quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Saneamento, evidência e o custo do negacionismo, Mauricio Portugal Ribeiro, FSP

 Na semana passada, sustentei que infraestrutura é o Iluminismo materializado: canos, cabos, padrões técnicos e manutenção, todos dependentes de método e de confiança na evidência. Se isso é verdade, o saneamento no Brasil é o teste mais duro. Nele, negacionismo não aparece como teoria conspiratória; aparece como "cegueira conveniente", quase sempre aliada ao corporativismo e ao curto prazo.

Os dados do setor são conhecidos há anos: com o modelo tradicional, centrado em companhias estaduais como eixo quase exclusivo de expansão, o ritmo de investimento não é compatível com a universalização. Redes de água e esgoto exigem muito capital, planejamento e execução contínua; quando a governança é capturada por ciclos políticos, travas de contratação e incentivos corporativistas, a expansão tende a ser lenta e errática. Ainda assim, em 2023 houve movimentos regulatórios e políticos tentando reabrir espaço para a perpetuação desse arranjo. O ponto relevante é que, apesar do ruído, isso não impediu concessões parciais e PPPs (Parcerias Público-Privadas) de seguirem adiante —e é bom que tenham seguido, porque o déficit não espera.

A imagem mostra uma área de construção em um ambiente urbano, com um canal de água escura à esquerda. À direita, há uma estrutura de concreto em construção, com materiais de construção e terra ao redor. No fundo, é possível ver algumas edificações e árvores, além de um céu nublado.
Obras de saneamento em Belém (PA), perto do estádio Mangueirão - Alexa Salomao - 31.mai.25/Folhapress

Esse exemplo também desmonta uma ilusão confortável: negacionismo não tem ideologia fixa. Nos últimos anos ele foi mais visível à direita e à extrema direita, com consequências dramáticas –basta lembrar a queda dos índices de vacinação brasileiros e as mortes evitáveis na pandemia. Mas ele também se manifesta à esquerda e ao centro quando interesses organizados substituem evidência por narrativa. No saneamento, a defesa automática de certas estatais é muitas vezes menos "social" do que corporativista: preserva estruturas, cargos e poder de barganha.

Há ainda um problema de desenho institucional: saneamento, por sua natureza, raramente cabe num município. Captação, tratamento e consumo atravessam fronteiras; o lançamento de efluentes, mesmo tratados, impacta captações a jusante. Faz mais sentido pensar o setor de modo federal e por bacias hidrográficas, com concessões amplas, do que na fragmentação municipal ou estadual que submete o operador às miudezas da política local e ignora a geografia dos rios.

Outro mantra negacionista é importar slogans de contextos incompatíveis: "na Europa está se reestatizando". Há casos pontuais, mas as grandes cidades europeias universalizaram saneamento há muito tempo –muitas ainda no século 19; outras, no século 20. Naquele contexto, a expansão estatal era praticamente o único caminho. Hoje, a administração pública opera sob controles e limitações que não se aplicam da mesma forma à iniciativa privada, e existe um mercado de infraestrutura maduro e plenamente qualificado para expandir redes em ritmo mais rápido, desde que com metas e fiscalização.

Há também negacionismo na iniciativa privada quando se ignora que o hiato entre o discurso de universalização e o investimento executado se amplia porque alguns concessionários não entregam o Capex contratado, e reguladores estaduais e municipais, em regra, não detectam isso; e, quando detectam, têm dificuldades de adotar as providências devidas.

Os movimentos de prefeitos para retirar municípios de blocos concedidos são um sinal; tratá-los simplesmente como caprichos políticos em vez de entender a realidade que lhes dá origem pode comprometer no médio prazo a credibilidade do discurso da universalização pela via privada.

É igualmente negacionista não perceber que a resistência a reequilíbrios devidos –por reguladores e estruturadores –incentiva recomposições heterodoxas, da mera desaceleração de investimentos a práticas não republicanas.

Para preservar a credibilidade da universalização –e impedir que o reequilíbrio "ocorra por fora"– a regulação técnica é decisiva. Enfraquecer a ANA (Agência Nacional de Águas) é falta de visão num país continental que precisa uniformizar entendimentos e reduzir assimetria de informação. E a própria ANA deve elevar o padrão de suas normas: a discussão de alocação de riscos, por exemplo, precisa enfrentar o risco central de dados equivocados na licitação –algo que o mercado não consegue checar integralmente no curto prazo de uma proposta.

Por fim, política social não se confunde com proteger ineficiência. Se o objetivo é garantir acesso aos mais pobres, o caminho racional é subsidiar investimento (aportes, contraprestações em PPPs) e, quando necessário, complementar a renda para permitir o pagamento da tarifa. Tarifa social ampla e mal calibrada cria distorções; renda mínima bem desenhada resolve melhor. Não adianta ter a rede na porta se a família não consegue pagar pelo serviço.

A universalização do saneamento é a agenda mais iluminista que existe: ela aumenta expectativa de vida, reduz doenças e libera produtividade. Vencer o negacionismo –e restabelecer o valor da verdade, da ciência e da prova– é um dos grandes desafios contemporâneos. Sem isso, discutiremos crenças enquanto o esgoto corre a céu aberto.

Decisão de Dino sobre penduricalhos é vista como recado a Fachin e expõe embate no STF, FSP

 

Brasília

A decisão do ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), de suspender os penduricalhos nos salários de servidores públicos foi vista como um recado ao presidente da corte, Edson Fachin, expondo um embate interno em torno de uma agenda ética para o tribunal.

