Um dos mais admirados quadros do Museu de Arte de São Paulo é do pintor francês Renoir e chama-se "Rosa e Azul". Retrata duas meninas: Alice (a de vestido rosa), de cinco anos, e Elisabeth (de azul), de seis, filhas do casal Louis e Louise Cahen d'Anvers, estrelas da granfinagem parisiense. Renoir recebeu 1.500 francos pelo serviço, não ficou muito satisfeito, mas o quadro foi bem recebido pela crítica. Acaba de sair nos Estados Unidos o livro "The Renoir Girls", com sua história.
No fim do século 19, os Rothschild, com seu banco e seus castelos, eram conhecidos como os "reis dos judeus", e os Cahen d'Anvers (também judeus) estavam ligados aos Ephrussi, os reis do trigo. Faziam parte da elite francesa ou supunham fazer parte dela, pois o ranço antissemita estava sempre pronto para mais um bote.
As duas meninas viveram no esplendor. Hoje esse mundo denomina-se proustiano, rico e refinado. Elisabeth casou-se duas vezes. Essa parte da história é conhecida e o quadro a ilustra.
Mas o tempo passou e, depois da invasão da França pela Alemanha, em 1940, o antissemitismo tornou-se uma política de Estado. A partir desse momento, o livro da jornalista inglesa Catherine Ostler difere das narrativas habituais, entrando nas trevas do século 20. Alice casou-se com um oficial inglês e foi viver em Londres, enquanto Elisabeth (a menina de azul) converteu-se ao catolicismo e ficou na França.
Em janeiro de 1944, Elisabeth tinha 69 anos e vivia reclusa, por receio e por causa de sua artrite. A guerra estava perdida para a Alemanha. O Exército Vermelho já havia entrado na Polônia e, em Londres, os Aliados planejavam a invasão da Normandia e o general americano Dwight D. Eisenhower havia sido colocado no comando do Dia D. Os Aliados haviam desembarcado na Itália. (O Vaticano pediu que não entrassem em Roma com soldados negros.) Em Paris, as porteiras dos judeus depenaram suas casas. Nesse período, no interior da França, uma patrulha chegou a uma casa: procuravam uma judia. A senhora não andava sem ajuda. Elisabeth Cahen d'Anvers foi presa e colocada num Citroën.
O prefeito do lugar era um antissemita extremado e neto de Eugène Schneider, um titã da indústria francesa, e as duas famílias já se haviam cruzado. Ele informou que a senhora havia sido judia até os 20 anos. A menina de Renoir foi para uma prisão próxima e de lá para um campo de trânsito. Dias depois, estava em Drancy, a antessala da morte.
No dia 27 de março de 1944, ela foi colocada num vagão com destino ao campo de extermínio de Auschwitz. No comboio foram cerca de 1.000 pessoas (só 152 sobreviveriam). A viagem durou 55 horas, e cada prisioneiro recebeu apenas um pedaço de pão.
Elisabeth, a menina de vestido azul, desapareceu.