domingo, 19 de julho de 2026

Alvo dos EUA, Pix está no centro de disputa sobre quem controla os trilhos do dinheiro no mundo -FSP

 

Brasília e Washington

Na mira do novo tarifaço imposto pelo governo Trump, o Pix —sistema de pagamento instantâneo que revolucionou as transações financeiras no país e se tornou uma das soluções mais queridas entre os brasileiros— passou a ocupar o centro de uma disputa internacional que envolve quem controla os trilhos do dinheiro no mundo.

Embora o embate tenha origem na guerra comercial com os Estados Unidos, a discussão também gira em torno de influência geopolítica e soberania digital e monetária.

A disputa não é só sobre intermediários financeiros, como as bandeiras de cartão de débito e crédito, e a eventualidade de perderem receita e mercado com a expansão de infraestruturas digitais públicas. É também sobre poder.

Não que as bandeiras deixem de ser importantes –o uso de cartões até cresceu no Brasil com a expansão do Pix. Mas elas podem não ser mais imprescindíveis no futuro, e os americanos querem manter controle sobre os sistemas de pagamento pelo mundo porque isso lhes dá influência geopolítica.

Homem de pele clara e cabelo loiro claro fala em microfone preto com fundo azul e bandeira desfocada.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. - MANDEL NGAN - 17.jul.2026/AFP

Decisões do governo Trump, por exemplo, abrangem casos em que sanções contra indivíduos e instituições incluem negar acesso aos canais bancários formais controlados pelos norte-americanos. Um exemplo recente é o caso de Francesca Albanese, relatora especial da ONU, que teve o acesso a sistemas bancários americanos restringido devido às suas críticas à política americana em Gaza.

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É mais difícil fazer empresas não americanas cumprirem esse tipo de determinação. Usualmente, as leis precisam ser recepcionadas pelo sistema de justiça doméstico para terem validade. Já os arranjos de pagamento de empresas sediadas nos Estados Unidos —como Visa, Mastercard, Google e Apple— tendem a seguir decisões do governo norte-americano.

O conflito se encaixa em um contexto monetário e geopolítico mais amplo. Na prática, a possibilidade de que países criem suas próprias redes de pagamento e as conectem entre si reduz a capacidade de o governo americano aplicar suas regras de forma extraterritorial.

"É geopolítica pura. A disputa sobre o Pix ou infraestruturas digitais públicas de pagamento não é só sobre intermediários financeiros, e sim sobre poder", diz a advogada Fernanda Garibaldi, diretora-executiva da Zetta, associação que reúne bancos digitais e empresas de tecnologia financeira.

"Mudou quem manda no jogo. Meios de pagamento são mais que infraestruturas de transação financeira, são instrumentos geopolíticos de poder. E quem controla os trilhos do dinheiro, controla mais que o sistema bancário", diz ela.

Garibaldi destaca a importância para os países de terem alternativas, e cita o exemplo do que aconteceu na Suécia, que voltou a introduzir cédulas em espécie após a guerra da Ucrânia, a fim de evitar a dependência de sistemas de outros países, como os cartões de bandeiras americanas.

TRILHO ABERTO

No Brasil, o Pix virou uma infraestrutura crítica (cuja interrupção causaria impacto) e um ativo de soberania regulatória digital. Gerido pelo Banco Central, não é uma empresa pública, tampouco uma empresa privada.

É uma infraestrutura pública de mercado aberta, regulada e usada por bancos, fintechs, empresas de cartão e empresas adquirentes.

Após o governo Trump confirmar a aplicação de uma tarifa de 25%, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, chegou a comparar o sistema ao saneamento básico ao defender o Pix. "Seria mais ou menos como tentar dizer que criar saneamento básico comprometeria receita de caminhão-pipa."

Lançado em 2020, o Pix conta com mais de 170 milhões de usuários cadastrados, representando aproximadamente 80% da população. Ele facilitou a bancarização no país e o uso de cartões, de acordo com os especialistas.

Em junho, a quantidade total de transações do Pix chegou a 7,7 bilhões. De 85% a 90% do total é processada dentro do SPI (Sistema de Pagamentos Instantâneos), que é o motor do BC —a infraestrutura tecnológica central que processa e liquida todas as transações em tempo real. O restante ocorre fora do SPI, englobando operações internas (entre os bancos) liquidadas nos sistemas das próprias instituições.

Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões no rastro da expansão do Pix. Um crescimento de 10,1%, segundo dados da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços). Foram 48,1 bilhões de operações.

