigo”, algo que deveria ser demolido imediatamente. E quem queria fazer isso era ninguém menos que o imperador francês Napoleão 3º e seu chefe de departamento de Paris, George-Eugène Haussmann.
Como grande parte de Paris, Marais fedia horrivelmente em 1853, quando o imperador deu instruções a Haussmann para reconstruir a cidade com grandes e salubres avenidas. Regiões inteiras da cidade seriam demolidas e substituídas por avenidas.
“Era a reconstrução de Paris”, escreveu Haussmann, orgulhoso, em seu livro de memórias.
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Image captionNapoleão 3º e Haussmann queriam acabar com o hoje popular Marais

O homem demolição

Administrador público sem nenhum treinamento em arquitetura ou planejamento urbano, Haussmann transformou Paris em um enorme canteiro de obras por 20 anos. Apesar de ter sido forçado a deixar o cargo em 1870, quando o imperador enfrentava críticas por excesso de gastos públicos, seu projetos continuaram sendo seguidos até o final dos anos 1920.
Concebido e executado em três fases, o plano incluía a demolição de 19.730 prédios históricos e a construção de 34 mil novos. Antigas ruas foram substituídas por grandes e amplas avenidas, caracterizadas por fileiras de prédios neoclássicos em tons de creme alinhados e proporcionais.
Além das grandes avenidas, Haussmann construiu grandes quarteirões, parques inspirados no Hyde Park, de Londres, um sistema de esgoto abrangente, um novo aqueduto que dava acesso amplo a água doce, uma rede de canos de gás subterrâneos para iluminar ruas e prédios, fontes complexas, banheiros públicos grandiosos e fileiras de árvores.
Essa infraestrutura urbana foi combinada com novas e ousadas estações de trem – Gare du Nord e Gare de L'Est – a opulenta Opera de Paris, novas escolas, igrejas, mais de 20 praças, ambiciosos teatros na Place du Châtelet, o gigante mercado de comida de Les Halles (do livro O Ventre de Paris, de Èmile Zola), e uma sensacional rede de avenidas radiais saindo do Arco do Triunfo, no centro da Place de l’Ètoile de Haussmann.
Rebatizada de Place Charles de Gaulle, l’Ètoile é um pesadelo para motoristas estrangeiros: você tenta dirigir entre carros velozes vindo de várias direções diferentes enquanto tenta negociar – ou lutar – para abrir caminho no entorno do arco, monumento de celebração de vitória de Napoleão.
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Image captionHaussmann criou grandes quarteirões, sistema de esgoto e parques como o Bois de Boulogne

Transformação radical

Nenhuma outra grande cidade, antes ou desde então, sofreu uma transformação tão radical quanto Paris em tempos de paz. Foram necessários inúmeros trabalhadores – qualificados e não qualificados – assim como arquitetos, engenheiros e paisagistas.
Ela devolveu a saúde à cidade após anos de cólera e tifo. Deu a parisienses de todas as classes parques onde brincar e relaxar.
Teoricamente, suas largas avenidas permitiam que tropas do governo se movimentassem livremente para manter a ordem em um tempo de barricadas, protestos e outros distúrbios. E, em uma época em que a cidade dobrou seu tamanho e a população triplicou, ela deu a Paris um senso de unidade com um ar de prosperidade burguesa.
O que ainda surpreende é que tantas partes da cidade tenham sido destruídas e refeitas no que parece uma extravagância do imperador e Haussmann. Mas Napoleão 3º estava seguindo os passos de seu tio, Napoleão Bonaparte, que também tinha grandes projetos para Paris. “Se ao menos os céus tivessem me dados mais 20 anos de poder e um pouco de lazer”, escreveu ele no exílio após a batalha de Waterloo, “uma pessoa procuraria em vão pela antiga Paris; não sobraria nada a não ser vestígios”.
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Image captionUma dúzia de avenidas parte do Arco do Triunfo, um verdadeiro pesadelo para motoristas estrangeiros
Em 1925, o visionário arquiteto franco-suíço Le Corbusier publicou seu Plan Voisinpara Paris, um projeto patrocinado por Gabriel Voisin, pioneiro da aviação francesa e fabricante de carros de luxo. O plano iconoclasta planejava demolir grande parte do centro da cidade ao norte do Sena. No lugar entrariam parques de onde sairiam prédios residenciais altos. Os carros andariam pela cidade em elevados de concreto livres de pedestres.
O plano de Le Corbusier foi considerado radical demais e não foi para frente. Mas, antes dele, Haussmann também foi criticado. O renomado estadista Jules Ferry (1832-93) escreveu: “Choramos com os olhos cheios d’água pela velha Paris, a Paris de Voltaire... a Paris de 1830 e 1848, quando vemos os grandes e intoleráveis novos prédios, a custosa confusão, a vulgaridade triunfante, o terrível materialismo que vamos transmitir para nossos descendentes.”
Ou, como o historiador do século 20 Réné Héron de Villefosse coloca, pensando particularmente na transformação de Haussmann na Île de la Cité, “o velho barco de Paris foi torpedeado pelo Barão Haussmann e afundou durante seu reinado. Foi talvez o maior crime do megalomaníaco governador e também seu maior erro. Seu trabalho causou mais danos que centenas de bombardeios.”
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Image captionVillefosse disse que “o velho barco de Paris foi torpedeado pelo Barão Haussmann e afundou durante seu reinado"

Sempre teremos Paris

Quando, em 1944, as forças aliadas marcharam para liberar a cidade e Adolf Hitler ordenou que Paris fosse destruída, o comandante alemão Major General Dietrich von Choltitz se recusou a obedecer. Paris era bonita demais para ser arrasada.
Os planos de Haussmann foram impressionantes pelo fato de ele ter conseguido resultados com padrões tão altos e uniformes em tão pouco tempo. Administrador público, Haussmann era um homem que se impunha e, apesar de ser um músico talentoso, não era sentimentalista. Ele demoliu até a própria casa em que nasceu – 55 rue Faubourg-du-Roule -, apesar de ter boas memórias da infância.
Sobre sua primeira reunião com Haussmann em 1853, Napoleão 3º escreveu: “eu tinha diante de mim um dos homens mais extraordinários de nosso tempo, grande, forte, vigoroso, com energia, e ao mesmo tempo esperto e malandro, com a alma cheia de recursos”.
Hemis AlamyDireito de imagemHEMIS ALAMY
Image captionA visão de Haussmann aparece nas fachadas de Paris
A parceria entre o ambicioso imperador francês e seu governante foi notória. Um ano após a demissão de Haussmann por excesso de gastos, porém, Napoleão 3º caiu após a derrota da França na guerra franco-prussiana. Ele foi para o exílio em Chiselhurst, Kent, onde morreu em 1873.
Após sua demissão, Haussmann foi eleito deputado em Ajaccio, Corsega, onde Napoleão Bonaparte nasceu.
Ele encontrou tempo para escrever três volumes de memórias. Elas não são muito lidas atualmente, mas sua memória ainda vive na nova Paris que ele moldou – e em cidades como Barcelona, que seguiram seu exemplo – mas não nas estreitas mas amadas ruas do Marais.