domingo, 27 de fevereiro de 2011

Escolhas fundamentais

Gouverner c’est choisir - governar é fazer escolhas -, dizia o intelectual e político francês Mendez-France, primeiro-ministro daquele país na segunda metade dos anos 50.
O governo Dilma está diante de escolhas. Não falo das que fazem parte da rotina de qualquer governo, a qualquer tempo, em qualquer lugar. Falo das que podem definir rumos para o País. A demanda global crescente por minerais, petróleo e, principalmente, alimentos - tendência estrutural que não deve esmorecer tão cedo e em grande medida nos favorece - gera receita e oportunidades para os setores produtores de commodities, ao mesmo tempo que cria pressões sobre o meio ambiente e a indústria de transformação.
Não são propriamente questões novas. Já estavam aí. Tornaram-se, no entanto, mais prementes. E menos suscetíveis de decisões que representem puro compromisso circunstancial. Dilma terá de impor com mais nitidez limites às muitas agendas setoriais em disputa dentro do seu governo. E sinalizar rumos com mais clareza, em questões centrais e conflituosas que pedem decisão.
Tremendo desafio político, considerando a diversidade das forças que compõem a base de apoio construída por Lula para a sua eleição.
Em artigo recente neste espaço, André Nassar apresentou estimativas sobre o aumento do consumo global de um conjunto de produtos agropecuários. Vale a pena citá-lo: "A FAO nos diz, com base em cenários de demanda, que a produção de carnes precisa crescer 48% de hoje a 2030 e mais 21% de 2030 a 2050. O milho (...) terá de crescer 30%, no primeiro período, e mais 17%, no segundo. Oleaginosas, como a soja, (...) terão de crescer 43% e 37%, respectivamente. Açúcar, 60% e 15%, levando em conta iguais períodos. Mesmo o arroz, produto menos dinâmico, terá de crescer 19% e 4%. De hoje a 2050 o mundo terá de produzir mais 1 bilhão de toneladas de milho e oleaginosas, sendo necessários 90 milhões de hectares a mais; 60% dos quais terão de estar em produção até 2030 (só para essas culturas)".
Em todos os produtos mencionados, acrescenta Nassar, a produção brasileira tem ampliado a sua fatia na produção mundial. E aqui ainda há terras disponíveis, de boa qualidade e relativamente baratas, a despeito da valorização recente. Não surpreende, portanto, que o investimento na compra de terras para produção agropecuária venha crescendo no Brasil, atraindo, entre outros, grandes fundos de investimento estrangeiros.
Nas últimas duas décadas, a produção agrícola brasileira cresceu praticamente sem expansão da área plantada, indicando ganhos significativos de produtividade, sobretudo em grãos. Segundo os especialistas, no entanto, será difícil que os futuros ganhos de produtividade acompanhem o crescimento da demanda por alimentos. Já a pecuária se expandiu de forma extensiva, sendo a principal responsável pelo desmatamento nesse período. Tem muito a ganhar em produtividade.
Será possível abocanhar parte significativa da demanda global por alimentos nas próximas décadas "apenas" substituindo pastagens degradadas por área plantada e intensificando o uso da pecuária nas pastagens de boa qualidade, sem desmatamento adicional algum? Ou valeria a pena incorporar novas áreas do Cerrado, sabidamente aptas à agricultura, ainda que com o sacrifício de alguma cobertura vegetal? São questões que a controversa mudança do Código Florestal não esgota e que exigirão do governo, se quiser enfrentá-las, e não apenas empurrá-las com a barriga, o uso do capital político recebido das urnas, seja qual for a escolha que vier a ser feita.
Chegou a hora também de fazer escolhas sobre o futuro da indústria brasileira. Desde os primórdios da abertura da economia ergueram-se vozes contra a suposta "desindustrialização" do País. Choradeira da "velha indústria" acostumada com a proteção estatal? Em boa parte, sim: descontados problemas metodológicos, que engrandecem artificialmente a perda de participação da indústria de transformação no PIB, ela até aqui se mostrou capaz de responder aos desafios da competição, mesmo em condições adversas, como indica, por exemplo, o fato de que não caiu, na pior das hipóteses, o emprego total na indústria de transformação, desde meados dos anos 90, a despeito de sua redução nas áreas metropolitanas.
Houve, porém, uma quebra estrutural nas condições do jogo global, com a entrada em campo da China e outros produtores competitivos de manufaturas, na contraface do aumento global da demanda por commodities. E essa quebra se vem aprofundando. A queda da participação dos manufaturados na pauta exportadora do País nos últimos anos chama a atenção, assim como o número de empresas que reportam perda de mercados para competidores chineses, aqui e lá fora, em pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Para Antonio Barros de Castro, diretor e assessor do BNDES no governo Lula, a indústria brasileira, quando vista da ótica global, é quase toda ela "descartável". Tudo aponta na direção de uma veloz especialização da economia brasileira em recursos naturais. Isso nos favorece no longo prazo, em matéria de emprego e progresso técnico, portanto de desenvolvimento e bem-estar futuros? A resposta não é simples, mas implicará escolhas. De imediato, cabe perguntar: haverá desoneração da folha de pagamento da indústria de transformação, para toda ela ou para alguns setores? E, se houver, novos cortes de despesa deverão ser feitos? A médio prazo, é preciso saber se vale a pena apostar tantas fichas numa atividade baseada na exploração de um recurso natural não renovável - o petróleo -, grande emissora de gases de efeito estufa, toda ela articulada em torno da Petrobrás e que certamente absorverá grande quantidade de recursos financeiros e fatores de produção. Também não há respostas claras para essas perguntas. Mas uma coisa é certa: escolhas deverão ser feitas, e não será possível satisfazer a todos.
DIRETOR EXECUTIVO DO iFHC, É MEMBRO DO GACINT-USP E-MAIL:SFAUSTO40@HOTMAIL.COM