"O Pix, meio de pagamento instantâneo e 24h por 7 dias, foi um negócio revolucionário, talvez a política pública mais importante dos últimos 30 anos, com enorme efeito em bancarização e digitalização dos meios de pagamento. A infraestrutura ser do BC permitiu o acesso", diz Vinicius Carrasco, professor da PUC do Rio e economista-chefe da Stone, empresa de serviços financeiros.

"Durante um tempo, acho que houve centralização excessiva, por parte do instituidor, na agenda de adição de funcionalidades e produtos. Isso tem se ajustado no tempo, como era de se esperar", afirma.

Integrantes do governo Lula não escondem nos bastidores o incômodo com as bandeiras. A visão é que elas estão por trás da pressão de Trump, mesmo após essa indústria de cartões ter sido favorecida por uma carga regulatória menor do BC nos últimos anos para estimular a concorrência.

Esse processo fez proliferar a criação de várias instituições de pagamento, que colocaram para dentro do mercado milhões de pessoas que nunca tinham usado cartão. Segundo os auxiliares de Lula, as bandeiras já estariam correndo risco de imagem no Brasil pela pressão ao Pix.

Em meio à polêmica, a Mastercard diz que o Pix é uma inovação importante e que continua comprometida em investir no Brasil, trabalhando com parceiros de todo o ecossistema de pagamentos para promover a inovação, fortalecer a segurança e ampliar o acesso aos pagamentos digitais.

A Visa informa que acompanha a investigação do USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) e tem dialogado com autoridades governamentais no Brasil e nos Estados Unidos para identificar oportunidades de fortalecer a colaboração.

LEI DO PIX

O BC já firmou acordos de cooperação técnica com mais de 47 bancos centrais para exportar a tecnologia do Pix e auxiliar outros países a desenvolver seus próprios sistemas.

Entre lideranças do setor, cresce a defesa para que todas as normas infralegais sejam reunidas em uma legislação única a ser aprovada pelo Congresso para dar segurança jurídica ao sistema, que já conta com várias funcionalidades, como o Pix Crédito.

O BC tem enfrentado falta de recursos para gestão do Pix e de outros sistemas necessários ao seu funcionamento. O orçamento para custeio e investimento chegou ao nível mais baixo em 2024 e de lá para cá continua sofrendo com cortes.

O diretor de Produtos, Serviços e Segurança da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Ivo Mósca, destaca que o BC precisa ter os recursos necessários para avançar com a regulação. "Ele precisa acompanhar esta velocidade [tecnologia] para ter a capacidade de supervisão adequada."


PIX AUTOMÁTICO
Permite que pagamentos recorrentes sejam feitos de forma automática. O pagador precisa autorizar uma única vez a operação, sem precisar fazer um novo pagamento a cada nova cobrança.

PIX COBRANÇA
Instrumento de cobrança, iniciado por meio do QR Code ou Pix Copia e Cola, que serve para: pagamentos imediatos, em pontos de venda físicos e comércio eletrônico; e pagamentos com vencimento, realizados em data futura, podendo incluir outras informações como juros, multas, descontos e abatimentos, de forma semelhante ao boleto.

A liquidação é instantânea, é disponível por 24 horas nos sete dias da semana e sem compensação bancária. Já o boleto tem liquidação em até 3 dias úteis. O boleto, ao contrário, não funciona em feriados, a liquidação é em até 3 dias úteis e necessita compensação bancária.

PIX APROXIMAÇÃO
Permite pagar instantaneamente com Pix usando a tecnologia NFC. É possível fazer um Pix aproximando o seu celular da maquininha, através do aplicativo do seu banco ou utilizando uma carteira digital oferecida por instituições autorizadas pelo BC.

PIX AGENDADO
Opção que permite programar um Pix para uma data futura. O usuário escolhe o dia em que o pagamento será feito e pode cancelar até o dia anterior.

PIX SAQUE E PIX TROCO
São duas funcionalidades para facilitar o acesso a dinheiro em espécie sem depender exclusivamente de caixas eletrônicos ou agências bancárias. No Pix Saque, o usuário pode sacar em estabelecimentos credenciados (como supermercados, farmácias, padarias, postos de gasolina, lotéricas e até caixas eletrônicos participantes). Ele faz um Pix para o estabelecimento sem fazer compras no local e retira o dinheiro. O Pix troco é uma combinação de compra + saque

PIX CRÉDITO
Funciona como uma operação de crédito pessoal no Pix. O BC não regulamentou a modalidade, mas vetou o uso do nome "Pix parcelado" pelas instituições, que passaram a chamar de "Pix no crédito" ou "parcelamento do Pix". A funcionalidade é oferecida por bancos e fintechs de forma independente. Cada instituição define suas próprias regras, prazos de parcelamento e taxa de juros. Mas a falta de regras do BC preocupa especialistas.

