sexta-feira, 26 de julho de 2013

Jornalista não planeja futuro nem reflete sobre profissão, diz estudo



Foto: Marcos Santos / USP Imagens
O perfil do jornalista mudou. A nova geração é hegemonicamente feminina, com menos de 35 anos, não sindicalizada, de formação política débil, massacrada pelo tipo de empregabilidade a que está submetida e pela densificação do trabalho. As evidências desta realidade estão reunidas no livro As mudanças no mundo do trabalho do jornalista (Editora Atlas, 2013), organizado por Roseli Figaro, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da ECA. O livro conta com textos de Rafael Grohmann e Cláudia Nonato, doutorandos do CPCT, além de préfácio de José Marques de Melo, jornalista e um dos fundadores da ECA. Em 1972, Melo e o também professor da ECA, Jair Borin, traçaram o “perfil do jornalista profissional em São Paulo” da época, relatório reproduzido no pósfácio desta edição.
A pesquisa foi construída a partir de 2010 com quatro tipos de amostras. Os componentes do Grupo A foram captados por redes sociais, principalmente via email. Uma segunda amostra abordou os profissionais do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo (Grupo B). Jornalistas contratados de uma grande empresa editorial de São Paulo compuseram o Grupo C. A quarta amostra utilizou como critério jornalistasfreelancers (Grupo D).
Do cruzamento desses dados, o grupo percebeu, sob o ponto de vista quantitativo, que os jornalistas sócios do sindicato são majoritariamente homens e de gerações mais velhas, com mais de 35 anos. Nos outros grupos de amostragem, destacaram-se mulheres jovens não sindicalizadas. Houve, portanto, uma mudança do perfil dos jornalista por gênero e também a constatação de que os jovens se sindicalizam menos.
Roseli conta que, durante a análise qualitativa, surgiram questões dos jornalistas relacionadas ao engajamento e descrédito na organização enquanto categoria. “Acredito que isso se dê pela atual situação de empregabilidade e pela precarização desses laços, que tornam a questão da sindicalização e da organização muito frágeis”, afirma.
Uma das perguntas do questionário queria saber se o profissional encontrava tempo para planejar sua vida – se tem conseguido planejar para curto, médio ou longo prazo, ou não tem conseguido planejar. Os resultados apontaram que os mais jovens e os profissionais freelancers são os que menos têm conseguido planejar. “Isso quer dizer trabalhar hoje, para consumir hoje e não saber como será seu trabalho no ano que vem”, explica a professora. Ela aponta que essas pessoas, com instabilidade e dificuldade em se relacionar com o mundo do trabalho, não vislumbram soluções coletivas – como sindicalizar-se ou organizar-se para pleitear melhores condições de trabalho –, mas sempre saídas individuais como, por exemplo, arranjar mais um emprego. “A solução de classe jornalística parece que se esvai”,acrescenta Rafael Grohmann.
Clique para ampliar | Foto: Divulgação
O doutorando considera que os jornalistas mais jovens têm uma perspectiva “ajustada às prescrições do sistema econômico capitalista” no sentido, por exemplo, da valorização do empreendedorismo. Ele avalia que pouquíssimos entrevistados iam contra o pensamento contra hegemônico.
Roseli relata falas daquele profissional que não se encontra nas grandes mídias e que procura trabalho em mídias alternativas para se realizar enquanto jornalista. “Ele não se via respondendo aos paradigmas da profissão, como a aspiração do jornalista como mediador social, seu comprometimento com as causas da verdade, da democracia, da cidadania nas grandes mídias”, aponta Roseli. Ela ressalta que esse tipo de profissional só conseguia suprir seus anseios quando ele mesmo se patrocinava, trabalhava de graça ou batalhava para publicar material próprio e independente em sites e revistas alternativas. Quando esse profissional conseguia colocar pautas alternativas na grande imprensa, Grohmann relembra que o termo utilizado era “contrabandear informação”.
Grohmann questiona também até que ponto os jornalistas estão discutindo política na sua formação. Ele relembra dois relatos. Um, de uma menina que dizia fugir da aula de política na faculdade. Outro, de uma pessoa que afirmava não saber a diferença entre PMDB e PSDB e que também não demonstrava interesse em aprender, pois não se interessava pelo assunto e preferia que Paulo Maluf escrevesse uma matéria sobre política do que ela.
Um entrevistado afirmou não saber a diferença entre PMDB e PSDB e que não queria aprender, pois não se interessava pelo assunto e preferia que Paulo Maluf escrevesse uma matéria sobre política do que ele.
Foto: Divulgação
No livro, enquanto Cláudia Nonato focaliza o segmento dos jornalistas sindicalizados em São Paulo, Grohmann trabalha o jornalista como receptor, buscando compreender quais os produtos culturais preferidos pela categoria.
Ele percebeu que, embora o jornalista acesse mídias alternativas, o que ele mais segue ainda é a mídia tradicional e grandes veículos de comunicação. E a busca, geralmente, está mais ligada ao seu trabalho do que à obtenção de informação em si. “Ele assiste à televisão para criticar o trabalho dos outros ou então para melhorar seu próprio desempenho. O jornalista nunca desliga, mesmo quando está no sofá de casa”, aponta Grohmann. O pesquisador retoma a questão do ajustamento às prescrições do sistema econômico capitalista, afirmando que o jornalista chega, em sua crítica, no máximo a “que off ruim, essa manchete não está boa, essa passagem não ficou legal”, e não consegue atingir críticas ideológicas mais profundas.
O doutorando critica também a existência esporádica, dentro das faculdades de jornalismo, do debate do jornalista enquanto profissional, justamente em um momento em que a categoria presencia uma séria de demissões. “O jornalista poucas vezes se pensa enquanto trabalhador, ele é o super-herói, o salvador da pátria”, explica. “Mais do que os dados quantitativos, acho que o maior crédito do nosso livro é provocar essa discussão. A classe dos jornalistas está trabalhando muito e não está olhando direito para essas questões tão fundamentais”, afirma Grohmann.