Interlocutores de Dino afirmam que, com a decisão, o ministro quis mostrar que o verdadeiro código de conduta para a magistratura passa pela revisão dos chamados supersalários e que fixar regras para a realização de palestras, por exemplo, é algo secundário nesse contexto.

Homem de meia-idade com cabelo grisalho e óculos usa terno cinza, camisa branca e gravata verde. Ele segura um microfone na mão direita e levanta a mão esquerda com a palma aberta, sentado em ambiente escuro com fundo preto.
Ministro Flávio Dino fala no Congresso Internacional de Direito e Processo do Trabalho - Danilo Verpa - 3.out.25/Folhapress

Cinco ministros ouvidos reservadamente pela Folha afirmam que a tendência é de que o plenário confirme a liminar de Dino, ainda que com ressalvas pontuais no sentido de que a regulamentação do tema fique a cargo do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). A sessão para o referendo foi marcada pelo próprio Fachin para o dia 25, no modo presencial.

Assim como ocorreu no julgamento sobre as diretrizes fixadas pelo CNJ para o uso de redes sociais por juízes, a expectativa é de que os magistrados aproveitem o tema dos penduricalhos para passar recados sobre a necessidade ou não de se estabelecer parâmetros para a atuação dos ministros.

O código de conduta é uma aposta de Fachin para tentar recompor a imagem do Supremo, que está em crise devido aos desdobramentos da investigação sobre o Banco Master. Os ministros Dias Toffoli, relator do caso, e Alexandre de Moraes, estão no centro dos desgastes.

Toffoli tem tido sua conduta questionada desde que viajou de jatinho com um dos advogados da causa e impôs um severo regime de sigilo ao processo, passando por negócios familiares que associam seus irmãos a um fundo de investimentos ligado ao Master.

Já em relação a Moraes, pesa o fato de que o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci, firmou um contrato de R$ 3,6 milhões mensais com a instituição financeira para representá-la na Justiça. O ministro disse, na semana passada, que qualquer juiz está impedido de julgar casos cuja banca de advogados inclua um parente.

Como mostrou a Folha, a estratégia de Fachin para avançar com um código de conduta para a corte divide até mesmo ministros favoráveis à iniciativa. Mesmo entre esses apoiadores, há hesitações em relação ao momento escolhido para o debate e um temor de que a discussão fragilize a corte em um momento de vulnerabilidade.

Um desses ministros é o próprio Dino. De acordo com auxiliares do ministro, ele é receptivo à ideia de implementar um código de conduta para a magistratura, mas não concorda integralmente com a postura que vem sendo adotada pelo presidente da corte para fazer valer a sua proposta.

Embora Fachin tenha conversado com os ministros ainda no período das férias, avisado previamente aos colegas que anunciaria Cármen Lúcia como relatora do código e pregado a necessidade de um consenso, a medida segue com ares de imposição para uma ala do tribunal. A leitura é de que Fachin ignorou as sugestões sobre aguardar um "timing" melhor.

Na decisão em que suspende os penduricalhos, expedida na quinta (5), Dino disse que os supersalários afrontam o princípio da moralidade e os caracterizou como um "fenômeno da multiplicação anômala das verbas indenizatórias" que alcançou "patamares absolutamente incompatíveis" com a Constituição Federal.

Sob reserva, um ministro mais inclinado a rejeitar o código de conduta afirma que os penduricalhos, assim como o combate à corrupção na magistratura, deveriam ser o foco prioritário de Fachin para recuperar o prestígio do Judiciário, não medidas que restrinjam pronunciamentos públicos ou a participação em eventos.

Apesar das críticas, auxiliares de Fachin afirmam que a decisão sobre os supersalários não foi interpretada pelo presidente do Supremo como um recado negativo, já que ele próprio enfrenta o tema no CNJ no âmbito do Observatório da Transparência, criado no primeiro dia de sua gestão. O presidente do tribunal também chefia o Conselho Nacional.

Interlocutores do ministro também afirmam que, cerca de duas horas depois da decisão de Dino, no intervalo da sessão plenária de quinta-feira, Fachin conversou com os pares e decidiu marcar para breve a sessão para o referendo da liminar, com base em um entendimento de que o melhor seria lidar com o tema o quanto antes.

nome de Cármen como relatora do código é visto como positivo por magistrados do tribunal, para que as discussões ocorram de forma ponderada, construtiva e com um distanciamento da "paixão" com que Fachin tem tratado do assunto. Ela é considerada uma magistrada habilidosa para arbitrar conflitos.

Nesta terça-feira (10), a presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) teve uma reunião com representantes dos TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) para apresentar o que tem sido classificado como um "cânone comportamental" para a atuação de seus juízes em ano eleitoral.

Cármen Lúcia defende medidas para uniformizar condutas e reforçar a credibilidade institucional no período eleitoral. Segundo a corte, os chefes das cortes locais se manifestaram pela importância do fortalecimento da ética, da transparência e da confiança da sociedade na Justiça Eleitoral.

As regras vedam o recebimento de presentes ou favores, a atuação em processos que envolvam escritórios de advocacia com vínculo do magistrado, restringem o exercício de atividades não judiciais que comprometam as funções, a participação em eventos que possam gerar conflito de interesses e a abstenção de posicionamentos ou sinalizações políticas, inclusive nas redes sociais.