domingo, 17 de maio de 2026

Pandemia de Covid causou 22,1 milhões de mortes, o triplo do registrado inicialmente, diz OMS, FSP

 Luis Eduardo de Sousa

Campinas

O Relatório de Estatísticas Mundiais de Saúde 2026, publicado na quarta-feira (13) pela OMS (Organização Mundial de Saúde), traz notícias amargas para a saúde global, resultantes principalmente da crise do coronavírus.

A começar pelo número de mortos em razão da pandemia: 22,1 milhões de pessoas, segundo a organização. Esta estimativa, inédita, é três vezes o número oficial, de 7 milhões de mortos pela Covid-19 entre 2020 e 2023.

Mulher sentada com máscara de oxigênio recebe medição de pressão arterial por profissionais de saúde com equipamentos de proteção em ambiente hospitalar.
Paciente com Covid é atendida em hospital de Nova Delhi, na Índia, em 2021, ano mais crítico da pandemia - Danish Siddiqui - 29.abr.21/Reuters

É como se duas cidades de São Paulo tivessem desaparecido em quatro anos. Os números, contudo, não incluem apenas mortes causadas diretamente pelo coronavírus. Há fatores indiretos citados como propulsores.

O principal deles, diz o relatório, foi a interrupção e a sobrecarga nos sistemas de saúde. Isso teria dificultado o acesso de pacientes com outras condições graves, que não conseguiram atendimento imediato ou leitos hospitalares por causa da superlotação. Em razão de possível subnotificação em países de baixa renda, o contingente de mortos pode ser ainda maior.

Atrasos em intervenções e interrupção de serviços essenciais também contribuíram para alavancar as taxas de mortalidade. Cortes em assistência e financiamento podem ter reduzido o acesso a medicamentos e vacinas, por exemplo.

Outro ponto são as doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, cujos tratamentos foram impactados por falta de acompanhamento. Cânceres e condições cardiovasculares também estão neste grupo, na esteira das interrupções dos serviços.

O texto destaca que os países responderam ao avanço dos casos graves de Covid escanteando, naturalmente, as demais frentes de atendimento.

Fatores socioeconômicos e comportamentais integram a conta, sob a ótica ampliada dos impactos. A crise afetou, por exemplo, a subsistência das populações, o que novamente impacta saúde e mortalidade.

O marco temporal de 2020 a 2023 refere-se aos anos em que a pandemia fora considerada uma emergência de saúde pública internacional.

A OMS afirma que o ápice ocorreu em 2021, com 10,4 milhões de mortes excedentes, impulsionadas por variantes como a delta. O excesso cai para 3,3 milhões em 2023. O ano de 2022 é tratado como ponto de desaceleração entre os dois extremos.

Para chegar ao excedente de mortalidade, pesquisadores analisaram quantos óbitos ocorreram em anos antes da pandemia para criar uma base de quantas pessoas morreriam naturalmente por diversas causas.

Depois, contabilizaram o número de mortes durante os anos de pandemia, e a diferença entre os dois números é o excedente. Se em um ano comum morreriam 100 pessoas e em 2021 morreram 120, o excedente é de 20 vidas perdidas, por exemplo.

O cálculo utilizou boletins hospitalares, registros de óbitos e de estatísticas vitais dos países.

PERFIL

De acordo com os resultados, sexo, idade e geografia determinaram o risco. Os homens foram os mais atingidos, representando 57% das vítimas globais; no ápice da crise, em 2021, a mortalidade masculina chegou a ser 50% superior à feminina.

A idade avançada consolidou-se como o maior fator de risco, com 65% dos óbitos concentrados em pessoas com 65 anos ou mais. Neste grupo, os idosos com mais de 85 anos enfrentaram um risco de morte dez vezes maior do que adultos na faixa dos 55 a 59 anos, por exemplo.

Geograficamente, o sudeste asiático registrou a maior parcela da mortalidade mundial (27%), enquanto as Américas foram a região mais duramente impactada pelo recuo na expectativa de vida.

RECUPERAÇÃO

Segundo a OMS, o impacto da Covid-19 representou um retrocesso de proporções históricas, apagando em um intervalo de dois anos quase uma década de progresso na longevidade global.

A expectativa de vida mundial, que havia atingido 73 anos em 2019, despencou para 71 anos em 2021, retornando aos níveis registrados em 2011.

