domingo, 19 de julho de 2026

Portos brasileiros ampliam capacidade para exportar petróleo do pré-sal, que bate recordes de produção, FSP

 Nicola Pamplona

Rio de Janeiro

No Porto Sudeste, no Rio de Janeiro, a área inicialmente reservada a um píer para minério de ferro começa a dar lugar a uma instalação para transbordo de petróleo entre navios, que vai ampliar a capacidade brasileira de exportação da commodity, hoje o principal produto da balança comercial do país.

O investimento de R$ 180 milhões foi aprovado em 2023, diante das perspectivas de crescimento da produção do pré-sal. Não é o único: o porto do Açu e a própria Petrobras têm planos de expansão em seus terminais de petróleo.

Dois navios cargueiros atracados em cais com guindastes laranja em porto marítimo. Ilhas e outras embarcações visíveis ao fundo em mar calmo.
Píer do Porto Sudeste, na baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, que movimenta minério de ferro e petróleo. - Divulgação/Porto Sudeste

"Até o fim da década, a produção brasileira de petróleo vai chegar a 5 milhões de barris por dia", diz o CEO do Porto Sudeste, Jayme Nicolato. "Estamos em área abrigada, com um centro de emergência do lado, e podemos oferecer com muita segurança a transferência do óleo [entre navios]."

Conhecido como ship-to-ship (navio a navio), esse tipo de operação é necessário porque as embarcações que retiram o petróleo das plataformas do pré-sal, a centenas de quilômetros da costa, são caras demais para fazer viagens de longas distâncias para Europa ou para a Ásia.

Elas têm uma tecnologia chamada posicionamento dinâmico, que permite que fiquem paradas na mesma posição enquanto puxam o óleo das plataformas, independentemente das condições climáticas.

Para retornarem mais rapidamente às plataformas, esses navios transferem a produção a petroleiros comuns em terminais portuários ou até mesmo em alto-mar. Em 2025, as principais fornecedoras desse serviço registraram recordes, acompanhando o crescimento da produção de petróleo.

A Transpetro, subsidiária de transportes da Petrobras, movimentou 700 mil barris por dia em operações ship-to-ship, alta de 18% em relação ao ano anterior. A Vast, no porto do Açu, movimentou uma média de 600 mil barris por dia, alta de 19%.

As perspectivas, como disse Nicolato, são de crescimento. Nos primeiros meses de 2026, a produção do pré-sal vem batendo recordes sucessivos. Como consequência, as exportações brasileiras de petróleo também estão em níveis altos.

Idealizado pelo empresário Eike Batista para movimentar minério de ferro que seria produzido pelo grupo X em Minas Gerais, o Porto Sudeste decidiu rever a estratégia. Mantém a movimentação de minério no cais já construído, com capacidade para 50 milhões de toneladas por ano.

Mas o segundo cais do projeto, de mesmo porte, não sairá mais do papel. "O porto foi desenhado para 100 milhões de toneladas. Vai atingir o objetivo, mas com 50 milhões de toneladas de granéis sólidos e 50 milhões de granéis líquidos", diz o executivo.

O porto já vem realizando operações de transbordo no cais, quando há janelas nos contratos com mineradoras. Em 2024, foram 19 e, até agora, neste ano, 12. Quando a estrutura para atracação dos navios, conhecida como dolphin (golfinho, em inglês), estiver pronta, a capacidade será 144 operações por ano.

Maior operadora privada do país, a Vast fez 229 operações de transbordo em 2025. Este ano, a empresa iniciou um projeto de expansão, que vai elevar sua capacidade de movimentação de 1,2 milhão para 1,8 milhão de barris por dia.

Localizado no município de São João da Barra (RJ) —e também idealizado por Eike Batista—, o terminal é hoje o único do país com capacidade para receber navios do tipo VLCC, os superpetroleiros, com capacidade para transportar 2 milhões de barris de petróleo.

O projeto de expansão prevê a preparação do terceiro berço, hoje restrito a navios com 1 milhão de barris de capacidade, para acomodar os VLCCs. Prevê também investimentos em tancagem para oferecer serviço de armazenamento de petróleo às petroleiras.

O Porto Sudeste até recebe VLCCs, mas eles não podem sair pela baía de Sepetiba com os tanques cheios, o que demandaria dragagem do canal. O projeto do porto da Imetame em Aracruz (ES) também prevê atrair superpetroleiros.

Chamado de Porto Logística, o empreendimento de R$ 2,5 bilhões fechou recentemente parceria com a HGT (Hanseatic Global Terminals), braço de contêineres da multinacional alemã Hapag-Lloyd, e também vê no petróleo uma plataforma de crescimento, com um berço para operações ship-to-ship.