Serviço

As mudanças no mundo do trabalho do jornalista (E-book)
Roseli Figaro (Org.), Cláudia Nonato e Rafael Grohmann
Lançamento: 15 de agosto, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo)
Preço sugerido: R$ 47,00. Promoção de lançamento: desconto de 30% para professores e de 20% para o público em geral.
O livro está disponível para aquisição no site da Editora Atlas.
Mais informações: comunicacaoetrabalho@gmail.com

Cidades inteligentes precisam dar mais importância às pessoas

Governos têm dificuldade de conectar serviços públicos aos cidadãos (Foto: Igo Bione / JC Imagem)
“Recife é mais amada que habitável”, disse . Iniciativas locais já foram implementadas, mas é preciso ter cuidado para não segregar, dizem especialistas
O termo “” vem mobilizando o pensamento sobre tecnologia e políticas públicas. Indo além da simples engenharia, essas ações teriam como proposta integrar cidadãos e governos através de sistemas como forma de melhorar a vida em comum. Uma palestra na  Recife nessa quinta (19) levantou questões que mostraram que o assunto é bem mais complexo do que parece.
Segundo o consultor de cenários e gestão estratégica do , Cláudio Marinho, existe hoje uma dificuldade para os governos oferecerem serviços inteligentes aos cidadãos. “Existe hoje um entrave no poder público em conectar serviços urbanos aos cidadãos empoderados pela tecnologia”, disse. Por causa dessa discrepância, diversos assuntos como mobilidade, sustentabilidade, segurança e governança não são atendidos de uma maneira eficaz.
Sobre o assunto, Marinho soltou a frase mais inspirada da noite de ontem: “Recife é mais amada que habitável”. A cidade começa agora a divulgar ações voltadas para cidades inteligentes. Uma delas é o sistema de aluguel de bicicletas feita em parceria com o Porto Digital. Há também uma mesma iniciativa do Governo do Estado. A população pode acessar um site ou um aplicativo e usar as bikes para locomoções curtas. Há também um concurso acontecendo que incentiva desenvolvedores a usar os dados abertos da prefeitura para criar soluções e aplicativos.
Mas, para Marinho ainda há erros na atual gestão, como o incentivo à verticalização, que não é típico de uma cidade inteligente. O mesmo vale para o incentivo ao uso do carro. “Não sou contra o adensamento urbano, que é ótimo para a cidade por diminuir custos e promover a criatividade. Mas, o empilhamento habitacional do modo como está sendo feito é insustentável”, disse. “Estamos emburrecendo no modo de fazer cidade. É um retrocesso em algo que já fomos tão bons, como arquitetura e urbanismo”.
Delta City, de Robocop: não é essa cidade inteligente que queremos (Divulgação)
Delta City, de Robocop: não é essa cidade inteligente que queremos (Divulgação)
Cuidado com a DeltaCity