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Precisamos mesmo de mais engenheiros?

RONALDO DE BREYNE SALVAGNI - O Estado de S.Paulo
Os noticiários têm destacado a falta de engenheiros no País. Enquanto a China forma 400 mil engenheiros por ano e a Índia uns 300 mil, formamos menos de 40 mil. Nossos dirigentes e líderes falam em PACs e concluem que nos faltam engenheiros. Mesmo que não levemos em conta a diferença de população, será mesmo verdade? Será que não estão faltando apenas técnicos um pouco mais qualificados e administradores mais competentes?
A atividade fundamental do engenheiro é o projeto de novos produtos ou processos. Num segundo nível, ele atua também na operação - obra ou chão de fábrica - para fiscalizar ou resolver imprevistos. A engenharia tem que ver com projeto, o que significa tecnologia, inovação, know-how, patentes, conhecimento próprio e independência. No Brasil, com raras e honrosas exceções, empresas apenas fabricam ou montam produtos aqui. O projeto e a tecnologia vêm de fora, empregamos nossos engenheiros só na operação, geralmente em funções que técnicos mais bem treinados ou administradores capazes poderiam desempenhar.
No setor automotivo, por exemplo, que está batendo recordes de produção e vendas (perto de 4 milhões de veículos, em 2010), o Brasil tem 25 montadoras e 500 fornecedores de autopeças, segundo a Anfavea. Algumas dessas empresas desenvolvem projetos aqui, mas a maioria apenas fabrica (eventualmente, com pequenas adaptações) ou importa peças, e monta os veículos no Brasil, com projeto e tecnologia estrangeiros. A Zona Franca de Manaus é um exemplo acabado da "indústria" de simples montagem de kits importados (os CKDs), mas que recebem o selinho de "indústria brasileira" (!).
Diz-se que o problema brasileiro está no cumprimento de prazos e qualidade. Isso, entretanto, não é problema de engenharia, é mais de administração. Engenheiros costumam assumir a administração no País, mas isso é "desvio de função". Empresas querem engenheiros com "capacidade de liderança", "formação multidisciplinar", "iniciativa e espírito de competição", isso é, um super-homem com profundos conhecimentos técnicos e, além disso, um administrador extremamente competente. Como formar esse "administrador de luxo" em cinco anos de curso? Isso não acontece em países civilizados. Lá se formam engenheiros competentes, em engenharia, e administradores competentes, em administração.
Por paradoxal que pareça, um dos empecilhos ao desenvolvimento nacional é a política industrial, simplista e obsoleta, de substituição de importações, adotada recorrentemente por sucessivos governos. Isso só leva ao protecionismo e à estagnação do desenvolvimento local. A China (ver New York Times, http://nyti.ms/dL2zp3) e a Coreia do Sul, ao contrário, adotaram a política de produção industrial voltada para a exportação, expondo suas indústrias à competição internacional e forçando seu desenvolvimento de forma fantástica. A estratégia sadia e correta não é impedir empresas estrangeiras de virem aqui competir com as nossas. O certo seria incentivar e apoiar empresas brasileiras para competirem com (e ganharem das) estrangeiras na arena global.
O Brasil tem se destacado em pesquisa científica, com crescente produção de papers, estando agora entre os 15 países mais produtivos. Porém sua produção tecnológica é quase zero, insignificante. Isso implica total dependência de tecnologia estrangeira. Aqui, as universidades só fazem pesquisas acadêmicas. Novamente com raras e honrosas exceções, empresas não fazem pesquisa nem projeto no Brasil - multinacionais, porque fazem isso na matriz, e nacionais, porque não fazem mesmo, apenas compram ou licenciam projetos no exterior.
Não tem havido a noção de que tecnologia própria é estratégica para o País. Se o Brasil quiser ocupar um espaço real no cenário global, precisa ter independência tecnológica. Não precisa propriamente de mais engenheiros. Precisa é de empresas nacionais que precisam realmente de engenheiros. Aí sim, eles vão faltar, sem dúvida.
ENGENHEIRO NAVAL E PROFESSOR TITULAR DA ESCOLA POLITÉCNICA DA USP 