A Petrobras é outra que tem planos de expansão: tenta novamente tirar do papel a ampliação do Tebig (Terminal da Baía da Ilha Grande), projeto alvo de resistência de ambientalistas e comunidades tradicionais que já foi vetado pelo governo do Rio de Janeiro em 2012.

A empresa começou a realizar reuniões públicas com comunidades próximas ao terminal, em uma etapa prévia ao pedido de licenciamento ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis).

O tamanho da expansão vai depender dessas conversas com a sociedade, diz o diretor de dutos e terminais da Transpetro, Márcio Guimarães. Mas a ideia é construir ao menos um dolphin para aumentar a capacidade de atracações, em um desenho diferente daquele de 2012.

Guimarães afirma que, além da demanda pela exportação, o terminal tem hoje relevância no recebimento de petróleo para as refinarias de Duque de Caxias (RJ) e Betim (MG) e de água que sai dos poços de petróleo para tratamento —dois segmentos que também tendem a crescer.

"A infraestrutura tem que seguir o aumento da produção, não podemos ficar parados", afirma o executivo. "E investimento em infraestrutura demora a ser feito, não dá para a gente pensar só quando a produção chegar."

O Império do Meio contra-ataca (em inteligência artificial)., Ronaldo Lemos- FSP

 Os últimos dias não foram bons para a liderança dos EUA em inteligência artificial, e o Brasil teve um papel nisso

O que aconteceu foi que a China conseguiu orquestrar um ataque feroz à hegemonia dos Estados Unidos. A ofensiva aconteceu simultaneamente em várias camadas na semana passada, com efeitos de mercado imediatos.

Além de pressionar a Nasdaq, o preço das empresas de chips caiu 5,7% só na sexta (acumulando 20% de queda desde o fim de junho). O tombo chegou a tirar a Nvidia da posição de empresa mais valiosa do planeta.

O blitzkrieg chinês avançou em três frentes. O primeiro foi o lançamento do novo modelo de IA (inteligência artificial) chinês Kimi K3. De pronto, ele foi ranqueado em primeiro lugar no ranking da Arena, ultrapassando o Fable 5 da Anthropic e o GPT 5.6 Sol. No índice geral da Artificial Analysis ele figura em terceiro, atrás apenas desses dois.

Logotipo branco da Kovi em fundo preto fixado em parede azul. Ao lado, várias mochilas azuis com a palavra 'Kovi' penduradas em fileiras.
Logomarca da Kimi K3, nova IA lançada pela China - Hector Retamal/AFP

Um dado impactante é que se trata de um modelo de IA aberto ("open weights"). Isso significa que pode rodar em infraestrutura local, ser retreinado em português e especializado em aplicações do agro, indústria, energia e outros campos estratégicos. Tudo isso sem o risco de interrupções geopolíticas repentinas e com controle sobre a confidencialidade/privacidade dos dados.

O segundo front atacado pela China explica como o lançamento de um modelo de IA derrubou empresas de chips. O Kimi K3 é otimizado para rodar em hardware chinês na inferência, como os chips da Huawei. Além disso, o modelo teria sido treinado parcialmente com chips chineses.

E vale lembrar: há pelo menos um modelo de fronteira treinado 100% com chips chineses, o LongCat 2.0 da Meituan, algo inconcebível 4 anos atrás. Em suma, a China quer disseminar seus modelos de inteligência artificial de forma aberta e, na sequência, vender chips e a infraestrutura para seu funcionamento.

Isso nos leva à terceira camada da ofensiva chinesa, ocorrida na semana passada. O país lançou a iniciativa internacional chamada Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial (WAICO). Seu objetivo é gerir a IA a partir da visão expressa em discurso proferido pessoalmente por Xi Jinping: "o desenvolvimento da IA não deve ser uma performance solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional".

No mesmo evento, a Huawei exibiu seu novo produto Atlas 950 SuperPod, um cluster de 1024 chips. Em suma, a China lançou um organismo diplomático, um modelo de IA forte, chips e software que formam um projeto industrial unificado.

O Brasil aderiu imediatamente à WAICO, juntando-se à África do Sul, Cuba, Indonésia, Malásia, Nicarágua, Rússia e Venezuela, em um total de 29 países. É um contraponto ao grupo formado pelos EUA, chamado Pax Silica, que reúne Alemanha, Argentina, Chile, Índia e Reino Unido, totalizando 30 países.

Dependendo de onde se olhar no mundo, esses eventos tiveram repercussões distintas. Nos EUA, há a acusação de que os modelos chineses são criados com base nos americanos, por meio de "destilação". Nas Filipinas, a WAICO foi chamada de "cavalo de Troia da dominância algorítmica chinesa para coordenar países do Sul Global na ONU".

