quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Vorcaro orientou reportagens do Metrópoles contra diretor do BC que fiscalizou Master= OESP

 BRASÍLIA – Diálogos de Daniel Vorcaro com a CEO do portal Metrópoles, Lilian Tahan, mostram que o banqueiro orientou e editou reportagens contra um dos diretores do Banco Central que apertou a fiscalização sobre o Banco Master. Tratava-se de Renato Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução da autarquia, que era mencionado em diversas conversas de Vorcaro como um dos principais obstáculos dentro do BC contra a venda do Master ao Banco Regional de Brasília (BRB).

Procurada pelo Estadão, Lilian Tahan não respondeu. O espaço segue aberto.

Diálogos indicam que Vorcaro orientou reportagem do Metrópoles contra diretor do BC e que foi publicada em painéis eletrônicos
Diálogos indicam que Vorcaro orientou reportagem do Metrópoles contra diretor do BC e que foi publicada em painéis eletrônicos Foto: Reprodução

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Como mostrou o Estadão, Vorcaro tinha encomendado a um especialista em segurança digital a produção de dossiê sobre o diretor do BC.

A conversa menciona diversas reportagens produzidas pelo Metrópoles sobre o assunto. Uma delas tinha o título: “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes, diretor do BC que vai decidir futuro do Master”, e mencionava uma suposta desconfiança sobre intenções políticas dele no trabalho de fiscalização. Tahan encaminhou o texto dessa reportagem a Vorcaro em 1º de setembro de 2025 e lhe perguntou: “Me diga o que acha!”.

Vorcaro, então, respondeu com diversas sugestões para alterações no texto. “Ficou muito bom. Eu retiraria a parte de falencia do banco. E mencionaria que reportagens disseram que ha um racha no bacen e renato estaria contra. Eu não mencionaria btg pactual explicitamente. Diria que existem especulações de que, após seu mandato que termina em outubro, estaria de malas prontas pra um dos bancões, que sao os maiores opositores da transação master - brb”, afirmou o banqueiro. Uma hora depois, Tahan devolveu ao banqueiro o texto com as alterações sugeridas por ele e lhe avisou que seria publicado.

Um dia depois, a CEO submeteu a Vorcaro outra reportagem contra Renato Gomes, com o título: “Por que um técnico de segundo escalão do BC pode definir destino do sistema financeiro”. “O que acha?”. O banqueiro respondeu com um áudio de exibição única.

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Após a publicação, em 3 de setembro, Lilian Tahan enviou uma foto seguida de uma mensagem de texto: “Em todos os painéis da cidade”. Tratava-se de uma referência à divulgação da reportagem sobre Renato Gomes em painéis eletrônicos espalhados por Brasília.

A CEO do Metrópoles também revelou a Vorcaro bastidores de apurações sobre os diretores do Banco Central e disse que fizeram um levantamento dos gastos com passagens aéreas dos diretores. Lilian Tahan encaminhou ao banqueiro a lista dos gastos e lhe avisou que Renato Gomes era o que mais tinha gastado.

“Fizemos um levantamento aqui sobre gastos com passagens e diárias dos diretores do BC. E o campeão é o personagem”, disse, em 8 de agosto de 2025. Em seguida, ela afirmou que adiantaria ao banqueiro os questionamentos que seriam feitos a Renato Gomes sobre o assunto. “E já te passo aqui a saraivada de perguntas que vamos fazer a ele!”, escreveu.

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Alguns dias depois, Lilian Tahan avisou a Vorcaro que o Metrópoles faria uma entrevista com o ex-diretor do Banco Central Roberto Campos Neto e lhe pediu sugestões de perguntas. Vorcaro enviou a ela, por escrito, três questionamentos cujas respostas poderiam favorecer diretamente o Master.

“1- sr acha que a agenda de desconcentração do mercado bancário, que o sr atuou no início do mandato foi neutralizada pelos grandes bancos?2- qual o real poder e influência dos grandes bancos em decisões de mercado que cabe ao banco central, como caso master - brb3- sr acha que a independência do bacen aprovada recentemente está funcionando a contento?”, escreveu Vorcaro.

A dinâmica de controle se manteve até o fim do processo editorial: após a realização da entrevista com Campos Neto, Lilian Tahan enviou o texto final da reportagem para que Vorcaro avaliasse e aprovasse o material antes de a publicação ir ao ar.