Embora o indicador tenha se recuperado em 2023, o restabelecimento total ainda é incompleto e desigual. Apenas a expectativa de vida feminina retornou globalmente aos patamares pré-pandemia, enquanto a masculina e a expectativa de vida saudável permaneciam ligeiramente abaixo dos marcos de 2019 até o final de 2023

Para garantir uma retomada sustentável e proteger esses ganhos contra futuros choques, a OMS destaca como cruciais o fortalecimento dos sistemas de saúde orientados à atenção primária, a expansão da cobertura universal de saúde e o investimento urgente em sistemas de dados precisos de mortalidade.

Ação do MPF contra médico por fraude em pesquisa sobre Covid é um acerto de contas, FSP

 Uma das incontáveis hipóteses médicas levantadas durante a pandemia previa que a testosterona poderia influenciar a gravidade da Covid. A ideia partia da observação de que homens apresentavam quadros mais graves, enquanto meninos pré-púberes —com níveis mais baixos de hormônios androgênicos— pareciam menos suscetíveis à doença. Entusiastas da hipótese também viam na alta frequência de homens calvos em UTIs um possível sinal da participação dos andrógenos na gravidade da doença, já que a alopecia androgenética está associada à maior sensibilidade a esses hormônios.

Ainda em 2020, um adulto jovem infectado pelo coronavírus procurou a clínica privada do endocrinologista Flávio Cadegiani. O paciente fazia uso de esteroide anabolizante, o que teria agravado seu quadro. Recuperou-se com tratamento com droga que bloqueia a ação da testosterona: a proxalutamida.

Reabertura do comércio popular na região da 25 de Março, no centro da capital paulista, teve aglomeração em meio à pandemia do coronavírus - Rivaldo Gomes - 21.jul.20/Folhapress

Embalado pelo êxito, Cadegiani –voz ativa do "tratamento precoce"– avançou para um amplo ensaio clínico em 2021. Os achados foram extraordinários: redução de 92% na mortalidade no grupo que recebeu o medicamento em comparação ao placebo. Pela façanha, recebeu láurea de um grupo médico adepto de "terapias alternativas" contra a Covid e, das redes, a alcunha de "melhor cientista do mundo".

Mas a narrativa hollywoodiana de um obstinado cientista que desafia o "establishment" para salvar a humanidade de uma pandemia letal seria contaminada pelo odor enxofrento da fraude.

Da comunidade científica vieram os questionamentos iniciais, direcionados à mortalidade anormalmente alta no grupo placebo, falhas no desenho do estudo (inconsistências de protocolo, por exemplo), além de possíveis conflitos de interesses e falta de transparência, incluindo vínculos de autores com empresas que lucram com a droga e a recusa em disponibilizar os dados brutos da pesquisa. As críticas culminaram na retratação das publicações.

Investigações posteriores revelariam mais do que simples descuidos científicos. Segundo a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), os participantes teriam sido usados como "cobaias" em uma pesquisa "voltada ao lucro acionário".

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A Unesco classificou o estudo como "um dos episódios mais graves de infração à ética em pesquisa e violação dos direitos humanos dos participantes da história da América Latina, envolvendo a morte suspeita de 200 pessoas", e cobrou investigação aprofundada. A Anvisa suspendeu a importação e o uso da droga pelo pesquisador e acionou a PGR (Procuradoria-Geral da República). Já a CPI da Covid incluiu o médico entre os indiciados por crime contra a humanidade.

Eis que, finalmente, o MPF ajuizou ação civil pública contra Cadegiani, seu colaborador Daniel Nascimento da Fonseca, diretor-técnico da rede hospitalar Samel, que abrigou o braço amazônico do estudo, e a União, por falha no dever de supervisão. Reportagem de Carlos Madeiro (UOL) detalha as irregularidades apuradas pela Procuradoria, como o uso da nebulização de hidroxicloroquina fora do protocolo e a transferência da pesquisa de Brasília, com casos leves, para o Amazonas, com pacientes graves, sem anuência do comitê de ética. Para o órgão, o estudo configurou um "laboratório humano em regime de clandestinidade e desprezo pela vida".

A ação do MPF é um acerto de contas —tardio e acanhado— com aqueles que, em nome da ideologia ou do lucro, negaram ou desvirtuaram a ciência e, cada qual à sua maneira, contribuíram para um excedente de centenas de milhares de mortes. A União também pode figurar como ré, mas não foi ela que contrariou normas sanitárias, atrasou vacinas e oxigênio, fez troça de doentes ou ofereceu cloroquina a emas. Os artífices têm carne, osso e, alguns, até dispositivo eletrônico de geolocalização. Nada falta para que sejam responsabilizados.

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