O avanço do crédito expõe a valorização imobiliária

- O Estado de S.Paulo
O valor médio dos financiamentos a mutuários finais feitos pelos bancos captadores de poupança aumentou de R$ 101 mil, em 2008, para R$ 123 mil, em 2009, e para R$ 145 mil, em 2010 - o que confirma, indiretamente, a tendência de alta dos preços dos imóveis. Constatada pelos agentes do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), a alta foi confirmada pelo sindicato da habitação (Secovi) e por novas pesquisas, como a FipeZap, da USP e dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, que apresentará um índice mensal de valorização imobiliária.
Entre 2009 e 2010, os financiamentos do SBPE, que opera com os recursos das cadernetas, aumentaram 65%, de R$ 34 bilhões para R$ 56,2 bilhões. A parcela financiada dos imóveis era de apenas 48%, em 2005, subindo para 61,1%, em 2009, e para 62%, em 2010. No último ano, o número de unidades financiadas aumentou menos (39%), de 302 mil para 421 mil, o que comprova o crescimento dos preços.
Sabe-se, historicamente, que a oferta abundante de crédito é fator de manutenção ou de alta dos preços, sobretudo quando os mutuários podem alongar os prazos dos financiamentos. E esses prazos, que eram em média de 10 anos no início da década passada, agora chegam a 30 anos.
As cadernetas sustentaram o mercado de crédito para a classe média. Elas remuneram os tomadores com 6,17% ao ano mais a Taxa Referencial (TR), o que dá cerca de 7% ao ano, permitindo que os bancos financiem imóveis cobrando juros entre 10% e 11% ao ano mais a TR, ou seja, inferiores aos de mercado. Mas essa situação só persistirá enquanto houver recursos nas cadernetas. E a captação das cadernetas cresce à taxa de 18% ao ano, bem menos do que a da aplicação dos recursos. Em 2011 e 2012, segundo estimativas do setor, os valores depositados em caderneta permitirão atender a toda a demanda de crédito das construtoras e dos mutuários, mas os montantes serão insuficientes a partir de 2013.
Nos últimos anos, o SBPE alcançou sucessivos recordes, mas a simples redução do ritmo de crescimento da economia terá impacto sobre a renda dos mutuários, que precisarão ser um pouco mais cautelosos no momento de adquirir ou de substituir a casa própria por outra mais adequada.
Novos aumentos de preço seriam um fator limitador da expansão do mercado de imóveis, ao reduzir o crescimento da demanda, ainda que marginalmente. É a estabilização de preços, em termos reais, o melhor cenário para a manutenção da inadimplência em níveis muito baixos, como hoje, e para manter o mercado ativo, apesar da queda do ritmo da economia.