Quem lembra do cenário nada idílico de Robocop? O futuro pensado no clássico filme de Paul Verhoeven mostrava uma sociedade futurista dominada por uma única corporação e com todos os serviços integrados e conectados. O mesmo vale para outras obras, como o mundo de Homem-Aranha 2099, em que a opressão é total. “Precisamos ter cuidado com essas ‘smart cities’ em que tudo é coordenado e controlado de cima para baixo”, explicou Marinho. O professor de filosofia e ativista dos Direitos Urbanos  lembrou que as tecnologias não podem segregar as pessoas.
“A tecnologia não pode se sobrepor às interações das pessoas. As cidades são misturadoras de gente e o que acontece no Recife hoje é um isolamento, seja através do uso do carro ou do incentivo aos grandes centros de compras. Isso gera uma padronização, o que é péssimo para a criatividade”, disse. Cisneiros lembrou que muitas vezes a tecnologia investe em um paradigma ultrapassado. Um exemplo prático foi a demora para a máquina de escrever ser aposentada de uma vez. Criaram-se as elétricas, as com corretor integrado.
O mesmo estaria acontecendo com os carros. “O Google gasta milhões para desenvolver um carro autônomo, controlado por computador, inteligente, que não bate, etc. Mas ainda é um carro. Ou seja, contribui para segregar, complicar o trânsito e é contraproducente já que leva poucas pessoas comparado ao transporte coletivo”, explicou Leonardo.
Aluguel-de-bike-no-Recife
 de aluguel estão promovendo uma reapropriação da cidade pelas pessoas (Foto: Fábio Jardelino / NE10)
A revolução é retrô
Recife e cidades como São Paulo e Rio de Janeiro viveram nos últimos anos um incentivo ao uso da bicicleta como modal de transporte. É prático, barato e mais rápido que pegar um carro ou esperar um ônibus. Ainda tem como vantagem o fato de ser um exercício físico, dizem seus entusisastas. Mas essas magrelas promoveram mais do que uma mobilidade, mas uma revolução.
“Muitas vezes uma revolução vem de algo que aparentemente é menos tecnológico, como as bicicletas”, disse Leonardo. “Recife deu um passo importante e já vemos crescer o interesse por esse sistema com a ampliação de ciclofaixas”. No encontro ainda estave presente , presidente da Serttel, empresa pernambucana que criou os sistemas de aluguel de bikes no Recife e no Rio de Janeiro.
“As bicicletas estão promovendo uma reapropriação da cidade pelas pessoas. Com velocidade reduzida e uma maior exposição passamos a refletir mais, a pensar mais, a olhar a cidade. Isso já está gerando uma mudança, com as pessoas descobrindo mais o seu próprio bairro, incentivando os pequenos comércios e ocupando mais os espaços públicos”.
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domingo, 21 de julho de 2013

Reduzir conta de juros não é panaceia - SAMUEL PESSÔA


FOLHA DE SP - 21/07

Se conseguirmos reduzir o gasto com juros, o que sobrará para o Tesouro estará longe de ser panaceia


Nas últimas semanas, tenho defendido que, apesar da elevadíssima carga tributária, a má qualidade dos serviços públicos não se deve a ineficiências generalizadas ou à elevadíssima corrupção.