O Vietnã (que já esteve em conflitos armados com os EUA e com a China) ficou quieto e não faz parte de nenhum dos grupos. Em que parte do mundo você está?

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Janja não sabe o que é misoginia - Mariliz Pereira Jorge _FSP

 Janja da Silva não sabe o que é misoginia. Essa me parece a constatação mais óbvia e mais incômoda depois da sua entrevista ao UOL/Folha. No momento em que o país debate a criação de uma lei e que exige precisão cirúrgica sobre o que constitui o ódio patológico contra as mulheres, a primeira-dama presta um desserviço à causa. Ao classificar as cobranças públicas sobre seus atos e seus gastos de viagem como "misoginia pura", ela fornece a munição perfeita para os detratores do projeto de lei. Se nem a principal vitrine feminina do governo consegue distinguir escrutínio público de opressão de gênero, a própria tipificação do crime corre o risco de cair no vazio da subjetividade.

Mulher de meia-idade com cabelo castanho claro e óculos pretos sentada em cadeira vermelha contra fundo escuro. Ela veste terno preto com camisa branca e está com as mãos cruzadas no colo, olhando para a frente.
Retrato da primeira-dama, Janja Lula da Silva, na redação do UOL antes de participar do programa Frente a Frente, da Folha e do UOL - Eduardo Knapp - 13.jun.26/Folhapress

Cobrar transparência de uma figura pública não é machismo, é democracia. O erro de Janja é confundir a fiscalização de seu papel com um ataque à sua biologia. Ao se blindar sob o manto da misoginia para evitar responder pelo uso do dinheiro público, a primeira-dama enfraquece a luta real de milhares de mulheres que sofrem a violência de gênero concreta no cotidiano. Isso não quer dizer que ela não possa reclamar da hostilidade e da perseguição alimentadas pelo ódio ideológico —mas isso não está reservado só a elas.

Essa incompreensão sobre o seu papel se estende à relação com a mídia. Ao reclamar que a "imprensa nacional gosta de fofoca", enquanto a internacional a solicita, Janja demonstra um deslumbramento ingênuo (ou conveniente) sobre o fazer jornalístico. É esperado que correspondentes estrangeiros, distantes do orçamento diário do contribuinte brasileiro, façam coberturas mais protocolares. Quem tem o dever de auditar o poder local são os veículos de casa. O que aborrece Janja é o incômodo clássico que a livre imprensa causa a qualquer governante.

Sua postura atinge o ápice do descolamento da realidade quando ela diz que não tem responsabilidade se as pessoas ou a imprensa não querem saber sobre suas ações. Como uma figura que se colocou voluntariamente no centro do governo, é, sim, obrigação dela ter uma comunicação eficiente. Em uma democracia moderna, esperar que a informação pública dependa apenas do humor dos veículos é ignorar a liturgia da posição que ela mesma fez questão de expandir. Com essas declarações, o que Janja parece buscar não é interlocução jornalística, mas o conforto da adulação —algo que ela pode encontrar nas suas redes sociais, não no jornalismo tradicional.

Há um tom de soberba difícil de engolir quando ela se coloca como a primeira-dama que de fato "trabalha". Ao tentar valorizar sua atuação, Janja diminui suas antecessoras, demonstrando uma surpreendente ausência de empatia histórica. A comparação é um insulto à memória institucional do país. É preciso lembrar também que ela se refere a mulheres que eram fruto do seu tempo, de uma sociedade em que o espaço político feminino era praticamente inexistente e o que se esperava era que permanecessem à sombra.

Por essas condições, causa muito estranhamento que seja ignorado o legado de Ruth Cardoso, que com personalidade e brilho próprios estruturou o Comunidade Solidária —o programa que rompeu com o assistencialismo tradicional e pavimentou o caminho para as políticas modernas de transferência de renda do país. Não foi pouca coisa. Pior, de outra forma, é o apagamento que a primeira-dama promove da memória de Marisa Letícia, cuja discrição e presença silenciosa foram esteios fundamentais para a própria construção do PT e das primeiras gestões de Lula.

Ao se colocar no topo de uma hierarquia moral de eficiência feminina, Janja trai o princípio básico do feminismo: o respeito à pluralidade de escolhas das mulheres. O que a entrevista acaba revelando é uma personagem que confunde privilégio de poder com vulnerabilidade social. Janja quer a centralidade política da sua atuação, mas recusa o ônus da cobrança pública. Quer ser vista como uma líder forte, mas recorre ao vitimismo de gênero ao primeiro sinal de crítica. O Brasil precisa debater a misoginia com seriedade, mas, para que essa discussão avance, a primeira-dama precisa entender que críticas ao seu comportamento público não são ataques à sua condição de mulher. Cobrar uma mulher que deve prestar contas por sua atuação não tem absolutamente nada de misógino.