terça-feira, 15 de setembro de 2026

A aposta da Novig nos peitos de Sydney Sweeney - Joanna Moura, FSP

 

Uma plataforma de apostas lança uma campanha publicitária em que se vê uma mulher nua, com suas partes íntimas cobertas por bolas de futebol americano, raquetes e outros equipamentos esportivos, enquanto repete que a empresa oferece "apenas esportes".

A empresa em questão é a americana Novig, cujo diferencial em relação à concorrência é o foco no chamado "mercado de previsões esportivas", ou, em bom português, nas apostas esportivas. A atriz que estrela a campanha é Sydney Sweeney, conhecida por sua atuação na série "Euphoria".

Mulher nua em posição de quatro apoios sobre superfície escura, com bola de futebol sob a mão direita, bola de basquete apoiada nas costas, bola de tênis entre as pernas e bola de futebol americano na mão esquerda. Fundo preto com logotipos 'NOVIG' e 'Just Sports' no topo.
Comercial da Novig estrelando Sydney Sweeney - Reprodução

Não demorou para que a comunidade esportiva reagisse. Atletas mulheres de diferentes modalidades se pronunciaram, acusando a campanha de reduzir a presença feminina no esporte a um corpo sexualizado.

Além disso, criticaram a escolha de dar protagonismo a uma mulher que não faz parte do universo do esporte, preterindo atletas profissionais que costumam enfrentar dificuldade para serem reconhecidas, receberem patrocínios e terem condições mínimas de se dedicar ao esporte como atividade principal.

A ex-ginasta americana Gracie Kramer reagiu publicando imagens de sua trajetória com a frase "É assim que uma mulher no esporte se parece". A nadadora australiana Ariarne Titmus, quatro vezes campeã olímpica, chamou o anúncio de "um tapa na cara" de todas as mulheres que dedicaram a vida ao esporte. Já a velocista britânica Amy Hunt lembrou que esporte feminino é feito de "músculos, trabalho duro, sangue, suor e lágrimas".

Há quem diga que a campanha foi pensada justamente para gerar polêmica. A estratégia tem nome: "rage bait" é um conteúdo deliberadamente provocador, criado para despertar indignação e transformar críticas, comentários e compartilhamentos em alcance gratuito.

A escolha de Sydney Sweeney como protagonista pode ser um indício da tática. A atriz tem se tornado uma figura recorrente nas guerras culturais americanas: em 2025, estrelou uma campanha da American Eagle que brincava com a semelhança entre as palavras "jeans" e "genes", que, em inglês, têm a mesma sonoridade. Ao afirmar que Sydney tinha "bons genes", o anúncio foi acusado de reforçar a ideia de superioridade branca.

Eu concordo, em parte. É bem possível que a Novig tenha contado com a polêmica para multiplicar o alcance da campanha. Mas há algo que essa discussão parece ignorar: o comercial não foi feito para agradar às mulheres —muito menos às atletas. Ele foi pensado e executado para homens. São eles o principal público apostador nos EUA.

Pesquisas apontam que, por lá, homens participam de apostas esportivas em uma proporção duas vezes maior que as mulheres. Além disso, mulheres tendem a apostar de forma menos frequente e menos movida pela emoção, enquanto os homens são mais propensos a comprometer um percentual maior de seus ganhos em apostas.

A intenção por trás da escolha de centrar o comercial na figura de uma mulher jovem, loira, sexy e pelada não parece ter sido, portanto, gerar polêmica.

A verdade incômoda dessa história não é que uma plataforma de apostas está objetificando uma mulher em sua campanha (alguém realmente esperava nobreza e consciência de uma empresa que lucra com a desgraça alheia?). O que mais incomoda é entender que a campanha é um sucesso porque, infelizmente, em 2026, objetificar o corpo de uma mulher parece ser a estratégia mais eficaz para se comunicar com uma grande parcela dos homens.