Tenho argumentado que o gasto é muito elevado por causa de transferências a grupos da sociedade --a maior parte delas aprovadas pelo Congresso Nacional--, que oneram muito o Tesouro Nacional.

Adicionalmente, tenho defendido a ideia de que a operação interna do setor público e as regras de direito administrativo às quais o Estado está sujeito deixam muito pouco espaço para que o Executivo melhore a qualidade com medidas de gestão.

Qualquer agenda de melhoria dos serviços públicos passará necessariamente por novas rodadas de elevação da carga tributária e por complexo programa legislativo de mudanças institucionais do Estado.

Uma rubrica do gasto público de que não tratei até o momento em minhas colunas é do custo do pagamento de juros.

Em geral, os economistas não consideram esse item quando avaliam a situação fiscal do Estado. O motivo é que o gasto com juros não é controlado pela autoridade fiscal. Ele é determinado pela taxa de juros, ligada à política de combate à inflação, e pelo tamanho da dívida pública sobre a qual os juros incidem.

Para a redução da conta com juros, são necessários muitos anos de política fiscal conservadora, que diminuam a dívida pública e, assim, o peso dessa rubrica no Orçamento.

O grande problema com os juros é que, apesar de não estar nas mãos da Fazenda determinar esse gasto, ele representa uma real transferência de renda da sociedade aos poupadores ou rentistas (como desejar o leitor). Esse mecanismo de transferência torna o debate sobre o pagamento de juros um tanto quanto ideológico, o que leva a erros básicos de interpretação.

Por exemplo, é comum pessoas contabilizarem como gasto com juros a amortização da dívida pública. Suponha que um inquilino de um imóvel, após alguns anos, tenha que desocupá-lo, pois o senhorio o requisitou. Considerar que a amortização de um empréstimo é um gasto é equivalente a achar que no ato de devolução de um imóvel alugado o inquilino tem despesa equivalente ao valor do imóvel!

Ao amortizar uma dívida, o Tesouro Nacional está somente devolvendo algo que não lhe pertence.

Entendido esse ponto, é possível dizer que o gasto público com juros tem rodado desde 2008 na casa de 5% do PIB ao ano. Se essa conta fosse substancialmente reduzida, sobraria espaço para melhorar a qualidade do gasto público sem ter que aumentar a carga tributária.

Ocorre que esses números referem-se aos gastos com juros nominais. Os papéis financeiros que compõem a dívida pública perdem valor com a inflação. Assim, parte dos juros pagos simplesmente recompõe o valor do ativo financeiro.

A parcela do pagamento de juros aos rentistas que só repõe o valor real do ativo financeiro não é renda de fato para o detentor do título público. A renda é um recurso que as pessoas têm para gastar sem que a sua situação patrimonial se reduza.

Se elas gastam a correção monetária dos recursos investidos na dívida pública, estão gastando mais do que a renda. E, se essa parte não é renda para o rentista, tampouco é gasto real para o Tesouro.

A inflação no Brasil tem rodado na casa de 5% ao ano, e a dívida pública encontra-se por volta de 40% do PIB. Multiplicando a dívida pela inflação, chega-se a 2% do PIB. Ou seja, dos 5% do PIB de pagamento dos juros nominais, somente 3% correspondem aos juros reais pagos. Esse é, de fato, o gasto do Tesouro Nacional com sua dívida.

Se mantivermos uma política fiscal conservadora por mais alguns anos e conseguirmos reduzir essa conta dos 3% do PIB para 1%, algo mais próximo da experiência internacional, aparecerá no caixa do Tesouro uma parcela adicional de recursos de 2% do PIB. Está longe da panaceia que alguns acreditam.

Há os que consideram que a conta salgada dos juros pagos aos rentistas é o grande problema fiscal brasileiro e que, uma vez resolvida essa questão, muito mais Orçamento será liberado para investimentos e políticas públicas.

Como procurei mostrar neste artigo, é bom que essas pessoas comecem a buscar recursos em outras rubricas das contas públicas.