A política da nova opacidade - Marcus André Melo, FSP

 

Por que um parlamentar abriria mão de receber o crédito por uma obra, um hospital ou uma quadra que ajudou a financiar? A pergunta é contraintuitiva. Durante décadas, a ciência política explicou a política distributiva justamente pela busca desse reconhecimento. O deputado destinava recursos ao seu reduto, inaugurava obras e esperava transformar a visibilidade em votos.

O orçamento secreto sugere que essa lógica pode ter sido invertida.

Plenário da Câmara dos Deputados com deputados sentados e em pé, alguns reunidos no centro. Painéis eletrônicos exibem informações legislativas. Ambiente interno amplo com cadeiras organizadas em semicírculo.
O plenário da Câmara dos Deputados durante a sessão de discussão e votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública - Pedro Ladeira - 4.mar.26/Folhapress

Há mais de duas décadas, o cientista político David Samuels mostrou que, no Brasil, as emendas parlamentares não refletiam uma busca de crédito mas sim as redes políticas e, sobretudo, o financiamento privado que sustentava suas carreiras. Os projetos não buscavam o voto mas o doador: alimentavam o caixa dois que bancava as campanhas e outras cositas, é claro. O orçamento secreto acrescenta um novo elemento a essa história. O desafio deixou de ser apenas converter recursos em apoio político. Passou a ser preservar o controle sobre sua distribuição sem assumir publicamente sua autoria.

O volume de recursos movimentados —que reflete o enfraquecimento do poder orçamentário do Executivo— criou incentivos para a nova opacidade. Consolidou-se um modelo em que parlamentares preservam influência sobre o gasto público enquanto reduzem a visibilidade de sua participação.

O dinheiro chega ao destino; a assinatura desaparece.

O paradoxo é apenas aparente. A mesma transparência que permite ao parlamentar reivindicar uma obra também permite que jornalistas, órgãos de controle, adversários e eleitores reconstruam o caminho do dinheiro. Tornar-se visível significa tornar-se rastreável.

Esse cálculo ficou mais complexo depois da Lava Jato. As investigações elevaram os custos da exposição pública. O desmonte da operação levou à diminuição brutal desses riscos. Seria razoável imaginar que os incentivos para ocultar a autoria das decisões fossem reduzidos.

Ocorreu exatamente o contrário.

A opacidade aumentou, se tornou um ativo político e passou a desempenhar funções que vão muito além da autoproteção. Ao mesmo tempo, outra transformação alterava o funcionamento do Congresso. Desde a pandemia, a combinação entre a expansão das emendas, as mudanças na execução orçamentária e a crescente delegação de poderes às lideranças partidárias concentrou poder nas presidências da Câmara e do Senado. A opacidade expressa e reforça esse movimento, como mostrei aqui. Quanto menos transparente a autoria das decisões, maior a influência de quem controla a distribuição dos recursos e das informações sobre sua origem.

Esse estado de coisas chega ao que à primeira vista parece impensável: a indicação de emendas por agentes de fora do Congresso, como o Eduardo Cunha. Mas a indicação conta com o beneplácito das lideranças congressistas!

O orçamento secreto tornou-se símbolo de corrupção. Seu problema mais profundo é a separação entre influência e responsabilidade, que corrói a própria representação política. Oxalá o combate à opacidade, protagonizado pelo ministro Flávio Dino e pelo TCU, alcance a atuação do próprio STF e do TCU nos escândalos do Banco Master e das fraudes no INSS.

Por que estrangeiros estão comprando tantos imóveis no Brasil - DW _FSP

 Matheus Gouvea de Andrade

DW

O Brasil "estar na moda" já tem reflexos no mercado imobiliário do país. Regiões como a zona sul do Rio de Janeiro e o litoral de Santa Catarina têm registrado um aumento robusto na busca de imóveis por estrangeiros nos últimos anos.

O interesse vai além de uma mera busca por um lugar onde se hospedar e tem sido encarado por vários compradores como um investimento. Mas o fenômeno também tem gerado efeitos indesejados, ajudando a alimentar uma alta do preço de aluguéis, o que deve elevar a pressão por regulações.

Em 2025, o Brasil registrou um recorde de 9,2 milhões de visitantes estrangeiros. E os cinco primeiros meses de 2026 já somaram 4,9 milhões.