O privilégio de ser ativo- Bruno Gualano- FSP

 Leio no Financial Times, replicado nesta Folha, sobre os sacrifícios de CEOs para se manter em forma.

Temos o caso de Roland Busch, diretor-executivo da Siemens, para quem os treinos têm "a mesma importância que qualquer reunião de negócios". Apesar da agenda exigente, ele se gaba: "não pulo um único dia dedicado ao treino de pernas". Sayeh Ghanbari, chefe de consultoria da EY, não abre mão das artes marciais: durante as viagens, participa de aulas remotas, às vezes "com fusos horários bem diferentes... essa é a disciplina". Michael Murray, presidente da rede varejista britânica Frasers Group, declara sua paixão pela Hyrox, a nova febre do fitness: "adorei o quão mensurável era; você define metas e acompanha o progresso". James McMaster, executivo-chefe da Huel, admite que "conciliar exercícios físicos com a função de CEO e pai de crianças pequenas pode ser difícil", mas, bem organizado, encaixa uma sessão "em um intervalo aleatório, tipo às 15h".

pavel1964/Adobe Stock

E assim se sucedem exemplos edificantes, fundados em capitais hoje preciosos, como "resiliência", "consistência", "controle" e "foco". Índice de que "o tempo livre segue o trabalho como sua sombra", como diria o velho e atual Adorno. Mas não desperdicemos toda nossa compaixão com os abastados: numa sociedade em que a escala 6x1 ainda estrutura a vida de muitos, tempo livre — mesmo esse acossado pelo labor — é luxo.

Na reportagem, como de costume, a atividade física aparece como escolha individual. Mas as oportunidades de prática são distribuídas de forma desigual. Ter tempo disponível, acesso a espaços seguros, equipamentos esportivos, áreas verdes e transporte adequado depende, em parte, da posição social e do território onde se vive. Em uma metrópole marcada pela segregação socioespacial como São Paulo, essas diferenças se acentuam.

Um estudo liderado pelo meu colega Alex Florindo, da USP, procurou investigar se a combinação de diferentes marcadores de vulnerabilidade social, avaliada pelo índice de Jeopardy, estaria associada à atividade física no lazer e para transporte ao longo de dez anos. A distinção importa: exercitar-se ou caminhar por lazer envolve escolha e traz os maiores ganhos físicos e mentais; caminhar para chegar ao trabalho também pode fazer bem, mas para muitos não é escolha, e sim a única mobilidade possível.

A prática de atividade física no lazer subiu de 38,0% em 2014–15 para 51,4% em 2023–24, e a caminhada para transporte, de 61,8% para 71,6%. O principal achado veio à tona quando os cientistas incorporaram a dimensão social. Quanto maior a desvantagem acumulada, menor a prevalência de atividade física no lazer. No início do estudo, 51% do grupo menos vulnerável praticava atividade no lazer, contra 29% do grupo mais vulnerável. Dez anos depois, a diferença havia aumentado: 65% versus 39%, respectivamente.

Ser mulher, pertencer a um grupo racial ou étnico minoritário e ter baixa escolaridade está associado às menores prevalências. No outro extremo, entre os que mais se exercitam, os executivos do começo desta coluna: homens brancos com diploma. Vale dizer que a vulnerabilidade não se associou à atividade física como transporte, a sugerir que a desigualdade só aparece onde há escolha.

Daí se tira importante lição: não basta recomendar que as pessoas sejam mais ativas no lazer. É preciso criar condições materiais para que a recomendação possa ser seguida, com ações articuladas de saúde, educação, planejamento urbano, transporte, segurança e proteção social, priorizando os mais vulneráveis.

No caminho da ação coletiva, todavia, há a racionalidade neoliberal que gesta os sujeitos-empresas, fadados a competir entre si e consigo mesmos. Faceiramente, converte condições socialmente desiguais em responsabilidades pessoais. E assim faz crer que o dia de um CEO de multinacional e o de uma faxineira periférica têm as mesmas 24 horas.