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Em 13 de agosto de 2025, ao receber a prévia, o banqueiro definiu a estratégia de publicação do veículo para maximizar os danos aos seus adversários e manter a campanha de difamação em pauta por mais tempo.

“Acho que o texto ta otimo. Mas eu nao falaria tanto do renato, concentraria essa materia no roberto. Senao perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte do texto sobre o renato pra materia dele!”, ordenou Vorcaro.

Na mesma sequência de mensagens, o dono do Banco Master aproveitou o acesso privilegiado à redação para censurar um termo sensível aos seus negócios no corpo da reportagem: “Outra coisa, nao acho bom citarmos falencia banco!”.

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A anuência do portal foi imediata. “Deixa comigo!”, respondeu Tahan.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Uma parte da esquerda prefere a derrota purista à vitória pragmática -Rui Tavares, FSP

 Zohran Mamdani, o prefeito de Nova York, é um grande nadador, no sentido que foi uma vez descrito por Lula ao distinguir entre os dois tipos de personagens mais comuns —e, ao mesmo tempo, mais opostos— à esquerda, numa arenga que para mim ficou memorável.

Dizia então Lula, falando no ano de 2017 sobre o PSOL: "A única coisa que eu desejo é que eles ganhem alguma coisa! Eu quero que eles governem a cidade do Rio de Janeiro! Quando eles governarem a cidade do Rio de Janeiro, metade da frescura vai acabar. Eles vão perceber que não dá para a gente nadar teoricamente: não dá para ficar na beira da praia falando para estender uma braçada para cá, uma braçada para lá, levanta a cabeça, bate um pé… ah, entra na água e vai nadar, porra!".

Multidão densa de manifestantes na Avenida Paulista, em São Paulo, com diversas bandeiras vermelhas e uma bandeira do Brasil em destaque ao centro-direita. Prédios altos e árvores ladeiam a avenida em dia claro.
Ato organizado por estudantes e realizado na avenida Paulista em apoio ao atual presidente da República e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Adriano Vizoni - 11.out.26/Folhapress

Em tempos, a grande distinção na esquerda era entre reformistas e revolucionários. Hoje, acho que mais vale aplicar o critério de Lula: quem entra na água para nadar e quem pretende ensinar os outros a nadar teoricamente.

Há quem já tenha nascido sabendo nadar: é o caso de Mamdani, que não precisou começar a governar uma enorme cidade, a mais icônica delas todas, para deixar de frescura. E há aqueles que se recusam a entrar na água e pretendem ensinar os outros a nadar teoricamente: é o caso de quem decidiu usar o seu tempo para insultar Mamdani acusando-o de cumplicidade com o governo de Israel e com o genocídio em Gaza contra os palestinos.

Numa vigília de memória pelas vítimas do 7 de Outubro, em Union Square, junto de uma organização de judeus pela paz e pró-palestinos, Mamdani teve de ficar impávido e sereno enquanto ouvia um grupo de manifestantes, alguns dos quais da sua própria organização política, gritar-lhe que tinha as mãos manchadas de sangue, que estava do lado do genocídio e que não passava de um traidor.

Esse confronto ilustra na perfeição a abordagem diametralmente oposta das duas personagens-tipo principais da esquerda: o político e o ativista.

O político pode ser mais moderado ou radical, reformista ou revolucionário, centrista ou esquerdista, mas se é político mesmo, sabe de uma coisa: a sua missão é convencer gente a criar maiorias para fazer a mudança. O calibre do seu sucesso está na sua capacidade de falar a um máximo de gente.

Já o ativista precisa funcionar numa lógica de diferenciação: a grande maneira que tem de chamar a atenção é dizer aquilo que praticamente mais ninguém diz; se e quando muita gente disser o mesmo, o ativista sobe o sarrafo para outra posição ainda mais minoritária. Para ele, o sinal do sucesso é nunca deixar de ser uma minoria.

Não quero com isto dizer que a posição do ativista seja sempre má ou a do político sempre boa. Muitas vezes elas trabalham bem em conjunto. Outras vezes (como agora no Brasil) elas veem-se forçadas a lutar pela sobrevivência para evitar uma derrota política.

Esse não é o problema. O problema começa se houver uma vitória. Havendo uma vitória, é preciso —bem ou mal— nadar na prática. Governar para toda a gente. E que haja na esquerda um segmento que prefere a derrota purista à vitória pragmática tem sido uma das grandes razões da nossa debilidade atual.