Vista aérea do Rio de Janeiro mostrando o Cristo Redentor de braços abertos no topo do Corcovado, com a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo. A cidade se estende com prédios e áreas verdes sob céu claro.
Nos bairros cariocas de Ipanema e no Leblon, pesquisas mostram que 30% dos imóveis compactos recém-lançados foram comercializados para estrangeiros - Yuri Barichivich - 1.mar.16/Folhapress

Paralelamente, há um aumento de interesse por estadias no país especialmente após a pandemia.

Em cidades como Rio de Janeiro e Florianópolis, o período foi marcado por uma maior busca de imóveis por profissionais trabalhando em home office e os chamados nômades digitais. No caso carioca, a prefeitura local chegou a lançar em 2021 um programa visando atrair esse tipo de profissional.

"Os avanços nas vendas são identificados principalmente nos imóveis compactos recém-lançados. Em Ipanema e no Leblon, pesquisas mostram que 30% dessas unidades foram comercializadas para estrangeiros", afirma o presidente do Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) no estado do Rio de Janeiro), Claudio Hermolin.

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O diretor regional de relações internacionais do Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) de Santa Catarina, Marco Aurélio Lievore, apontou que, num levantamento de uma imobiliária em Florianópolis, 83% das vendas foram para clientes argentinos buscando apartamentos na planta.

"Os empreendimentos buscados em sua grande maioria são estúdios. Há muitos estrangeiros que passam férias aqui e depois vem procurar um lugar para morar ou investir", conta.

Entre as nacionalidades, americanos e argentinos se destacam entre os investimentos. Europeus de uma série de países, como França e Suíça, aparecem também entre os principais compradores, enquanto há registro ainda de um interesse crescente de cidadãos dos Emirados Árabes Unidos.

Atrativos no mercado global

Plataformas também tornaram mais atrativa a ideia de comprar um imóvel em outro país e obter renda à distância. Além disso, empresas vêm focando na oferta de serviços para o público externo, como na gestão destas propriedades.

A Lobie, empresa especializada na área, aponta que a participação de estrangeiros em sua carteira passou de cerca de 2% para 18% em três anos. Hoje, a companhia administra aproximadamente 1.620 estúdios de investidores de fora do Brasil.

"A vantagem desse tipo de imóvel para o comprador estrangeiro é a atratividade da cidade: ele pode utilizá-lo em períodos de férias e grandes eventos e, quando não for utilizado pelo próprio comprador, é um imóvel de grande procura", aponta Hermolin. "A receita obtida certamente paga a manutenção e deixa algum lucro", afirma.

Entre as vantagens apontadas por Lievore estão ainda fatores cambiais.

Em países como a Argentina, imóveis são normalmente negociados em dólar, o que torna transações em reais no Brasil mais atrativas. Além disso, o diretor aponta grande potencial de valorização do mercado brasileiro, especialmente quando em comparação com regiões litorâneas mais saturadas no mundo, como Miami, nos Estados Unidos, e o Algarve, em Portugal.

Há ainda a facilidade nos trâmites na comparação com outros países. "O Brasil é um país fácil de conseguir residência, é algo que ajuda muito", aponta Lievore. No caso catarinense, ele aponta um fluxo recente de russos, que se intensificou após a guerra na Ucrânia, e que visam especialmente obter um passaporte brasileiro.

Uma resolução do CNIg (Conselho Nacional de Imigração) permite aos estrangeiros que comprarem imóveis no Brasil solicitar autorização de residência. Pessoas físicas devem comprar um imóvel no valor mínimo de R$ 1 milhão e com recursos próprios de origem externa.

Roda-gigante branca em primeiro plano à esquerda, com praia extensa e curva ao centro e à direita. Ao fundo, prédios altos formam skyline sob céu nublado. Pessoas e estruturas temporárias na areia.
Lançamentos imobiliários em Balneário Camboriú têm atraído estrangeiros - Anderson Coelho/DW

Airbnb em ascensão

O mercado brasileiro também já é o terceiro do mundo com mais anúncios de Airbnb, atrás somente de Estados Unidos e França, mas com um dos crescimentos mais acelerados nos últimos anos.

Desde 2022, cidades como Rio de Janeiro e Florianópolis tiveram suas ofertas de anúncios mais do que dobradas no Airbnb. No caso carioca, a plataforma AirDNA registra mais de 60 mil, enquanto a capital catarinense conta com 36 mil. Como comparação, em Barcelona, onde a modalidade será proibida a partir de 2028 pelos efeitos negativos no mercado imobiliário local, existem 26 mil anúncios.

"O Brasil vem registrando um crescimento nos anúncios acima do resto do mundo", resume Sofia Morais de Sousa, executiva de contas do AirDNA. Além dos municípios citados, São Paulo também se destaca em números absolutos, com mais de 61 mil anúncios.

Cidades no litoral catarinense exibem números comparativamente mais robustos. O AirDNA registra mais de 10 mil anúncios em Bombinhas, no estado de Santa Catarina, que tem uma população de cerca de 25 mil habitantes.

Num levantamento publicado este ano, a plataforma Inside Airbnb listou a cidade no topo do ranking de concentração de anúncios no Brasil, com 210,3 por km2. Em seguida vem Balneário Camboriú, com 138,8 por km2 e mais de 10 mil anúncios ativos.

Neste caso, a região vem ainda se notabilizando pelos lançamentos de luxo, que são outra fonte de atração de estrangeiros. Segundo a construtora do Senna Tower, projeto que planejado para ser o prédio residencial mais alto do mundo, 16% dos apartamentos já vendidos foram para estrangeiros.

Há certa mudança no perfil dos turistas no país. Em 2021, o AirDNA registrava menos de 10% de estrangeiros como hóspedes no Brasil. No último ano, o número ficou acima de 20%. Ainda assim, segue bem diferente da Europa, onde o mercado doméstico costuma ser menos relevante. No caso da Espanha, 80% dos hóspedes são estrangeiros na plataforma, enquanto na Alemanha essa porcentagem é de 45%.

Pressão por regulação

Ao redor do mundo, os efeitos do avanço das estadas de curta temporada vêm sendo acompanhados por pressões regulatórias. Além de impactos negativos nos preços dos aluguéis de longo prazo para habitantes locais, vizinhos costumam questionar mudanças no ambiente dos condomínios, incluindo hóspedes que não cumprem regras de convivência.

Em maio, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu que a locação de imóveis residenciais em condomínios para estadias depende de autorização em assembleia com aprovação de pelo menos dois terços dos condôminos.

Por sua vez, a medida não é vista como suficiente para alterar o cenário da pressão imobiliária. Moradores já apontam aumento no custo dos aluguéis em certas cidades, como no caso de Florianópolis, que teve alta de 9% no último ano. "É o momento de entender o que está acontecendo, e a pressão no aluguel muda essa percepção", aponta Aline Cruviel, diretora de pesquisa e comunidade no Inside Airbnb.

"O discurso geral é de que é uma oportunidade de renda extra aos proprietários, mas na prática é um grupo restrito que consegue gerar renda, enquanto o todo acaba pagando os custos com a alta do aluguel", aponta. Cruviel destaca ainda empresas estrangeiras que observaram o mercado da América Latina como uma possiblidade de investimento.

Ponte Hercílio Luz atravessa o canal entre a ilha e o continente em Florianópolis, com a cidade densamente urbanizada ao fundo e morros ao longe sob céu claro.
Moradores já apontam aumento no custo dos aluguéis em certas cidades, como no caso de Florianópolis, que teve alta de 9% no último ano - Anderson Coelho/DW

Um destes casos é o da multinacional Blueground, que anuncia mais de 20 mil propriedades ao redor do mundo. No Brasil, a empresa adquiriu em 2023 a Tabas, que oferta aluguéis de curta temporada voltados principalmente para estrangeiros em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

Na avaliação de Cruviel, "há uma postura de autoridades de atração de investimentos, mas que não se avalia muito o outro lado e as consequências disso".

"A tendência é de regulamentos, especialmente quando os aluguéis começam a subir", aponta Morais de Sousa. Ao redor do mundo, medidas como a limitação de número de moradias disponíveis para aluguel de curta duração em certas regiões vêm sendo tomadas.

Em Nova York, parte das regulamentações visa limitar a concentração de muitas hospedagens com os mesmos anunciantes, algo que avança no Brasil. A Seazone, empresa que atua como uma das maiores anfitriãs do Airbnb no país, divulga que possui mais de 3600 imóveis.

Pelo lado das compras por estrangeiros, o Canadá baniu em 2023 a aquisição de propriedades no país por cidadãos de outras nacionalidades por dois anos, medida que foi renovada em 2025 e deve vigorar até 2027. "Durante anos, o capital estrangeiro tem entrado no Canadá para comprar imóveis residenciais, aumentando as preocupações com a acessibilidade à habitação", argumentou o governo.

Em sentido semelhante, a Espanha avalia restrições que, nestes casos, se aplicariam a cidadãos de fora da União Europeia. Uma proposta é a imposição de impostos de até 100% nestas transações. Em Portugal, o chamado "visto de ouro" para estrangeiros que comprassem imóveis no país esteve em vigor por anos visando abrir portas para residência, no entanto, o programa foi limitado em 2023 em razão das pressões no mercado imobiliário.